30 de setembro de 2016

Capítulo 6

Uma hora mais tarde, ela ainda não tinha conseguido pregar o olho. Bem, pelo menos não mais do que alguns segundos. Toda vez que estava quase caindo no sono, tinha aquela estranha sensação de estar flutuando, ou talvez voando, e essa sensação esquisita a fazia despertar num solavanco do seu cochilo leve. Uma vez, um pouco antes de acordar, ela viu Lucas, como se estivesse prestes a sonhar com ele.
Ele estava cercado com o que pareciam nuvens, e uma brisa fresca agitou a atmosfera enevoada. Justo quando ela ia dar uma boa olhada nele... outra nuvem veio flutuando e tirou-o do seu campo de visão. Ele estava usando uma camisa em parte desabotoada e a brisa levantava a fralda da camisa, deixando à mostra seu peito e a barriga chata. Foi então que a névoa começou a se mover mais rápido e a sensação de voar começou a ficar mais forte, até arrancá-la do sono.
Recuperando o fôlego, ela se sentou na cama e tirou o cabelo do rosto. A decepção começou a crescer em seu peito, mas ela a afugentou para longe. Não podia nem pensar em ter outro sonho daqueles com Lucas – com os dois dentro d’água, parcialmente vestidos – sem corar de vergonha. Certamente não precisava acrescentar mais isso na sua lista de “coisas em que não devia pensar”.
Rolando na cama, ela socou o travesseiro como se um pedaço de espuma pudesse ser o culpado de tudo. Depois se sentou ereta, acendeu o abajur e, sem nem pensar no que planejava fazer, pegou a carta. A carta de Lucas. Aquela que Holiday tinha entregado semanas antes, mas ela não abrira.

Oi, Kylie,
Comecei a escrever esta carta várias vezes e, em todas elas, amassei tudo e joguei fora. Talvez seja porque não sei o que dizer, neste momento e neste ponto em que há tão pouco que eu possa dizer. Talvez seja porque eu simplesmente não devesse escrever, porque... é errado. São tantas as razões por que eu não deveria pensar em você o tempo todo, razões que não têm nada a ver com você e tudo a ver comigo. Eu sei que nada disso está fazendo muito sentido e, se eu pudesse, explicaria. Que inferno! Quem sabe se tudo ficar do jeito que espero que fique, eu possa explicar a você. Não tenho certeza se isso mudará alguma coisa, mas espero que sim.
Vê por que rasguei esta carta tantas vezes? Ela não faz nenhum sentido, faz?
Mas o que precisa fazer sentido é isto: você é muito especial, Kylie. E lamento não ter dito isso a você. Lamento não ter dito no mesmo instante em que me lembrei de você. Mas fiquei chocado demais quando te vi no primeiro dia do acampamento. Chocado e apavorado. Você sabia coisas sobre mim que eu tentava esconder – esconder de todo mundo, inclusive de mim mesmo. Meus pais fizeram coisas muito ruins e, quando eu era pequeno e não entendia as coisas direito, participei de muitas delas. Você não sabe o quanto eu me esforcei para tentar esquecer aquela fase da minha vida.
Na verdade, você foi a única coisa que eu não quis esquecer. A menininha loira, minha vizinha, que parecia um anjo e era um mistério. O que você era? Quem você era? Você me assustava e ao mesmo tempo me intrigava, já naquela época. Eu não entendia como você fazia eu me sentir por dentro. Queria matar os meninos que atiraram aquelas pedras em você, queria tocar o seu cabelo para ver se era tão macio quanto parecia. Nas luas cheias, eu observava você, esperando que se transformasse. Que se transformasse num lobo como eu.
Acho que acabei de descobrir por que tinha que escrever esta carta.
Para dizer o que você significa para mim, só no caso de eu nunca mais falar com você pessoalmente. Mas isso se eu conseguir colocá-la num envelope antes de concluir que é uma idiotice e jogar tudo no lixo.
Pensando em você.
Lucas
P.S. Sonhe comigo.

A última linha da carta ecoou na cabeça de Kylie. Sonhe comigo. Se ele ao menos soubesse...
Então todas as suas outras emoções foram abafadas pela raiva que ela sentiu. Afinal, o que exatamente ele queria dizer com aquilo? Sonhe com ele fazendo o quê? Brincando de pula-sela com Fredericka?
Kylie enfiou a carta novamente no envelope e jogou-a de volta da gaveta. Será que ele achava que aquela carta faria com que ela se sentisse melhor? Se ela era tão especial, por que ele tinha ido embora com Fredericka? Por que não tinha nem tentado explicar aquilo na carta? Por que tinha tantos segredos?
Lucas achava que ela não sabia que Fredericka estava com ele? Ele achava que aquilo não tinha importância? Havia até admitido que tinha feito sexo com a garota! Admitido que Fredericka achava que os dois eram um casal. E agora tinha fugido com ela. Como ele podia pensar que Kylie não ficaria chateada? Será que todos os homens eram uns cachorros? Ou melhor... uns lobos?
Não, definitivamente ela precisava esquecer Lucas. Superar tudo aquilo E era exatamente o que pretendia fazer. Depois de apagar a luz, acomodou mais uma vez a cabeça no travesseiro. Depois teve uma visão de Lucas e a garota-loba se beijando e deu um último soco no travesseiro.
Na manhã seguinte, Kylie teve que se forçar a sair da cama, para se vestir e pentear o cabelo. Ela tinha tentado voltar a dormir depois de despertar ao amanhecer com o calafrio gelado provocado pela visita do espírito. Não tinha adiantado. Agora, com uma ou duas horas de sono apenas, realmente adoraria poder enterrar a cabeça no travesseiro e ignorar a programação do dia. Quem ali precisava de café da manhã ou uma boa alimentação? Ela voltou a desabar na cama.
Estava quase caindo no sono outra vez quando um pensamento a deixou totalmente alerta. Será que ela não estava com fome porque tinha bebido sangue na noite anterior? Será que estava perdendo a vontade de comer comida humana?
— Você já está indo? — perguntou Miranda, por trás da porta fechada do quarto.
— Sim, já estou indo.
Ela se reclinou no travesseiro e ficou olhando para o teto, tentando como se sentia sobre tudo à luz da manhã. Tudo bem, a ideia de ser vampira já não parecia mais o fim do mundo, mas ainda lhe parecia uma grande calamidade. Além do mais, ela precisava saber. Tinha o direito de saber o que ela era.
— Você vai agora ou no século que vem? — Della gritou uns três minutos depois.
Xingando Della baixinho, Kylie começou a se sentar na cama.
— Igualmente! — gritou Della em resposta.
Kylie soltou um grito. Della gritou de volta. Kylie sacudiu a cabeça e ouvir os sons ao seu redor para ver se tinha adquirido superpoderes da noite para o dia. Mas não, ela não podia ouvir melhor do que na noite anterior. O que significava que Holiday tinha razão. Seu gosto por sangue não significava que Kylie era uma vampira.
Ou pelo menos ainda não.
Obrigando-se a se levantar, ela passou a mão no cabelo e resolveu que era de enfrentar as colegas de alojamento e o dia que tinha pela frente.
— Bom dia pra você também! — cumprimentou-a Miranda, quando saiu Kylie saiu do quarto sem dizer uma palavra.
Kylie lançou-lhe um sorriso falso. Depois fez o que fazia toda manhã. Observou Miranda, erguendo as sobrancelhas, e olhou fixamente para a testa da amiga na esperança de ver seus padrões mentais. Mas nada. Só uma espinha na linha do cabelo. Não que Kylie fosse contar a Miranda sobre isso. A garota provavelmente surtaria.
— Caramba! Você está tão animada esta manhã! — disse Della, com ironia saindo do quarto e juntando-se às amigas.
— Não dormi direito — respondeu Kylie.
— Nem eu — reclamou Miranda, soltando um suspiro. — O que vou fazer se Perry descobrir que beijei Kevin?
Della deu uma risadinha.
— Corra e se esconda antes que ele se transforme num dragão que solta fogo pelas ventas e faça a sua bunda virar churrasco.
— Estou falando sério — rebateu Miranda com rispidez.
— E você acha que eu não estou?
Miranda encarou a vampira. Kylie encolheu os ombros como quem admitia a derrota e andou na direção da porta da frente.
— Primeiro, você precisa decidir o que quer fazer.
— Como assim? — perguntou Miranda enquanto saíam da cabana. Depois, enquanto esperava a resposta de Della, ela deu meia-volta e fez um volteio com a mão, abrangendo a porta de alto a baixo e lançando ali um feitiço de proteção.
Miranda tinha começado a lançar o feitiço na semana anterior, dizendo que sentia um visitante indesejado tentando entrar. Por acaso seriam fantasmas que Miranda queria deter? Mas quem disse que aquilo estava funcionando? Toda manhã, ao primeiro sinal da aurora, Kylie acordava com a temperatura polar do quarto.
— O que eu quero saber é — continuou Della — você vai começar a gostar de Kevin ou está planejando só enrolar um pouco com o metamorfo na esperança de que Perry vire macho...
— Nem continue. Deixe a masculinidade dele fora disso — ameaçou Miranda, apontando um dedo para Della.
Della saltou o restante dos degraus, depois olhou para trás, fitando Miranda com um olhar de falsa inocência.
— Eu nem ia mencionar a masculinidade dele...
Pelo sorriso no rosto de Della, Kylie sabia que a vampira estava mentindo. Mesmo assim, ela de fato tinha feito uma boa observação.
— Della está certa — disse Kylie, dando sua opinião. — Você precisa tomar uma decisão.
Miranda franziu a testa e prendeu o cabelo com as mãos, num rabo de cavalo. Elas andaram alguns minutos em silêncio, enquanto Miranda parecia imersa em reflexões.
— Mas eu não tenho que fazer isso, tipo... agora — ela disse, por fim. — Tenho? Quer dizer, existe a chance de Kevin simplesmente esquecer o que aconteceu. O beijo nem foi tão bom assim.
— Ei, Miranda — chamou alguém, alguns metros atrás delas.
As três garotas se voltaram e deram de cara com o beijoqueiro medíocre vindo pela mesma trilha.
— Pouca chance de ele ter esquecido... — comentou Della, farejando o ar. — Nem queira saber quanto hormônio está no ar... Esse cara está babando por você.
— Sério? — perguntou Miranda. — Mas você não disse que não podia farejar os hormônios e feromônios dos metamorfos? Quando Perry virou um pássaro você disse...
— Eu disse que não sabia que cheiro tinha um passarinho tarado. Mas, em seu estado natural, os metamorfos poluem o ar com seus “hormônios de luxúria” assim como todo mundo. — Ela abanou a mão na frente do rosto.
Miranda olhou de Della para Kevin, que se aproximava cada vez mais.
— Oi. — Ele parou bem em frente das três. Kylie nunca tinha prestado atenção em Kevin antes, mas achou que ele era atraente. Não se comparava a Derek, mas tinha lá um certo charme. E, se perguntassem a Kylie, ela diria que ele era até mais interessante do que Perry, embora não tivesse nada contra o metamorfo. Perry tinha subido no conceito de Kylie nas últimas semanas.
— Dormiu bem? — Kevin perguntou a Miranda, afundando as mãos nos bolsos dos shorts cáqui. Kylie notou a camiseta azul-marinho um pouco folgada demais para o seu tamanho mediano. O cabelo, castanho claro, estava meio comprido nas laterais. Ele sorriu, com os olhos azuis fixos em Miranda e visivelmente interessado nela.
— Dormi, sim — Miranda respondeu, o que era uma mentira, e Kylie notou Della revirando os olhos.
— Achei que podíamos ir juntos tomar o café da manhã — convidou Kevin.
— Acho que tudo bem.
Miranda olhou para Kylie como se perguntasse se sua resposta tinha sido um erro.
Kylie não sabia o que pensar, por isso só abriu um sorriu despreocupado. Sem dúvida, se Perry descobrisse que Miranda e Kevin estavam andando juntos, ele ficaria magoado. Embora Kylie não tivesse medo de Perry, muitos outros campistas temiam seus poderes. Por isso, magoar Perry talvez não fosse uma boa ideia. Mas então Kylie viu as bochechas coradas de Miranda e sua postura um pouco mais ereta. Certo ou errado, o interesse de Kevin estava fazendo maravilhas pela autoconfiança da amiga.
Quando Miranda e Kevin tomaram a dianteira na trilha, Kylie e Della desaceleraram o passo, esperando até que se afastassem um pouco. Ficaram sem falar algum tempo, até ver o casal sumir numa curva da trilha que oferecia certa privacidade.
— O que acha? — Kylie perguntou a Della enquanto avançavam a passo lento para não alcançar os dois à frente.
Della revirou os olhos.
— Acho que mais cedo ou mais tarde uma grande merda vai cair no ventilador.
— É, mas você viu como os olhos dela brilharam? — Kylie perguntou. — Toda garota adora saber que um cara está a fim dela. Talvez Perry veja isso e perceba que precisa tomar uma atitude.
— É justamente aí que a merda vai cair no ventilador. Não se pode brincar com os sentimentos de um metamorfo, especialmente um tão poderoso quanto ele. Estou dizendo, o fato de Perry não se transformar num porco-do-mato e abocanhar a sua bunda naquela noite em que você puxou a orelha dele é um verdadeiro milagre. Essa foi a primeira coisa que Chan me explicou sobre o mundo sobrenatural. Cuidado com os metamorfos, eles têm um humor muito instável.
Della inclinou a cabeça como se estivesse ouvindo um barulho.
— Ai, merda. Vai acontecer mais cedo do que eu pensava...
— O quê? — perguntou Kylie para o vazio.
Della tinha desaparecido. Kylie só entendeu quando ouviu o grito de Miranda e o rugido de um grande animal cortando o ar da manhã.
Correndo o mais que podia, o que era incrivelmente mais rápido comparado ao que ela podia correr um mês antes, Kylie chegou à encruzilhada da trilha justo no momento em que dois imensos ursos-negros começaram a trocar patadas.
Della estava segurando Miranda, que lutava para se desvencilhar da amiga, como se quisesse apartar a briga entre os animais. Demorou meio segundo até Kylie perceber que não estava diante de dois ursos normais. Não. Eram Perry e Kevin.
Quando o urso maior enfiou as garras no ombro do outro e o sangue jorrou, derramando-se no chão de terra, Kylie gritou:
— Parem!
Ela chamaria mais atenção se tivesse falado com uma parede de tijolos. Os dois animais furiosos continuaram atracados. De repente, algumas fagulhas se espalharam pelo ar e um dos ursos se transformou num leão do tamanho de uma minivan. Seu rugido era tão alto que feriu os ouvidos de Kylie. Em segundos, o outro urso se transformou num leão – ainda maior. O som de dentes se entrechocando podia ser ouvido entre os rugidos penetrantes mais sangue umedeceu a terra seca sob suas patas.
Kylie não sabia se os ferimentos provocados pelos metamorfos eram permanentes ou se eles voltariam inteiros quando se transformassem em humanos outra vez. Quando um leão agarrou o outro pela garganta, Kylie percebeu que ela não podia ficar simplesmente parada ali e assistir aos dois se matando. Sem pensar nas consequências, agarrou um dos leões pela juba e puxou-a o mais que pôde.
— Não faça isso! — Della gritou e, embora Kylie não pudesse ouvi-la direito, suspeitou que Della estivesse falando com ela. E justamente quando Kylie pensava em ouvir o conselho da amiga, a fera ficou de pé sobre as patas traseiras, levando Kylie para cima com ela. Com as duas mãos agarradas ao pelo laranja da juba do leão, os pés de Kylie balançavam no ar. O animal abriu a boca, com sangue pingando dos dentes, e rugiu com uma fúria diferente de tudo o que Kylie já tinha ouvido na vida. Os olhos raivosos do felino fitaram Kylie. Ela viu os olhos passarem do dourado para o violeta. E de algum modo soube que era Perry.
— Me coloque no chão e pare de brigar! — ela gritou para ele.
Nesse mesmo instante, o outro leão atingiu Perry no flanco. O golpe arremessou Perry para trás e Kylie quase soltou a sua juba. Nesse momento ela viu que estava a quase dois metros do chão. A queda sem dúvida ia doer, talvez causar uma fratura, mas ela sobreviveria. No entanto, também a deixaria à mercê das patadas furiosas de Kevin e das suas mandíbulas poderosas. Sobreviver então ficaria um pouquinho mais difícil, por isso ela agarrou com mais força a juba e lutou pela sua preciosa vida.
Perry começou a sacudir a cabeça como se quisesse se livrar do peso. Kylie balançava de um lado para o outro, como um bicho de pelúcia não muito querido nas mãos de uma criança birrenta. Os dedos de Kylie começaram a escapar. Ela olhou para o chão, tentando encontrar uma saída, mas sua atenção foi desviada para as mandíbulas de Kevin, que avançaram na direção da barriga peluda e macia de Perry. Aumentando a pressão dos dedos em volta da juba espessa, ela levantou o pé e chutou Kevin no olho, para impedir que matasse Perry. Kevin soltou Perry, mas, ao recuar, Kylie viu sangue pingando da sua boca.
Perry rugiu, se de dor ou de fúria, Kylie não sabia. Talvez as duas coisas.
Kylie ouviu Della gritar algo. Em seguida, sentiu a amiga passar quase voando por ela, como se tentasse resgatá-la, mas, cada vez que tentava, Perry mudava de direção, deixando Kylie fora de alcance.
— Chega! — gritou Kylie para os leões. — Vocês dois, parem! Parem ou vou chamar os anjos da morte!
Mal as palavras saíram da boca de Kylie, ela sentiu a temperatura do ambiente cair à sua volta. Sentiu o ar gelado em sua garganta. Sua ameaça inútil soou em seus ouvidos. Mas agora ela não tinha outra escolha a não ser perguntar... Ela tinha mesmo o poder de chamar os anjos da morte ou era apenas Daniel ou outro fantasma anunciando sua presença numa hora inoportuna?
Ou talvez numa hora oportuna?
Daniel já não tinha ajudado Kylie uma vez? De repente, isso não importava mais, porque ela viu fagulhas de cor laranja aparecendo ao redor de Kevin. Perry recolheu a pata direita, como se estivesse se preparando para atacar Kevin durante a fase de transformação.
— Não faça isso, Perry! — ordenou Kylie.
Perry rugiu como se estivesse resmungando, mas voltou a ficar nas quatro patas. Kylie largou sua juba e pulou no chão. Ainda a quase um metro do solo, ela aterrissou fora de equilíbrio e caiu sentada. Quando olhou para cima, viu fagulhas surgindo ao redor de Perry e duas figuras humanas tomando forma. Vestidos, graças a Deus.
Perry olhou para ela, sentada no chão, com os olhos amarelos brilhantes e a fúria ainda estampada no rosto. Mas não estava sangrando.
— Nunca vi tanta estupidez! Nunca, jamais, fique no meio de uma briga entre metamorfos. Você podia ter morrido.
— Você por acaso está me dando uma bronca? — Kylie perguntou, pasma com a ousadia que ele tinha de repreendê-la. — Não era eu que estava tentando fazer em pedaços o meu colega de alojamento. E eu estava tentando proteger você. — Ela se sentou de lado e massageou a nádega machucada.
— Eu não precisava de ninguém me protegendo. — Sua voz aumentou de volume e o olhar fuzilava Kylie.
Olhando de relance para Kevin, ela percebeu que seu processo de transformação era muito mais lento do que o de Perry. Tão logo Kevin apareceu, ele recuou, afastando-se de Perry.
— Isso não acabou ainda. Vamos terminar mais tarde — Perry disse a Kevin, numa voz que mais parecia um rugido.
— Quando quiser — respondeu Kevin, fitando Perry com um olhar penetrante; Kylie quase chegou a pensar que eles iam começar a brigar outra vez, mas Kevin se virou e começou a se afastar.
Kylie percebeu que era preciso muita coragem para dar as costas para Perry quando se tinha acabado de quase tirar um pedaço da sua barriga. Mas o fato de Kevin ter dado as costas ao metamorfo, sem olhar para Miranda sequer uma vez, fez com que Kylie se perguntasse qual dos dois tinha realmente mais poder.
Quando Kevin desapareceu por entre as árvores, Kylie esperou que Perry dissesse alguma coisa a Miranda. Mas nenhum dos dois falou nada. Os pássaros à distância recomeçaram a cantar.
— Você está bem? — Miranda perguntou, finalmente.
Kylie olhou para cima, para garantir à amiga que estava intacta, mas depois percebeu que Miranda não estava falando com ela, mas com Perry. Kylie desviou o olhar para o metamorfo. Ele parecia bem. Nem um arranhão. O que significava que, quando os metamorfos voltavam à forma humana, todos os seus ferimentos se curavam. E isso significava que Kylie tinha se metido no meio da briga e esfolado o traseiro por nada. Ela podia deixado que os dois se retalhassem. Devia ter feito isso.
Ainda sentada no chão meio de lado, ela massageou mais uma vez uma nádega e observou Miranda se aproximar de Perry.
— Por que você fez isso? — perguntou Miranda, parecendo lisonjeada por ele ter brigado por ela e ao mesmo tempo zangada... por ele ter brigado por ela. — Me diga. — Ela deu mais um passo na direção da fonte da sua raiva.
— Deu vontade — rosnou Perry.
Na verdade, o modo como sua postura mudou quando ela se aproximou dele denunciou sua raiva. Sua postura enrijeceu como se todo o seu corpo estivesse tenso. Seu cabelo loiro estava grudado na testa suada. Seus olhos azuis ficaram azuis por um segundo depois se tornaram verdes brilhantes.
Ele ainda tinha a aparência feroz de um leão prestes a atacar – não havia mais nenhum resquício do Perry meio palhaço, o cara que sempre tinha um comentário sarcástico ou divertido na ponta da língua. E pela primeira vez, Kylie entendeu por que todo mundo tinha um pouquinho de medo dele.
— Você não fez isso por minha causa? — perguntou Miranda, obviamente sem se importar com a fúria que ele usava como uma couraça. — Por que estava com ciúme?
Perry não respondeu. Só ficou olhando para ela e depois fez sua própria pergunta:
— Então é verdade?
— O quê? — perguntou Miranda.
— Que você beijou Kevin? Eu não acreditei quando ele me disse. Pensei que só estivesse me provocando, mas não estava mentindo, estava? Você realmente fez isso. Você o beijou.
Os olhos de Miranda se abriram um pouco mais.
— Sim.
O silêncio pairou sobre os dois, no ar quente da manhã.
— Não — ela deixou escapar, e sacudiu a cabeça, misturando as mechas cor-de-rosa, pretas e verdes do cabelo com o movimento. — Eu não o beijei. Ele me beijou.
— Mas você correspondeu — acusou ele.
Kylie segurou o fôlego. Della se aproximou de Kylie e estendeu a mão para ela. Kylie aceitou a ajuda e, uma vez de pé, massageou novamente a nádega.
— Responde!
Kylie se voltou para Perry e Miranda. A tensão que irradiava do casal parecia sugar todo o oxigênio do ar e tornava ainda mais difícil desviar o olhar.
— Alguém pode acabar se machucando... — comentou Della.

3 comentários:

  1. tadinho do Perry ey gosto tanto dele a miranda podia ter tomado a iniciativa néh não ficar esperando ele tomar sosinho e eu não gosto desse Kevin
    ass: Mary bruxa

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    1. Concordo... se ela tivesse tomado a iniciativa, provavelmente ele teria tomado coragem e percebido os sentimentos dela, o que lhe renderia uns beijos e provavelmente um relacionamento sério... 🤔

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