24 de setembro de 2016

Capítulo 5

Uma hora depois, o ônibus entrava num estacionamento. Kylie avistou a placa “Shadow Falls” logo adiante. O medo fez seu estômago se contrair. Olhou em volta, quase surpresa por não ver cercas de arame e um portão com cadeado. Afinal, os hóspedes eram considerados adolescentes “problemáticos”.
Ouviu o motor sendo desligado. A motorista saltou do banco e estirou os bracinhos curtos sobre a cabeça. Kylie ainda não sabia como ela alcançava os pedais.
— Somos o último ônibus a chegar, minha gente — disse a baixinha. — Estão todos esperando no refeitório. Deixem suas coisas no ônibus que alguém irá levá-las para suas cabanas.
Kylie olhou para sua mala. Não tinha posto etiqueta. Como saberiam que era dela? Resposta fácil: não saberiam. Droga, se levasse a bagagem com ela correria o risco de arranjar encrenca por não seguir as regras; se não levasse, poderia perder todas as suas roupas.
Não, as roupas ela não perderia. Pegou a mala.
— Eles levam para você — disse Miranda.
— Não tem meu nome — explicou Kylie, tentando não ser rude.
— Eles vão descobrir. Vai por mim — garantiu Miranda, querendo ser simpática.
Mas Kylie iria acreditar nela?
Claro que não.
De repente, o garoto de olhos verdes parecido com Trey avançou pelo corredor.
— Pode acreditar — disse.
Kylie o encarou. Não punha fé em Miranda, mas algo naquele garoto inspirava confiança. Ele vasculhou os bolsos, tirou dali algumas moedas e as colocou nas mãos de Kylie.
— Com licença — disse a Garota Gótica, passando à frente de Miranda.
Kylie olhou para as moedas.
— Seu troco da loja — o garoto lhe fez sinal para que passasse na frente dele no corredor.
Kylie pôs o dinheiro na bolsa e se dirigiu para a saída. Os passos dele vinham logo atrás. Estava bem atrás dela. Sentia-o se aproximar cada vez mais, tocando-a com o ombro.
— Ah, se me permite, meu nome é Derek.
Atenta àquela voz profunda atrás de si, não viu o Loirinho saltar para o corredor. Caminhando a passos curtos, concluiu que tinha duas chances. Avançar até o Loirinho ou recuar para Derek. Escolha fácil: as mãos de Derek pegaram-na pelos braços e seus dedos pressionaram sua pele nua logo acima dos pulsos.
Ela olhou por cima do ombro e seus olhares se encontraram. Ele sorriu.
— Está tudo bem?
Sorriso maravilhoso. Como o de Trey. O coração de Kylie deu um pequeno salto. Meu Deus, ela tinha perdido Trey!
— Está, sim — afastou-se, mas não sem antes sentir bem o toque quente de Derek. Por que aquilo parecia importante, não sabia; mas o toque gelado da garota pálida havia deixado uma impressão igualmente estranha.
Saíram do ônibus e se encaminharam para uma vasta estrutura semelhante a um grande galpão. Antes de entrar, ela ouviu uma espécie de rugido. Como o de um leão. Parou para ouvir de novo e Derek se aproximou.
— É melhor entrar — aconselhou ele num sussurro.
O estômago de Kylie se revirou de medo. Ao ultrapassar a soleira, sentiu que, de algum modo, sua vida mudaria para sempre.


Cerca de cinquenta ou sessenta pessoas enchiam o enorme salão do refeitório com suas grandes mesas de piquenique, paralelas umas às outras. No ar, um cheiro de carne de porco com feijão e hambúrgueres fritos. Alguns jovens estavam sentados, outros de pé.
Havia ali alguma coisa estranha, fora de lugar. Depois de um minuto, Kylie descobriu o que era. O silêncio. Ninguém falava. Se aquela fosse a lanchonete da sua escola, Kylie não conseguiria ouvir nem sequer o que estivesse pensando. E era o que todos pareciam estar fazendo: pensando.
Um olhar rápido para a multidão convenceu Kylie mais uma vez de que estava no lugar errado. Havia por ali muito do que sua mãe chamaria de “indícios de rebelião”. Kylie também se rebelava, é certo. Mas fazia isso de maneira menos ostensiva: não com roupas ou coisa parecida e sim com o seu ambiente. Como quando ela e Sara tinham pintado seu quarto de roxo, sem permissão. A mãe surtou.
Já para aqueles jovens não bastava pintar quartos, eles exibiam sua rebeldia às claras. Por exemplo, Miranda com seus cabelos coloridos ou o garoto do ônibus com suas argolas no nariz e piercings. Observando bem o local, Kylie percebeu dois caras tatuados e de cabeças raspadas. E havia mais gente com trajes góticos. Sem dúvida, o preto não tinha saído de moda entre os adolescentes perturbados.
Uma sensação ruim deslizou pela espinha de Kylie. Talvez tivesse convivido com Sara por tempo demais, mas a verdade era que, obviamente, não pertencia àquele lugar. Mas, ao contrário de Sara, não fazia nenhuma questão de se entrosar com aquela gente.
Dois meses, dois meses, repetia para si mesma essas palavras como uma ladainha. Em dois meses, estaria longe dali.
Kylie seguiu o Loiro até uma mesa vazia nos fundos. E ao chegar, constatou que todos os seus companheiros de viagem haviam se reunido. Não é que se sentisse parte do grupo; nem sequer tinha olhado para alguns deles — mas, convenhamos, mais vale um esquisitão conhecido do que um desconhecido.
Subitamente, Kylie sentiu que as pessoas se viravam para olhá-la. Ou para olhar todo mundo? Os novatos estavam em exposição. Os olhares do grupo se transformaram numa série de espiadelas frias com íris de cores diferentes, mas expressões semelhantes e muito franzir de sobrancelhas.
Perplexa, olhou para Derek, depois para Miranda e até para a Garota Pálida e o Loirinho. Eles também estavam olhando para ela. Franziu a testa. Não de maneira grotesca nem tão espalhafatosa quanto Sara ao revirar os olhos e franzir a testa, apenas uma ligeira contração. Como Derek tinha feito na loja de conveniência.
O que estava acontecendo com as sobrancelhas daquela gente?
Observando de novo a multidão e esforçando-se para não baixar a cabeça, procurou encará-los, ia enfrentá-los. Não queria ser a coitadinha. Aquela que sempre ficava por baixo. E se isso a tornava parecida com Sara, que fosse.
— Parece que estamos todos aqui — disse uma voz feminina lá na frente.
Kylie tentou descobrir o rosto por trás da voz, mas seu olhar se chocou com outro — um olhar frio, brilhante, vindo de uns olhos azuis que de algum modo se destacavam do resto. Tentando não se fixar só nos olhos, Kylie reparou nos cabelos pretíssimos do garoto. Eram daquela cor mesmo, lembrava-se. Lembrava-se dele. Lembrava-se... Do seu gato.
— Não pode ser — murmurou baixinho.
— O que é que não pode ser? — perguntou Derek.
— Nada — Kylie se obrigou a olhar para frente, onde a mulher falava como se estivesse cantarolando.
— Bem-vindos ao Acampamento Shadow Falls. Nós...
A mulher, provavelmente na casa dos vinte anos, tinha longos cabelos ruivos que chegavam quase até a cintura. Vestia calça jeans e camiseta amarela berrante. A seu lado, estava outra mulher mais ou menos da mesma idade, mas, Deus do céu, era gótica! Toda de preto. Até os olhos pareciam pretos. Alguém ali devia, realmente, assinar uma ou duas revistas de moda.
Kylie observou a Garota Gótica do ônibus — que, por sua vez, observava a Mulher Gótica com admiração.
— Meu nome é Holiday Brandon e esta é Sky Peacemaker.
Nesse momento a porta se abriu e dois homens entraram. Tinham todo o jeito de ser advogados ou de alguma outra profissão séria que exigia trajes escuros. Kylie notou que as duas mulheres, lá na frente, estremeceram ao ver os visitantes. Teve a impressão de que aqueles dois não eram esperados. De que nem sequer eram bem-vindos.
Sky, a líder gótica, adiantou-se e levou os recém-chegados para fora, enquanto Holiday continuava com sua voz cantarolante:
— Muito bem. Primeiro, vamos separar os novatos dos veteranos. Quem já esteve aqui antes vá lá para fora. Vocês encontrarão assistentes com seus horários e os números das cabanas. Como sempre, as regras estão expostas em todos os alojamentos. Esperamos que as leiam. E que uma coisa fique clara desde já: não vamos trocar ninguém de cabana. Vocês estão aqui para obedecer e farão isso. Se surgir algum problema sério, falem comigo ou com a Sky; discutiremos o assunto, mas não antes de 24 horas. Perguntas?
Alguém da frente levantou a mão.
— Sim — uma voz feminina ecoou pela sala —, quero perguntar uma coisa.
Kylie se inclinou para a direita a fim de ver a garota. Esta, outra gótica, virou-se para Kylie.
— Não tem nada a ver com as regras, mas... Gostaria de saber quem é essa garota — e apontou... Diretamente para a mesa onde Kylie estava. Seria para Kylie? Não, não podia ser. Mas, que droga, era! Ela estava apontando diretamente para Kylie.
— Merda! — sussurrou, enquanto uns sessenta pares de olhos se voltavam ao mesmo tempo para encará-la.

9 comentários:

  1. SOCORRO !!! Eu já tinha saído de lá a muito tempo, que coisa louca.

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  2. unicornio malandão4 de outubro de 2016 00:56

    primeiramente, esse menina é muito calma até kkkkk

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  3. Pelo menos nos acampamentos Júpiter e Meio-Sangue vc sabe o que é quando chega lá. Que agonia. Tímida como eu sou, já teria infartado umas três vezes.

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    1. ñ flor no Júpiter e Meio-Sangue, só sabe-se de quem e filho se for reconhecido pelo deus que é o pai ou a mãe senão tem apenas suposições, mas pelo menos ñ e assim tão sinistro!!!

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  4. Kkkkk se é lokoooo

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  5. Kkkkkkkkkkkk...Parece Eu Na Escola...Por Mais Q Ñ Queira Éh Impossível Passar Despercebida...Sempre Tm Uns Infelizes(Qnd Ñ Todos)Olhando...Cm Se Eu Fosse De Outro Planeta!(¬_¬)

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  6. e o ministério do garoto de olhos azuis e do gato?
    ass: Mary Simon

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  7. Bah, missssssterio hehehe, quero descobri esses mistérios, hehehe.

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  8. Eeeeeeta mainha!
    Eu sei lá se é pq eu sou tranquila... mas eu queria tar no lugar dela!

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