18 de setembro de 2016

Capítulo 5

O tremor parou.
A irmã Ernestine saiu correndo do escritório, segurando o único adorno em sua vestimenta humilde – um crucifixo simples de prata que brilhava contra o peito massivo.
— Meu Senhor! — exclamou. — O que foi isso?
— Hum... terremoto — respondi.
Procurei a PMNO. Ela havia sumido, é claro. Por que ficaria ali? Seu trabalho havia sido feito. Eu a imaginei indo até o lugar onde fantasmas mirins vão depois do trabalho, para assistir a algum canal tipo Disney do Horror, no qual aprendem algumas respostas rudes e formas de se livrar dos vivos.
— Você está bem, querida? — perguntou a irmã Ernestine para Becca de forma solícita, mal olhando para mim.
Becca fez que sim, incerta.
— Eu... eu acho q-que sim.
Ah, claro. Pergunte para uma menina que acabou de tentar se suicidar com materiais escolares se ela está bem. Não precisa se preocupar comigo, a menina se desdobrando para impedir que um computador mate nós duas.
Devagar, abaixei a perna e aparei o monitor com a mão. Ele só ficou no lugar por causa dos cabos, que ainda estavam presos à parede – e porque eu o estava segurando. Ajeitei o objeto de volta na mesa e arrumei a bandeja e o porta-lápis. Não que adiantasse muito, visto que os conteúdos de ambos jaziam no chão.
As pedras do piso voltaram ao lugar, sem nenhuma rachadura, no entanto. Os vidros das janelas também pareciam intactos.
O escritório em si, no entanto, estava uma zona, o que era muito irritante porque eu tinha acabado de organizar tudo depois do caos que a Srta. Carper Calças de Yoga causou com seu surto. Eu levaria horas – não, dias – para reorganizar aquelas pastas em ordem alfabética e recolocar os papéis que agora cobriam o chão, feito neve.
Quando eu conseguisse pegar Lucia, eu a mataria de novo, independentemente da forma trágica que a levara à morte anteriormente.
— Nossa! — comentou a irmã Ernestine, quando o telefone começou a tocar; não apenas o telefone no escritório dela, mas o da Srta. Diaz, o que estava em minha mesa, e também o celular em meu bolso.
Someone Saved My Life Tonight.” Jesse.
Peguei o celular e apertei o “Ignorar”. Jesse teria de esperar um pouco mais para saber o que estava acontecendo. Eu sabia que ele entenderia. Isso é uma vantagem de se ter uma alma gêmea.
— Nossa. Que desastre. Imagine como as salas estão — murmurou a freira. — Espero que ninguém tenha se machucado...
— Ah, tenho certeza de que o pior foi aqui. — Eu me abaixei para pegar a caixa de curativos, cujo conteúdo havia se espalhado pelo chão. — Na verdade, acho que foi o epicentro.
A irmã Ernestine me deu uma olhada curiosa e voltou para seu escritório a fim de atender o telefone. Ela sabia que eu era formada em psicologia, não em sismologia.
— Becca, falei com sua madrasta. Ela disse que está vindo mas agora, com esse terremoto, quem sabe quanto tempo vai levar para... Sim, oi, aqui é a irmã Ernestine.
Tirei o lacre de um curativo grande e o segurei na frente de Becca.
— Braço, por favor.
Ela olhou para mim, ainda confusa com o “terremoto”.
— O quê?
— É melhor a gente cobrir isso antes que sua madrasta chegue. — Apontei para o braço. — Não acha? A não ser que seu quase encontro com a morte a tenha feito repensar e decidir contar logo a seus pais o que tem feito com você mesma. Pais podem surpreender a gente, sabia?
Ela olhou para o braço.
— Ah. Não. Obrigada.
Ela estendeu o braço machucado, e eu coloquei o curativo com o maior cuidado possível... não porque estava com medo de que sua amiguinha demoníaca voltasse, mas porque realmente estava com pena da garota. Conhecia a sensação de parar no escritório da diretora, e também sabia como era ser buscada por um parente que não era de sangue – embora eu tivesse muita sorte nesse departamento com Andy.
Também sabia como era viver assombrada. A única diferença entre Becca e eu, de fato, era que eu fui capaz de ver meu espectro pessoal, e ele acabou virando a melhor coisa que aconteceu comigo.
Becca não percebeu que eu tentava ser legal com ela – ou, percebeu, não deu sinal.
Também não demonstrou notar que seu albatroz do outro mundo havia partido. Ficou jogada na cadeira com o mesmo olhar derrotado de sempre, exceto por uma coisa: ela puxou um colar de prata de dentro do colarinho da camisa larga demais e começou a mexer no pingente da mesma forma que a irmã Ernestine mexeu na cruz momentos antes em busca de conforto.
Só que o pingente da Becca não era um ícone religioso. Tinha o formato de um cavalo.
Hummm. Lucia segurava um cavalo de pelúcia e vestia roupas de montaria. Becca usava um pingente de cavalo que tocava quando ficava nervosa. As meninas não se pareciam muito. A morta tinha cabelos louros e um nome espanhol.
Mas isso não significava que não tinham algum parentesco. Meias-irmãs, talvez? Ou primas? Isso explicaria o laço forte.
Essa mediação seria fácil – quero dizer, fora a parte na qual a menina tentou me matar. Pena que isso não contaria pontos para meu estágio.
A irmã Ernestine entrou rapidamente no escritório.
— Suzannah, o que você está fazendo? Deveria atender o telefone.
— Ah, me desculpe, irmã. — Cerrei os dentes e peguei o telefone. — Nossa, está mudo. O terremoto deve ter cortado a linha. — Tenho certeza de que, quando eu morrer, se realmente existir um poder maior que comanda o julgamento final das almas, na minha vez ele vai levar anos para ler meus pecados, considerando todas as mentiras que conto, principalmente para pessoas do clero.
No entanto, gosto de pensar que conto essas mentiras por um motivo maior. Tenho certeza de que a pessoa (ou coisa) no comando vai entender.
— Melhor eu dar uma olhada no jardim de infância — disse a irmã Ernestine, não muito contente.
— Ai, não. Espero que as crianças estejam bem.
A freira me olhou com raiva.
— As crianças estão bem. É a irmã Monica que está histérica, como sempre. E tenho certeza de que você sabe o motivo: as meninas estão fazendo malcriação de novo. — Sua voz tinha um quê de acusação.
Tentei parecer inocente, mas não era fácil.
— Elas nem são minhas parentes de sangue.
— Acho difícil de acreditar nisso de vez em quando — rebateu a irmã Ernestine, e olhou para todos os boletins e arquivos de alunos espalhados pela sala, como se o “terremoto” tivesse sido culpa minha; o que, é claro, é verdade, mas ela não sabia.
— Por favor, fique com Becca até que a mãe dela chegue.
— Madrasta — corrigiu Becca rapidamente.
— Desculpe, querida, é claro. — A irmã Ernestine abriu o sorriso carinhoso de que eu nunca fui alvo em todos os anos em que a conhecia. — Que dia para o padre Dominic estar fora — murmurou, enquanto saía do escritório.
Assim que a freira saiu, eu me voltei para o computador, mas não adiantou nada. Ele havia travado, e eu não consegui ligá-lo de novo. Precisaria chamar o setor de TI, o que, na Academia da Missão Junípero Serra, significava chamar Sean Park, o mais nerd em tecnologia entre os alunos do décimo ano. Não havia orçamento para um setor de TI na escola.
Posso ter expressado verbalmente minha decepção por perder o leilão on-line para a linda bota, a julgar pelo comentário de Becca:
— Você realmente é muito desbocada.
Ergui os ombros e apontei para a jarra dos palavrões.
— Eu tenho de colocar um dólar cada vez que solto um palavrão, mas não acho que sou tão ruim assim. — Não contei que, no apartamento que eu e Gina dividíamos, ela havia instituído uma jarra também.
— Você é tão ruim assim, sim — garantiu Becca. — Falou a palavra com M, tipo, umas cinco vezes seguidas.
Tentei não soar indignada.
— Já provaram que xingar é uma boa forma de se livrar do estresse. Você devia experimentar, em vez de fazer isso com você mesma. — Apontei para o braço com curativo. — Quando estou muito estressada, soltar essas bombas me faz sentir bem melhor.
— E você se estressa com o quê? — Ela deu uma olhada no escritório. — Esse trabalho não parece tão difícil.
— Ah, é? Você não sabe nem da metade. — Meu trabalho não era o problema. Era minha vida pessoal descendo pelo ralo no momento. — Eu nem ganho para trabalhar aqui.
— O quê? — Becca saiu um pouco do transe e pareceu genuinamente surpresa, mas não o suficiente para largar o pingente de cavalo. — Como assim?
— Porque existem, tipo, novecentos candidatos bem mais qualificados que as pessoas de minha idade para cada emprego disponível. A gente precisa trabalhar de graça só pela experiência, para colocar no currículo, e talvez, um dia, a gente consiga um emprego com salário, mas não é garantido. Ah, é, esqueci que eles não falam sobre isso no ensino médio. Você ainda está reluzente, cheia de esperança e joie de vivre. — Olhei para ela. — Quero dizer, talvez não você exatamente.
Ela pareceu não entender.
— O que a irmã quis dizer quando falou sobre “as meninas”? Você tem filhos na escola?
— Não, eu não tenho filhos na escola. — Olhei para ela, horrorizada. — Sério, quantos anos você acha que eu tenho?
— Sei lá. Uns trinta e se...
— Esquece. As crianças são filhas de meu irmão Brad. Meio-irmão, quero dizer. — Brad e eu tínhamos a mesma idade, mas sempre tivemos gostos e atitudes extremamente diferentes. — Ele engravidou a namorada com trigêmeas logo depois do ensino médio, e agora as meninas frequentam o jardim de infância aqui. Viu o que pode acontecer se não fizer sexo seguro?
Abri os olhos dramaticamente para Becca, mas ela não pareceu muito assustada. A verdade é que, para uma menina infeliz o suficiente a ponto de talhar com um compasso a palavra idiota no próprio braço, a ideia de ter três filhas no jardim de infância aos 25 devia parecer o máximo... ou talvez tão inimaginável que nem pertencia ao reino das possibilidades.
Decidi mudar de assunto.
— Você tem irmãos, Becca?
— Não.
Olhei para o pingente de cavalo que ela segurava de novo.
— Nenhum? Nunca?
— Não.
— Nem mesmo meios-irmãos? Meias-irmãs? Adotados?
Ela me lançou um olhar que claramente dizia que não apenas me acreditava a caminho da Cidade da Loucura, mas que eu era a engenheira.
— Não. Por quê?
Essa mediação talvez acabasse sendo mais difícil que a responsável por destruir minha bota. O problema de meu trabalho é que, na realidade – ao contrário de programas de TV como Médium, que são completamente ensaiados, embora tentem se passar como “reais” – se você simplesmente chega e fala “Oi, estou em contato com o mundo dos espíritos, e sua parente morta quer saber isso e aquilo”, as pessoas não começam a chorar de gratidão e agradecem a você por deixar suas consciências em paz.
Elas fogem e depois, às vezes, se forem de natureza litigiosa, voltam com uma equipe de advogados e te processam por lhes causar estresse emocional.
— Por nada. Notei que você gosta de cavalos...
Ela largou o pingente imediatamente e o colocou dentro da blusa.
— Na verdade, não.
— Ah. Achei que talvez gostasse por causa do colar. É bonito. Foi presente de alguém importante para você?
Ela deu de ombros e olhou para o outro lado.
— Não. Eu o vi numa loja em Nova York. Minha mãe se mudou para lá depois que... depois que ela e meu pai se separaram. Eu falei que gostei, e ela comprou para mim.
— Que legal da parte dela. — Se tem uma coisa que sempre repetem nas aulas é que, nos momentos de dúvida, devemos olhar para a vida doméstica do paciente, especialmente para a mãe. Tudo é culpa da mãe. Obrigada, Freud. — Você e sua mãe são próximas?
Ela deu de ombros de novo, olhando para o sol através das janelas do escritório.
— Acho que sim.
— Vocês se veem bastante?
Outro encolher de ombros.
— Algumas semanas no verão. Nos feriados.
Dava para ver que tinha alguma coisa acontecendo com a mãe dela. Por que outro motivo ela teria se mudado da costa Oeste para Nova York? Um pai ganhar a custódia da filha não era inédito, mas também não era a coisa mais comum do mundo, nem mesmo na insana Califórnia.
E qual era o lance do cavalo? Qual era a relação entre Lucia e ela? O laço tinha de ser forte. Eu não via uma reação tão violenta por parte de um espírito havia muito, muito tempo, desde... Bem, um certo espírito que libertei, devolvendo-o para seu corpo vivo, coisa que eu jamais, jamais faria de novo porque, pelo visto, eu havia despertado a ira de alguns deuses do Antigo Egito...
Eu realmente precisava arrumar aquele computador para checar a veracidade da ameaça de Paul. Jamais conseguia pesquisar direito no celular.
Tentei de novo, mantendo a voz animada e neutra.
— Deve ser difícil não ter sua mãe por perto. Há quanto tempo ela foi embora?
— É tranquilo — disse ela. Graças a Deus, não deu de ombros novamente, ou eu teria derrubado alguns armários de tanta frustração. — Por que você está me perguntando esse bando de coisa? Ela foi embora quando eu era pequena, ok? Logo depois do acidente...
Ela parou após a palavra acidente, como se tivesse falado algo que não devia, depois olhou para o curativo que eu havia colocado em seu punho.
— Vou precisar dessa coisa por quanto tempo? — reclamou ela. — Está começando a coçar.
Ignorei a pergunta, voltando à frase anterior.
— Depois do acidente, Becca? — Era isso. Eu sabia. Na terapia, eles chamavam de Descoberta. Na mediação de Pessoas Mortas Não Obedientes, chamamos de Chave. — Qual acidente? Aconteceu alguma coisa com sua mãe?
Mas, antes que Becca pudesse responder, meu celular tocou de novo. “Someone Saved My Life Tonight”.
Não podia ignorar a ligação uma segunda vez. Jesse abandonaria os pacientes, pegaria o carro, dirigiria até a escola e me estrangularia. Quero dizer, não de forma literal, apenas metafórica.
— Tanto faz — respondeu Becca, com mais um dos seus movimentos infernais dos ombros. — Não foi nada demais. Não sei por que você está me perguntando essas coisas todas. Falei que não vou mais fazer isso, e não vou, tá? Meu Deus. — Ela pegou o celular, deslizou o corpo ainda mais para baixo no encosto da cadeira e começou a mandar mensagens para alguém.
Então ela tinha amigos. Interessante.
— Oi, Jesse — falei, e me virei na cadeira, ficando de costas para a menina assombrada. — Como está seu dia?
— Como está meu dia? — Ele parecia não acreditar na pergunta. — O que está acontecendo aí?
— Aqui? — perguntei casualmente. — Nada. Trabalho. Você sabe. Chato. Por quê?
— Não faça isso, Suzannah.
Suzannah. Suzannah. Suzannah. Eu amava a forma como ele dizia meu nome. A verdade é que eu amava tudo nele.
— Você sabe que eu consigo sentir quando você está mentindo. Até mesmo através de um treco desses.
Menos o fato de que ele sempre sabia quando eu estava mentindo, e de ser tão impaciente com a tecnologia moderna. Essas duas coisas eu não amava tanto.
Isso fez com que nossa separação quando ele foi para a faculdade, e eu, para o superior – embora estivéssemos apenas a quatro horas de distância – fosse extremamente desafiadora. Ele insistiu em cartas.
— Podemos até não ter mais a relação mediadora-fantasma, Suzannah — continuou Jesse —, mas eu ainda consigo saber quando sente algo forte, e mais cedo você estava com medo. Eu senti. Eu estava atendendo uma menina de 4 anos com uma abelha no ouvido, senão pode acreditar que eu teria dirigido até aí.
— E para quê, exatamente, você teria vindo? — Baixei o tom de voz para que Becca não me escutasse. — Para me dar umas palmadas? Por favor, não me dê esperanças vãs.
Descobri que piadas geralmente funcionavam como distração quando ele estava sendo um pouco perceptivo demais.
— Suzannah. — Ele não pareceu achar graça.
— Sabe que fico com tesão quando você se emputece. O que está vestindo por debaixo do estetoscópio?
— Você não tem graça alguma.
— Ah, para. Tenho um pouco de graça.
— Não tanta quanto acha. Me fale o que aconteceu.
Merda. Esse era um dos vários problemas de estar em um relacionamento com um ex-fantasma.
— Houve um pequeno incidente aqui no trabalho envolvendo uma PMNO — falei. — Nada fora do controle. Mas ela acabou sendo um pouco mais agressiva do que eu esperava.
Pelo canto do olho, vi Becca levantar a cabeça e olhar para mim. É claro que estava bisbilhotando, e achou que eu estivesse falando dela. Não sabia o que PMNO queria dizer. Devia estar se perguntando por que eu disse que ela foi agressiva.
— Na escola? — Jesse ficou surpreso. — A que você me contou antes? A turista?
— Aluna.
— O padre Dominic deve ter deixado passar — disse ele, preocupado. — Achei que ele havia cuidado de todas as almas quando o semestre começou, bem antes de você chegar aí.
— Acho que ele não notou essa — falei, com cuidado, medindo as palavras. Tanto porque estava na frente de Becca quanto porque senti necessidade de defender o padre Dominic. — Parecia inofensiva, e mal pude percebê-la.
Estava cada vez mais difícil não notar que o outro preconceito de Jesse, além de celulares, era sua própria espécie – quero dizer, o que costumava ser sua espécie.
Quanto mais ele chegava perto de tirar a licença médica, menos se mostrava interessado em ajudar os mortos.
Era compreensível. Passar um século e meio como morto-vivo não estava na lista de causas oficiais do estresse pós-traumático no MSE (Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais), a bíblia dos profissionais de saúde mental, mas para mim era bem óbvio que Jesse sofria disso.
Eu esperava que esse fosse o motivo, e não o que Paul insistia em apontar: que havia uma parte de Jesse que ainda era assombrada... e que, caso seu túmulo original fosse perturbado, esta poderia se libertar.
— Você está de plantão até amanhã de manhã? — perguntei. Achei que era melhor mudar de assunto.
— Felizmente — respondeu. Ao contrário das pessoas normais, Jesse preferia os plantões noturnos na escala da emergência. Segundo ele, é quando os casos realmente interessantes aparecem. As pessoas se consultam com clínicos durante o dia. Somente os desesperados ou os que não têm médicos conhecidos vão à emergência no meio da noite.
O fato de Jesse preferir atender esse tipo de paciente não era, de modo algum, um indício de que a maldição era verdade, falei para mim mesma.
Você pode tirar o garoto da escuridão, mas não pode tirar a escuridão do garoto.
Cale a boca, Paul.
— Conto como foi quando encontrar você amanhã — falei. — Te quiero.
Ele riu, como sempre fazia quando eu tentava falar alguma coisa em sua língua nativa, embora eu já estivesse estudando espanhol havia mais de quatro anos. Meu sotaque não tinha jeito, segundo Jesse e meus vários professores.
— Também amo você, mi amada — disse ele. Como sempre, a palavra fez com que raios acalentadores de alegria descessem minha coluna...
Foi quase o suficiente para cancelar a sensação de trevas inevitáveis que a ligação de Paul havia encadeado.
— Quem era? — indagou Becca de maneira mal-educada, quando desliguei. — Seu namorado?
— Noivo — falei, olhando para o telefone. Eu havia recebido duas mensagens. A primeira era de Jesse.

Jesse

Estoy contanto las horas haste que nos encontremos, mi cariño.

Nov 16 1:37 PM

Depois de todas as horas que passei com fones de ouvido no laboratório de línguas, eu devia ter conseguido traduzir isso rapidamente. Entretanto, não fazia ideia do que dizia (apenas que mi cariño também era meu amor). Mais tarde eu teria de copiar e colar aquilo em meu aplicativo de tradução.
Droga! Por que ele tinha de me torturar daquela forma? Eu meio que suspeitava de que ele fazia isso de propósito, para que eu ficasse na linha. Como se fosse preciso...
A segunda mensagem – que eu havia recebido mais cedo com um DDD de Los Angeles – não precisava ser traduzida.

Jantar sexta 8 da noite, Mariner's, Hotel Carmel. Esteja lá, senão...
Foi só um beijo, Simon, pelamordedeus. Pare de ser tão menina.

Nov 16 1:30 PM

Pare de ser tão menina. Era muito a cara de Paul achar que ser chamada de menina era um insulto.
— Você está noiva? — Becca pareceu superinteressada. — Posso ver o anel?
Levantei a mão esquerda e mostrei o anel sem pensar direito no que fazia. Estava ocupada elaborando o que mandar para Paul como resposta.
Na última vez que fui idiota o bastante para concordar em me encontrar com Paul Slater sozinha, acabei com um arranhão bizarro nas costas que foi extremamente difícil de explicar para minha mãe (foi ela quem passou o creme antibiótico, já que eu não alcançava a ferida – e é claro que escondi de Jesse).
Tinha de haver outra forma.
Mas, a não ser matar Paul para que ele não demolisse minha antiga casa, eu não conseguia pensar em mais nada.
— Por que seu diamante é tão pequeno? Mal consigo ver.
Tirei a mão da frente de Becca. Eu havia me esquecido de que ela estava ali.
— Como assim? — perguntei, na defensiva. — Não é pequeno. É de um tamanho perfeitamente normal. Este anel é antigo. Está na família de meu namorado há anos.
Duzentos, na verdade, mas ela não parecia ser o tipo de pessoa que se impressionaria com isso, nem com o fato de Jesse ter conseguido guardar o anel por tanto tempo, especialmente depois de ter sido assassinado por causa dele, mais ou menos. Não que eu fosse contar nada disso.
— Todo mundo sabe que qualquer pedra com menos de 5 quilates significa que o cara não está realmente investindo no relacionamento — disse ela.
— Que coisa ridícula. Quem te falou isso, seu namorado? — Dei uma olhada para o celular que estava no colo dela. — E para quem você estava mandando mensagens agora há pouco?
— Para ninguém. — Um tom rosado apareceu nas bochechas dela.
— Ah, claro, ninguém, estou vendo. E o Sr. Ninguém tem nome?
Ela ficou ainda mais corada.
— É sério, não era ninguém. Eu estava jogando. — Ela mostrou a frente da tela para provar. Médium.
Franzi a testa.
— Jura?
— Desculpe. Sei que não devo jogar na escola, mas é muito viciante.
— Eu não ligo se você jogar na escola. Acho legal que goste de jogar. Só não entendo por que você gosta desse jogo. É muito imbecil.
— Médium não é imbecil. É muito irado. Já jogou? — Pela primeira vez, seus olhos mostraram algum sinal de vida. — Olhe, o que você precisa fazer é matar esses fantasmas todos para poder sair da casa mal-assombrada e ir até a boate, mas primeiro precisa descobrir quem é normal e quem é fantasma, e, se matar uma pessoa normal sem querer, cai um nível, direto para o cemitério da maldição, e aí vão ter ainda mais fantasmas...
— Não dá para matar um fantasma — falei, sentindo o sangue subir à cabeça. — Eles já morreram. Está tudo errado nesse jogo. Os fantasmas são as almas dos mortos que precisam de ajuda para seguir ao próximo plano de existência. Eles não devem ser mortos. Devemos sentir pena deles, e a pessoa que inventou Médium tem de ser impedida...
— Ai, meu Deus. — Ela piscou os olhos para mim. — Calma. É só um jogo.
Ela tinha razão. O que estava acontecendo comigo? Perdi uma oportunidade perfeita de perguntar sobre Lucia, e resolvi soltar meu ódio por uma empresa idiota...
— E foi minha madrasta que me falou o negócio dos 5 quilates — acrescentou Becca. — É por isso que eu sei. Não tenho namorado. Nem mesmo gosto de ninguém.
— Ok — falei. — Desculpe. — Eu tinha de me controlar. — Mas sua madrasta está errada. O tamanho do diamante não interessa; é o anel em si que representa o comprometimento do cara com... Ah, quer saber? Isso tudo é tão idiota quanto o jogo, na verdade. Só aceitei porque meu namorado é muito antiquado, senão a gente só moraria juntos. Então, voltando ao que a gente estava conversando antes. Você falou alguma coisa sobre um acidente?
Becca não mordeu a isca.
— Minha madrasta disse que não teria se casado com meu pai de jeito nenhum se ele não tivesse prometido pelo menos 5 quilates.
Quem diabos era a madrasta daquela garota, gente?
É meio irônico que exatamente naquele momento a porta do escritório administrativo tenha se aberto, e uma loura alta e atraente tenha entrado na sala.
Usava óculos escuros Chanel, que ela levantou com desgosto a fim de olhar para a bagunça no chão e para a outra bagunça sentada perto de mim.
Minha pessoa, no entanto, foi o que ela pareceu considerar a maior bagunça de todas.
— Suze Simon? — disse ela com nojo.
— Kelly Prescott? — Eu mal podia acreditar no que via. — O que você está fazendo aqui?
Becca suspirou.
— Esta é minha madrasta.

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