13 de setembro de 2016

Capítulo 5

Paralisei com a camiseta por cima da cabeça.
— Peraí. Como é que você sabia que eu estava mentindo?
— Você não consegue nem administrar o seu talão de cheques. Quem é que ia pedir ajuda pra você em Estatística?
Joguei a camisa no chão. Foi ligeiramente desconcertante ver que ele nem notou que eu estava apenas de sutiã (e jeans), mas essa é uma das desvantagens de namorar uma pessoa que viveu com você por anos, mesmo que estivesse em forma de espírito naquela época e que, por cavalheirismo, só se materializasse quando você estava totalmente vestida. Sempre imaginei que, de maneira muito irritante, ele fosse fiel demais à sua criação católica romana – e às raízes da Era Vitoriana – para pensar em espiar, mas agora já não tinha tanta certeza.
Exceto pelo fato de que, desde que consegui reunir a alma dele ao seu corpo – outra habilidade minha que infelizmente não pode ser medida nos SATs – ele se recusa a passar do nível da pegação (ou da mão boba, nas raras ocasiões em que bebe mais do que três taças de vinho). Faz isso por “respeito” pelo que acha que me deve – e à minha família e ao padre Dominic – por tudo o que fizemos por ele, por termos dado uma segunda chance de ele viver, blá-blá-blá.
Tem vezes que fico de saco cheio de ouvir essa história. Tudo o que quero é transar, como qualquer casal normal.
Mas não podemos porque não somos um casal normal (apesar de “normal” não ser considerado um termo terapeuticamente benéfico), e o meu namorado tem estresse pós-traumático por ter sido morto. Além disso, é católico e tem um século e meio de idade, embora não pareça ter nem um dia a mais do que 26 anos.
— Pro seu governo, tirei 8 em Estatística, Jesse — falei. — Acima da média. E ninguém organiza talão de cheques. Ninguém nem tem mais talão de cheques, a não ser você e o padre Dominic.
— Para de fugir do assunto, mi amada. — Ele me olhou, impassível. — E para de achar que vai me distrair tirando a roupa na minha frente.
Bosta.
— Tá. — Peguei uma camiseta seca na cômoda. — Já que você quer saber, eu estava no cemitério.
Ele ergueu uma das sobrancelhas escuras – a que tinha uma cicatriz bem no meio, uma lua crescente perfeita feita de pele marrom no lugar onde devia ter pelos.
— Cemitério? — repetiu ele. A indignação rapidamente substituiu o espanto. — Foi isso que eu senti mais cedo? — indagou ele, se levantando da cama. — Achei que fosse porque você estava dirigindo na tempestade. Mas não foi isso, foi? Você estava caçando um fantasma, sozinha, em um cemitério, à noite.
Eu havia começado a tirar as botas. Sei que ele pediu para que eu não me despisse na frente dele, mas o jeans estava encharcado, eu precisava trocá-lo.
Tudo bem, não estava tão molhado assim. Mas eu precisava de tempo para inventar uma resposta que não o deixasse com raiva.
Aquilo era uma tática evasiva.
— Jesse, não estou entendendo. O que foi que você sentiu mais cedo?
— Você sabe exatamente do que estou falando. A gente pode até não ter mais a relação fantasma-mediadora, Suzannah, mas ainda sinto quando você está com medo, e hoje mais cedo você sentiu muito, muito medo...
Agora fui eu quem ficou indignada. Quase joguei as botas longe.
— Com medo? Eu não estava com medo daquele fedelho. Só não gostei de levar porrada de pétalas de flores, foi isso.
— Suzannah. — Ele estava pairado sobre mim. Quase dois metros de carne masculina suculenta. — O que aconteceu no cemitério?
Suzannah.
Senti outro calafrio na espinha, mas ao contrário do que senti quando vi o nome Paul Slater no envelope que a Lauren me deu, este foi agradável.
Por mais que seja difícil namorar uma pessoa com costumes do século XIX (sério, chegou a um ponto em que passo tanto tempo dando voltas e voltas na piscina do campus para me livrar da frustração sexual que as luzes no meu cabelo estão ficando cor de cobre), ainda sinto um tremor quando o Jesse me chama de Suzannah. Ele acha que o nome que todo mundo usa – Suze – é curto e feio demais para alguém com a minha força e beleza.
Pois é. Ele me entende. Exceto o fato de eu não ter problema nenhum com sexo antes do casamento, e de eu ter certeza de que Deus, se é que ele ou ela existe, também não.
— Bem — respondi. Ele ainda estava me olhando de cima, parecendo mais um macho dominante do que um futuro médico nerd. Eu não tinha outra escolha a não ser contar, embora soubesse que ele ficaria chateado. — OK, então, tem essa PMNO que vem roubando flores do túmulo da namorada morta, e a família dela gravou os roubos, ou melhor, gravou basicamente um ruído estático, mas isso tem assustado as pessoas. Fico até surpresa de você não ter visto; saiu em todos os jornais. Você deve estar ocupado com estudos e entrevistas e tal. Enfim, eu decidi ir lá checar a situação. — Tirei a calça. — E, pra encurtar a história, o cara, Mark...
— Suzannah. — O meu nome saiu em um sussurro frustrado. Olhei na direção dele e vi que Jesse tinha virado o rosto para a janela, cujas cortinas ele havia fechado para que ninguém visse que uma residente do Vão das Virgens tinha contrabandeado um convidado do sexo masculino para dentro do quarto.
Estava de braços cruzados e cabeça escura abaixada, olhando para o chão. Senti uma onda de vergonha pelo meu mau-comportamento – mas não pela minha calcinha-cueca preta, que até eu mesma devo admitir que me deixa gostosa.
— Foi mal — falei. Abri uma das gavetas e peguei outro jeans seco. — Foi você mesmo que mandou que eu trocasse de roupa.
— Não na minha frente — murmurou ele. — Não sou eunuco.
— Ah, pode acreditar, eu sei disso. Mas é você quem tem essa história de esperarmos até o casamento pra transar, e que não podemos nos casar antes de você conseguir bancar nós dois, o que é a coisa mais ridiculamente chauvinista que eu já...
— Será que a gente pode não conversar sobre isso de novo neste momento? — perguntou ele por cima do ombro. — Já falei, eu respeito você e a sua família demais pra ser um estorvo financeiro...
— Você não acabou de falar que não quer conversar sobre isso agora?
— Já acabou de se vestir?
Fechei o zíper.
— Já.
Ele se virou. A mandíbula quadrada – sob a sombra das 5 da tarde – estava levemente corada e os olhos estavam mais escuros do que nunca.
— O que aconteceu no cemitério? Ele machucou você?
— Meu Deus, é claro que não. — Achei melhor não mencionar os vasos de flores, nem que foi o Mark quem fez com que a frente fria aparecesse. Devia ser coincidência.
Exceto pelo fato de que na minha área de atuação não existem coincidências. O fato de eu ter me mudado para a casa onde o Jesse foi assassinado, dentre todas as casas no mundo todo, foi coincidência?
Acho que não.
No entanto, se existia algum poder superior a cargo daquilo tudo, ele ou ela devia alguma explicação. Por que colocaria uma pessoa que nem eu na mediação de um caso como o do Mark? Eu já estava mandando supermal, a julgar pela expressão no rosto do Jesse enquanto eu descrevi o que aconteceu no cemitério – uma versão reduzida. Contei como fui lá para convencer o Mark a fazer a travessia, e como ele revelou que não podia porque não foi ele quem matou a Jasmin (como todos achavam), e que agora estava certo de que tinha de se vingar da pessoa que a assassinou (segundo ele).
— Mas tecnicamente, não é culpa minha — falei, me defendendo. — Como é que eu ia saber que tinha um segundo veículo envolvido no acidente? Nenhuma matéria em nenhum jornal menciona isso. Devia ter marcas de pneu no chão ou vidro quebrado ou tinta do outro carro, sei lá...
Ele me abraçou tão rapidamente que eu mal entendi o que estava acontecendo. Em um segundo, ele estava lá perto da janela, e no outro, me apertando em um abraço. Ele podia até não ser mais um fantasma, mas com certeza conseguia se mover tão rápido quanto um quando queria.
— Graças a Deus você não se machucou — disse ele, afundando o rosto no meu cabelo molhado de chuva. — Suzannah, como você pode ter sido tão tola de ir lá sozinha?
— Bem — respondi. O abraço foi surpreendente, mas bem-vindo, ainda mais porque eu gostava de sentir o peito duro feito pedra dele no meu corpo. Gostava também do formigamento familiar na região do meu osso púbico que eu sempre sentia quando entrava em contato com qualquer parte da anatomia dele. — Não tive escolha. O padre Dominic está em alguma conferência, e eu não sabia que você vinha. Se tivesse ligado antes, eu teria esperado por...
— Você não pode continuar fazendo isso, mi amada — disse, e me afastou dele rapidamente para poder me olhar nos olhos. Mas continuou segurando meus ombros para que eu não fugisse. Não que eu quisesse. — Já perdi todo mundo que amei. Não posso perder você também.
— Jesse, você não vai me perder. A situação estava totalmente sob controle. — Mais ou menos. — Mas preciso dizer que, depois de tantos anos vendo você escondendo o que sentia por mim, é muito legal ouvir você falar essas coisas todas. E também é emocionalmente saudável que esteja colocando elas pra fora. Continua. — Passei os braços pelo pescoço dele. — O que exatamente você acha que é tão irresistível em mim? É a minha personalidade magnética? Ou os meus olhos esmeraldas? Ou será que é só o meu corpo sarado? — Senti uma coisa no meu torso. — Ah, tenho a impressão de que é o meu corpo sarado.
Ele me afastou de novo, dessa vez com uma expressão de desgosto.
— Isso não é uma piada, Suzannah. Se aquele menino estava pensando em assassinato quando você foi embora, talvez não pare depois que matar o rival que disputava o carinho da namorada. Você também pode estar na lista.
Mas eu não estava mais escutando. Não totalmente. Estou na lista negra de tantas assombrações que já perdeu a graça.
— Jesse — falei, e olhei para a parte da frente do jeans dele. — Estou vendo coisas, ou você está realmente muito feliz em me ver?
— Não faço ideia do que você está falando, Suzannah. Se esse menino quer matar você (ou se quer matar só o tal do Zack) é melhor a gente sair agora e tentar impedir.
— É, só um minuto. Jesse, o que é isso no seu bolso?
A mão dele foi direto para o volume duro que notei e vinha confundindo com outra coisa. A expressão dele ficou indecifrável, como sempre ficava quando o assunto passava para alguma coisa sobre a qual ele não queria conversar, como a experiência da morte, ou o favoritismo que tinha por músicas no estilo da Nicki Minaj. Ele afastou a mão.
— Não é nada. Temos que ir. Pega o seu casaco.
— Jesse, isso não é nada. Só achei que você estivesse feliz em me ver, mas infelizmente acho que estava errada. Tem uma arma no seu bolso?
Ele me deu uma olhada azeda.
— Não, Suzannah, não estou com uma arma no bolso. Os médicos fazem um juramento para proteger a vida humana, não tirá-la. — O olhar castanho dele ficou sério. — Quer dizer, a não ser que o humano já esteja morto e tentando machucar a minha namorada. Podemos ir agora?
— Não podemos, não. — Dei um passo para a frente.
Jesse é bem ligeiro, ainda mais depois daquela história toda de ter caminhado no vale da sombra da morte.
No entanto, com a natação que pratico na piscina do campus (e com os paranormais em quem preciso meter a porrada), sou mais ainda. Segurei uma das alças de cinto do jeans dele (para mantê-lo no lugar) com uma das mãos e coloquei a outra dentro do bolso.
Tudo em menos tempo do que ele levava para dizer “Bom dia, madame” (um hábito frustrante que tinha, do qual eu já tinha tentado me livrar. Ninguém quer ser chamada de madame. Quando ele falou isso para a minha mãe pela primeira vez, achei que ela fosse enfartar).
— Suzannah — exclamou ele, lutando contra mim... ou contra ele mesmo. Não sei dizer se ele ficou mais revoltado ou feliz em notar a minha mão dentro do bolso da sua calça.
Contudo, quando exclamei “Ahá! Peguei!” e tirei o tesouro que descobri no fundo do jeans, ele ficou estático. Não sei qual dos dois ficou mais mortificado quando eu vi o que era.
Porque é claro que não era uma arma.
Era uma caixinha de joias.

3 comentários:

  1. ai cara ! Ele ia fazer uma surpresa e pedir ela em casamento!!!! Ai Meu Deus! Vou ter um ataque do coração aqui!

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  2. Primeira vez que eu vejo o pedido ser estragado pela noiva sendo que ela quer se casa com o cara

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  3. Preferia quando o Jesse chamava a Suzannah de Mi hermosa,agora ele ta chamando ela de Mi Amore...

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