30 de setembro de 2016

Capítulo 4

Ouvir Burnett falando contribuiu para diminuir o bolo que Kylie sentia na garganta. Todo mundo olhou para a frente do refeitório.
— O acampamento foi invadido esta noite — Burnett explicou. — Por um vampiro.
— Ele fazia parte da gangue? Aquela que atacou vocês na reserva de animais? — Helen perguntou, olhando de relance para Kylie.
Kylie se inclinou um pouco mais para a frente, para não perder a resposta de Burnett.
— Não sei ao certo — ele olhou pela sala como se procurasse alguém. Um segundo depois, seu olhar se fixou em Holiday e sua expressão se suavizou. — Mas não acho que estivesse aqui para caçar. Se ele ou ela estivesse a fim de matar, já teria tido chance de capturar uma presa fácil e não fez isso. — Seu olhar se desviou para Kylie, deixando claro, pelo menos para ela, que ela era a “presa fácil”.
Presa fácil. Presa talvez, mas fácil? Isso incomodou Kylie mais do que ela queria admitir. Tudo bem que não fosse exatamente a Mulher Maravilha, mas já tinha enfrentado a Confraria do Sangue na reserva. É claro que tinha recebido ajuda de Daniel, mas ela já tinha chutado o traseiro de muita gente antes disso. Será que não levaria nenhum crédito por isso?
Burnett limpou a garganta.
— É possível que tenha sido apenas alguém curioso para conhecer o acampamento.
Kylie lembrou o quanto tinha ficado assustada na floresta, ao sentir a presença do vampiro. Parecia mais do que uma simples curiosidade. Parecia algo ameaçador. Se Derek não tivesse aparecido, Kylie não sabia o que poderia ter acontecido, mas suspeitava que não seria nada bom.
— Ou pode ser que seja a gangue só querendo que saibamos que não fugiram assustados. Também pode ter sido um amigo ou parente querendo ver um campista, sem passar pelo nosso controle de visitantes. E se algum de vocês tem um amigo vampiro que possa ter tentado isso, por favor diga a essa pessoa em alto e bom som que entrar no acampamento sem o crachá de visitante é considerado uma violação grave. Se nós encontrarmos essa pessoa, ela será tratada como um invasor hostil. E isso vale para todas as espécies, inclusive os humanos.
Kylie esperava que Della tivesse ouvido. Pessoalmente, ela não se importava nem um pouco com Chan, mas sabia que para Della era diferente, e pelo bem da amiga não gostaria de saber que o invasor era o primo dela.
O olhar de Burnett ficou mais frio ao dar o aviso e então ele continuou.
— Embora eu não veja isso como uma grande ameaça, não penso em baixar a guarda tão cedo. A Confraria do Sangue foi estúpida o bastante para tentar uma vez. E eles são estúpidos o bastante para tentar de novo.
— Eu ainda não entendo o que eles têm contra nós — disse uma das amigas bruxas de Miranda.
— Eu respondo a essa pergunta — disse Holiday, indo para a frente do refeitório. — Se você reparar, temos mais vampiros aqui do que qualquer outra espécie. O motivo é muito claro. O vírus pode ser transmitido por muitas gerações e, por isso, os pais de um vampiro recém-transformado podem nem sequer saber que os sobrenaturais existem. Isso faz da vida em família algo extremamente difícil, levando muitos deles a se juntar a gangues. Mas, desde que o acampamento foi aberto, já salvamos mais de quatrocentos vampiros recém-transformados, evitando que se marginalizassem. A Confraria do Sangue vê Shadow Falls como um obstáculo para o crescimento das gangues.
Holiday fez uma pausa.
— Mais alguma pergunta? — Como ninguém levantou a mão, Holiday acrescentou: — Bem, já são quase duas da manhã, então por que não voltamos para nossos alojamentos e tentamos descansar um pouco? Mas lembrem-se do que Burnett disse. Não baixem a guarda.
Quando os campistas começaram a se dispersar, Kylie foi se juntar a Miranda, que estava sozinha num canto, distraindo-se com um joguinho celular. Quando viu Kylie, ela inclinou a cabeça e deu um sorrisinho afetado, o que a deixou, aos olhos de Kylie, ainda mais parecida com um filhotinho fofo e amuado.
— Ah, agora que todo mundo me abandonou, você quer a minha companhia... — queixou-se Miranda.
Kylie franziu a testa.
— Eu feri os sentimentos de Della e precisava me desculpar. E não poderia fazer isso com vocês duas querendo pular no pescoço uma da outra.
— Mas você não se importa de ferir os meus seu sentimentos — resmungou. Miranda. — É bom saber que vocês duas não estão nem aí comigo.
— Você sabe que não é nada disso — disse Kylie.
— Sei? — Ela balançou a cabeça e seu cabelo multicolorido, rosa, preto e verde-limão, se agitou em seus ombros. — É assim que vai ser daqui pra frente? Como vocês duas são vampiras, não vão me querer mais por perto?
— Não, não tem nada a ver. E... nem sabemos se sou vampira.
— Você gostou do sabor do sangue.
— Isso não faz de mim uma vampira. — A frustração cresceu no peito de Kylie. Mas, quando encontrou os olhos de Miranda e viu a insegurança neles, Kylie parou de pensar nos próprios medos. — E para o seu governo, eu me importo com os seus sentimentos. Não tive intenção de magoar você.
— E para o seu governo, eu também não tive. — Della acrescentou, unindo-se a elas.
— Uau! — exclamou Miranda, olhando para Della. — Isso foi quase um pedido de desculpas. E para uma bruxa disléxica.
— Não me provoque — avisou Della.
— Tudo bem. — Um sorriso se acendeu nos olhos de Miranda. — Vamos fazer um pacto de que estaremos sempre juntas, não importa o que Kylie descubra que é, não importa o que aconteça.
Della bufou.
— Em que planeta você estava? Já fizemos esse pacto antes.
Elas começaram a andar em direção à porta, mas pararam quando Holiday chamou o nome de Kylie.
— Posso conversar com você um minuto? — a líder do acampamento perguntou.
Enquanto Della e Miranda avisavam que esperariam do lado de fora, Kylie aproximou-se de Holiday.
— Sei que quer falar sobre o que aconteceu esta noite, mas gostaria de uma conversa com Burnett primeiro. Tudo bem se eu der uma passadinha na sua cabana depois para podermos conversar no seu quarto?
Kylie se lembrou do comentário de Holiday sobre ser tarde.
— Se quiser falar comigo amanhã, tudo bem...
— Não — Holiday franziu as sobrancelhas. — Você não quer falar sobre isso esta noite?
Kylie tentou ser educada.
— É, quero conversar.
Holiday lhe deu um rápido abraço.
— Vai ficar tudo bem.
Kylie percebeu que não estava tão assustada quanto antes com relação a toda aquela história do vampiro, mas a verdade é que havia muitos sentimentos conflitantes dentro dela.
— Eu sei. — Ela sorriu e torceu para parecer mais confiante do que de fato estava.
Quando Kylie saiu do refeitório, todo mundo já tinha ido embora, exceto Miranda e Della, que estavam sentadas nas grandes cadeiras de balanço brancas, na varanda da cabana da administração.
— O que ela queria? — perguntou Miranda.
— Me dizer que vai dar uma passada na nossa cabana daqui a pouco para conversar comigo.
— Conversar sobre o quê? — perguntou Della.
— Umas coisas... — Ela não queria começar a discutir com Della novamente sobre a questão do vampiro.
Miranda se levantou da cadeira.
— Podemos ir?
Elas pegaram a trilha que levava à cabana. Não estava tão escuro, por musa das estrelas e da lua. A noite cantava sua própria canção, e Kylie era extremamente grata por isso. Era quando a canção noturna se interrompia e Kylie se preocupava.
— Fui beijada esta noite — disse Miranda, no impulso.
— Uau! — exclamou Kylie. — Perry finalmente tomou uma atitude, hein?
— Não foi Perry. — Miranda chutou o chão de terra.
— Não foi Perry? — Kylie agarrou Miranda pelo braço. — Quem foi, então?
— É, quem foi? — repetiu Della, estudando atentamente o rosto da amiga. — Se você disser que foi Steve, eu chuto o seu traseiro. Sabe que estou a fim dele.
— Não foi o seu metamorfo Steve — disse Miranda fazendo uma careta. — Foi Kevin.
Kylie ficou pasma.
— Você não está falando de Kevin, o amigo e colega de alojamento de Perry...? Por favor, não me diga que foi aquele Kevin.
— Tá bom, então não vou dizer... — disse Miranda, escondendo o rosto com as mãos. — O que vou fazer agora? — Ela espiou as amigas por entre os dedos.
— Isso não é nada bom... — comentou Kylie.
Miranda continuou olhando para elas através dos dedos.
— Não pensei que fosse acontecer — disse ela, tirando as mãos do rosto. — Eu... estava voltando para a cabana, pensando que você poderia estar aqui e topei com Kevin. Eu estava preocupada com você. Começamos a andar juntos, conversar, e então... ele simplesmente me beijou e...
— E o quê? — perguntou Della.
— Eu não fiz nada para que ele parasse.
— Mas foi bom? — Della perguntou.
— Até que foi. Um pouco. Não sei. Por que me sinto tão culpada?
Kylie olhou para Miranda.
— Porque você vem agindo como se gostasse de Perry.
— Mas Perry não está agindo como se gostasse de mim. Claro, ele se senta comigo às vezes no almoço e no jantar, mas não acha que se gostasse de mim já teria me beijado ou coisa assim?
— Acho que só está meio inseguro — justificou Kylie.
— Acho que o problema é que ele não é macho o suficiente... — Della acrescentou.
— Pare com isso! — O rosto de Miranda ficou vermelho.
— Pare o quê? — Della perguntou.
— Pare de pôr em dúvida a masculinidade de Perry. É cruel e eu não gosto.
Della soltou uma risadinha.
— U-la-lá... alguém aqui gosta de Perry a ponto de defender sua masculinidade...
— E seu eu gostar? O que você tem a ver com isso? — disse Miranda, colocando as mãos nos quadris.
— Nada. — O tom de voz de Della demonstrava seu aborrecimento. — Mas pode ter a ver com Kevin, já que vocês andaram se beijando hoje...
— Parem! — implorou Kylie. — Deus! Será que não podem passar minutos sem implicarem uma com a outra?
— Foi ela quem começou — disseram Della e Miranda ao mesmo tempo.
Kylie olhou de uma para outra.
— Vocês duas começaram. E as duas precisam parar. Estou por aqui com isso — disse Kylie colocando a mão na testa. — Sério, não aguento mais...
— Psiu! — Della pôs o dedo sobre os lábios de Kylie.
— O que foi? — sussurrou Miranda.
— Você sabe fazer silêncio? — Della perguntou.
Kylie tirou o dedo de Della dos lábios e ouviu. A noite estava silenciosa. Mas no silêncio total que fizera no bosque, porque à distância, como música de fundo, ela podia ouvir os insetos e os pássaros; nas proximidades, porém, tudo estava quieto.
Kylie se inclinou para a frente e sussurrou:
— É outro vampiro?

Um comentário:

  1. Della e Miranda parecem até eu e minha irmã brigando

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