24 de setembro de 2016

Capítulo 41

A mãe continuou caminhando ao lado de Kylie pela trilha do bosque.
— Não gostei nada de fazer aquilo.
— Pois deveria — rebateu Kylie. — Acho que foi certo.
A mãe a encarou antes de falar:
— Ele está tendo problemas, Kylie. Nada mais.
O fato de a mãe defendê-lo irritou Kylie.
— É, o problema dele é sua assistente superjovem.
A mãe se deteve e a pegou pelo braço. Tinha lágrimas nos olhos.
— Ah, querida, sinto muito.
Kylie sacudiu a cabeça.
— Por que pede desculpas? Está tendo um caso também? Juro que, se você estiver saindo com alguém da minha idade, vou me divorciar dos dois.
— Não. Eu nunca... Eu não queria... que você soubesse. Vocês eram tão ligados! — Pousou a mão sobre os lábios trêmulos por alguns segundos. — Como descobriu?
Kylie achou que sua mãe ficaria muito magoada caso ela contasse que o pai tinha trazido a garota na semana anterior, por isso disse apenas:
— Peguei papai mentindo.
A mãe balançou a cabeça:
— Ele nunca foi um bom mentiroso.
Kylie se perguntou se poderia dizer o mesmo da mãe. Seu pai saberia dizer? Deteve-se, fechou os olhos e reexaminou a pergunta que precisava fazer.
— Muito bonito — disse a mãe.
Kylie abriu os olhos e a observou admirando o riacho.
— É — Kylie avançou até a margem e estendeu o cobertor para que se sentassem.
A mãe se acomodou e olhou para a água.
— Tem mesmo uma cachoeira por aqui?
— Me disseram que sim — respondeu Kylie, tentando não denunciar no tom de voz a frustração por nunca ter visto a tal cachoeira. E naquele mesmo instante decidiu que, mesmo sozinha, ainda iria lá. Podia parecer maluquice, mas aquilo era importante para ela. — Mas eu nunca vi.
— Por que não?
Kylie deu de ombros.
— Existe uma lenda de que existem fantasmas lá. A maioria das pessoas tem medo de visitar o local — inclusive eu, pensou Kylie, preferindo não dizer isso em voz alta... Por enquanto.
— É mesmo? — a mãe parecia intrigada. — Adoro histórias de fantasmas, e você?
— Às vezes — respondeu Kylie com franqueza, virando o rosto para que a mãe não lesse nada em sua expressão.
— É bem tranquilo aqui — observou a mãe. — Estou gostando — inclinou-se e acariciou a mão de Kylie. — Obrigada por me trazer.
Kylie, por covardia, adiou a pergunta que não gostaria de fazer e passou a um tema menos explosivo. Um tema que agradaria à mãe.
— Que acha da transformação do acampamento em internato?
— A líder do acampamento parecia muito feliz com isso — disse a mãe, ainda contemplando a água.
— Que tal se eu me matriculasse?
A mãe virou-se para Kylie.
— O quê? Meu bem, será um internato. Significa que você teria que morar aqui.
— Eu sei — respondeu Kylie, francamente impressionada com aquela reação. — Mas pense: você não precisaria ficar comigo — tentou imprimir às palavras um tom sarcástico. Mas, a julgar pela expressão da mãe, não conseguiu acertar no alvo.
— Não. Vamos deixar as coisas bem claras. Não e não. Você tem um lar e mora comigo.
Duas constatações de ordem emocional abalaram Kylie ao mesmo tempo. Primeira: ela realmente queria, ou melhor, precisava ficar no acampamento. De algum modo, tinha que conseguir a permissão da mãe. Segunda: a mãe não queria ficar livre dela. Kylie estava certa de que, se pudesse escolher, a mãe faria sua mochila e a poria para fora num piscar de olhos. Com aquelas emoções agitando-se furiosamente em seu peito, Kylie já não sabia o que dizer.
— Eu... Eu realmente gosto daqui, mãe.
— Gosta da sua casa também.
Gostava, não gosto mais, seria a resposta certa, mas que de repente lhe parecia cruel.
— Mas...
— Se com isso está querendo se vingar do divórcio... — começou a mãe.
— Não — negou Kylie. — Juro! É só que aqui é um lugar legal. Vou poder descobrir quem de fato sou. Você sempre dizia que eu tinha “problemas de relacionamento” porque não queria pertencer a nenhum clube ou turma, se lembra? Pois então, aqui, tenho amigos... Eu pertenço a este lugar, mamãe.
— Você tem Sara. Vocês duas são como irmãs.
— Gosto de Sara e sempre vou gostar. Mas nós já não somos... Tão parecidas quanto antes. Nem mesmo nos falamos todos os dias. Ela fez outras amizades e, sinceramente, eu não me dou muito bem com elas.
— Mas... — disse a mãe, agora mais preocupada.
— Mãe, por favor... — insistiu Kylie, percebendo que a mãe já não argumentava com a mesma teimosia. E recorreu a outro trunfo: — Você disse que o novo emprego exigiria viagens frequentes. Como posso ficar segura, com você sempre longe de casa?
— Bem, seu pai tomará o meu lugar.
Kylie sacudiu a cabeça.
— Acha mesmo que vou para a casa dele com aquela garota, quase da minha idade, no pé dele?
— Posso recusar a promoção — sugeriu a mãe. — Você é mais importante para mim do que... Qualquer emprego — e seus olhos se encheram de lágrimas.
Os de Kylie também. Ela não conseguiu se conter. Como parecia ser a coisa certa a fazer naquele momento, ela abraçou a mãe.
— Eu te amo — murmurou Kylie, prolongando o abraço mais apertado que jamais dera à mãe.
A mãe não a repeliu, ao contrário, afagou seu ombro. Não era o abraço mais afetuoso do mundo, mas um começo. Então, para não abusar da sorte, Kylie recuou.
— Sinto muito — sussurrou.
— Por quê? — perguntou a mãe e, no mesmo instante, Kylie percebeu que o rosto dela estava todo borrado. Outra coisa que tinham em comum e que Kylie até então nunca notara.
— Não quero magoar você. E não precisa tomar nenhuma decisão hoje. Vou ficar no acampamento durante todo o verão, mas de fato eu gosto daqui. Além disso, Holiday disse que os alunos poderão ir para casa nos fins de semana. Haverá muitos feriados. E a viagem não dura mais que três horas. Você trabalha fora e também poderá aparecer por aqui.
A mãe suspirou.
— Acontece que você é minha filha, meu amor — passou os dedos pelo rosto de Kylie. — Não quero que seja criada por estranhos.
— Mãe, cai na real. Vou fazer 17 anos dentro de alguns meses. Você já me criou — Kylie hesitou um instante e prosseguiu: — Além disso, você precisa namorar, fazer outras coisas.
A mãe arregalou os olhos.
— Não sei se sou tão corajosa assim.
— Como não? É bonita e, com um guarda-roupa novo, poderia ficar... Uma gata! — a mãe era muito mais bonita que a vagabunda com quem seu pai estava envolvido.
A mãe suspirou de novo.
— Quando foi que minha menininha cresceu?
— Não sei — riu Kylie, recostando-se no cobertor. A mãe, imitando-a, se recostou também. Ficaram ouvindo o murmúrio da água e contemplando o céu azul por entre as nuvens muito brancas. Talvez fosse imaginação de Kylie, mas ela quase podia ouvir dali o barulho da cachoeira.
Por fim, Kylie se levantou e a mãe fez o mesmo.
— Mãe, posso te perguntar uma coisa?
— É claro, querida.
Kylie a olhou bem no fundo dos olhos e disparou:
— Quem é meu verdadeiro pai?

5 comentários:

  1. unicornio malandrão5 de outubro de 2016 21:17

    eu chorei na hora que a Kylie abraçou a mãe dela

    ResponderExcluir
  2. putz verdadeiro pai? what?🙁🙁
    ass: Mary ivashkov

    ResponderExcluir
  3. Ô Kylie heim!? Tá certo que é sempre bom ser honesta e direta, mas delicadeza também convém!!!

    ResponderExcluir
  4. No fundo a mãe sempre a amou

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!