30 de setembro de 2016

Capítulo 3

— O que aconteceu? — perguntou Miranda, acuando-a num canto do refeitório vinte minutos depois.
Tão logo Derek contou a Holiday sobre o vampiro desconhecido à espreita, ela chamou todos os campistas e disse para permanecerem juntos.
Lá no fundo, Kylie ainda sentia um tremor agitando seu corpo. Se era por causa do medo ou da recepção fria de Della, ainda não sabia ao certo. Ela podia sentir com nitidez a frieza da amiga, mesmo estando do outro lado refeitório.
— Vai, desembucha! — exigiu Miranda. — Depois tenho algo para te contar também.
Kylie olhou para Della novamente.
— Ela está muito furiosa comigo?
Miranda relanceou os olhos para a vampira.
— Digamos que, numa escala de um a dez, em que dez é uma vampira furiosa, ela está beirando os quinze... e subindo!
— Valeu — murmurou Kylie.
Miranda deu de ombros.
— Ela vai superar. Você sabe como ela é. Agora me conte o que aconteceu.
Kylie sacudiu a cabeça.
— Eu saí correndo e...
— Mas por que saiu correndo? Por que você... bebeu sangue como se fosse um chope gelado numa noite quente de sexta-feira?
Kylie olhou para os próprios pés. Ela não queria falar sobre isso agora.
— Não sei.
— Você gostou do sabor, não foi? — Miranda parecia ofendida.
Kylie engoliu em seco.
— Vai, fala logo! — Miranda exigiu.
O máximo que Kylie conseguiu foi confirmar com a cabeça.
— Tudo bem, então o que foi que aconteceu? — continuou Miranda de cara amarrada.
Kylie engoliu a saliva com dificuldade.
— Anda, conta logo! — insistiu mais uma vez.
— Eu corri e senti que tinha alguém atrás de mim, um vampiro. E depois ouvi Derek me chamando. Acho que, se tinha mesmo alguém por perto, deve ter se assustado. Eu comecei a correr e encontrei Derek e então nós ficamos...
— Ficaram...? — Miranda a encarou, absorvendo cada palavra de KyIie
Ficamos nos agarrando.
— Nada, Burnett apareceu.
Uma lufada de ar as atingiu quando Della parou subitamente ao lado de Kylie.
— E você contou a ele que achava que era Chan, não contou? — Della obviamente tinha ouvido toda a conversa.
Kylie olhou para Della.
— Não, eu não contei.
— Quem é Chan? — Miranda perguntou.
— Ninguém — Della respondeu rispidamente. — Meta-se com a sua própria vida.
Obviamente Della não queria que ninguém soubesse que o malandro do seu primo vampiro tinha violado uma das mais importantes regras de Shadow Falls: visitantes não entram sem permissão. Isso valia especialmente para aqueles que eram contra as tentativas da UPF de controlar os sobrenaturais.
Miranda, ofendida, sustentou o olhar de Della.
— Era Chan? — Kylie perguntou, sem se preocupar que Miranda estivesse ouvindo.
Kylie compreendia a lealdade de Della por Chan. Ele tinha sido um dos que a ajudaram na sua dolorosa transformação. No entanto, fazia sentido pensar que, se o cara tinha violado as regras uma vez, poderia violar de novo.
— Eu disse que ele não ia voltar — Della respondeu, amuada.
— Mas como pode ter tanta certeza? — De repente Kylie se lembrou de como tinha ficado assustada no bosque ao se deparar com o primo folgado de Della. Ela cruzou os braços e assumiu uma postura defensiva. Só porque Della acreditava que Chan não era uma ameaça isso não significava que ele não fosse. Até onde Kylie sabia, ele podia fazer parte da Confraria do Sangue.
— Porque eu confio nele, ao contrário de outras pessoas. Achei que você e Miranda fossem minhas amigas. Tudo o que eu pedi foi que você respeitasse o fato de esta noite ser importante para mim. Que...
A frustração de Kylie chegou ao ápice.
— Que droga, Della! Por que tudo sempre tem que girar à sua volta?
As palavras mal tinham saído da boca de Kylie quando ela fitou os olhos de Della. O mesmo olhar que a amiga tinha toda vez que os pais vinham visita-la. O olhar que dizia a Kylie que Della se sentia uma desgarrada.
Kylie mudou de atitude.
— Não tive a intenção de desrespeitar ninguém. Só fiquei apavorada, ok?
— Por quê? — A raiva de Della transparecia em sua voz, mas era só dor ela via em seus olhos.
— Por que o quê? — Kylie perguntou, embora no fundo soubesse o que Della estava perguntando. Ela só precisava de alguns segundos para descobrir como dizer aquilo sem parecer tão rude.
Della se aproximou um pouco mais.
— Você ficou apavorada porque não quer ser vampira, não é? Você acha que sou um monstro, não acha? Está morrendo de medo de que possa ser como eu. É por isso que ficou apavorada, confesse.
Kylie abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra lhe ocorreu. Provavelmente porque não podia mentir para Della. A vampira sabia a verdade. Della deu meia-volta para ir embora. Kylie tentou detê-la, mas a amiga já tinha se afastado.
— Onde ela foi? — Kylie deu duas voltas pelo refeitório, mas não conseguiu encontrá-la. O salão estava cheio de campistas agitados perambulando por ali.
— Deixe que vá esfriar a cabeça — aconselhou Miranda.
— Não posso. — Kylie sabia o quanto aquilo feria Della.
Kylie finalmente localizou o cabelo preto escorrido da amiga atrás de um grupo de metamorfos. Começou a andar na direção dela. Miranda a seguiu, insistindo:
— Estou falando sério, por que não dá um tempo a ela?
— Vá embora — rosnou Della antes que Kylie parasse completamente de andar.
— Não — respondeu Kylie, parando no lugar.
Os olhos dourados de Della faiscavam de raiva. Então seu lábio superior se arreganhou só o bastante para expor seus longos caninos. Houve um tempo em que ver Della daquele jeito arrepiava os cabelos de Kylie, mas isso não acontecia mais. Ela não tinha mais medo da amiga vampira.
— Eu não acho que você seja um monstro — disse Kylie. — Mas isso não me impede de ficar assustada.
— Mentira — grunhiu Della.
— Não estou mentindo. Cheque meu batimento cardíaco se quiser. Ouça o meu coração, veja se estou mentindo.
Della se virou para ir embora e Kylie desta vez segurou-a pelo braço.
— Você não vai embora — Kylie insistiu.
— Me larga! — Della rugiu numa voz baixa e profunda. Ao ver que Kylie não a largava, a vampira sacudiu o braço, com os olhos mais brilhantes e os dentes totalmente expostos.
Kylie ouviu um burburinho à sua volta. A briga tinha obviamente chamado atenção. Della ouviu também, porque olhou ao redor e sibilou. As poucas pessoas nas proximidades se dispersaram como camundongos assustados.
Kylie ainda não estava com medo.
— Ei, vamos nessa também — disse Miranda, cutucando Kylie com o cotovelo. — Ela está com muita raiva agora.
Kylie não olhou para Miranda. Continuou encarando Della, deixando claro para a amiga que não estava com medo.
— Não vou embora enquanto você não me ouvir.
— Não tenho que ouvir você. Já sei o que pensa. — O olhar furioso de Della, crivado de dor, fixou-se em Kylie.
— Não é justo! — exclamou Kylie para a vampira furiosa, encarando-a também.
— Menos justo ainda é pensar que você não é minha amiga. — A mágoa que Della sentia faiscava através do dourado dos seus olhos.
— Eu sou sua amiga. Dei meu sangue pra você — disse Kylie.
— E eu também — acrescentou Miranda, um pouco nervosa.
Como a expressão de Della não mudava, Kylie continuou.
— E eu também me lembro de que me contou o quanto ficou assustada quando descobriu que estava se transformando. Você disse que ficou com muito medo do que estava acontecendo. Disse que não queria mudar.
Della se virou mais uma vez para ir embora. Mas Kylie continuou falando e não largou o braço da vampira.
— Você é a única que pode ficar com medo? — Kylie sentou a emoção crescendo no peito e seus olhos se encheram de lágrimas. — E é tão especial que mais ninguém pode sentir a mesma coisa?
Kylie quase esperou que a outra se afastasse, furiosa. Talvez até destroncando seu ombro se ela não a largasse.
Mas Della não fez isso. Nem deu meia-volta para olhá-la de frente. Simplesmente ficou ali por vários e longos segundos. Um. Dois. Três. Kylie contou e aguardou, esperando que isso significasse...
— Tudo bem — Della murmurou com frustração, mudando finalmente de atitude. Seus olhos não estavam mais dourados. Ela olhou para baixo e depois ergueu os olhos novamente. — Você está certa. — Ela olhou ao longe depois para Kylie novamente. — Me desculpe.
— Droga — resmungou Miranda, um pouco alto. — Eu não sabia que vampiros podiam se desculpar ou fariam isso um dia.
Della lançou um olhar frio para Miranda.
— Não desculpei você. Então por que não vai procurar a sua vassoura e voar para Timbuktu? Isso se o seu senso de direção destrambelhado permitir. E também não se dê ao trabalho de voltar.
Na ofensiva, Miranda deu um passo em direção à vampira.
— Você é uma coisa...
Della mostrou os dentes e rugiu.
— Eu ouvi muito bem quando você disse a Helena que sangue era nojento. Você prometeu respeitar...
— É desrespeitoso ser sincera? — Miranda perguntou.
Kylie se colocou entre as duas.
— Vocês duas podem trocar insultos, xingarem uma à outra e até se matarem mais tarde. Mas agora... — Ela olhou para Miranda. — Eu preciso de um minutinho a sós com Della. Por favor.
O queixo de Miranda se ergueu alguns centímetros. Ela não gostou, mas se afastou. Essa era uma qualidade de Miranda. Ela podia se enfurecer em questão de segundos, quase tão rápido quanto Della, mas se acalmava com a mesma rapidez. Della, por outro lado... essa garota sabia guardar ressentimentos. E, embora fingisse que nada podia magoá-la, Kylie sabia o quanto era vulnerável, muito mais do que Miranda.
Finalmente a sós, Della e Kylie ficaram ali, olhando uma para a outra.
Kylie foi a primeira a falar:
— Me desculpe também. Não quis desrespeitar sua cultura. Eu simplesmente surtei. Só isso.
Della assentiu.
— Entendi. Não a princípio, mas... entendi agora. — Della suspirou e um leve sorriso apareceu em seus lábios. — Você adorou, não foi? O sangue. Estava bom.
Kylie não estava orgulhosa daquilo, mas admitiu a verdade.
— Foi assustador.
Della tocou o braço de Kylie.
— Mas você ainda está quente.
Kylie concordou com a cabeça.
— Se eu sou uma vampira, não devia estar fria?
— Não sei — Della disse com honestidade. — Talvez só não tenha mudado ainda. Mas esteja prestes a mudar.
Kylie se lembrou de que a transformação era como ter água fervente correndo nas veias.
— Eu estarei com você — Della disse, como se tivesse lido os pensamentos de Kylie. — Para ajudar na transformação. Se acontecer. Você não estará sozinha. Acho que me lembro da maioria das coisas que Chan fez para me ajudar.
— Sei que vai se lembrar. — Kylie tentou sorrir. Nesse mesmo instante, ela localizou Miranda do outro lado do refeitório, olhando para elas, como um cãozinho abandonado. Kylie sentiu-se mal por ter pedido que se afastasse. — E Miranda fará a mesma coisa. Ela ficará ao meu lado. E ficará ao seu lado também. Eu realmente gostaria... de coração... que vocês duas parassem de brigar.
Della deu de ombros.
— Ela consegue me tirar do sério.
— E você faz o mesmo com ela — disse Kylie, defendendo Miranda.
— É, mas ela não é como você. Você parece saber o que a gente está sentindo, sempre consegue dizer a coisa certa. — Della franziu a testa, como se estivesse pensando. — É quase como se fosse sensitiva, Sabe, como Derek e você consegue ler emoções.
— Fala sério — negou Kylie, mas lá no fundo ela se perguntou se não seria verdade. Não foi sempre tão boa em interpretar as pessoas? Como aconteceu com sua mãe; ela sempre tinha sentido a distância que a mãe impusera entre elas, certa de que havia alguma coisa que a impedia de estabelecerem um vínculo verdadeiro.
— Está tudo bem? — A voz feminina conhecida veio de trás de Kylie.
Kylie e Della se voltaram para Holiday.
— Está — elas disseram ao mesmo tempo.
Holiday apertou suavemente o braço de Kylie.
— Precisamos conversar sobre o que aconteceu esta noite e faremos isso assim que as coisas se acalmarem.
Kylie assentiu e, embora o toque de Holiday oferecesse um pouco de conforto, ela não pôde deixar de imaginar se Holiday não a tocava apenas para checar sua temperatura – para saber se ela tinha se transformado em vampira.
— Mais tarde, tudo bem? — Holiday perguntou.
— Tudo bem. — Kylie de fato queria conversar com Holiday. Sentia, que a líder do acampamento lhe diria a mesma coisa de sempre: eu não tenho respostas. Acho que isso é algo que você mesma tem que descobrir.
Mas como ela esperava que Kylie achasse as respostas? Seu plano de seguir informações com Daniel tinha descido pelo ralo. O que lhe restava agora?
O toque do celular de Holiday trouxe Kylie de volta ao presente.
A líder levou o telefone ao ouvido.
— Burnett, é você? — A expressão da líder desmoronou um pouco. — Você ligou para o número errado.
Kylie sentiu a frustração no seu tom de voz. Não havia dúvida de que ela estava preocupada com Burnett. Um pouco dessa preocupação também afligia Kylie. Fora ela quem fugira do vampiro. Se algo acontecesse a Burnett seria culpa dela. Fitando as paredes de madeira do refeitório, ela tentou afugentar a culpa.
Então Kylie se lembrou de que Burnett era provavelmente o último cara no mundo incapaz de tomar conta de si mesmo. O homem era uma parede de músculos e seus poderes de vampiro eram insuperáveis. Ou pelo menos era o que Della dizia. Desde que Burnett tinha assumido o cargo de assistente temporário, a amiga o via quase como um ídolo.
— Tenho certeza de que ele está bem — disse Kylie, sentando-se numa das cadeiras do refeitório.
— Ninguém tem chance contra ele — Della assegurou.
Mas nem os comentários de Kylie nem os de Della surtiram efeito. Holiday ainda tinha o semblante carregado de preocupação. E era uma preocupação mais do que normal. Kylie sentiu a atração que havia entre os dois desde a primeira vez em que os vira juntos. Só porque Holiday não queria se envolver, isso não significava que não se importava com ele.
Holiday discou um número, mas logo em seguida fechou o celular.
— Por que ele desligou o telefone?! — Os olhos de Holiday se apertaram. — Devia saber que quero falar com ele.
— Eu sei por quê — afirmou Della. — Veja bem, quando você está no meio de uma floresta, procurando alguém, esperando encontrá-lo antes de ser encontrado, nada o deixa em maior desvantagem do que o toque de um celular.
A verdade das palavras de Della só serviu para Holiday apertar ainda mais os lábios de preocupação.
— Ele poderia ter telefonado antes de desligar. Só está sendo... difícil. Eu juro, mal posso esperar que contratem outra pessoa. Eu simplesmente não consigo trabalhar com esse homem.
Della sorriu.
— Você não consegue trabalhar com ele, diz que não gosta dele, mas veja como está preocupada.
— Não estou preocupada... quer dizer, estou preocupada, mas não... não como...
— Como se realmente se importasse com ele. — Della terminou a sentença de Holiday e depois continuou. — Como se sentisse muito atraída por ele? Ou não se sente atraída? Qualquer um pode ver que...
— Você se sente atraída por mim? — A voz grave de Burnett se fez ouvir enquanto ele se aproximava de Holiday por trás.
O rosto de Holiday enrubesceu – se de raiva ou constrangimento, Kylie não sabia ao certo. Então Holiday parou e confrontou o vampiro alto e moreno. Os olhos de Burnett encontraram-se por um instante com os de Kylie e ele a cumprimentou com a cabeça.
Kylie se lembrou do que ela estava fazendo a última vez em que a presa de Burnett a assustara naquele mesmo dia, e teve certeza de que ficou tão vermelha quanto Holiday.
— Então você está vivo — rebateu Holiday. Embora sua voz expressasse raiva, seu rosto contava outra história – um alívio genuíno e sincero. Diante da emoção de Holiday, Kylie esqueceu seu próprio embaraço. Não havia dúvida. A líder do acampamento se importava muito com Burnett. Provavelmente mais do que ela queria admitir.
— Você não respondeu — ele disse. — Sente-se atraída por mim ou não? — Seus olhos escuros se acenderam com um sorriso.
Endireitando os ombros, Holiday começou a falar.
— Della supôs que eu pudesse me sentir atraída por você. Mas você sabe o que dizem por aí sobre quem faz suposições, não sabe?
— Quem faz suposições, pode fazer papel de bobo — Della respondeu, cutucando Kylie com o cotovelo.
Holiday encarou Della com um olhar de reprovação e começou a se afastar. Ela deu três passos e depois voltou.
— Você não vem? — perguntou a Burnett.
— Você não me pediu — ele rebateu.
— Bem, supus que soubesse que precisamos discutir o que aconteceu.
Ele arqueou uma sobrancelha escura.
— E o que você acabou de dizer sobre quem faz suposições?
Della sorriu e pareceu completamente distraída com Holiday e Burnett, mas os pensamentos de Kylie estavam em outro lugar. Ela limpou a garganta.
— Vocês dois não tinham concordado em ser mais transparentes conosco de agora em diante? Então por que têm que conversar a sós? Por que não podemos ouvir a conversa?
Holiday fez cara feia.
— Ela está certa. — Burnett ergueu as duas mãos, como quem se rende. — Você de fato disse isso na reunião. Acredito que tenha sido a mesma reunião em que me chamou de idiota — ele acrescentou.
Os olhos de Holiday brilharam de frustração. Obviamente o homem não sabia quando ficar de boca fechada.
— Tudo bem — disse Holiday entredentes. Olharam um para o outro e nenhum dos dois piscou. Quando o silêncio se prolongou demais, Holiday soltou um longo suspiro. — Então por que você não conta a todo mundo? — ela perguntou, apontando a frente do refeitório. — Fique à vontade.
— Ok — Burnett respondeu, mas sua expressão dizia que ele na verdade não gostava de falar em público. Kylie também teve a impressão de que Holiday sabia disso.
Holiday se afastou e Burnett a observou.
— Não sei o que é pior, conversar com todo mundo ou conversar a sós com ela. — Ele olhou para Kylie e depois hesitou, como se não tivesse a intenção de dizer aquilo em voz alta. Então, antes de ir para a frente do refeitório, ele olhou para Della. Kylie podia jurar que viu sua boca murmurar um “obrigada”.
Quando ele partiu, Kylie estudou o rosto de Della.
— Desde quando você sabia que Burnett estava no refeitório?
— Praticamente desde que Holiday entrou — Della respondeu, rindo. — Ei, nós, vampiros, temos que nos unir. — Ela cutucou Kylie como se ela fosse um deles. Kylie não tinha certeza se era. Mas também não sabia se não era.
A porta do refeitório se abriu. Kylie se virou e viu Derek entrando. Ele olhou direto para ela. O sorriso que abriu lembrou-a dos beijos que tinham trocado naquele dia. A sensação de calor provocada pela lembrança se espalhou pelo seu corpo ao mesmo tempo que um arrepio pouco natural percorreu sua pele.
Ela sentiu um calafrio quando ouviu as palavras novamente.
— Você tem que impedir isso. Você precisa. Do contrário, acontecerá com alguém que você ama. Muito em breve. Acontecerá muito em breve.
— Com quem? Quando? — Kylie murmurou num sussurro. O espírito se materializou a poucos centímetros do rosto de Kylie. Ela ainda usava a roupa manchada de sangue, só que desta vez o sangue pingava da bainha da saia e se empoçava aos seus pés. Kylie prendeu a respiração e, embora aquela fosse a última coisa em que queria pensar, sua mente a conduziu para lá. Para o doce e enjoativo cheiro de sangue.
— Do que você está falando? — Della perguntou.
Kylie desviou os olhos da poça cada vez maior de sangue e se voltou para os olhos levemente puxados da amiga, que revelavam sua descendência oriental. Depois ela viu os mesmos olhos se arregalarem de medo. Della estremeceu e recuou um passo.
— Você tem companhia outra vez, não tem?
Della fugiu. Ao mesmo tempo, vários outros campistas que estavam por perto começaram a se dispersar, como se também tivessem percebido o que estava acontecendo. Sentindo-se repelida por todos, Kylie sentiu um aperto na garganta e vontade de chorar.
Lutou para conter as lágrimas. Quando olhou outra vez para o espírito, tinha desaparecido e o ambiente não parecia mais tão frio. Kylie expiou o ar com frustração. Frustração, sem dúvida, causada por todas as suas perguntas sem resposta. Toda a vida dela era uma grande pergunta sem resposta.
— Com licença. — A voz grave e autoritária de Burnett encheu o salão. — Peço um minuto de atenção. Sei que estão todos muito curiosos para o que aconteceu esta noite. E como Kylie lembrou a Holiday e a mim de que prometemos ser mais transparentes com relação ao que acontece no acampamento, achei que seria melhor explicar.

3 comentários:

  1. #Burneday e #Derlie

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  2. esses fantasmas só irritam viu, ameeii a Della apoiando o Burnett!!
    ass: Mary vampira💪💪

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