18 de setembro de 2016

Capítulo 3

Desde sempre vejo almas de pessoas mortas que deixaram questões não resolvidas na Terra. “Mediei” meu primeiro fantasma quando era bem pequena, na época em que aprendi a andar – mediar é o termo que nós, profissionais, usamos quando ajudamos um espírito conturbado a passar deste mundo para o próximo, o que, a não ser que você seja Paul Slater, fazemos sem cobrar nada.
Eu me lembro como se fosse ontem: acho que aquela senhora fantasma ficou com mais medo de mim que eu dela.
Mas esta foi a primeira vez que vi um fantasma com um monte de papel toalha em cima de uma ferida para estancar o sangue.
Esquecendo que devia manter a calma e esconder meu segredo (de que vejo mortos), levantei da cadeira com um pulo enquanto exclamava “Ai, meu Deus!”. Levei alguns segundos para perceber que, se ela estivesse morta, não estaria sangrando.
E que a vice-reitora, com seus cabelos grisalhos e volumosos, não estaria olhando para mim e falando com entusiasmo forçado:
— Está tudo bem, Becca, querida. Vai ficar tudo bem. A Srta. Simon vai botar um curativo nesse cortezinho, e tudo vai se resolver.
Naquele instante, tive certeza: Aquela menina estava bem viva.
E a irmã Ernestine estava louca. Aquele “cortezinho” no braço da Becca não me parecia pequeno, a julgar pela quantidade de sangue jorrando. Acho que era um belo de um corte profundo. E nada daquilo iria se “resolver” tão cedo, ainda mais porque o telefone continuava vibrando no bolso traseiro de minha calça.
Paul estava ligando novamente, é claro, para se certificar de que eu iria ao encontro para comer “sobremesa”.
— Suzannah. — Não havia nenhum traço de entusiasmo na voz da irmã Ernestine quando se dirigiu a mim.
Isso não era raro. Nunca fui uma das alunas preferidas da irmã durante meu tempo na escola, e, seis anos depois, ela ficara horrorizada com a ideia de me contratar. Preferia a antiga assistente de administração, a Srta. Carper, mas devido aos cortes, às matrículas capengas, à insistência do padre Dominic de que eu seria uma estagiária ótima (leia-se: gratuita) e à decisão repentina da Srta. Carper de fugir para a índia com seu instrutor casado de Yoga Bikram, a freira não teve escolha.
— Onde está o padre Dominic? — indagou a irmã Ernestine.
— Está na conferência em San Luis Obispo — lembrei, e coloquei a mão sobre o telefone. Não o meu (deixei a ligação de Paul cair na caixa eletrônica), mas o do escritório. — Só chega hoje à noite. Irmã, eu realmente acho que a gente devia ligar para a polícia, não...
A freira me interrompeu e olhou rapidamente para a porta aberta da sala da conselheira de alunos, que ficava do outro lado de minha mesa.
— Becca está bem. Largue esse telefone. Cadê a Srta. Diaz?
— Almoço — falei. — A Srta. Diaz disse que volta em meia hora.
O que a Srta. Diaz havia realmente dito é que ia à praia Carmel para “dividir um sanduíche” com o Sr. Gillarte, o treinador de corrida e professor de Educação Física. Mas visto que estavam tentando manter aquele amor ardente por sanduíches e frios – e um pelo outro – por baixo dos panos, é claro que eu não podia falar a verdade.
O que eu também não podia mencionar para a irmã Ernestine era a segunda emergência que vi aparecendo no horizonte naquele instante. Minha primeira avaliação da situação foi correta.
Havia, sim, uma menina morta naquela sala.
Só que não era Becca, a aluna que a irmã Ernestine havia levado para o escritório e que mal conseguia conter o sangue fluindo do pulso esquerdo com o papel toalha que alguém – acho que a boa irmã – havia buscado no banheiro.
Seis ou oito anos mais nova que Becca, a menina morta estava escondida atrás da saia dela. Parecia tentar se manter o mais transparente e imperceptível possível.
No entanto, não estava funcionando. Seu brilho sobrenatural era claro o suficiente para que eu o percebesse mesmo com o sol entrando pelas janelas altas e largas do escritório. Era tão visível para mim quanto o sangue na menina viva.
No entanto, ninguém mais conseguia vê-la. Apenas eu.
Não havia tempo para lidar com a menina morta. Não quando uma garota viva ao lado desta ensopava de sangue a camiseta.
Entrei na sala da Srta. Diaz e peguei o kit de primeiros socorros. Visto que a Academia da Missão Junípero Serra não apenas necessitava de uma assistente administrativa em tempo integral (assalariada), como também carecia de uma enfermeira escolar, eu vinha acumulando as funções.
Meu celular tocou de novo. Sem nem o tirar do bolso, eu sabia que daquela vez não era Paul, e sim Jesse ligando do São Francisco, o centro médico recentemente renovado em Monterrey, onde ele teve a sorte de conseguir a residência... se bem que, de vez em quando, eu me perguntava se, embora Jesse fosse um aluno brilhante de Medicina, aquilo tinha a ver com sorte mesmo. O São Francisco havia sido um hospital católico, e a influência do padre Dominic sobre a arquidiocese local era considerável.
O toque que eu havia escolhido para Jesse era o clássico de Elton John, “Someone Saved My Life Tonight”. Jesse havia salvado minha vida tantas vezes – e eu, a dele – que não era surpresa alguma que fosse essa nossa música, principalmente a parte que fala sobre borboletas sendo libertadas para voar. Nós nos demos a liberdade de voar, mas, em vez de partir, resolvemos ficar juntos, mesmo que, vez por outra, parecesse haver barreiras intransponíveis em nosso caminho.
Mesmo agora, quando meu relacionamento com Jesse não era mais o de uma mediadora e uma Pessoa Morta Não Obediente, ele ainda parecia saber quando eu precisava que salvasse minha vida, ou quando eu estava me sentindo estressada... por exemplo, se eu estivesse vendo duas meninas bastante nervosas – uma viva, a outra nem tanto – no escritório.
Ou, pelo menos, falei para mim mesma que era por isso que ele estava ligando, e não porque pressentiu, a 10 quilômetros de distância, que Paul Slater tentava me extorquir sexualmente.
— Oi — sussurrei ao telefone. — Não posso falar agora. As coisas aqui no trabalho estão meio loucas. Posso te ligar mais tarde?
— Claro, mi amada.
Só de ouvir aquele tom grave e suave já fez com que o músculo tenso em minha nuca relaxasse e eu me acalmasse. A voz de Jesse era um elixir calmante, um chantilly boiando em chocolate bem quente em uma manhã de inverno.
— Só queria saber se você está bem — confessou ele. — Tive uma sensação muito estranha agora há pouco de que algo parecia errado. Teria ligado na hora, mas estava com um paciente.
— Algo errado? Não, está tudo bem.
O que eu estava fazendo? Jesse e eu estávamos noivos. O certo era sermos completamente sinceros um com o outro.
Mas eu não podia ser sincera com ele. Não quanto a um detalhe. Quero dizer, uma pessoa.
— Irmã E trouxe uma aluna que meio se machucou, só isso — falei. — O resto está tranquilo.
Não sinta que estou mentindo, não sinta que estou mentindo, não sinta que estou mentindo...
— Entendi — disse Jesse. — Bem, você sabe para onde pode trazê-la se for demais para você. Não que você não consiga lidar com bastante coisas, Suzannah.
Jesse sempre falou que meu apelido, Suze, é muito feio e diminuto para uma menina tão forte e bonita quanto eu. Com ele, sempre foi Suzannah, ou – mais tarde, quando nos conhecemos melhor – mi amada, que quer dizer meu amor ou minha querida. Ainda me arrepio quando ele fala isso, do mesmo jeito que me arrepio quando ele diz meu nome.
Verdade seja dita, tenho uma queda pelo rapaz. O que é bom, porque tenho toda a intenção de me casar com ele. Não quero saber quantas maldições egípcias vou precisar combater para isso.
— Acho que está tudo sob controle agora — falei. — Ligo mais tarde para conversarmos melhor.
— Vai ligar mesmo. Porque com certeza tem alguma coisa acontecendo que você não está me contando. Estou certo, Suzannah?
— Caramba, Jesse — falei com um tom leve, na tentativa de camuflar o fato de eu estar realmente incomodada por ele ter percebido minha mentira. — Você pode até ter deixado de ser um fantasma, mas com certeza ainda consegue sentir quando há um deles por perto. Como faz isso?
— Um fantasma? É só isso? Achei que pelo menos tivesse ganhado na loteria hoje.
— Há! Eu bem queria. Compraria aquela máquina de tomografia que você quer.
Eu sabia que ele estava apenas agindo como se não estivesse preocupado. Era protetor por natureza e, quando o assunto era o sobrenatural, era mais que apenas protetor. Era o que chamávamos na prática de aconselhamento de hipenigilante. Considerando tudo pelo que havia passado, no entanto, isso era natural.
— Então se cuida, sim, mi amada! A última coisa que quero é minha noiva chegando à emergência como paciente.
— Você sabe que isso jamais vai acontecer. Odeio médicos, lembra? Eles acham que sabem tudo.
— É porque na verdade a gente sabe tudo sim. Te quiero, mi amada.
Felizmente, ele desligou antes de fazer mais adivinhações extrassensoriais (ou de me fazer derreter de desejo do outro lado da linha).
Também desliguei. De jeito algum eu contaria a Jesse sobre a ameaça de Paul, muito menos sobre sua proposta. Isso só o deixaria com raiva.
Com raiva? Uma explosão nuclear aconteceria na cabeça dele.
E agora – apesar das afirmações contrárias de Paul – Jesse era um cidadão empregado, bem remunerado e bastante vivo.
Ao contrário de antes, se ele fosse pego agora tentando matar alguém, tínhamos muito a perder, como a residência e nosso casamento no ano seguinte na basílica da Missão Carmel. É verdade que os convites ainda não haviam sido enviados, mas a lista já contava com duzentos convidados, e o número não parava de crescer... Não havia ninguém da família do noivo, é claro, visto que todos os parentes de Jesse morreram no século anterior. Jesse fingia não se importar com isso, mas quem não se importaria?
Seria estranho ter de devolver todos aqueles depósitos porque o noivo foi indiciado por homicídio.
E quanto à bolsa para a qual Jesse estava concorrendo – a que ele usaria, caso a recebesse, para pagar grande parte dos empréstimos estudantis, e também para ajudar a financiar seu consultório depois que se formasse? (Contanto que concordasse em atender pacientes sem seguro e de baixa renda, algo que ele já vinha planejando fazer de qualquer maneira. Uma entre cinco famílias norte-americanas vive abaixo da linha da pobreza, mesmo em uma comunidade tão ostensiva quanto Carmel.)
As chances de Jesse conseguir essa bolsa dentre as centenas de candidatos seria outro milagre, no entanto, e eu não contava com ele.
Saí do escritório da Srta. Diaz e mostrei o kit de primeiros socorros para a menina que sangrava.
— Me deixe dar uma olhada.
— Não, não precisa — protestou Becca, se afastando de mim e segurando o braço. — Estou bem.
Ela parecia tão longe de estar bem que aquela afirmação foi quase hilária, embora ninguém risse. Além do sangue pingando no chão, havia marcas vermelhas na frente de seu uniforme – a escola havia retomado as regras quanto a uniformes depois de anos não tão severos (tentei não receber essa retomada do uniforme de maneira pessoal). Agora, todos os alunos tinham de vestir um suéter azul-marinho por cima de uma camisa branca, com calça cinza ou saia azul quadriculada. A menina usava a saia. Seus cabelos castanhos pareciam nunca ter visto um condicionador... ou uma escova. A pele parecia pálida e com um brilho não saudável, e o uniforme era um ou dois números maior que deveria. Usava óculos com aros que pareciam ter sido comprados no começo dos anos 2000, ou talvez fossem de segunda mão, da década de 1990.
Para usar o jargão de uma conselheira escolar profissional (em breve), aquela menina estava uma bela bagunça, sem mencionar a Pessoa Morta Não Obediente que se segurava em uma das dobras da saia azul quadriculada grande demais, deixando-a ainda mais torta.
Eu era a única pessoa na sala que conseguia ver isso, mas tenho certeza de que Becca conseguia sentir o peso extra. Ela provavelmente sofria de dores crônicas nas costas e no pescoço para as quais seu médico jamais conseguia achar uma causa.
Eu sabia a causa. Era um parasita fantasmagórico, e eu olhava diretamente para ele, vendo a expressão infeliz que provocava na receptora humana.
Mas aquela infelicidade também podia ser o resultado de Becca ter ferrado seu pulso de maneira muito feia, além de estar sendo rodeada pela irmã Ernestine, uma das maiores bisbilhoteiras da Califórnia.
— Você pode se sentar aqui, Becca — disse a irmã, e empurrou a menina sangrenta para uma cadeira de estilo missionário na frente de minha mesa. A cadeira, aliás, não foi feita apenas para parecer que tinha a ver com missões; ela provavelmente era do século XVIII, quando o padre Junípero Serra, um frade franciscano da Espanha, percorreu a costa da Califórnia, construindo missões freneticamente para que pudesse enfiar a palavra do Senhor goela abaixo dos nativos que havia capturado. A julgar pelo rangido dos móveis, eu não me espantaria se fossem todos do tempo do velho padre Serra. — Deixe a Srta. Simon botar um curativo nesses cortes. Vou ligar para seus pais.
— Não! — exclamou Becca, tentando pular da cadeira. — Já falei, irmã, estou bem! Isso é ridículo. Meu compasso escapuliu na aula de geometria, só isso. Não precisa ligar para meus pais. O Sr. Walden exagerou...
— O Sr. Walden? — Levantei uma das sobrancelhas em sinal de suspeita enquanto colocava uma luva de látex.
É completamente humilhante que, depois de quase seis anos de educação superior, o único lugar no estado inteiro da Califórnia onde consegui um emprego (e nem é pago) foi em minha antiga escola. Mas havia algumas vantagens. Pelo menos ali eu conseguia saber quando os alunos estavam mentindo bem na minha cara em relação aos professores.
— O Sr. Walden não exagera — argumentei. — Estudei com ele no começo e no final do ensino médio. Se ele diz que há um problema, é porque há um problema. Então me mostre o braço, por favor.
A menina olhou para mim através da armação de plástico marrom grande demais.
— Peraí — disse ela, registrando o nome que a freira havia usado para falar comigo. — Srta. Simon? Você é a Suze Simon? A que derrubou a cabeça da estátua do padre Serra no jardim?
Dei uma olhada rápida para a irmã Ernestine, que felizmente havia ido para seu escritório e já estava ao telefone, provavelmente com os pais da Becca.
— Não — respondi, olhando para Becca. — Nunca ouvi falar.
A menina falou mais baixo para que a freira não nos escutasse.
— É você, sim. Todo mundo conta que você derrubou a cabeça do padre Serra com as próprias mãos durante uma briga, e que precisou trabalhar aqui no escritório para ajudar a pagar o custo de soldarem a cabeça de volta. — Ela arregalou os olhos. — Ai, meu Deus. Você ainda precisa trabalhar aqui para pagar? Você não se formou há, sei lá, dez anos?
— Seis. Há seis anos. As pessoas acham que tenho quantos anos? Braço, por favor.
Com relutância, a menina estendeu o pulso, e eu tirei os lenços de papel da ferida... e suguei o ar quase com tanta força quanto ela, mas não pelo mesmo motivo. O sangue finalmente havia coagulado, e, quando eu removi os papéis, a pele se separou de novo, o que fez com que ela chorasse de dor.
Eu fiquei sem ar porque, agora que pude finalmente ver o machucado, soube que não foi o resultado de nenhum acidente, embora certamente tivesse sido causado por um instrumento afiado – talvez até mesmo um compasso, como ela havia contado.
Talhadas na pele branca da parte de trás do punho esquerdo estavam as letras vermelhas: IDIO
A pessoa – ou coisa – que fez aquilo havia parado antes de conseguir chegar no que achei que seriam as duas últimas letras, TA.
Idiota.
Alguém – ou alguma coisa – havia tentado talhar a palavra idiota no braço daquela menina.

3 comentários:

  1. perai tem alguma coisa errada pq o jesse sempre chamou a suze de mi hermosa☺☺
    primeira a comentar!!!
    ass: mary dampira

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  2. Prefiro a expressão mi hermosa do que mi amada

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  3. Verdade minha amiga, mas a autora, Meg Cabout, infelizmente fez essa mudança repentina desagradável,ninguém gostou, admito que achei uma plena chatice, pois " mi hermosa" era a marca registrada de Jesse é confesso que fico trocando no texto ashshjash
    Mas enfim temos que aceita neh? não fará diferença nos estressa por isso....
    2 a comentaar <3
    ass: MadDarkMoon

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