24 de setembro de 2016

Capítulo 35

Ah, meu Deus! Derek teria, de algum modo, descoberto que ela tinha beijado Lucas? Por acaso suas emoções a haviam traído a tal ponto? Kylie não sabia. E não queria perguntar. Assim, deitou-se na rocha e contemplou as árvores. O som da cachoeira próxima parecia vibrar entre os troncos. Lembrou-se da lenda por um segundo, mas a proximidade de Derek era algo bem mais intrigante em que pensar. Ficaram em silêncio. Derek aproximou o braço até que as costas de sua mão roçaram a dela. Esse breve toque fez todo o corpo de Kylie estremecer.
— Sua mãe vem amanhã? — perguntou ela.
— Sem dúvida. Ela nunca perde a oportunidade de me constranger.
Kylie sorriu, lembrando-se de como Derek tinha ficado envergonhado quando a mãe ajeitou o cabelo dele.
— Ela ama você.
— Ela me trata como se eu tivesse três anos — Derek fez uma pausa. — E seus pais, vão vir também?
— Vão — disse Kylie. — Pelo menos, foi o que prometeram — o pai já tinha mentido para ela uma vez. — Sabe que o mundo pode acabar caso os dois se encontrem por acaso na mesma sala?
— É isso que a deixou tão estressada?
— Em parte.
Derek estendeu o braço, segurou a mão dela e a apertou com carinho.
— Eu me preocupo com você. Não gosto de vê-la infeliz — apertou mais sua mão. Ele tinha prometido se comportar, mas talvez aquela carícia não significasse ousadia para ele.
Kylie não sabia muito bem o que significava. Só sabia que a agradava – era como um abraço. A palma de Derek estava quente, mas não muito; era apenas a palma de uma pessoa que toca outra.
— Eu também me preocupo com você.
— Que bom — disse Derek; e Kylie quase pôde ouvir o sorriso em sua voz. Depois de alguns minutos de silêncio, ele perguntou: — O fantasma é a outra parte daquilo que está preocupando você?
— É — sentindo-se segura ao lado de Derek, falou do sonho com o fantasma, que, na opinião dela, queria sua ajuda para se livrar da acusação de um crime que não tinha cometido.
Derek a ouviu pacientemente. Percebendo que praticamente só ela falava, Kylie perguntou:
— Ainda quer renunciar ao dom de se comunicar com os animais?
— Quero. Estou aprendendo a me desligar deles. Holiday garantiu que, se eu continuar assim, logo nem vou mais notá-los. Para ela, é claro, isso é muito ruim — fez uma pausa. — E você? Está disposta a aceitar seu dom?
O fato de Kylie demorar um pouco para responder o deixou um tanto surpreso.
— Esse dom me assusta — disse ela por fim. — Acho que não tenho coragem suficiente para cultivá-lo. Mas, desde o sonho, não consigo deixar de pensar no soldado. Na sua valentia. Quando voltou para salvar a mulher, ele sabia que o risco era enorme. Quero saber o nome dele para descobrir se ele foi acusado de um crime que não cometeu. Se foi, vou achar um meio de corrigir essa injustiça — fechou os olhos por um segundo. — Mas sabe o que é estranho?
— O quê? — os dedos de Derek se entrelaçaram nos seus.
— Toda vez que vejo esse soldado, parece que já o conheço de algum lugar.
— Talvez conheça mesmo.
— É, talvez — reconheceu Kylie. — Mas perguntei à minha mãe se algum parente nosso tinha servido no exército e ela disse que não.
Derek mudou de posição a seu lado.
— Holiday explicou por que um fantasma se apega a uma pessoa?
— Disse que isso acontece de várias maneiras. Eu posso ter passado por lugar onde o espírito estava. Ou então se trata de um caso pessoal.
Derek ergueu o braço para consultar o relógio.
— Detesto dar más notícias, mas nossa hora já se esgotou há trinta minutos.
— Más notícias, sem dúvida — Kylie fechou os olhos. — Derek?
— Sim.
— Obrigada.
— Pelo quê? — estranhou ele.
— Por tudo — virou-se e olhou para ele. Meu Deus, que vontade de beijá-lo! Seria capaz até de gritar por causa disso. E, pelo que notou nos olhos dele, não era a única com essa vontade.
Derek se aproximou alguns centímetros. Kylie sentiu sua respiração no canto de sua boca. Ele estava tão perto que ela podia contar seus cílios, não eram só os lábios que a atraíam.
— Kylie! — o modo como ele pronunciou seu nome quase a fez derreter.
— O que é? — murmurou ela.
— Você está tornando difícil manter minha promessa.
— Sinto muito — por um momento, quase se arriscou a beijá-lo. Quase. Mas, sabendo que isso não seria bom para nenhum dos dois, conteve-se.
Por enquanto.


Na manhã seguinte, Kylie, sentada ao lado da mãe, a viu consultar o relógio pela décima vez. Seria porque não tolerava ficar muito tempo com ela ou porque, com receio de ver seu pai aparecer a qualquer momento, tinha pressa em ir embora? Provavelmente, as duas coisas.
— Estou contente por ver que tudo vai indo bem por aqui — disse a mãe, ajeitando a blusa bege que não combinava nem um pouco com sua pele bronzeada e seu cabelo preto. Aquela cor apenas realçava os círculos negros em torno de seus olhos. — Suas amigas também são simpáticas — completou, olhando para Della que, junto com os pais, estava sentada na mesa logo à frente.
Kylie tinha apresentado Della e Miranda à mãe, quando ela chegou.
— O cabelo daquela garota é um pouco exagerado. Mas, se você me diz que ela é comportada, não usa drogas nem nada parecido, vou acreditar.
— É, ela é gente boa — garantiu Kylie.
Passaram-se alguns instantes de silêncio. Kylie calculou como seria viver sozinha com a mãe, com seus preconceitos e seus silêncios súbitos. Podia até sentir o frio pairando sobre a mesa. Mas não era o frio dos fantasmas.
Ou era?
Kylie passeou os olhos pelo recinto e o viu de pé num canto, olhando-a e derramando mais lágrimas de sangue. Sentiu um aperto no coração e desejou do fundo da alma saber o nome dele para poder ajudá-lo.
— Você tem certeza de que nenhum parente nosso foi militar? — perguntou Kylie de novo à mãe.
— Tenho, querida — olhou novamente para o relógio. — Sua líder de acampamento... Qual é mesmo o nome dela? Ah, Holiday. Ela também é muito simpática.
— É, sim — concordou Kylie. Trocou olhares com Holiday depois de apresentá-la à sua mãe, e a líder tinha acenado negativamente com a cabeça para dizer que ela não era sobrenatural.
— Bem, agora preciso ir — avisou a mãe. — Quer me acompanhar até o carro?
Kylie consultou o relógio na parede. A mãe estava se mandando trinta minutos antes. Era o bastante para um encontro de mãe e filha.
— Claro — Kylie se levantou. Passou por Della e Miranda, acompanhadas de seus pais, e percebeu que ninguém ali estava muito feliz. O papo naquela noite em volta da mesa, um verdadeiro ritual noturno, parecia mais uma sessão de lamúrias.
Kylie e a mãe foram para o estacionamento sem trocar uma palavra. Felizmente, o fantasma não se juntou a elas. Quando se voltou para a despedida final, a mãe estendeu a mão e apertou o braço de Kylie. Kylie sentiu uma pontada no coração ao se lembrar de que, no funeral avó, precisara muito de um abraço.
— Sabe, algumas mães abraçam os filhos — disse ela.
A mãe parecia perturbada.
— Quer que eu a abrace?
— Não — respondeu Kylie.
Quem quer um abraço que precisa ser pedido?
É o mesmo que implorar a alguém que se desculpe.
— Tchau, mãe — Kylie virou e voltou ao refeitório para esperar o pai. Não olhou para trás, embora soubesse que a mãe estaria acenando do carro em movimento e esperando que Kylie fizesse o mesmo. De agora em diante, a falta de abraço seria respondida com a falta de aceno.
Kylie quase não o reconheceu. Em primeiro lugar, onde estavam os fios de cabelo grisalhos nas têmporas? Em segundo, o cabelo não tinha mais, como antes, duas tonalidades diferentes. O corte também já não era à escovinha. Isso sem falar nas roupas que ele estava usando. Homens mais velhos não deviam nunca usar jeans tão justos.
— É ele? — perguntou Holiday.
Kylie gostaria muito de mentir e escapar pela porta dos fundos, mas seu pai já a tinha visto e vinha em sua direção.
— Ele é sobrenatural? — perguntou Kylie, tentando vencer o embaraço e olhando para Holiday, que franzia a testa.
— Não — e Holiday suspirou fundo. — Mas isso não quer dizer...
— Eu sei — interrompeu Kylie.
— Como está minha bonequinha? — o pai a envolveu num abraça apertado.
Kylie fechou os olhos e procurou esquecer a aparência dele para só concentrar na sensação reconfortante de estar aninhada em seus braços. As lágrimas brotaram e ela engoliu em seco, rezando para conseguir contê-las.
— Estou bem — murmurou Kylie, soltando-se dos braços do pai. Sua garganta ardia, mas as lágrimas não correram.
— Esta é uma de suas amigas? — perguntou ele, apontando para HoIiday.
Kylie olhou de relance o crachá de líder do acampamento no peito de Holiday e se perguntou se por acaso a tintura de cabelo não tinha prejudicado a visão do pai.
— Muito prazer — e Holiday lhe estendeu a mão. — Sou HoIiday Brandon, uma das líderes do acampamento.
— Está brincando comigo — disse o pai. — Você não deve ter muito mais que vinte anos. E não se parece em nada com as líderes de acampamento que tenho visto — abriu um largo sorriso e seus olhos percorreram as belas formas de Holiday.
— Não, não estou brincando — disse Holiday, recolhendo a mão.
Kylie olhou boquiaberta para aquele pai que fora sua fortaleza de todas as horas contra joelhos esfolados, rabugices da mãe e mesmo problemas com garotos. A realidade passou por cima dela como um caminhão de lixo. Seu pai estava flertando. Com Holiday. Holiday, que era... Bem, pelo menos quinze anos mais nova que ele.
— Que aconteceu com seus cabelos grisalhos, pai? — perguntou Kylie, em tom sarcástico.
O pai se virou para ela.
— Eu... Eu não sei.
— Bem, vou deixá-los a sós — interrompeu Holiday. Kylie podia jurar que um sorriso bailava nos olhos dela. — Para conversarem mais à vontade.
Ou não, pensou Kylie. Não conhecia aquele homem e não estava muito certa de querer conhecê-lo.
— Ele não era assim — disse Kylie cerca de uma hora depois, ainda lutando contra a vontade de chorar.
O pai tinha ficado com ela menos de uma hora. Holiday, aparentemente percebendo que Kylie não estava bem, a convidou para ir à cidade comprar suprimentos.
— O divórcio é difícil para as pessoas — disse Holiday. — Acredite no que estou dizendo, quando meus pais se divorciaram, ficaram totalmente abobalhados. Minha mãe chegou a pôr silicone nos seios e a pedir minhas roupas emprestadas.
— Como você sobreviveu? — perguntou Kylie.
— Sobrevivendo. E, é claro, toneladas de sorvete ajudam muito — Holiday sorriu ao entrar no estacionamento da sorveteria. — E então? Que tal esquecermos nossas preocupações com algo doce, cremoso e gelado?
Kylie concordou.
Holiday encaminhou-se para a porta.
— Faça como eu. Primeiro, experimente pelo menos cinco sabores; depois, peça uma taça com três bolas.
Kylie riu.
— Mas que preocupações você quer esquecer?
— Está brincando? Calcula quantas horas tive que passar com o Sr. vampiro Mau e Grandalhão?
— Burnett — disse Kylie, compreensiva. — Por que você não acaba com isso e diz sim?
— Sim? O quê? Nem morta. Ele é irritante, grosseiro e tão detestável quanto... Tentador.
— Então você está apaixonada, não está? — instigou Kylie.
Holiday apontou um dedo para ela.
— Continue com isso e não terá sorvete algum.
Enquanto tomavam seus sorvetes, de chocolate com menta a banana com chocolate, Kylie, estimulada pelo açúcar, deixou escapar uma pergunta que normalmente não faria.
— Como a gente sabe que está apaixonada?
Holiday lambeu sua colher sem deixar nela o mínimo vestígio do sorvete de caramelo.
— Você não faz perguntas fáceis, hein?
— Não — reconheceu Kylie, saboreando o seu sorvete de creme com pedaços de nozes.
Holiday olhou para sua taça.
— Acho que me apaixonei várias vezes. Algumas com o coração, a maioria com os hormônios.
A resposta de Holiday descrevia perfeitamente a situação de Kylie com Lucas e Derek. Kylie saboreou mais um bocado de sorvete.
— E nenhuma dessas paixões deu certo?
— Nenhuma. É esse o problema do amor. Ele caminha como um pato, grasna como um pato, cheira como um pato. Mas, depois que você dorme com ele por um mês, ou segue para o altar, passa a cheirar como um gambá.
Kylie, inclinando-se para Holiday, perguntou em voz baixa:
— É essa a sua maneira engenhosa de me aconselhar a não dormir com ninguém?
Holiday apontou a colher para Kylie.
— Não, é minha maneira engenhosa de te dizer que tome cuidado. Como dizia minha avó, só porque um cara toca seu sininho, não significa que você deva tocar a corneta dele.
As duas riram muito.
Holiday mexeu seu sorvete.
— Se eu pudesse voltar atrás, não dormiria com três rapazes com quem dormi. Mas voltar atrás é impossível. E tem as lembranças. Más lembranças, tatuadas em minha mente — encostou a colher na testa. — Elas não saem nem com laser.
Kylie concordou. Tinha também suas lembranças ruins, de que não podia se livrar. Quando terminaram de tomar o sorvete, foram a uma livraria nas proximidades. Kylie descobriu, numa estante, um livro intitulado Como Vencer a Dislexia. Folheou-o, perguntando a si mesma se por acaso Miranda não o conhecia.
Foi até o balcão e perguntou se havia outros que tratassem do mesmo assunto. A vendedora a levou a uma seção só de livros sobre deficiências. Kylie escolheu mais três sobre o tema e pagou. Deixando Holiday na livraria, Kylie saiu para a rua principal da cidadezinha. Um lugar antiquado. Lojas de antiguidades, armazéns e até uma confeitaria – o tipo de lugar aonde os pais a levavam quando criança.
Cruzou com um casal de mãos dadas e procurou lembrar se, num daqueles passeios, seu pai e sua mãe haviam agido como se gostassem um do outro. Nunca os vira de mãos dadas. Quando saíam, era cada um por si. O pai jogava golfe; a mãe fazia compras.
Kylie já se aproximava da van de Holiday quando avistou outro casal saindo do hotel local. Trocavam beijos. Não beijos rápidos, com os lábios se roçando de leve, mas beijos de língua, ardentes, excitados. Os beijos logo desandaram em carícias mais ousadas. Vão para o quarto, pensou Kylie. Os dois pareciam não perceber que estavam num lugar público. Talvez nem ligassem para isso. Ah, mas certo ou errado, Kylie não conseguia desviar os olhos.
Principalmente porque a sineta de alarme tinha começado a tocar em seu cérebro.
Havia algo de familiar naquele casal. Kylie viu a mão da mulher deslizar para dentro da calça jeans do homem. Ficou perplexa. Aquilo era vulgar. Mas mesmo assim, agora oculta por trás da picape, Kylie não tirava os olhos da cena. Quando por fim as bocas se desgrudaram e o homem se virou, Kylie o reconheceu.
Agarrou-se à porta da picape, os joelhos subitamente moles como geleia.
— Ah, meu Deus!

5 comentários:

  1. Lucas ou Trey....Dúvida cruel haushaushuah

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  2. Que não seja o pai dela. Que...bizarro!

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  3. Holiday apontou a colher para Kylie.
    — Não, é minha maneira engenhosa de te dizer que tome cuidado. Como dizia minha avó, só porque um cara toca seu sininho, não significa que você deva tocar a corneta dele.kkkkkkkkkk epica

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  4. quem será esse casal em? acho que é o pai dela...
    como dizia a minha avó só porque um cara toca seu sininho não significa que você deva tocar na corneta dele... morri de rir💃💃
    ass: Mary Hathaway

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