18 de setembro de 2016

Capítulo 35

Jamais achei que ficaria tão feliz em ver minha Land Rover de quase 20 anos.
É claro que foi a pessoa encostada no veículo que fez meu coração bater mais forte.
Os dedos dele estavam nos bolsos da frente do jeans justo, os cabelos negros meio bagunçados por causa do vento do mar. Estava totalmente alheio a minha aproximação (as solas de minhas botas de luta, as segundas melhores, eram de borracha). Parecia hipnotizado pela visão do mar.
Ou talvez estivesse tirando um cochilo por trás das lentes escuras dos óculos. Afinal, foi uma noite longa.
— Como você ficou sabendo que eu estava aqui? — perguntei, depois de estacionar atrás dele e sair da BMW.
Jesse virou a cabeça e me deu um daqueles sorrisos lentos e sonolentos que eu passei a amar tanto.
— Um aplicativo — disse ele. — Jack instalou um sistema de rastreamento em todos os carros dele, caso sejam roubados.
— Ah. — Fiquei ligeiramente decepcionada. — Achei que você estivesse me seguindo por meio de nossa tão forte conexão mente-corpo-espírito.
— Bem, isso também.
Eu me juntei a ele na lateral do carro. A vista era impressionante. O mar estava de um azul-escuro intenso, o céu sem nuvem alguma, como prometeu a previsão do tempo. Gaivotas faziam círculos acima de nós, seus berros perdidos na batida das ondas. De vez em quando, um carro passava com visitantes babando tanto por causa do mar quanto por causa das casas caras na 17-Mile Drive.
— Então foi você agora há pouco, e não Lucia, que veio dar tchau para Becca? — perguntei.
— Talvez eu tenha ajudado Lucia a dar um adeus decente a Becca. — Ele não tirou os dedos dos bolsos, mas estávamos próximos o suficiente um do outro, com as costas no carro, para sentirmos como se estivéssemos nos tocando.
— Mentira — falei. — Era só você. Eu reconheceria seu toque romântico em qualquer lugar. Além disso, o cheiro de cigarro entregou você.
— Eu não fumo.
— Não mais, mesmo.
O sorriso dele fez com que alguma coisa se contorcesse dentro de mim.
— Você está certa, não mesmo.
Por muito tempo, suspeitei de que havia uma corrente elétrica entre nós dois. Sempre esteve ali, mesmo quando ele era uma PMNO e não queria admitir que amava uma menina viva cujo trabalho era livrar o mundo de pessoas como ele. Desde que o coração dele voltou a bater, essa corrente ficou cada vez mais forte. Quando estávamos longe um do outro, ela se esticava. Eu me perguntei se havia alguma coisa que pudesse rompê-la de verdade. Até a morte, pelo visto, não conseguira.
— Então Paul não estava completamente errado — continuei. — Tem algum resquício de túmulo dentro de você. Mas não acho que seja escuridão. Na verdade, acho que é luz.
Jesse soltou um palavrão de uma forma nada angelical e saiu de perto do carro para pegar uma pedra e jogá-la nas ondas.
— Por que até mesmo em um dia lindo como esse você precisa falar sobre ele?
— Porque se a gente não falar sobre isso, eu nunca vou entender, Jesse. E eu quero. Eu realmente quero, de verdade.
— Por quê? Por que é tão importante? Por que não pode simplesmente deixar para lá?
— Bem, primeiro porque você quase o matou ontem à noite.
— Quem me dera.
— Se tivesse matado, não estaria nesta praia comigo agora, Jogando pedras no mar. Ainda estaria preso em algum lugar.
— Mas não estou, mi amada.
— Certo. Não está. Em vez disso, você pode dar, e pelo visto receber, mensagens do mundo espiritual. Não me leve a mal, eu também faço isso, mas não da forma que você faz. Eu falo com fantasmas, mas não todos os fantasmas, e não o tempo todo. E não consigo fazer mágicas como a que você fez lá em cima, é meio assustador que meu namorado, um médico sensato, consiga fazer um show de luzes com a mente. Se bem que você era uma assombração, então talvez eu não devesse estar tão surpresa.
— Se não me incomoda, não devia incomodar você — disse ele, e voltou a se encostar no carro ao meu lado. — Mas seria bom se confiasse em mim o suficiente para compartilhar seus segredinhos de vez em quando. E se você checasse o celular também.
— Eu? E você? Foi você que não quis me ver depois de sair da cadeia.
— Porque eu queria fazer uma surpresa para você, contar uma coisa que eu não sabia até ser solto e receber meu telefone de volta da polícia. Mas eu queria fazer direito, pessoalmente, depois de ter tomado banho e tirado o cheiro não muito romântico da prisão do corpo. Então, por favor, cheque seu celular.
— Se você quer ver minha reação, então por que não...
— Suzannah, eu amo você, mas você é a mulher mais frustrante do mundo. Uma vez na vida, não discuta. Só faça o que estou pedindo.
Abri a bolsa e peguei o celular. Eu havia recebido várias mensagens de texto, a maioria de colegas de turma preocupados com minha ausência no happy hour daqueles últimos dias. Mas uma mensagem em particular chamou minha atenção.

Jesse
Me dieron la beca.
Nov 19 1:10 PM

— Não faço ideia do que isso significa — falei.
Ele ponderou.
— Talvez você tenha um bloqueio mental que impede pessoas, normalmente inteligentes, de aprender novas línguas — sugeriu ele.
— Não, porque eu sei falar francês. Se esta mensagem estivesse em francês...
— Tudo bem, amada. Você é boa em várias outras coisas. E pelo menos é bonita.
— Eu juro que vou te matar. Me diz logo o que é. Qual é a surpresa?
— Se eu contar, não vai ser surpresa. — Ele estava se divertindo. Isso ficou claro quando ele sorriu e foi para o lado do carona na Land Rover. Era a revanche dele por eu não ter contado sobre Paul. — Aliás, preciso admitir: quando fui pegar essa sua tragédia em forma de carro, dei uma passada no seu apartamento. Isto estava do lado de fora da porta. Entrega ao sábado? Deve ser importante. — Ele pegou dois pacotes do assento da frente.
— Sério — falei, olhando para a mensagem. — Beca significa bacon? Se você está me chamando para tomar café da manhã, a resposta é sim, apesar de já ser hora de almoçar, porque meu café da manhã foi uma decepção hoje.
— Bacon é beicon — falou ele. — Aqui, abra os pacotes.
— A gente devia sair daqui — falei. — Kelly não ficou exatamente feliz em me ver, e nem Debbie, a princípio, mas acho que consegui dobrá-la.
Dei uma olhada nos pacotes – ambos para a Srta. Suzannah Simon. Um era grande com aviso de prioridade, envio em um dia, e o outro era embalado em plástico bolha e tinha o carimbo “Entregue em Mãos”; endereço para retorno, “Propriedades Slater”.
Parecia que havia alguma coisa pequena e pontuda no interior – como uma chave.
Olhei para Jesse, chocada.
— Não — falei quase sem acreditar. — Já?
Ele deu de ombros novamente.
— Um de nós deve ser bem persuasivo.
— Ou intimidador — falei, rasgando o envelope.
E, como era de se esperar, havia um molho de chaves lá dentro, presas em um chaveirinho de plástico no qual estava estrito “Pine Crest Road, 99”. Havia também diversos documentos exigindo minha assinatura autenticada. Um deles era uma ação que constava meu nome como proprietária da casa.
Por fim, havia um bilhete incrivelmente curto de Paul, um rabisco em sua letra execrável, em um papel do Carmel lnn.

Suze,
Aqui estão os itens que requisitou.
Não importa o quanto você me odeie – ou com quem se case? – sempre estarei aqui.
Você sabe como entrar em contato se precisar.
Você é uma adversária digna, Simon.
Acho que é por isso que eu sempre amei você, e sempre vou amar.
Paul

Jesse ficou ao meu lado, lendo o bilhete. Não vi nenhum motivo para não deixá-lo ler, visto que eu não fazia ideia de que conteria coisas como aqueles sentimentos.
Assim que li as últimas linhas, comecei a ficar corada.
Fiz menção de fazer uma bola de papel com ele, mas Jesse me impediu e o tirou de minha mão.
— Não, por quê? — perguntei, tentando pegar o bilhete de volta. — Ele é tão... — As palavras que usei para descrever Paul não eram palavras que a Srta. Boyd jamais teria usado, muito menos escutado; nem mesmo em sua viagem memorável de Boston para o Oeste, que deve ter sido difícil.
Jesse, balançando a cabeça, colocou o bilhete no bolso de trás da calça.
— É bom ter coisas desse tipo à mão — disse, sem emoção. — Nunca se sabe quando vai servir para alguma coisa.
— Ah, e você me acusa de ser possuída por um lado obscuro? — falei. — Se a surpresa era essa, não foi muito boa. Eu já sabia que ele ia mandar isso.
— A surpresa não era essa. Você ainda não está se esforçando o suficiente. Podemos ir?
— Ir aonde? Tomar café da manhã?
— Não. Inspecionar nossa nova casa.
Meu coração pulou. Abracei o pescoço dele.
— Nossa nova casa? Sério, Jesse? Você realmente não se importa de morar lá?
— Pelo visto, morar lá é meu destino. Mas uma coisa que não vou fazer, Suzannah, é dormir no quarto onde eu morri.
Meu quarto. O melhor quarto da casa, com uma janela panorâmica gigante (e um banco que meu padrasto Andy fez com todo carinho para mim) através da qual, em dias claros, era possível ver a baía de Carmel, e um banheiro particular onde Jesse fez curativo no meu pé um dia. Foi a primeira vez que ele admitiu que gostaria de virar médico, mas o pai precisava demais dele no rancho e nunca deixou.
Agora, todos os sonhos de Jesse estavam se tornando realidade.
Talvez os meus também.
— Foi isso que eu vim falar para você.
Tive de me lembrar do que Lucia falou quando eu disse que ia ficar tudo bem.
— Talvez devêssemos esperar para ver o que a imobiliária fez com o quarto enquanto estavam decorando a casa para vender — falei evasivamente. — Duvido que tenham mantido aquele papel de parede cheio de bem-me-queres e aquelas cortinas com babados que mamãe escolheu. Talvez o tenham transformado em um espaço de artesanato, que nem o da Debbie.
Jesse balançou as chaves do carro na minha frente.
— Vamos lá descobrir. Não se esqueça do outro pacote.
Olhei para o envelope de entrega urgente.
— É minha surpresa?
Ele revirou os olhos por trás dos óculos.
— Não.
Trocamos de carros. Era bom voltar para a Land Rover, apesar da viagem da Casa di Walters até Carmel Hills não ter sido curta, ainda mais no último sábado de sol antes do dia de Ação de Graças. O trânsito estava terrível, e, apesar de não haver sinais de trânsito, eu tive várias outras paradas forçadas – a maioria por causa de turistas – o que me deu a chance de examinar o pacote que Jesse deixou no assento do passageiro.
Eu não reconheci o nome da remetente – era uma mulher no Arizona – mas abri mesmo assim. Fiquei chocada quando vi o conteúdo: Minhas botas. As botas plataformas de couro que eu havia perdido no leilão on-line dias antes. As botas perfeitas para brigar com pessoas mortas não obedientes.
Como aquilo era possível? Eu perdi o leilão quando Lucia destruiu meu escritório. Não consegui submeter minha aposta final, muito menos digitar meu nome e minhas informações para pagamento. Maximillian28 foi mais rápida e roubou as botas de mim.
Havia um bilhete preso na caixa, mas eu não tinha como pegar o papel e ler (estava tentando ser uma boa motorista). Só consegui quando parei na frente da minha casa – da nossa casa.
Assim que estacionei, peguei o bilhete. Era feito no computador, como um cartão digital. O vendedor havia mandado as botas para mim em nome da compradora. A compradora era Maximillian28, do vale de Carmel, Califórnia, o que não fez sentido algum... até que li o bilhete.

Suzannah,
Vi essas botas e pensei em você. Elas se parecem muito com as que você perdeu. Espero que sejam mesmo.
Te quiero.
Jesse

Jesse? Jesse era Maximillian28?
Foi só então que me lembrei do dia que o arrastei pelo shopping de Monterey, procurando, sem sucesso, por aquele exato par de botas depois que as minhas foram destruídas e que meu tamanho estava esgotado em todas as lojas. Ele me acompanhou corajosamente, apontando, de vez em quando, que havia dezenas de outras botas plataforma de couro preto nas prateleiras. Não revirou os olhos nem uma vez quando descrevi como as outras tinham design tosco e não eram a mesma coisa. Ele prestou atenção, e acabou que era Maximillian28 (batizada segundo o cachorro dos Ackerman e a idade de Jesse – se contássemos apenas os anos em que seu corpo físico estava vivo). Óbvio. Ele faria qualquer coisa para me deixar feliz... qualquer coisa em seu poder, o que, sem ter herdado milhões da família – porque todos morreram havia mais de um século – era comprar as botas impossíveis que eu queria.
E salvar minha vida, várias e várias vezes.
Eu ainda estava gargalhando – ou algo parecido – quando Jesse estacionou atrás de mim na Pine Crest Road, 99.
— Ah — falou ao se inclinar para ver por que eu ainda estava no carro. — Você abriu o pacote. São essas mesmo?
— Exatamente essas — respondi.
— Você está chorando? — Ele ficou chocado.
— Não. É alergia. Meu Deus, eu amo você.
— Você tem uma maneira bem estranha de demonstrar de vez em quando. — Ele abriu a porta do carro para mim. — Vem, vamos dar uma olhada nesse lugar. Não posso dizer que a fachada é promissora. Arruinaram o jardim de sua mãe.
Era verdade. O jardim íngreme que dava na grande casa vitoriana ainda abrigava as flores que minha mãe havia plantado, mas elas haviam sido esmagadas pelas botas descuidadas dos operários que vi na frente da casa um dia antes.
E essa não era a única mudança no local. O tronco do pinheiro do qual eu me lembrava tão bem – porque ficava ao lado do telhado da varanda, e era o que eu usava para escapar do quarto ou de várias assombrações assassinas – estava crescendo perigosamente perto da fundação da casa.
— Estou vendo que Slater não perdeu tempo e já colocou as outras casas do quarteirão no mercado. — Jesse apontou.
Havia dois homens com sobretudos martelando placas no jardim dianteiro de nossos antigos vizinhos. Agora, em vez de um aviso dizendo que as casas estavam programadas para ser demolidas, as placas diziam:

VENDE-SE
PROPRIEDADES SLATER
CARMEL HILLS EXCLUSIVO
PREÇOS ACESSÍVEIS

A única casa que não tinha placa na frente era a minha.
— Ah, que bom — falei. — Vamos ter novos vizinhos. — Não mencionei meu pensamento seguinte em voz alta: que esperava não ter de mediar parentes falecidos não obedientes que esses vizinhos possam trazer consigo. Isso era sempre um problema. — Peraí, vou experimentar.
Tirei meu segundo melhor par de botas e coloquei as novas. Couberam perfeitamente, e é claro que ficaram lindas. Os saltos eram sexy e me davam bastante altura, ao mesmo tempo em que eram confortáveis. Quando saí do canto e me levantei, meus olhos estavam quase no mesmo nível dos de Jesse.
— Ah — disse ele com um sorrisinho de lado —, agora eu me lembro por que você gostava tanto delas.
— Não é? — Eu não precisei ficar nas pontas dos pés para beijá-lo, apenas inclinar a cabeça. Sua boca estava com gosto de menta. Eu não sabia o que mais ele fizera desde que saiu da cadeia, mas tinha se cuidado direitinho. Segurei a mão dele. — Obrigada. Agora vamos lá ver o lugar onde vamos criar nossas próprias crias demoníacas.

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