30 de setembro de 2016

Capítulo 34

Lutando contra o impulso de voltar para o corpo, Kylie deu uma guinada no ar e voltou pelo mesmo caminho pelo qual tinha vindo. A velocidade a impedia de respirar.
Alguém chamou seu nome. Não era Lucas. Era o velho vampiro.
As nuvens estavam mais espessas. Lucas não estava do outro lado da parede de fumaça? Ela se sentiu sendo puxada para trás. Estava prestes a acordar.
— Lucas, estou no sistema de túneis de Houston. Embaixo do edifício da Toyota. Pode me ouvir?
— O que está fazendo? — rugiu a voz rouca e sombria.
Kylie abriu os olhos. O velho vampiro a encarava. Ela se lembrou de que não podia mentir.
— Estava sonhando.
— Que tipo de sonho? Eu senti a energia.
— Um sonho perturbador. Eu... costumava ter terrores noturnos quando era mais jovem. — Não havia mentira ali.
Ele pareceu resignado a acreditar nela, mas continuou cheio de suspeitas. Mas havia alguma coisa de que suspeitar? Será que Lucas a ouvira?
— Tenho alguns velhos amigos interessados em conhecê-la. Para o seu próprio bem, espero que se comporte.
— Quem são eles? E por que querem me conhecer?
— Acho, Kylie Galen, que você é mais especial do que pensa.
— Como assim? Especial?
Ele não respondeu.
— Se me disser que não vai tentar escapar, afrouxo as correntes.
A ideia de se libertar das argolas de metal foi um grande alívio. As palavras estavam na ponta da língua, mas ela teria que mentir.
— Nós dois sabemos que, se houver um jeito de escapar, eu vou tentar. A sua parte é garantir que não haja.
Ele riu:
— Aprecio a sua sinceridade.
— Ela basta para me soltar?
— Não exatamente — ele disse.
Ela fitou os olhos acinzentados dele.
— Não vejo como eu poderia escapar daqui. A menos que acredite que eu tenha força para vencer você quando a porta estiver aberta. E como não posso quebrar as correntes, você está dizendo que os seus poderes são menores que este metal?
Ele a estudou.
— Você é muito inteligente, garota. Será que é tão ardilosa quanto inteligente?
— Se eu fosse tão ardilosa e inteligente, estaria aqui?
— Vamos chegar a um acordo. — Ele fechou os olhos e as argolas de metal em torno dos braços dela e de um dos tornozelos desapareceram. Seu tornozelo direito estava agora preso a uma corrente longa e pesada.
Chocada com a capacidade dele, ela o fitou.
— O que você é?
Ele sorriu.
— Veja, eu já estou conquistando seu respeito.
— Você está confundindo curiosidade com respeito.
Os olhos dele se estreitaram, mas um leve sorriso se revelou por trás da raiva.
— O que você é? — ela perguntou outra vez.
Ele cruzou os braços flácidos sobre o peito.
— Qual o problema, minha cara? As semelhanças a assustam? — Ao dizer isso, ele desapareceu no ar.
— O que quis dizer? — ela gritou e levantou-se para ver até onde conseguia ir com a corrente presa ao tornozelo.
Não longe o bastante.
Kylie tentou voltar a dormir, para entrar no sonho de Lucas outra vez, mas não conseguiu. Ela só podia torcer para que ele tivesse ouvido a mensagem e já tivesse ligado para Burnett, para que viessem salvá-la. Quanto tempo levariam para chegar?
Mas e se não viessem? E se a mensagem não tivesse chegado até ele? Ela tentou se libertar da corrente, mas sua força não foi suficiente. O que havia acontecido com sua força? Por que ela era intermitente?
Kylie começou a andar de um lado para o outro, arrastando atrás de si a corrente. Não conseguia chegar à espessa porta, mas aquilo não fazia nenhuma diferença, pois, ao desaparecer, o vampiro tinha feito a maçaneta desaparecer também. Abri-la seria impossível. Ainda andando pelo cômodo, tentava achar um jeito de sair dali, com a ajuda de Burnett ou não. Ela olhou novamente para a porta sem maçaneta. O que será que esse vampiro era? E o que queria dizer com aquela história de semelhanças?
A corrente se chocava contra o chão de concreto. Ela se lembrou de que não tinha telefonado para a mãe antes de sair da casa de Sara, e esperou que ela não estivesse preocupada. Ao dar meia-volta, marchando em direção à outra parede dessa vez, Kylie ficou surpresa ao ouvir vozes. Estaria o velho de volta com seus amigos? Ela parou de andar e ouviu.
Não era a voz do vampiro mais velho, mas do neto. Ah, mas que ótimo. Estaria planejando outra visitinha? Seu corpo ficou tenso e ela olhou em volta, procurando qualquer coisa que pudesse usar como arma. Antes que seus olhos percorressem o cômodo, a voz do vampiro soou mais clara.
— Quem é você e o que está fazendo aqui, nos espionando?
De onde vinham as vozes? Ela hesitou e chegou mais perto da parede.
De repente, ouviu um baque alto, como se algo pesado fosse atirado para o outro lado do cômodo.
Algo ou alguém?
Seu coração parou. Ela chegou ainda mais perto da parede, tentando descobrir se as vozes vinham de detrás dela. Outro ruído ecoou e ela quase adivinhou o que era.
— Você vai me dizer! — o vampiro sibilou.
O medo revirou suas entranhas. Com quem o vampiro estava falando? Será que... era alguém que tinha vindo procurá-la? Seus pensamentos e seu coração voaram para Lucas.
— Me solte e lute como um homem! — rugiu a voz de Lucas.
O peito dela se expandiu de alívio. Ela tinha pedido ajuda a ele e...
— Por quê? Você só luta como o cão que é... — Um outro golpe se seguiu e Kylie concluiu que Lucas tinha tomado um soco.
Seus músculos se retesaram. Uma onda de energia percorreu seu corpo. Ela agarrou a corrente com uma mão e arrancou-a do concreto. Então, virando-se para a parede, arremeteu contra ela e golpeou-a com o ombro. Só um segundo antes de se chocar contra ela, lhe ocorreu que aquilo podia doer.
Por mais estranho que fosse, ela não sentiu nada. Pedaços de concreto desabaram em torno dela. Ela tirou fragmentos do rosto e então, percebendo que estava do outro lado da parede, olhou através da nuvem de poeira. Lucas estava caído de lado, ainda acorrentado à cadeira, assim como ela estivera momentos antes. Ela viu seu rosto ensanguentado e os olhos fechados, como se estivesse inconsciente.
Ou morto.
Ela ofegou, cheia de fúria, e olhou em volta, à procura do vampiro. Quando o viu, o choque no rosto dele não a surpreendeu. Ela investiu contra ele, mas justo quando ia pôr as mãos no ordinário, ele desapareceu.
— Então você não é tão indefesa assim. — A voz do velho vampiro ressoou em torno do cômodo, embora ela não pudesse vê-lo. A parede de concreto atrás dela voltou a ficar intacta e ela percebeu que parecia mais espessa dessa vez.
— O que você é? — ela sibilou, sabendo que nenhum vampiro comum conseguiria reconstruir uma parede daquele jeito.
— Eu não perguntei a você a mesma coisa? — ele respondeu.
Ela correu para Lucas. Ao pousar a mão em seu peito, percebeu que ele estava vivo. Ela arrancou as correntes e jogou-as ao lado dele. Um cascalho do chão voou em seu rosto.
Lembrando-se de que ela possivelmente tinha o dom da cura, impôs as mãos sobre ele e, como tinha feito com Sara, pressionou as mãos nos dois lados da cabeça de Lucas.
— Fale comigo, Lucas. Por favor. — A lembrança dele salvando-a de seus agressores na infância e de ambos olhando o céu em busca de elefantes a deixou com lágrimas nos olhos. — Por favor, fique bem...
Ela tentou pensar de modo positivo, imaginar as próprias mãos enviando uma onda de calor ao corpo dele. Ela não sabia se era daquele jeito que o seu dom funcionava, mas pelo bem de Lucas e de Sara, rezou para que fosse. Seu coração se encheu de esperança quando o inchaço no rosto dele desapareceu.
— Agora fale comigo — ela sussurrou, se inclinando na direção dele.
Os olhos de Lucas se abriram, o pânico marcou sua expressão e ele fechou o punho para desferir um soco.
Ela tentou segurá-lo, mas sua força já tinha desaparecido.
Fez o possível para se desviar do soco, evitando que atingisse seu rosto. Em vez disso, ele atingiu seu ombro. Ela sentiu uma explosão de dor, quando o golpe a atirou para longe.
— Cristo! — ele gritou, ficando de pé. — Me desculpe! — Ele correu até ela e a aconchegou em seu peito. — Você está bem?
Ela assentiu. Ainda bem que ele não era um vampiro, pois ela não pode mentir. Seu ombro latejava como um dente cariado.
— Vou cair — ela conseguiu dizer ao sentir uma fraqueza nas pernas.
Ele a sustentou, mas os joelhos dela se dobraram e ele teve que segurá-la.
— Me desculpe.
Ela olhou seus olhos azuis.
— Tudo bem. — Ele não teve a intenção de atingi-la. — Acho que não quebrou. Você conseguiu falar com... — Ela parou de falar, lembrando-se de que o vampiro mais velho provavelmente os estava ouvindo. — Burnett? — Ela pronunciou sem fazer nenhum som e olhou para ele com ar de interrogação.
Ele assentiu e ela rezou para que ele tivesse lido seus lábios corretamente e Burnett de fato estivesse a caminho com a UPF.
Seu ombro latejava. As pernas tremiam. Ela se encostou à parede e foi escorregando até se sentar no chão frio de concreto. Lucas se sentou ao lado dela. Ela tremia e ele deve ter sentido, porque passou o braço pelos ombros dela. Sentindo o calor que exalava do corpo dele, ela se inclinou para mais perto e tentou absorver a sensação de calidez.
— Você é tão quente! — ela disse.
— Já era hora de você notar — ele brincou.
Ela teria sorrido se não estivesse tão exausta. Apesar da dor, se sentia segura.
— É coisa de lobisomem — ele disse. — A temperatura do nosso corpo é mais alta.
— Que horas são?
— Já passa da meia-noite.
Ela se lembrou da mãe, que deveria estar em pânico naquele momento. Então, se sentindo esgotada até para pensar, fechou os olhos e se encostou no peito dele, com cuidado para não mexer o ombro.
Ele a deitou no colo dele. Seu calor a envolvendo. Ela o sentiu acariciando seu cabelo.
— Tem alguma coisa presa no seu cabelo — ele disse.
— Deve ser concreto, da hora em que eu... atravessei a parede.
— Que parede?
Ela se lembrou de que ele estava inconsciente. Será que nem sabia que ela o havia curado?
— Aquela — ela mostrou com a cabeça. — Mas o vampiro a reconstruiu.
— Acho que bati em você com mais força do que pensava...
Ela não tinha forças para argumentar.
— Estou tão cansada...
— Descanse. — Ele a puxou para mais perto. — Falta pouco — ele sussurrou.
Será que ele estava dizendo que faltava pouco para tudo aquilo acabar? Deus, ela esperava que sim.
— Kylie, está na hora.
As palavras de Lucas a acordaram algum tempo depois.
Ela o sentiu se levantando num pulo com ela nos braços e ficou instantaneamente alerta. Um barulho alto vinha de detrás da parede e, num salto, ele ficou rente à parede dos fundos, longe do barulho. Antes que ela tivesse tempo para insistir que Lucas a pusesse no chão, a parede da frente foi abaixo e Burnett, na companhia de vários outros agentes da UPF, entrou no cômodo sob uma chuva de concreto.
Burnett correu na frente.
— Está tudo bem?
— Tudo bem — disse ela, constrangida por estar no colo de Lucas como uma criança. — Me coloque no chão.
— O ombro dela — disse Lucas. — Acho que está quebrado. Culpa minha. Eu... o quebrei acidentalmente.
— Eu estou bem. — Ela tentou mexer o ombro para provar que estava bem, mas estremeceu.
— Eles estão aqui! — alguém gritou do saguão, no andar de baixo.
Lucas, Burnett e outros homens correram através do buraco onde antes havia uma parede. Ela ficou ali sozinha em meio à nuvem de poeira que a correria tinha provocado. Sentindo-se inútil, começou a segui-los, esperando que sua força voltasse, mas bastou dar um passo para sentir uma rajada de vento passar por ela.
O jovem vampiro de olhos malignos estava parado ao lado dela e, antes que Kylie pudesse gritar, ele a tinha nos braços. Esquecendo-se do ombro machucado, ela lutou. A dor no ombro era insuportável, mas ela continuou se debatendo. No entanto, a força dele era maior e a dela, tinha desaparecido.
— Não! — O rugido grave da voz de Lucas encheu seus ouvidos. — Põe ela no chão! — Lucas gritou.
— Ela é minha! — o vampiro grunhiu.
— Só sob o meu cadáver! — Lucas rugiu, seus olhos adquirindo um tom alaranjado.
— O prazer é todo meu — o vampiro rugiu de volta, os olhos cinzentos agora em brasa.
Percebendo a oportunidade, Kylie golpeou a garganta do vampiro com a palma da mão. Ele a soltou, deixando-a cair num baque, enquanto Lucas o atacava. O barulho de socos encheu o cômodo. Horrorizada, ela viu Lucas ser arremessado para o outro lado da sala. Nesse momento, viu sua própria força voltando, mas, antes que conseguisse ficar de pé, Lucas já tinha se recuperado e apertava a garganta do vampiro. Os sons guturais que ele emitia deu a Kylie a certeza de que Lucas o estava sufocando.
— Largue-o! — A voz do velho vampiro ressoou no ambiente, deixando o ar mais pesado. — Largue-o ou ela morre.
Embora Kylie não estivesse vendo ninguém, ela sentiu uma mão em volta da garganta. Ela enfiou as unhas na mão invisível que a sufocava e tentou encher os pulmões de ar. Inútil.
Ela viu Lucas se virar para ela. Pontos pretos começaram a toldar sua visão e, quando tudo ficou escuro, viu Lucas largar o vampiro mais jovem, que então desapareceu. Sem vento, sem ar. Obviamente, a magia do velho o fizera desaparecer.
Ainda lutando para respirar, Kylie sentiu os joelhos cedendo. Mas Lucas a sustentou.
Burnett de repente apareceu ao seu lado.
— Ele voltou para buscá-la — disse Lucas.
— Precisamos levá-la daqui — disse Burnett, pegando-a nos braços. — A UPF vai atrás deles.
— Vou com eles — disse Lucas.
— Não — disse Kylie, forçando as palavras pela garganta machucada. Mas ela não estava mais na sala. Burnett acomodou-a melhor no colo e enterrou o rosto dela contra o seu peito, nem de longe tão quente e confortável quanto aquele em que ela se apoiara para dormir.
Quando fizeram uma pausa, do lado de fora de um grande prédio, Kylie levantou a cabeça.
— Onde estamos? — Ela tocou o pescoço.
— Numa clínica — ele disse, colocando a mão no pescoço dela para ver estava machucado.
— Eu estou bem. Me põe no chão.
— Ainda não. Você pode estar bem, mas Holiday vai me matar se eu não levá-la a um médico.
Ela se lembrou de Lucas.
— Você precisa impedir Lucas de ir atrás dos vampiros...
— Eu não poderia impedi-lo — ele disse. — Os lobisomens são teimosos demais. Mas Lucas sabe cuidar de si mesmo.
— Ele foi capturado — ela disse.
— Só para conseguir entrar no prédio e encontrar você.
A constatação a atingiu em cheio.
— Ele podia ter morrido!
— Mas não morreu. — As luzes se acenderam no prédio e Burnett entrou.
Kylie leu a placa na porta quando ele a carregou para dentro: “Proteja os seus animais de estimação dos parasitas”.
— Ei, espere, está me levando a um veterinário? — Kylie olhou em volta, para o pequeno consultório cheio de fotos de animais nas paredes, e sentiu cheiro de cachorro.
— Veterinário e médico sobrenatural — ele disse.
Um homem saiu de uma sala nos fundos.
— Aqui dentro — ele os orientou.
Burnett apresentou-a ao dr. Whitman enquanto a carregava para a sala.
Um imenso gato amarelo os seguiu. Quando Burnett colocou-a na mesa de exames, o gato pulou ao lado dela.
— Eu estou bem — ela disse a Burnett e ao dr. Whitman.
— O ombro dela — disse Burnett — e o pescoço.
Quando o médico estendeu o braço para tocar o ombro de Kylie, ela se encolheu.
— Foi só um arranhão. — Ela olhou para Burnett. — Quero ir pra casa da minha mãe. Uma hora dessas ela provavelmente já está na delegacia.
Burnett pegou o telefone e foi até o canto da sala. Enquanto isso, o dr. Whitman moveu o ombro de Kylie e observou-a com atenção. Kylie se encolheu um pouco, mas ela sabia que não estava quebrado. Ele franziu as sobrancelhas quando olhou para a testa dela.
— O que você é?
— Não sei — ela respondeu e analisou as ondas cerebrais dele.
Ele era meio fae. O gato passou por Kylie e se esfregou na perna do médico. Ela suspeitou de que ele pudesse se comunicar com os animais, como Derek fazia. Ao pensar nele, lembrou-se de quanto sentia sua falta, mas procurou afastar o pensamento.
— Bem, a garota está certa. Não está quebrado — disse o médico quando Burnett voltou.
— Como eu disse... — Kylie não resistiu em dizer. — Agora, pode por gentileza me levar pra casa da minha mãe?
— Obrigado — disse Burnett para o dr. Whitman, fazendo sinal para que ele esperasse do lado de fora. Quando estavam a sós, Burnett se virou para Kylie. — Vou levá-la de volta pra casa. Mas primeiro preciso saber o que aconteceu esta noite.
Kylie contou tudo de que se lembrava, desde a hora em que o vampiro se chocou contra o carro dela até a hora em que Burnett irrompeu contra as paredes de concreto. Ela contou que o vampiro que tinha assassinado as garotas em Fallen era o neto do vampiro do Conselho dos Vampiros. E contou também que eram os vampiros que estavam espionando o acampamento durante todo o verão. As revelações de Kylie deixaram os olhos de Burnett brilhantes e cheios de fúria.
— Só não entendi por que ele queria que eu me casasse com o neto dele — ela comentou quando acabou de contar tudo.
Burnett deu de ombros.
— No passado, nossos avós é que escolhiam nossos parceiros.
— Mesmo que o “parceiro em questão” não estivesse a fim?
— Receio que sim. — A expressão de Burnett se encheu de remorso. — Você estava certa, Kylie. Tudo tinha a ver com você. Eu devia ter ouvido o que me disse. Não vou cometer esse erro outra vez.
Ela assentiu, sentindo o quanto era difícil para ele admitir que havia cometido um erro.
— O velho era muito estranho. Seu padrão cerebral era o de um vampiro, mas ele era mais do que isso.
— Eu conheço o homem de que está falando. Eu o encontrei durante uma das minhas visitas ao Conselho. Ele é vampiro, mas, você tem razão, é muito estranho.
— Ele é mais do que um vampiro — disse Kylie. — Colocou a parede de pé depois que eu a derrubei.
— Talvez tivesse a ajuda de outra pessoa com poderes.
— Acho que é mais do que isso.
— Pode ser — ele disse, mas Kylie não tinha certeza de que ele tinha concordado. — Tudo bem, vou levar você pra casa. E vou colocar alguém para vigiar sua casa, assim ficará mais segura.
Ele a pegou outra vez no colo.
— Segure-se.
Desta vez ela sabia que era melhor enterrar a cabeça no peito dele.
Em segundos, Burnett a deixou em frente à casa dela.
— O que eu vou dizer à minha mãe? — ela perguntou.
— Não sei. Nunca fui muito bom com pais... mas seja criativa.
— Você não ajudou muito. — Ela mordeu o lábio. — Ai, não, meu carro!
— Nós o achamos quando estávamos procurando você. Alguém consertará o vidro e o trará aqui para você amanhã bem cedo.
— Obrigada.
Ele acenou com a cabeça.
— Estou satisfeito que esteja bem, Kylie. Vamos repassar tudo outra vez amanhã à noite, quando estiver de volta ao acampamento. E ligue para Holiday assim que puder. Ela não vai dormir enquanto não falar com você.
Kylie se aproximou dele e o abraçou. Ele não parecia preparado para a demonstração de afeto.
— Obrigada.
— De nada — ele respondeu, obviamente desconfortável tanto com o agradecimento quanto com o abraço.
Ela olhou para a escuridão em volta. O silêncio não a assustava, porque ela sabia que Burnett era quem o causava.
— Vou colocar dois homens para vigiar a casa — ele disse, ao interpretar mal a expressão dela.
— Acredito em você.
Ela o observou se afastar. Então se dirigiu à porta da sua casa. Quando percebeu que estava sem as chaves, procurou as chaves extras que sua mãe deixava dentro de uma imitação de plástico de fezes de cachorro, atrás das azaleias.
Ela mal abriu a porta quando viu a mãe correndo até ela e envolvendo-a nos braços.
— Graças a Deus! Eu estava quase ligando pra polícia. Onde você estava, mocinha?
Ao abraçá-la, a mãe comprimiu seu ombro e ela quase perdeu o fôlego.
Afastando-se e tentando disfarçar a dor na voz, ela respondeu:
— Esqueci de ligar. E então... fiquei tão chateada por causa de Sara que precisava pensar.
Lágrimas inundaram os olhos da mãe.
— Ah, querida, sinto muito. Acabou a força. Eu caí no sono no sofá enquanto esperava você voltar pra casa. Acordei há quinze minutos e, quando percebi que você não estava, liguei para a casa de Sara. A mãe dela disse que você já tinha saído, mas ela não sabia a que horas.
Por sorte, a mãe de Sara já tinha ido para a cama quando Kylie foi embora, e não sabia dizer quando Kylie tinha partido.
— Está tudo bem.
— Eu não ouvi o motor do carro — disse a mãe.
Pense rápido.
— Parei na rua. — Ela esperava que Burnett cumprisse a promessa e o carro estivesse de volta de manhã bem cedo.
Kylie fingiu um bocejo.
— Sabe, mãe, não vejo a hora de cair na cama — ela disse, esperando poder ir para o quarto e ligar para Holiday. Mas teria que usar o telefone de casa, porque o celular tinha ficado no carro.
— Tudo bem, conversamos sobre Sara amanhã.
É isso aí, pensou Kylie. Ela também precisava falar sobre a matrícula na escola de Shadow Falls. Mas se preocuparia com isso mais tarde. Disparou para o quarto e discou o número de Holiday.
— Você tem notícias de Lucas? — ela perguntou, quando a líder do acampamento atendeu.
— Tenho. Ele está bem. Mas, primeiro ouça, as pessoas responsáveis por raptá-la não foram pegas. Mas Burnett está de olho em você, não se preocupe.
— Eu sei.
— Você está bem? Gostaria de poder estar ao seu lado para poder acalmá-la.
— Estou bem — ela mentiu.
— Se você fechar os olhos e imaginar a cachoeira, isso vai ajudar a aliviar o pânico.
— Farei isso — disse Kylie, e dessa vez ela não estava mentindo.


No domingo de manhã, o toque do telefone acordou Kylie quase às dez horas. Ela se sentou na cama, pegou o telefone e olhou em volta, esperando ver o fantasma. Afinal, durante um mês o fantasma era a primeira coisa que ela via todo dia de manhã, e claro que sentia falta dele.
Ao apertar o botão, ela se lembrou da conversa com Holiday na noite anterior. Tinha funcionado; imaginar a cachoeira fez com que o sentimento de pânico diminuísse.
— Alô — atendeu Kylie.
— Você está bem? — As vozes de Della e Miranda explodiram ao mesmo tempo na linha.
— Estou. — Kylie se reclinou no travesseiro. — Como vocês descobriram?
— Quando vimos que passou a noite toda sem atender a droga do telefone, ligamos para Holiday — explicou Della.
— Conte tudo! — exigiu Miranda.
Kylie contou uma versão abreviada e prometeu que contaria os detalhes depois. Então perguntou do final de semana delas. Miranda gemeu e choramingou por causa da competição, mas no final contou que tinha ficado em segundo lugar.
— E a piranha da Tabitha ficou em quarto — disse Miranda com orgulho.
— E você, Della? — perguntou Kylie.
— O que isso lhe diz? — ela perguntou apertando a descarga do banheiro.
— Que grosseria! — reclamou Miranda.
— Acho que meus pais estão chocados ao ver que nenhum exame deu positivo ainda.
Depois de alguns minutos de conversa, elas se despediram. Lembrando-se do carro, Kylie pulou da cama e olhou pela janela. Burnett tinha cumprido a palavra. Ele estava estacionado na rua em frente à casa, parecendo novo.
Se tudo na vida dela pudesse ser consertado com a mesma facilidade...
— Já está de pé?! — surpreendeu-se a mãe quando Kylie saiu do quarto alguns minutos depois. A mãe tinha uma toalha na cabeça e usava um roupão de banho, como se tivesse acabado de sair do banho.
— Me dê um minuto e já faço seu café da manhã.
Trinta minutos depois, Kylie estava comendo panquecas e ovos com a mãe. Elas conversaram sobre muitas coisas, mas principalmente sobre Sara. A mãe de Kylie lhe contou que a mãe de Sara tinha ligado para ter certeza de que Kylie chegara bem em casa.
A mãe pegou o prato vazio de Kylie e o colocou dentro da pia.
— A mãe de Sara disse também que ela acordou se sentindo bem melhor hoje. Elas vão ao médico amanhã para conversar sobre as opções de tratamento. Espero que dê tudo certo.
Kylie ficou de pé e ajudou a tirar a mesa.
— Ela não vai precisar de tratamento — uma voz sussurrou atrás de Kylie. — Você conseguiu.
A temperatura da cozinha tinha baixado mais de dez graus.
— Juro, faz um mês que o ar-condicionado está dando problema... — A mãe estremeceu e foi verificar o termostato.
Kylie se perguntou se o ar-condicionado da mãe estava mesmo com defeito ou se era Daniel quem estava causando o frio.
Kylie se virou e viu o espírito da avó de Sara. Ela parecia jovem e saudável. Linda. Kylie suspeitou de que Sara teria a aparência dela quando tivesse trinta e poucos anos.
— Obrigada. Eu sabia que você era capaz.
— Você não precisa me agradecer. Ela é minha amiga.
— Disse alguma coisa? — perguntou a mãe da porta da cozinha.
O fantasma sorriu e desapareceu.
— Sim. Eu disse que precisamos conversar sobre a escola.
Kylie se aproximou e lhe deu um grande abraço, sentindo uma agulhada de dor no ombro. Quando se afastou, simplesmente despejou as palavras antes que perdesse a coragem.
— Eu sei que é difícil pra você. Sei que me ama. Mas eu preciso disso agora. Realmente preciso.
A mãe acariciou o rosto de Kylie, enquanto as lágrimas toldavam sua visão.
Depois respirou fundo.
E soltou o ar.
— Meu amor, me desculpe. Mas eu simplesmente não posso deixar você ir.

2 comentários:

  1. Tia... tu tá me assustando! Olha... se você estiver fazendo favores para a Confraria eu vou dar na tua cara! E não vou me importar de descer do salto não!

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  2. Ela tem o poder da cura kkkk ameiiiiiiiiiii

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