18 de setembro de 2016

Capítulo 34

— Quem está aqui? — Kelly apareceu do outro lado da cozinha a céu aberto, carregando a bandeja com a jarra de limonada e a revista. — Sou eu. Qual é o problema de vocês duas?
As luzes sumiram tão repentinamente quanto apareceram, o vento morreu, e a superfície da piscina ficou calma. Acima de nós, as folhas das palmeiras pararam de se mover, e o único som que podia ser ouvido era o das ondas do Pacífico e do gelo na jarra conforme Kelly se aproximava.
Mas dava para ver no sorriso feliz preso ao rosto de Becca que aquele pequeno segundo de contato quente e ensolarado foi o suficiente. Ela se lembraria daquilo para o resto da vida.
— Problema nenhum — disse Becca para Kelly, ainda sorrindo. — A gente estava falando sobre uma amiga minha. Não é, Srta. Simon?
— É — falei, pegando minha bolsa rapidamente e me levantando. O cheiro característico de Jesse sumiu, e eu só podia sentir o do oceano e o do cloro da piscina dos Walters. Onde ele estava? Por perto, era claro. — Uma boa amiga. Bem, foi bom visitar você, Becca, mas agora eu preciso ir.
— Mesmo? — perguntou Becca, decepcionada. — Não pode ficar para o almoço?
— Não, ela não pode — disse Kelly. Colocou a bandeja com a limonada exatamente no lugar onde eu sentara, na espreguiçadeira, a fim de garantir que eu não voltasse a me acomodar, depois se sentou na espreguiçadeira ao lado. — Debbie está aqui. Tenho certeza de que você vai querer dar tchau para ela quando estiver saindo.
— Debbie? — Levei um segundo para entender de quem ela estava falando.
— Sim, sua cunhada? — Kelly me deu uma olhada de nojo. — Você deve se lembrar dela. Nós duas vamos levar Becca ao shopping para comprar um vestido novo e fazer as unhas porque ela tem uma festa hoje à noite. Não é, Becca?
Becca olhou para a madrasta.
— É. Quero dizer, tenho uma festa. Não sabia que a Sra. Ackerman estava vindo...
— Bem, ela está aqui. Mas antes vamos almoçar na varanda. Eu convidaria a Srta. Simon, mas Paolo não preparou salmão para tanta gente. Tenho certeza de que Susan entende.
— Ah, claro. — Eu já estava me virando para ir embora, grata pelo aviso. Debbie era a última pessoa que eu queria encontrar, ainda mais se Jesse estivesse por perto. — Vejo vocês depois.
— Tchau, Srta. Simon! — despediu-se Becca. — E obrigada!
Dei adeus por cima do ombro e desci as escadas rapidamente até a rampa dos carros, sem nem olhar para trás.
Eu tinha certeza de que Debbie entraria pela casa, não pelo jardim. Não havia possibilidade de eu me encontrar com ela e ter de jogar conversa fora. Felizmente, eu estava com a BMW de Jake, então talvez ela nem reconhecesse o carro estacionado; pelo menos não com a mesma rapidez com que reconheceria minha Land Rover ferrada, sobre a qual ela e o pai reclamavam constantemente. Por que eu não deixava que o Rei das Mercedes me vendesse uma linda E-Class sedan? As parcelas começavam em apenas 579,00 dólares por mês.
Dei uma olhada por cima do portão de segurança que conectava a piscina ao jardim amplo da frente da casa. Ele descia até uma grossa parede de pedras, que dava na 17-Mile Drive e, depois, no mar.
Definitivamente havia uma pessoa do sexo masculino encostada em um carro perto da praia, do outro lado da rua, na frente das colunas de pedra que ornavam a entrada da Casa di Walters.
Não dava para ver quem era daquela distância, mas o carro eu reconheci de cara. Era uma Land Rover. Minha Land Rover. Meu coração pulou no peito.
As escadas que ligavam a piscina à entrada da casa eram bem íngremes e faziam um pouco de ziguezague; eu estava descendo meio rápido, então nem vi que tinha alguém subindo as mesmas escadas. Só percebi quando quase trombei com ele – ou com ela, na verdade.
— Jesus! — berrou Debbie. — Cuidado! Ei, Suze. O que você está fazendo aqui?
— Ah, oi. — Debbie usava um longo vestido amarelo e carregava uma grande bolsa de praia turquesa e um chapéu. Estava linda e, a julgar pela expressão metida no rosto, sabia disso. — Foi mal, não vi você. Eu estava só... vim ver o pai de Becca por causa de algumas questões da escola.
— Nossa. — O tom de Debbie foi seco. — Pelo visto a Academia da Missão oferece serviços especiais para alguns alunos, os que têm pais que fazem doações vultosas. Se meu pai liberasse uma doação de cem mil, minhas meninas teriam visitas especiais em casa também?
— Eu fiz uma visita às meninas esta semana, Debbie, lembra? E não precisou de doação de cem mil.
— Ah, tá. — Ela riu com escárnio. — Essa visita foi para uma aula sua. Não finja que foi porque você ou o resto da escola se importa com elas.
Eu segurei-a pelo braço antes que pudesse passar por mim e continuar a subir.
— Na verdade, Debbie, eu me importo muito com suas filhas.
Eu estava ansiosa para chegar até Jesse, mas sabia que precisava lidar com aquele probleminha primeiro. Era outra bagunça de Paul que eu senti a obrigação de limpar.
— O teste que eu fiz em sua casa mostrou que suas filhas são dotadas; incrivelmente dotadas, Debbie. E eu queria saber se você se interessaria em matriculá-las num programa novo sobre o qual ouvi falar em minha faculdade.
Debbie parou de tentar subir as escadas e abaixou os óculos para me olhar por cima da armação dourada, intrigada. Não havia nada que os pais gostassem mais de ouvir que a palavra dotado, ainda mais se aplicada aos filhos.
— É bastante exclusivo e bem caro — continuei rapidamente. Debbie teve de se inclinar para mais perto por causa do barulho das ondas. — Mas acho que consigo uma bolsa para as meninas, então sairia de graça.
Deus me dê forças caso um dia ela descubra que o programa era eu.
O interesse de Debbie aumentou visivelmente depois da outra palavra mágica.
— De graça? Tem certeza?
Fiz que sim com a cabeça.
— Certeza.
— Que teste foi esse que mostrou que as meninas são dotadas? Quero dizer, eu e o pai sempre achamos que elas eram dotadas, mas a irmã Monica e aquela vaca da irmã Ernestine parecem achar o oposto.
— O pai delas? Brad? — Observei a reação dela com cuidado.
— É claro que estou falando de Brad, Suze. — Ela tirou os óculos e franziu os olhos diante do sol forte. — De quem mais eu estaria falando? Qual é seu problema, hein? Tem experimentado os produtos de Jake? Devia ficar longe daquele negócio, ainda mais se vai dirigir.
Ela não estava blefando. Debbie realmente acreditava que Brad era o pai das filhas dela e que eu, como sempre, era a pessoa com problemas.
E quem era eu para questionar essa certeza? Não era melhor para todo mundo se ela – e Brad – continuassem acreditando naquilo? Era o que eu achava, pelo menos por enquanto. Um passo de cada vez. Um segredo de cada vez.
— É um teste novo — falei, dando de ombros. — Às vezes as crianças altamente criativas e inteligentes podem ser um desafio, ainda mais para educadores que já estão atolados com tantos outros alunos. Mas acho que esse programa pode ajudar muito as meninas. É depois da escola.
— Nossa. — Ela sorriu e recolocou os óculos. Quando sorria, Debbie até parecia uma boa pessoa. — Acho a ideia muito boa, Suze. Sabe, eu tenho pensado em voltar a estudar. Mas tem sido tão difícil, com as meninas e tudo mais.
— Bem — falei com um sorriso — talvez agora você tenha tempo. Só tem um probleminha.
O sorriso desapareceu.
— Qual é?
— Para que as meninas possam ganhar a bolsa, você precisa de um certificado mostrando que elas tomaram pelo menos as primeiras vacinas. Esse programa não permite exceções nem médicas, nem religiosas para imunização. É alguma coisa a ver com o controle de contaminação em recém-nascidos e em pessoas com sistema imunológico baixo, ou algo assim.
Debbie fez uma careta.
— Ah. Isso.
— É. Isso. Sinto muito mesmo. Mas não acho que seja uma condição tão ruim, ainda mais levando em consideração que você vai ter de vaciná-las de qualquer maneira, a não ser que esteja planejando tirar as duas da Academia da Missão e se responsabilizar pela educação das três em casa.
Ela estava olhando para o mar quando soltei a bomba com C. Ela virou a cabeça para mim.
— Casa? Não. Não, acho que não. Vou ter de falar com Brad. — Mexeu na bolsa para achar o celular. — Mas acho que ele vai concordar. Manter as meninas na Academia e colocar elas nesse curso para dotados me parece a melhor opção. Ai, não, olha a hora. Preciso me mexer. Kelly contratou um chef particular, e ele fez salmão. — Ela levantou a barra do vestido longo e começou a subir os degraus. — Obrigada, Suze, por toda a ajuda. E, aliás, acho que vi Jesse esperando por você lá na praia.
— Sim — respondi com um sorriso. — Você viu, sim.

3 comentários:

  1. Ai que susto, senhor! Achei que ele tivesse morrido! O.o

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    1. Por um instante pensei o mesmo!!!

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  2. 2!! Meu coração parou na hora!

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