30 de setembro de 2016

Capítulo 33

O coração de Kylie quase parou quando ela viu o corpo bater contra o para-brisa. Ela afundou o pé no breque. Ai, Deus. Devia ter atropelado alguém. Então viu um rosto olhando para ela através do para-brisa. O vampiro que tinha matado as meninas em Fallen. Mas como? A gangue não tinha “cuidado” dele?
Ela acelerou e depois virou o volante abruptamente, na esperança de atirar fora o vampiro do capô. Não funcionou. Agarrado ao carro como uma aranha, ele aos poucos foi escalando o capô, depois sorriu e socou o vidro com o punho. O para-brisa se estilhaçou e pedaços de vidro voaram para todos os lados. Ela gritou e pisou mais fundo no acelerador. Ele estendeu o braço na direção dela, pegou-a pelo pescoço e apertou. Ela não conseguia respirar. Nem se mover. Fogos de artifício explodiam diante dos seus olhos. Seu último pensamento foi Sara. Ela tinha esperança de que a amiga se curasse. Pelo menos uma delas tinha que sobreviver.


Quando Kylie acordou, estava sentada numa cadeira dura e fria de madeira. A cabeça e a garganta latejavam. Ela ouviu o som de metal contra metal. Correntes?
Abriu bem os olhos, mas não viu nada. Estava cercada da mais profunda escuridão.
Ao arrastar os pés, ouviu as correntes chocalhando de novo. Percebendo que estava presa pelos pulsos e tornozelos com argolas de metal, sua mente começou a racionalizar. Seus braços e pernas estavam presos a algum tipo de corrente de metal. Ela tentou se libertar para testar sua teoria.
De fato eram correntes.
Ela detestou estar certa. A lembrança do vampiro voltou à sua mente.
Ela reprimiu um grito na garganta.
Piscou e esperou ver alguma coisa, mas só a escuridão invadiu seus sentidos. Ela respirou fundo. Um cheiro de pó e concreto encheu suas narinas.
Uma leve inspiração chegou aos seus ouvidos.
— Tem alguém aí? — Nenhuma resposta. — Sei que tem alguém aí.
Testando sua força, ela puxou as correntes. Mal conseguiu se mexer.
— Então os boatos a respeito da sua força não passam mesmo de boatos. — Uma áspera voz masculina ecoou na escuridão.
— Me solte! — Dominada pelo pânico, ela lutou contra as correntes que a prendiam, mas não conseguiu se libertar.
— Você não deve resistir, Kylie. Vai gastar energia à toa. Guarde suas forças para pensar. Para fazer sábias escolhas.
Forçando-se a se acalmar, ela ouviu. A voz ecoava no ambiente, mas ela não a reconheceu. Lembrou-se do vampiro que tinha se chocado contra o para-brisa do carro. O pânico apertou sua garganta seca. Ela tentou lembrar que voz era aquela. Podia ouvi-la na sua cabeça, mas não parecia a mesma. Ou era?
— De que escolhas está falando? — ela perguntou.
— Temos muito que conversar. — Definitivamente não era o vampiro nem era a voz que tinha ouvido antes. Parecia mais rouca, mais... envelhecida.
A maneira como a voz ecoou no cômodo deu a Kylie a impressão de que estava num túnel.
— Onde estou? Quem é você? — Ela teria que perguntar o que queria saber, mas estava apavorada demais para saber.
Era preciso admitir, quando se está acorrentado numa sala escura feito breu, geralmente ninguém vem servir chá com bolinhos.
O único barulho que ela ouvia era o som da própria respiração e as respirações mais curtas e superficiais do homem de voz rouca. Ela se lembrou das visões do fantasma e se perguntou se não as tinha interpretado mal. Seria Kylie a pessoa que seria torturada?
Respirando fundo, lutou mais uma vez contra as correntes. Não conseguia se libertar. Onde estava sua força?
— Sobre o que temos que conversar? — ela perguntou.
A luz acendeu com um brilho ofuscante. Ela piscou e, quando suas pálpebras se abriram pela segunda vez, ela o viu. Usava uma estranha túnica, como um monge. Sua pele era enrugada e tinha a textura de couro. Ela franziu as sobrancelhas e viu seu padrão cerebral. Como suspeitava, era um vampiro.
Um velho e estranhíssimo vampiro, como Tabitha, a concorrente de Miranda, tinha descrito. Os instintos de Kylie tinham tentado avisá-la de que não deveria ignorar a bruxinha. Ela esperava que esse erro não fosse fatal e definitivo.
— Você estava me vigiando.
— Seus instintos são bem afiados. — Ele chegou mais perto, assustadoramente perto. Seus olhos eram frios e acinzentados. De um cinza mortiço. — Você mantém sua mente fechada de propósito? — ele perguntou.
Ela refletiu sobre o quanto devia contar a ele ou se deveria contar alguma coisa. Mas, se ele achasse que ela estava bloqueando seus padrões de propósito, podia ficar furioso. E ela tinha que se lembrar de que não adiantava mentir para um vampiro.
— Eu não sei como abri-la.
O som do metal arranhando o concreto encheu o ambiente. Kylie olhou atrás do velho vampiro, para a porta que estava se abrindo. Seu coração parou e sua garganta se apertou quando ela se lembrou da mão do recém-chegado apertando sua garganta e sufocando-a.
— Eu disse pra esperar! — o velho resmungou.
— Mas vô, estou ansioso para ver minha nova noiva. — O vampiro se aproximou.
Noiva? Kylie puxou as correntes com toda força, repelindo a ideia de ser noiva daquela criatura.
— Saia agora! — rugiu o velho. Sua voz podia ser rouca e envelhecida, mas o tom exigia obediência. Obediência absoluta.
O vampiro parou a dois passos dela. Seu cabelo ruivo não estava empapado de sangue desta vez, mas ela ainda podia vê-lo em sua mente. Soube, desde o momento em que olhou nos seus olhos frios e cinzentos, que era o mesmo vampiro que a tinha espiado no vestiário da loja – e que tinha se chocado contra o para-brisa do seu carro.
— Ela é tão bonitinha! Não me obrigue a ficar afastado dela por muito tempo.
O vampiro saiu da sala. O som de uma porta de ferro batendo ecoou através do cômodo.
Kylie olhou para o velho.
— Ele matou duas meninas.
— É. — O velho tombou a cabeça, como se estivesse envergonhado. — Meu neto comete muitos erros. Mas ele vai ficar mais esperto.
— O Conselho dos Vampiros deveria... — Kylie se lembrou de algo que Della tinha dito sobre o Conselho, sobre serem todos velhos e, de repente, ela soube. — Você faz parte do Conselho. Você mentiu pra eles.
O velho a encarou.
— Eu não menti. Disse que ia cuidar de tudo. Você é parte do meu plano.
— Ele me sequestrou. — Será que ela conseguiria fazer o velho soltá-la e deixá-la ir?
— Por ordem minha.
Ela não devia ter tanta esperança.
O vampiro chegou mais perto, envolto em sua aura de poder.
— Na minha época, quando nossos jovens agiam, só uma coisa conseguia acalmá-los. Uma mulher forte, bela, que lhes desse motivo para se acalmar.
— Ele não pode ser salvo. — O pulso de Kylie acelerou quando o velho chegou mais perto.
— Ele está fora de controle agora, mas você o fascina. Você tem ideia de quantas horas ele passou nos bosques daquele acampamento, correndo o risco de ser pego, só para ter a chance de vê-la?
Ela estremeceu de ódio, sabendo que tinha sido ele todas as vezes.
— Eu estava curioso para saber quem tinha roubado o coração do meu neto e, então, eu o segui. Depois que vi você, pude entender o que o seduziu. Você é de fato fascinante. — Ele se inclinou, o rosto a centímetros do dela. O hálito do vampiro atingiu seu rosto e ela ficou com nojo de dividir o mesmo ar com ele. — O que você é, Kylie Galen? Você pelo menos sabe? Há sangue vampiro nas suas veias?
— Ele é um assassino. Eu prefiro morrer a deixar que encoste um dedo em mim.
O velho arqueou uma sobrancelha.
— A morte é sempre uma opção. Não que eu recomende, porém.
O pânico começou a comprimir seu peito novamente.
— Eu vi você bebendo sangue. — O toque frio do vampiro no seu braço fez a pele dela arrepiar. — Mas você ainda é quente. Vi aquele lobo estranho querendo ser seu amigo, mas você não se transformou no dia da lua. Normalmente, eu buscaria uma vampira para acasalar com meu neto, mas você... ele está certo. Você é especial.
Ela lutou contra as correntes.
— Me solte!
— Você quer uma família, Kylie Galen. Podemos ser uma família pra você. Você geraria meus bisnetos e com meus genes e os seus eles seriam mais poderosos ainda. E você ensinaria meu neto a ser um homem.
— Nem pensar — Kylie disse, com desprezo.
— Nós vamos convencer você.
— Não me deixo convencer facilmente. E se o seu neto não é um homem, talvez seja porque não tenha um bom exemplo.
Os olhos do velho se apertaram.
— Sou tolerante, mas exijo respeito.
— Respeito é algo que é preciso conquistar. — Essa era uma das frases preferidas da mãe dela e nunca parecera tão verdadeira quanto agora.
Ele balançou a cabeça.
— No nosso mundo, merece respeito quem tem mais poder. No momento, minha doce criança, todo o poder está nas minhas mãos.
Sem aviso, o vampiro simplesmente desapareceu. Sumiu. Kylie não viu nem seu borrão ao se afastar. O que ele era? Ela se lembrou de Tabitha, a bruxa que Miranda pegou espionando sua cabana, dizendo que ele era mais do que um vampiro, e Kylie temeu que a garota estivesse certa.
Ele podia ter poder, Kylie pensou, mas mesmo assim ela não o respeitava. E, Deus do céu, ela não ia gerar os bisnetos dele!
Ela forçou as correntes outra vez, buscando força dentro dela para se libertar. Mas a força não veio. Pensou em gritar, mas a sua intuição lhe dizia que seria perda de tempo. Ela precisava pensar. Precisava usar o cérebro para sair dali.
Ela chamou Daniel. Ele não apareceu. Será que os anjos da morte ou quem quer que habitasse a cachoeira não viriam ajudá-la?
Ela fechou os olhos e pediu ajuda. Implorou, na verdade. A ideia de ser tocada por aquele vampiro lhe deu certeza de que não hesitaria em implorar.
Nos recônditos da sua mente, uma voz sussurrou: “Você tem a força dentro de você”.
— Pelo amor de Deus, isso está mais parecendo um filme de Guerra nas Estrelas. — Quando ela só ouviu o silêncio como resposta, continuou. — Agora não é hora de autodescobertas. — Ela lutou contra as correntes outra vez, constatando que sua força estava meio fraca. Lutou até sentir os pulsos e tornozelos doloridos. — Ele me quer para gerar seus bisnetos. Eu preciso de uma ajuda para sair daqui!
Tentando se lembrar de respirar, ficou imaginando de que poder os anjos da morte estavam falando. Ela falava com fantasmas, era veloz na corrida e de vez em quando descobria em si força suficiente para atirar longe até lobisomens. E ela tinha uma superaudição intermitente. Também havia a possibilidade de que tivesse o dom da cura – pelo bem de Sara, ela esperava que de fato tivesse – e era capaz de invadir os sonhos de outras pessoas.
Ela podia invadir o sonho de alguém! Isso não era tão bom quanto ter um celular? Se conseguisse entrar em contato com Lucas, ele avisaria Burnett. Burnett a tiraria dali. Ele faria isso. Poria toda a UPF atrás daquele vampiro filho da mãe.
Ela contou carneirinhos. Cem, depois duzentos. Qualquer barulho e às vezes a falta de barulho a mantinham acordada. Seus olhos estavam cansados. Ela estava cada vez mais exausta. Por fim, a sensação de flutuar tomou conta do seu subconsciente. Então ela flutuou por entre as nuvens. E o viu.
— Você veio — Lucas se sentou na sua imensa cama de casal. Ele exibia um sorriso sexy e o peito nu. Não que agora ela estivesse em condições de reparar nessas coisas.
— O vampiro me sequestrou. Avise Burnett. — Ela falou rápido, com medo de acordar.
— O quê?
— Você me ouviu.
— Onde você está?
— Não sei. Num túnel. Há muito concreto. Portas de ferro, também.
Ele olhou para ela em pânico.
— Tenho que saber onde você está.
— Eu estava inconsciente quando eles me trouxeram para cá.
— Eles?
— O avô do vampiro. Ele é do Conselho dos Vampiros.
Lucas passou as duas mãos pelos cabelos escuros.
— Escute, Kylie. No sonho lúcido, você pode voar. Então agora vai voltar para o seu corpo, mas lentamente. Olhe para baixo e procure pontos de referência. Depois volte para cá e me diga onde você está. Tenho que saber onde está, do contrário não posso ajudá-la.
— E se eu não conseguir voltar? E se acordar e não puder falar com você? — O pânico a deixava angustiada e sua voz denunciava essa angústia. Ela não queria deixar Lucas. Embora soubesse que era um sonho, sentia-se mais segura ali.
— Você pode fazer isso, Kylie. Vá! — Ele fez um gesto com a mão para que ela fosse. — Rápido!
Kylie fez o que Lucas disse. Ela começou a flutuar de volta. Mas rápido demais. Então se concentrou, até conseguir reduzir a velocidade com que avançava. Aí olhou para baixo. Viu a linha do horizonte. Viu Houston ao longe. Ela foi ainda mais devagar até ver um prédio grande, o Toyota Center, que ela reconheceu. Depois se lembrou de que o pai a tinha levado ao centro da cidade, nos túneis de Houston.
Voando pelos túneis, através das paredes, Kylie não diminuiu até ver a si mesma. Seu coração martelava contra as costelas. Ao se ver adormecida sobre uma cadeira, acorrentada como numa cena de um filme de terror, ficou apavorada. Ouviu um barulho. A porta de ferro começou a se abrir. Ela se sentiu voltando para o corpo.
— Não! — Ela tinha que voltar até Lucas. Tinha que lhe dar as instruções sobre como encontrá-la.

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