30 de setembro de 2016

Capítulo 32

Sara abriu os olhos.
— O oncologista disse que vai tentar uns tratamentos experimentais, mas... ele acha que é tarde demais. — Os olhos de Sara se encheram de lágrimas. — A minha mãe diz que estou reagindo bem, mas... — Sara engoliu. — Não quero morrer. — Os lábios dela tremeram. — Mas ainda posso ouvir minha mãe dizendo dezenas de vezes que, se ela um dia tiver câncer, prefere morrer a passar pelo que a mãe dela passou. Ela disse que os médicos judiaram muito dela. Eu não quero passar por isso. Uma cirurgia já foi ruim o suficiente.
Kylie recordou dos seus sonhos em que sentia uma faca cortando-a. Ela olhou para o abdômen de Sara.
— Quando você fez a cirurgia?
— Semana passada — respondeu Sara. — Fiquei muito tempo sem menstruar. O médico sentiu um caroço quando estava me examinando. Dois dias depois, eu estava no hospital.
— Por que não me ligou?
Sara mordeu o lábio.
— Eu liguei. Não disse a você que achava que estava com câncer, mas...
Kylie sentiu o sentimento de culpa crescer dentro dela. O fantasma, a avó de Sara, tinha tentado fazê-la ouvir a mensagem. A mesma mensagem que ela tinha ouvido aquele dia, na pizzaria.
— Não podem tirar o tumor?
Sara balançou a cabeça.
— Já se espalhou. Está em todo lugar.
A dor no peito de Kylie ficou mais forte. Ela se lembrou da mensagem de Trey, enviada para todos no hotel. Por que o fantasma tinha enviado uma mensagem de Trey?
— Trey?
Sara olhou as próprias mãos.
— Desculpe. Eu não tinha intenção que acontecesse. Eu tinha bebido muito. Ele tinha bebido muito também.
— O quê? — Kylie perguntou.
Sara olhou para ela.
— Droga. Ele não te contou, né?
Levou um segundo para ela digerir o que Sara tinha dito – e menos tempo ainda para saber que não era importante.
— Eu disse a ele pra te contar, porque eu não ia conseguir. Ele prometeu que contaria.
— Ele tentou. Eu não retornei as ligações dele. Mas eu não me importo. Sara. — Ela pegou a mão da amiga e a apertou. — Trey e eu... acabou. Você é que é importante.
Outra lágrima desceu pela face pálida de Sara.
— Você não está dizendo isso porque estou morrendo, está? — Sara tentou fazer piada.
Kylie não riu.
— Não.
Sara soltou a mão de Kylie.
— Você está quente.
— Você pode ajudá-la. — A voz do fantasma soou atrás da orelha de Kylie. — É o seu toque.
Kylie olhou o espírito, atrás dela.
— Você quer dizer... como Helen?
— O quê? — Sara perguntou.
Kylie continuou a olhar para o fantasma.
— Cure-a — insistiu o fantasma. — Por favor. Cure-a. Antes que seja tarde demais.
— Não sei como — Kylie murmurou.
— Estou tendo alucinações ou você está falando sozinha? — perguntou Sara. — Quer dizer, estou sob o efeito de uns remédios meio fortes agora.
Kylie olhou para Sara novamente.
— Não. — Ela sentiu o frio do fantasma chegar mais perto.
— Não o quê? Não estou tendo alucinações ou não está falando sozinha?
— Não para as duas coisas. — Kylie tentou pensar. Ela podia mesmo curá-la?
Olhou novamente para a foto da avó de Sara.
— Qual era o nome dela?
— Fanny Mildred Bogart. — Ela riu. — Estou feliz de não ter o nome dela. — Era óbvio que Sara sentia dor ao rir, porque soltou um gemido e voltou a se recostar no travesseiro. Quando abriu os olhos, fitou a fotografia. — Quer ouvir uma coisa muito louca?
— O quê? — perguntou Kylie, quase adivinhando o que Sara ia dizer.
— Às vezes acho que ela está aqui.
— Ela está aqui. — Kylie pegou a mão de Sara novamente e por um instante lutou para decidir o quanto diria à amiga.
Sara riu.
— Agora você acredita em fantasmas, hein?
— É isso aí. — Kylie encheu os pulmões de ar. — Você ia ficar surpresa se soubesse tudo em que acredito agora.
— Como o quê?
— Como em milagres. — Kylie olhou para Fanny.
— Eu queria um milagre. — Sara sorriu e tentou de novo soltar a mão de Kylie. — Por que a sua mão está tão quente?
— Como eu faço isso? — Kylie perguntou para o espírito, segurando a mão de Sara.
— Faz o quê? — Sara perguntou, sua voz parecendo tão cansada quanto seus olhos.
— Eu não sei como, só sei que você tem esse poder.
— Isso não está ajudando em nada — Kylie respondeu.
— Você está falando sozinha outra vez? — perguntou Sara, mas sem tentar puxar a mão.
— Eu sei — Kylie disse a Sara.
Então Kylie se lembrou de como Helen, a fada com o dom da cura, tinha tocado sua cabeça quando a examinava para saber se ela tinha um tumor. E Helen também tinha contado o que fez quando curou a irmã de um câncer.
Largando a mão de Sara, Kylie se levantou e se sentou na cabeceira da cama. Com uma mão, afastou a franja da testa de Sara e com a outra tocou as duas têmporas.
— O que está fazendo? — Sara perguntou, olhando para Kylie com cara de quem está achando graça.
— Tentando ajudar você a relaxar — disse Kylie, sabendo que tinha sido pouco convincente.
— É, esse acampamento deixou você esquisita — disse Sara, estendendo a mão para afastar as mãos de Kylie.
— Diga a ela que sua mãe fazia isso em você quando não estava se sentindo bem — aconselhou Fanny.
Boa ideia.
— Minha mãe costumava fazer isso em mim e eu realmente me sentia melhor.
Sara voltou a estender os braços na cama.
— Tudo bem, mas se tentar me beijar vou gritar para a minha mãe me salvar — disse Sara, rindo.
— O quê? Eu não faço o seu tipo, então? — Kylie perguntou, rindo também, e depois tentou se concentrar em pensamentos positivos de cura.
Já passava das nove da noite quando Kylie deixou a casa de Sara. Quando estava lá há uma hora, Kylie ligou para a mãe do banheiro e chorou ao contar que a amiga estava com câncer. A mãe disse que ligaria para a mãe de Sara no dia seguinte e que Kylie deveria ficar com a amiga o quanto quisesse, mas deveria avisá-la quando fosse para casa.
Kylie só foi para casa depois que Sara dormiu. Ela tinha se esquecido de ligar para a mãe, mas, como estava de carro e morava a poucos quarteirões, não se preocupou.
O bairro estava às escuras, não havia iluminação nas ruas nem nas casas. Devia estar faltando luz, Kylie disse a si mesma, enquanto lutava contra um sentimento crescente de apreensão.
E foi então que tudo aconteceu.
Algo grande se chocou contra o para-brisa do seu carro.

3 comentários:

  1. Eita porra, ta fazendo cosplay de Nora Grey. Ai, lembrei da Marina (Número 7) e lembrei que o último livro da série ainda não está no blog. Ficando depressiva em 3, 2, 1...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. "COSPLAY DE NORA GREY"
      Essa foi boa! SKAGKKOFDDF
      mas o pior é que ela está mesmo!

      Excluir
  2. Fernanda: A bruxa filha de Hades23 de novembro de 2016 19:22

    Sabia!! Ela é um camaleão!!! Certeza!! Ou não?? Socorro!!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!