24 de setembro de 2016

Capítulo 32

— Você conhece esse cara? — perguntou Lucas, com o braço nu encostado ao dela num gesto de proteção.
Atordoada demais para falar, Kylie conseguiu apenas sacudir a cabeça. Então, Trey deu um passo à frente e entrou no riacho, espalhando água para todos os lados.
— Está tudo bem? — perguntou ele.
Não olhou para ela. Concentrou-se em Lucas. Ou melhor, no peito nu de Lucas.
— Está — gaguejou Kylie, recuperando finalmente a voz. — Nós... Estávamos procurando fósseis de dinossauros.
— Esse aí é o Derek? — o tom de voz de Trey estava carregado de acusação. Não tinha nenhum direito de acusá-la, considerando-se o que acontecera entre eles. Mas o sofrimento em seus olhos era verdadeiro e comoveu Kylie.
— Trey, este é o meu amigo Lucas. Lucas, este é Trey.
Os garotos olharam fixamente um para o outro. E, em vez de se dar as mãos, apenas fizeram um ligeiro aceno de cabeça, muito pouco amigável.
— Vamos embora — disse Kylie a Lucas.
Em seguida, inclinou-se para Trey num gesto de despedida.
Começou a atravessar o riacho, com Lucas ao seu lado. Quase escorregou de novo, mas ele a segurou, aconchegando-a firmemente ao peito enquanto Trey observava da outra margem.
— Namorado? — perguntou Lucas, soltando-a quando saíram da água.
— Ex. — Kylie se sentou para calçar o tênis, mas ainda consciente de que Trey continuava olhando. Ela sabia muito bem o que ele estava sentindo, pois sentiu a mesma coisa ao vê-lo com a garota na festa. Justiça poética, retribuição, pagamento na mesma moeda – um monte de explicações emocionais flutuava na cabeça dela, mas a verdade era uma só: nenhuma delas a convencia.
— Por que ele perguntou se eu era Derek? — quis saber Lucas.
— Uma longa história — história que ela não desejava contar no momento. Enquanto amarrava os cadarços, a culpa fervia em seu peito. E não devia sentir culpa nenhuma.
Mas sentia.
Já calçada, levantou-se e começou a se afastar, sem olhar para trás. As emoções galopavam como potros selvagens em sua cabeça. Lucas puxou de novo o arame da cerca e ela atravessou – sem, dessa vez, roçar em seu corpo.
Quando teve certeza de que Trey não podia mais vê-la, parou de pensar nele e começou a pensar no beijo. Tinha que avaliar bem aquele episódio para se sentir segura. Sim, foi um beijo delicioso, mas apenas um beijo.
Certo?
Os dois mal conversaram no caminho de volta. E Kylie mal olhou para Lucas porque vê-lo sem camisa iria... Confundir suas ideias. Já perto da trilha para o acampamento, Kylie constatou que não tinha ainda a resposta tão desejada. Lucas se lembrava dela? Tentou descobrir um meio de perguntar sem parecer que queria forçá-lo a se lembrar dela ou insinuar que uma experiência compartilhada de infância os unia. Porque não unia. E como isso seria possível se ele chegou a sugerir que ela esquecesse o beijo? Começou a sentir um peso insuportável no peito. Meu Deus, por que aquelas palavras doíam tanto? Kylie respirou fundo. Que tal acrescentar mais essa pergunta à lista crescente que tinha começado a elaborar logo na chegada a Shadow Falls? Mas as outras perguntas talvez pudessem esperar. Aquela, não.
Ela queria saber – precisava saber – se ele se lembrava dela.
Apenas desembuche. Desembuche. Avistou a clareira no bosque, logo à frente, e concluiu que seu tempo com Lucas era curto. Havia o risco de não ter outra oportunidade de falar com ele mais tarde.
— Sabe, você me lembra alguém — começou Kylie.
— Verdade? — perguntou Lucas, sem olhar para ela.
— É — e Kylie esperou que ele perguntasse quem.
Mas Lucas não perguntou. Apenas disse:
— Bem, já chegamos.
Penetraram na clareira e tomaram a trilha. Lucas olhou para ela.
— Preciso ir. Tenho que liderar outra caminhada — e virou-se para partir.
— Lucas! — chamou Kylie, e ele se deteve. Ela tirou a camiseta e a entregou para ele.
Em seguida, descolou sua própria camiseta úmida do sutiã. Não tinha secado por completo, mas já não estava transparente. Viu o olhar de Lucas pousar de passagem em seus seios e, em seguida, deter-se em seus olhos.
Você se lembra de mim?
— Obrigada por... Mostrar-me as pegadas dos dinossauros.
— Não foi nada — disse ele, e completou: — Sinto muito, Kylie.
Kylie percebeu que ele estava se desculpando pelo beijo. Primeiro, pediu para que esquecesse o que havia acontecido e agora vinha com desculpas. Sentiu uma pontada no peito. Então Lucas se afastou de vez e ela ficou parada no lugar, remoendo seus pensamentos. Ela não lamentava nada. Não tinha gostado que Trey os tivesse surpreendido, mas nem por isso achava que aquilo fosse o fim do mundo.
Kylie tinha acabado de vestir roupas secas quando ouviu alguém entrar na cabana. Saindo do quarto, viu Della diante da geladeira aberta, bebendo... Alguma coisa. Sangue. Kylie se forçou a aceitar aquilo. Sua amiga era uma vampira – e vampiros bebem sangue, precisam de sangue para viver. Já era tempo de encarar as coisas como são.
— Olá!
— Não estou falando com você — resmungou Della, fechando a garrafa colocando-a na gaveta de legumes como que para escondê-la.
— Não a culpo. Não tenho sido uma boa amiga.
Della se virou.
— Está tentando me dizer que não vai mais embora?
Kylie procurou pesar bem as palavras.
— Ainda não sei. Disse a Holiday que daria a ela duas semanas. Então, até lá, não posso dar uma resposta definitiva.
E, antes que perdesse a coragem, Kylie se aproximou de Della, estendeu o braço e passou um dedo sobre a veia na altura da articulação.
— Você tem os apetrechos pra fazer?
— Fazer o quê? — perguntou Della, franzindo a testa.
— Tirar um pouco de sangue daqui. Derek me contou que vocês têm experiência nisso.
—Eu não... — Della arregalou os olhos. — Eu nunca pedi...
— Eu sei, mas foi porque sabia que eu ia negar. Certo?
— Em parte — reconheceu Della, continuando a examinar a expressão de Kylie.
— E a outra parte?
— Porque você tem medo de mim. Não quero que me veja como um monstro.
— Você não é um monstro. É só uma vampira.
— E você não acha que vampiros são monstros? — perguntou Della
— Não quando o vampiro é você.
Della hesitou.
— Meus pais me achariam um monstro. Lee me acharia um monstro.
— Dane-se o que achem — exclamou Kylie. — O importante é que monstro você não é — estendeu o braço. — Você precisa de sangue para viver.
— Posso me virar bebendo sangue de animal durante o verão — explicou Della.
— Por que faria isso se tenho sangue de sobra?
— Quer mesmo dar seu sangue? — havia certa hesitação na voz de Della.
— Bem, ouvi dizer que, quando se promete isso, não se pode voltar atrás — desafiou Kylie.
— Eu nunca te cobraria uma promessa dessas.
— Brincadeira. Estou disposta a ir até o fim.
— Que fim? — perguntou Miranda, entrando na cabana.
Kylie virou-se para ela.
— Vou dar um pouco de sangue para Della.
Miranda estancou, perplexa.
— Sério?
Kylie assentiu.
— Ela se dispôs a enfrentar Fredericka por minha causa. Devo a ela esse favor.
Miranda franziu a testa.
— Que droga! Se você fizer isso, vou ter que fazer também.
— Não, não vai — disse Della.
— Vou fazer isso porque somos uma equipe. Nós três.
Os olhos de Della se encheram de lágrimas.
— Não permito bruxas na minha equipe.
— Problema seu, vampira. Porque agora vai permitir — Miranda estendeu o braço. — Vamos lá. Mas é melhor que não doa. Detesto agulhas.
— Não posso aceitar antes de esclarecer tudo com Holiday e Sky.
— Então vamos esclarecer logo — disseram Miranda e Kylie ao mesmo tempo.
Nesse momento um sapo, isto é, o professor de piano de Miranda, apareceu saltitante a seus pés.
— Ai, de novo não! — gritou ela, encarando o sapo. — Quando vai aprender? — apontou-lhe o dedo. — Continue assim e, juro por Deus, vou denunciá-lo à polícia.
— É o que deveria fazer — incentivou Kylie.
Miranda virou-se para ela.
— É, mas a questão é que ele nunca... Todas as suas atitudes poderiam ser explicadas de outra maneira. Tentar me mostrar as teclas certas no piano, por exemplo. Foi só por causa do feitiço que percebi suas verdadeiras intenções.
— Escute o que eu digo — disse Della —, deveríamos assar seu maldito traseiro. Ou atirar esse tarado aos lobos. Dizem que eles gostam muito de sapos.
O bicho cruzou o quarto aos saltos e sumiu no ar. Kylie ficou curiosa.
— Quando ele vem aqui, desaparece de outro lugar?
— Sim — disse Miranda —, mas, com exceção da primeira vez, isso só acontece quando o pilantra está sozinho. Pelo menos é o que constato quando chego ao lugar para onde ele volta. Acho que desistiu de dar aulas de piano.
— Enfim, uma boa notícia — observou Kylie.
Os olhos de Miranda brilharam ao se lembrar de alguma coisa.
— É verdade que Lucas pegou seu nome esta manhã?
— É — admitiu Kylie.
— Ah, meu Deus! — Della fez Kylie se sentar numa cadeira da cozinha.
— Vai começando a falar. O que aconteceu?
Miranda se sentou também.
— É, desembucha.
E Kylie falou. As palavras brotavam dos seus lábios com tamanha rapidez que ela não conseguia detê-las. E não falou apenas do beijo. Contou também que Lucas foi seu vizinho e do sumiço do gato. Descreveu o maravilhoso beijo em detalhes e explicou a confusão na qual se meteu com Trey e Derek inclusive seus sentimentos confusos por Derek depois que ele a encontrou e nem sequer olhou para ela. Quando Kylie finalmente se calou. Della e Miranda continuaram imóveis, de olhos arregalados e bocas abertas, mal podendo acreditar no que tinham ouvido.
— Caramba! — exclamou Della.
Miranda reclinou-se na cadeira e suspirou.
— Eu bem que gostaria de ser beijada assim. Não vejo a hora de ficar com alguém que me tire do chão...
— Isso é muito fácil — disse Della. — Por que não vai atrás do Perry e o agarra?
Miranda sacudiu a cabeça.
— Cai na real! Se um cara não tem coragem nem pra confessar que gosta de mim, nunca vai ter pra me beijar.
— Então ponha um feitiço nele para que crie coragem — disse Della
Todas riram. E então o telefone de Kylie começou a tocar. Ela acionou o identificador de chamadas e leu o número do pai na tela. Parou imediatamente de rir e franziu a testa. Não queria que ninguém estragasse seu humor, então desligou o aparelho e guardou no bolso.


O dia seguinte passou sem surpresas. Não houve dramas: nenhuma visita inesperada de Trey, nenhum confronto com Fredericka, nem sequer uma briguinha entre Miranda e Della. Kylie e Miranda haviam doado sangue tudo estava em paz. Então, veio a noite.
Kylie acordou molhada de suor. Sentou-se na cama e soube imediatamente que o soldado Dude estava lá. Mas aquela não era a sua cama. Não se encontrava nem no acampamento. Seu coração disparou enquanto ela tentava se situar no ambiente. Sabia que não estava no Texas. Nem mesmo nos Estados Unidos. O lugar parecia... Estranho e ainda assim familiar, como as imagens que vira nos filmes sobre a Guerra do Golfo, que a mão gostava tanto de assistir.
Kylie estava do lado de fora de um casebre, numa área desprovida de árvores ou relva. Fazia calor. Não o calor do Texas, mas de um deserto extremamente seco. O sol já tinha se posto e o tempo parecia aprisionado entre a luz e a sombra. Um cheiro de borracha e madeira queimada, de devastação, enchia suas narinas. E havia o barulho. Muito barulho. Como se alguém, de repente, aumentasse o volume, tornando-o ensurdecedor – gritos, detonações surdas, explosões de bombas a distância. Ruídos de disparos. Alguém ordenava que ela fosse naquela direção. “Não é problema nosso”, rugiu uma voz de homem.
Não é problema de quem? Kylie ouviu um lamento – uma mulher. Uma mulher implorando ajuda e gemendo de dor.
O medo subiu pela espinha de Kylie e ela compreendeu que algo de terrível estava acontecendo com a mulher. Terrível e injusto. Kylie não queria participar daquilo. Não queria ver, não queria saber. Feio demais. Não é problema meu. O que não era problema dela? Sua mente ficou confusa.
É um sonho. Apenas um sonho. Acorde. Acorde. Tentou se lembrar de como, segundo a Dra. Day, poderia interromper um pesadelo, mas não conseguiu. Fechou bem os olhos e os abriu, na esperança de voltar à sua cabana. Não voltou. Na verdade estava agora mais perto da casa e dos gritos. A mulher estava lá dentro. Alguém a machucava. Quem? Por quê? O que significava tudo aquilo? Por que Kylie tinha ido até lá? Por acaso assistia a um filme de guerra? Ou aquilo era um filme de guerra? Não, era um sonho.
Sua mente tentou avaliar as perguntas. Não há mais tempo, murmurou uma voz dentro dela, apenas tempo para sentir para compreender. Por que Kylie precisava compreender? As perguntas se calaram e ela mergulhou de novo no sonho – na devastação, na feiura da guerra. Sentiu uma culpa imensa por não desejar se envolver com a mulher. Se corresse, se corresse agora mesmo, poderia se juntar aos demais e fugir.
Examinou suas escolhas. Talvez sobrevivesse caso partisse imediatamente. Mas conseguiria suportar a vida sabendo que não tinha ajudado a mulher? Não. Não conseguiria. Olhou para o fuzil que trazia na mão. Igualzinho aos dos filmes de guerra. Kylie tinha que deter o agressor da mulher, fosse quem fosse. Escancarou a porta e apontou a arma para a silhueta escarranchada sobre a vítima.
“Saia!”, gritou. Mas aquela não era a sua voz; era a voz de um homem.
Kylie estremeceu, mas logo viu que o agressor empunhava uma faca. A mulher, com as roupas rasgadas, as mãos e o rosto cobertos de sangue, arrastou-se para longe do homem. Ele se virou para encarar Kylie. E atacou, erguendo bem alto a lâmina ensanguentada. Kylie apertou o gatilho e o viu tombar, sem nenhum remorso por tê-lo alvejado. Era um homem mau, ela sabia. Um garoto apareceu correndo à porta. Seu cabelo e seus olhos negros assustados pareciam de uma pessoa mais velha.
“Não!”, gritou ao ver a mulher ferida apoiando-se na parede. Em seguida, olhou para Kylie. Começou a praguejar numa língua que ela não entendia. E de repente, sacando uma arma do cinto, a apontou diretamente para Kylie.
Bam, bam, bam.
Ela ouviu nitidamente o som dos disparos. Não sentiu nada, mas teve consciência de que tinha sido atingida – e até de que, caída ao chão, estava morrendo.
De repente, viu-se num canto da sala, olhando para o garoto e a mulher. Seu olhar pousou no corpo estendido no chão, o corpo que ela tinha acabado de deixar – a pessoa que ela tinha sido. O soldado Dude. O sangue escorria pelo seu rosto. Ele vasculhou por dentro da farda e tirou lá uma carta. Aproximou-a dos lábios e, com um último suspiro, beijou o envelope. Aquela morte angustiou o coração de Kylie. Não o conhecia, mas se compaixão pelo infeliz. Compaixão por ele ter morrido. Compaixão por ter dado a vida para salvar alguém.
A mulher se levantou a todo custo, olhou o soldado morto e voltou a gritar. Kylie gritou também. Gritava ainda quando despertou, as costas contra a parede da cozinha, em sua cabana. Miranda e Della, de pijamas, paradas na frente dela, a olhavam. Kylie se deixou escorregar pela parede até o chão. Tinha a garganta seca, o coração acelerado.
— Foram os terrores noturnos — disse Miranda, como se estivesse muito longe.
Kylie queria acreditar, mas não conseguia. Jamais se lembrava dos pesadelos. E agora se lembrava. Sabia, de algum modo, que aquilo não tinha sido apenas um sonho. Foi dessa maneira que o soldado Dude morreu.
Kylie permaneceu sentada por uns bons dez minutos, garantindo a Miranda e Della que estava bem. Quando elas finalmente voltaram para a cama, Kylie voltou ao seu quarto. Concluindo que não conseguiria dormir, se vestiu e foi ver Holiday. A líder do acampamento dissera que a atenderia quando necessitasse, de dia ou de noite. Agora, Kylie descobriria se aquilo era mesmo verdade.
Descendo em direção à cabana de Holiday, reparou que a noite estava estranhamente silenciosa. Nem um canto de pássaro, nem sequer o rastejar de um guaxinim. Mentalmente, Kylie ainda escutava os gritos da mulher e via o soldado soltar o último suspiro. Lágrimas escorreram pelo seu rosto. Limpou-as, não querendo aparecer chorando diante de Holiday.
Subitamente, o silêncio foi quebrado. Alguém conversava entre as árvores. Mas as vozes se calaram quase imediatamente. Os cabelos na nuca de Kylie se eriçaram. Ela ignorou o medo do desconhecido e se concentrou em seus pensamentos. O soldado Dude estava morto. Tentara salvar uma vida. Kylie continuou andando. A cabana de Holiday estava a apenas cinco minutos de caminhada. Deu mais um passo e foi então que percebeu alguém às suas costas.
Uma mão a agarrou pelo braço e a puxou.
— Não deveria estar aqui a estas horas — rosnou uma voz sinistra, que ela conhecia bem.

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