18 de setembro de 2016

Capítulo 32

Pela primeira vez em muitos anos, eu dormi. Só acordei quase 9 horas da manhã, quando meu celular tocou. Era meu meio-irmão Jake ligando.
Jake. Jesse. Prisão.
— Ai, meu Deus, como ele está?! — exclamei, pegando o celular rapidamente. — O que está acontecendo?
— Ele saiu. — Soneca soava extremamente contente consigo mesmo.
— Saiu? — Eu me sentei na cama em um segundo. — Ele está bem? Onde está? O que aconteceu? Posso falar com ele?
— Todas as acusações foram retiradas. Viu, vale a pena ter o melhor advogado criminalista do seu lado. Dirigiu sob efeito de substâncias? Liga para ele. Não que esse fosse o caso de seu garoto aqui, mas...
Eu não queria estragar a felicidade de Jake, mas sabia que não foi a habilidade de defesa do advogado que tirou Jesse daquela, e sim minha ágil mediação.
— Muito obrigada, Jake — interrompi. — Agradeço muito mesmo. Tenho certeza de que Jesse também agradece. Cadê ele? Posso falar com ele?
— Está aqui no carro comigo. Estou o levando de volta à Cruzada porque ele disse que você está com o carro dele, é verdade? Cara, que sorte, porque, se os policiais olham dentro da minha BMW e encontram todo aquele, hum, contrabando, nem meu advogado teria conseguido tirá-lo...
— Jake, posso falar com Jesse? — Às vezes eu me pergunto se meus meios-irmãos, com exceção de David, caíram de cabeça várias vezes quando eram bebês.
— Ah... — Ouvi uma conversa murmurada, e Jake voltou a falar. — Foi mal, Suze, mais tarde, talvez, ok?
Tentei evitar o tom ácido em minha voz porque sabia que nada daquilo era culpa de Jake. Ele foi um excelente amigo para nós. Mas eu estava com raiva.
— O quê?
— Escute, Suze, fique tranquila, não aconteceu nada, ele só está exausto. Tipo, se coloca no lugar dele, Suze. — O tom de Jake virou um sussurro. — O cara passou a noite na cadeia. Ninguém quer falar com a noiva assim que sai da cadeia.
— Eu ia querer — falei. Coloquei as pernas para fora da cama. — Eu ia querer falar com meu noivo assim que saísse da cadeia. Na verdade, achei que a gente fosse até a delegacia juntos, e eu ia servir de testemunha, e...
— Cara, Suze, quer saber? Tem horas que um homem não quer envolver sua dama, e essa é uma delas.
— Que dama? Eu não sou dama de ninguém. Do que você está falando? E como Jesse pode não querer me envolver nisso? Já estou envolvida. O que aconteceu? Ele apanhou na prisão? Ele está escondendo alguma coisa? Coloque ele no telefone agora, Jake, ou eu juro por Deus que vou...
— Acho que primeiro é melhor eu levá-lo para casa a fim de descansar e comer e tomar um banho — disse Jake com um tom mais normal. — Aí você pode ir até lá mais tarde, e os dois conversam. Falou, Suze?
— Falou? Não vem com falou para cima de mim, não. Quem é você, o novo life coach dele?
— Está vendo? — Jake estava sussurrando de novo. — É exatamente por isso que eu não quis você no tribunal. Você é emotiva demais.
— Emotiva? Eu? E ele? Foi ele quem...
— Buscar o noivo depois de ele passar a noite preso não é tarefa para uma noiva. É tarefa para o padrinho de honra. Outro motivo para eu achar que vocês deveriam ter me escolhido como padrinho de honra, e não mero padrinho. E eu nem sei qual é a desse tal de Paul, mas não quero, repito: não quero que você fale de novo esse nome na frente de Jesse. Toda vez que mencionavam o nome dele no tribunal, um músculo do rosto do Jesse começava a tremer...
— Não se preocupe, não tenho intenção alguma de mencionar Paul, nem hoje, nem nunca mais. Mas escute, você precisa me contar. Jesse está puto comigo, ou só com Paul? Porque juro por Deus, Jake, se ele cancelar o casamento, eu vou surtar. Aquele vestido está em meu armário há tanto tempo que acho que tem mais teias de aranha que minha vagina.
— Opa — disse Jake. — A ligação está falhando. Acho que cheguei numa área sem cobertura.
— Não existe área sem cobertura vindo para cá de Monterey, seu imbecil.
— Vejo você mais tarde, Suze. Tchau, Suze. — Jake desligou.
Abaixei o celular e fiquei sentada com vontade de dar um soco em alguma coisa.
Lucia disse que ia ficar tudo bem, mas, pelo que eu via, a previsão era tão exata quanto a previsão do tempo. Disseram que ia fazer sol, mas a neblina de sempre cobria a “vista da montanha” – e praticamente o resto todo – do lado de fora de minha janela.
Gina já havia acordado e saído; ela deixou uma mensagem em meu celular, dizendo que faria um teste (o teatro ao ar livre de Carmel-by-the-Sea apresentava musicais com frequência), e depois tinha algumas coisas para resolver.
Tudo bem. Eu também tinha muito que resolver.


— O que é isso? — perguntou Cee Cee, olhando para o laptop e o porta-valores que coloquei entre nós na mesa do Médium Feliz uma hora depois, após tomar banho, vestir uma roupa e ir encontrá-la para tomar café da manhã: mingau (ela) e panquecas com bacon de tofu extra (eu, e só porque o Médium Feliz é vegetariano).
— Ah — falei, e tomei um bom gole de café. — É apenas tudo de que você precisa para escrever a história da década. Quero dizer, talvez não da década, mas pelo menos do ano. Seu editor vai amá-la. É capaz de conseguir um emprego no San Francisco Chronicle com uma história desse tamanho.
— Eu não quero trabalhar no Chronicle. — Cee Cee abriu o porta-valores, o que foi fácil de fazer porque a tampa estava quebrada, pendurada tristemente pelas dobradiças. — Só quero sair da sessão policial. Deus do céu, Suze! Quanto dinheiro tem aqui?
— Cinco mil. Não cheque o que há nas memórias USB aqui ou na frente de menores. — Dei uma olhada no lugar, que estava supercheio. O horário de maior frequência no café era de manhã, e era por isso que Gina estava doida para trabalhar nesse horário. A tia de Cee Cee garantiu que ela teria uma chance, mas só depois de ela “fazer a parte dela” com os turnos mais vazios, à noite. — É nojento.
— Ah, é? — Sem se deixar afetar, Cee Cee já estava decifrando a senha do laptop. — O que é?
— Em pouco tempo, um cara vai entrar no Estúdio Delgado de Fotografia na Pine e encontrar o chefe, James Delgado, morto com um tiro que ele deu em si mesmo. Isso que você tem aí estava trancado na mesa dele. Quando você conseguir dar uma olhada, vai entender por que ele escolheu se matar. Tem duas listas de clientes; uma para fotos normais, e outra para as fotos que ele distribuía ilegalmente, segundo as leis federais contra exploração de menores.
Cee Cee fez uma careta.
— Que legal.
— É. Acho que uma boa versão para você contar, na história que vai escrever antes de entregar tudo isso à polícia, é que encontrou isso em um envelope fechado na frente de sua casa hoje pela manhã. Você não faz ideia de quem deixou, mas suspeita que tenha sido o próprio Jimmy com vergonha e remorso por todas as coisas terríveis que fez. Mas é claro que cabe às autoridades determinar isso.
Uma das várias coisas que eu adorava em Cee Cee era que ela não perdia tempo fazendo perguntas idiotas. O senso de moralidade dela era claro, porém bastante flexível. E ela era profissional até o fim.
E também sabia reconhecer quando alguma coisa boa era apresentada a ela durante o café da manhã.
— Maravilha — disse ela sem tirar os olhos da tela, nem quando se inclinava para comer mais mingau. — Sem problema. Mas tem uma coisa. E se me pedirem o envelope?
— Infelizmente — respondi —, você jogou o envelope fora, e ele já foi levado para o lixão. Como ia saber que tinha alguma coisa tão incrivelmente importante?
— Verdade. Então, já que você está envolvida, deduzo que esse tal de Delgado não tenha se matado de verdade.
— Não, não, ele se matou, sim. Talvez você possa mencionar na sua história que existem vários estudos sugerindo que pessoas como ele preferem morrer a encarar o estigma social depois que seus crimes sejam expostos; ou a parar de cometê-los.
— Boa frase, obrigada, vou usá-la. — Continuou escrevendo. — Qual era a outra coisa que você mencionou que queria falar comigo?
— Ah, sim. Bem, considerando que estou dando essa história verdadeiramente enorme a você, eu estava pensando se poderia abafar outra.
Ela parou de olhar para a tela a fim de me encarar. Seus olhos violeta mostravam bom humor.
— Suzannah Simon, você está tentando impedir a liberdade de imprensa?
— Com certeza. Como você escreve os artigos sobre notícias policiais da cidade, posso pedir que não reporte que Jesse foi preso ontem à noite por agredir Paul Slater?
Sua expressão mudou de humor para animação.
— Ele foi? Que máximo! Você estava lá? Viu a cena? Me conte tudo. Teve muito sangue? O que Paul disse para deixar Jesse com tanta raiva? E que diabos você estava fazendo com Paul Slater? E por que não me convidou?
— Se eu prometer contar tudo — falei — em detalhes dolorosos, você promete que vai fazer tudo o que puder para que a coisa toda fique fora da internet e dos jornais? Acho que Jesse ficaria arrasado se os colegas do hospital descobrissem.
— Juro por Deus. — Ela colocou a mão sobre o coração por cima do casaco cinza desbotado da Academia da Missão. — Pela minha vida. Você vai comer o bacon de tofu?
— Não. É nojento. Por que eles não podem pelo menos servir bacon de peru aqui?
— A tia Pru não permite nenhum produto de origem animal no estabelecimento. O que você está botando no café é leite de soja.
Falei uma palavra com cinco letras e quase deixei a jarra de metal cair.
— Foi mal. Agora me conte tudo. Onde foi que ele...
— Olá, meninas. — A tia Pru apareceu na nossa mesa com os braceletes tilintando. — Ouvi meu nome?
Cee Cee fechou a tela do laptop de Jimmy Delgado.
— Bom dia, tia Pru.
— Estou vendo que está ocupada, trabalhando. — Deu um beijo no topo da cabeça da sobrinha, que estava ficando corada por baixo dos cabelos cor de neve. — Ela é tão esforçada, não é, Suzannah?
— Como uma abelhinha operária — falei, me levantando e pegando a bolsa. — Falando nisso, eu também tenho trabalho a fazer, e preciso me apressar.
— Ah, que pena. — Pru pareceu chateada, e Cee Cee fez uma cara de raiva porque eu estava escapando sem contar a história da prisão de Jesse. — Mas, no final das contas, as coisas acabaram como eu disse que acabariam, não foi?
— O que, Prudence? — Eu estava ocupada procurando dinheiro na carteira. Achei que pagar o café da manhã de Cee Cee era o mínimo que eu podia fazer.
— Com a menininha. Ela jamais quis machucar ninguém. Estava apenas assustada e sofrendo. Mas você a ajudou, não ajudou?
Eu congelei. Fiquei olhando para ela até finalmente conseguir dar um sorriso. Então a “criança perdida” era Lucia mesmo. Eu devia ter adivinhado. Paul Slater nunca foi uma criança perdida. Sempre soube exatamente qual caminho seguir.
Pena que era o caminho errado.
— Acho que sim, Pru — falei. — Obrigada. Mas não fiz isso sozinha. Meus amigos me ajudaram muito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!