30 de setembro de 2016

Capítulo 31

Kylie não sabia direito quem dissera que, uma vez fora da casa paterna, não é possível voltar para lá outra vez. Mas essa pessoa em parte tinha razão. Ah, você pode voltar, sim. Mas que é muito esquisito é. Por incrível que pareça, a culpa não era da mãe dela. Elas, na verdade, percorreram o trajeto de três horas até em casa na mais santa paz, se Kylie não levasse em consideração o fantasma. O problema era a casa. Parecia fria, não só porque o fantasma tinha decidido fazer uma visitinha mais longa, mas por causa do seu pai. Ou da falta dele. Não havia nada, nadinha mesmo, que a lembrasse de que um dia ela tinha morado ali. Até as fotos dos passeios dela com o pai não estavam mais ali, pois tinham sido substituídas por fotos só de Kylie.
Ela não podia culpar a mãe, mas que droga! Pela primeira vez, desde que tudo tinha acontecido, Kylie se preocupava com a possibilidade de a mãe se sentir solitária quando ela voltasse para Shadow Falls. E talvez ela até entendesse por que a mãe queria vender a casa.
— Não é bom voltar pra casa? — disse a mãe, abraçando-a.
Voltar pra casa? Nem tanto. Do abraço, no entanto, ela gostou. Gostou tanto que a casa até ficou com uma atmosfera mais acolhedora.
Quando Kylie foi para o seu quarto, não conseguiu deixar de rir. Na mesinha de cabeceira, havia uma pilha de panfletos sobre tópicos relacionados a sexo. O que estava em cima da pilha, obviamente, era o que a mãe achava mais importante, sobre sexo seguro. Ah, claro, informações essenciais para ela... Até parece que Kylie pretendia sair furtivamente de casa à noite para fazer sexo...
A mãe tinha preenchido todos os horários do final de semana com itens da sua lista de “Programas Imperdíveis”. Elas tinham que assar os biscoitos favoritos de Kylie. Tinham que jantar na nova pizzaria. Tinham que ir ao hotel mal-assombrado às seis da tarde.
Quando, Kylie se perguntava, ela teria tempo de sair às escondidas e praticar sexo “seguro”?
Kylie acrescentou um item importantíssimo à lista de “Programas Imperdíveis”. Convencer a mãe a matriculá-la em Shadow Falls para cursar o ano letivo. Apesar de não querer deixar a mãe, Kylie era sobrenatural e se sentia como um peixe fora d’água em casa.
Às seis da tarde, depois de assar biscoitos e aproveitar a companhia da mãe, Kylie tratou de entrar no carro para irem ao passeio ao hotel mal-assombrado. E esperava que o dono do hotel não se importasse se eia levasse um visitante com ela, pois no banco de trás – ainda ensanguentado e apavorante – estava o fantasma de Kylie, que não se comunicava mais com ela agora do que se comunicara em Shadow Falls.
E para provar que isso era verdade, ele desapareceu antes de chegarem ao hotel.
Depois que estavam todos reunidos no saguão do hotel, a proprietária, uma mulher alta e corpulenta na casa dos 50 anos, com cabelo vermelho tingido, pediu que fizessem um semicírculo.
— Bem-vindos! Muito bem-vindos ao Hotel Anderson’s. Meu nome é Celeste Bell. Alguns de vocês talvez se lembrem de mim de uma das muitas aparições que fiz na TV.
Kylie discordou com a cabeça, mas vários outros hóspedes concordaram. Celeste era uma médium que já tinha participado de vários programas de TV como especialista em casas mal-assombradas. Ela usava uma longa túnica branca, como se o traje fantasmagórico adicionasse um pouco mais de intensidade à experiência.
— Esta casa foi construída no final do século XVIII por Joshua Anderson, mas a tragédia se abateu sobre ela antes mesmo de ele se mudar para cá, quando sua jovem noiva morreu no dia do casamento, num acidente de carruagem. Joshua então tirou a própria vida nos aposentos principais. A casa foi depois vendida e transformada numa taverna. E mais tragédias ocorreram. Agora, antes de começarmos, vamos falar sobre as regras.
As regras eram simples. Deviam ficar juntos. Nada de conversas desnecessárias. Celeste também insistia que desligassem os celulares, pois aquele tipo de energia poderia espantar os fantasmas.
O mais engraçado, pensou Kylie, é que por experiência própria ela sabia que os fantasmas gostavam de brincar com o celular dela.
Kylie de fato investigou o padrão cerebral de Celeste para ver se ela era sobrenatural, mas descobriu que não era. Os dez hóspedes, com exceção de Kylie e a mãe, eram todos cidadãos idosos. Avançando lentamente em grupo, metade deles usando bengalas, eles seguiram a mulher através do primeiro andar da casa. Em cada cômodo, Celeste parava para contar uma história de fantasmas, a maioria da época em que a casa era uma taverna.
Até ali, o lugar parecia livre de fantasmas.
Embora Celeste pudesse não ser muito boa médium, ela era uma boa contadora de histórias e mantinha todos com os ouvidos atentos aos seus contos assustadores.
— Agora, vamos ao jantar. E eu contarei a vocês o que aconteceu no início do século XIX. Por favor, acomodem-se nos seus lugares. — Celeste fez um gesto indicando a mesa da sala de jantar, onde havia uma fileira de pratos cheios de espaguete. — Por alguma razão — ela sussurrou — esta sala é sempre um pouco mais fria do que o resto da casa.
Bastou ela falar isso para a temperatura do velho cômodo cair para uns cinco graus. O fantasma de Kylie se materializou em seguida. As pessoas começaram a esfregar as mãos, cruzar os braços de frio, exalando dos lábios uma nuvem de vapor. O olhar intrigado de Celeste teria feito o jantar caça-fantasmas valer a pena caso Kylie não tivesse visto o mais puro terror no rosto da mãe.
— Está tudo bem, mãe — Kylie sussurrou.
— Este maldito lugar está mesmo me assustando pra caramba... — A mãe nunca tinha dito “maldito” ou “caramba”.
— Provavelmente é um truque — Kylie mentiu.
Chegou a hora. É hora de você fazer alguma coisa! — o fantasma gritou.
Mostre-me o que eu preciso fazer, disse Kylie mentalmente.
Neste exato momento, todos os celulares no cômodo começaram a tocar. Todos exceto o de Kylie. O dela coaxou como um sapo dementado. E, como todos os celulares estavam desligados, o incidente causou um susto geral.
Mas não tão forte quanto o susto que todos levaram quando o lustre caiu bem no meio da mesa, espalhando pratos de espaguete por toda a sala.
Celeste, a médium profissional e “celebridade da TV”, desmaiou. Kylie não sabia que pessoas usando bengala conseguiam andar tão rápido. Mas não tão rápido quanto a sua mãe. Kylie por um segundo achou que a mãe fosse derrubar os velhinhos para tirá-los do caminho e liderar a correria para fora da sala de jantar.
Kylie ajoelhou-se ao lado de Celeste. Quando o último hóspede sumiu porta afora, Kylie ouviu um deles dizer:
— Quem é Trey Cannon?
Kylie olhou para o senhor idoso.
— Não sei — disse outra senhora. — Mas foi essa pessoa que me telefonou também.
Kylie pegou o celular e, como já esperava, viu que tinha uma mensagem de voz de Trey.
Por que o fantasma teria mandado uma mensagem de Trey para todos na sala?
Kylie olhou para o fantasma, que estava no meio da sala com a camisola ensanguentada suja de espaguete, protagonizando uma cena que faria Kylie ficar, por muito tempo, com aversão a espaguete.
— É Trey? É ele que tenho que ajudar? Mas você disse... que “ela” precisava de ajuda.
Os contornos do fantasma começaram a se desvanecer.
— Nem pense em desaparecer! — gritou Kylie para ele.
— Desculpe, querida. Pensei que você estivesse atrás de mim — gritou a mãe do outro cômodo. Segundos depois, ela correu de volta para a sala de jantar e se ajoelhou ao lado de Celeste. — Ai, meu Deus, ela está morta?
Os olhos da mulher se arregalaram e ela gritou.
Vinte minutos depois, enquanto a mãe de Kylie falava com o motorista da ambulância que estava prestes a levar Celeste para o hospital numa maca, junto com um dos hóspedes que se queixava de dor no peito, Kylie pegou o celular da mãe e deletou a mensagem de Trey. A última coisa que ela queria era que a mãe suspeitasse de alguma coisa. Esperava que a mãe não tivesse ouvido o nome do ex-namorado dela no meio da confusão.
Kylie ouviu, então, a mensagem dele. Tudo o que dizia era que ela ligasse para ele. Foi o que ela fez. A ligação caiu na caixa postal. Ah, mas que droga!
Quando Kylie acordou no dia seguinte, às nove horas da manhã, percebeu duas coisas surpreendentes:
Primeiro, não tinha acordado ao amanhecer com a presença do fantasma. Será que isso significava alguma coisa? Alguma coisa boa? Ou alguma coisa ruim?
Segundo, e o mais chocante, ela não estava sozinha. Nada disso. Completamente coberto pelo cobertor, havia um corpo ao lado dela na cama.
Morto ou vivo, ela não sabia.
Reprimindo um grito, ela o tocou. Na verdade, cutucou. Ele não estava frio. Tinha até soltado um gemido. Então a cabeça da mãe apareceu sob as cobertas. Quando ela viu a expressão de Kylie, sentou-se na cama.
— O que foi?
Kylie piscou.
— O que está fazendo na minha cama?
— Ah — A mãe correu os dedos pelos cabelos com um novo corte que realmente os valorizava. — Eu vim ver se você estava bem e acho que... cai no sono.
Kylie achou graça.
— Você estava apavorada.
A mãe revirou os olhos de um jeito que colocaria Sara no chinelo.
— Ah, que nada... — disse a mãe, e caiu na gargalhada. — Tudo bem. Foi assustador mesmo. Me admira que tenha conseguido dormir.
— Era só um fantasma — disse Kylie, com um sorriso no rosto.
— Você diz isso como se conseguisse vê-lo o tempo todo. — A mãe de Kylie a tocou no rosto. — Estou tão feliz que esteja em casa... Viu como podemos nos divertir juntas? Você não precisa estudar em Shadow Falls.
Kylie prendeu a respiração.
— Mas eu realmente quero ir, mãe.
O brilho nos olhos da mãe esmoreceu.
— Não vamos falar sobre isso por enquanto. Temos um dia maravilhoso pela frente.
Apesar da conversa desanimadora e o fato de Kylie ainda não ter conseguido falar com Trey, ela continuou animada. O fantasma aparentemente tinha dado uma trégua. Ou tinha chegado à conclusão de que já tinha causado bastante tumulto na noite anterior. Um telefonema para o hotel informou que tanto Celeste quanto o hóspede idoso com dor no peito já estavam bem.
Elas decidiram comer pizza no almoço e estavam prestes a sair quando o telefone de Kylie tocou. Quando viu que era Miranda, pediu para a mãe esperar um minuto. A mãe então resolveu verificar seus e-mails.
— Ei — disse Miranda. — Della também está na linha. Diga oi, Della.
— Um ménage à trois verbal — disse Della.
— Que grosseria...
— Quer ouvir uma grosseria? — Della perguntou. — Acabei de molhar minha mão tentando mijar naquela droga de pauzinho antidoping enquanto falo no telefone com vocês.
Kylie riu.
— Sinto falta de vocês, meninas. — Ouviu-se o som de descarga na linha.
— Grosseria em dose dupla! — reclamou Miranda. — Eu disse pra não dar descarga enquanto fala ao telefone.
Kylie se jogou no sofá.
— Miranda, e a competição? Já foi?
— É só às quatro da tarde. — Ela parecia desesperada.
— Vai dar tudo certo — tranquilizou-a Kylie.
— Com certeza — Della acrescentou. — Como foi o jantar caça-fantasmas, Kylie?
Kylie certificou-se de que a mãe não estava por perto.
— Vocês não vão acreditar... — Ela contou tudo o que tinha acontecido. As três deram boas risadas e depois mudaram de assunto e começaram a falar sobre o quanto estavam ansiosas para voltar a Shadow Falls. Quando Kylie percebeu que estavam falando há mais de dez minutos, resolveu despedir. Elas concordaram em se falar mais tarde.
— Estou pronta, mãe!
A campainha tocou. Kylie correu para a porta, quando a mãe gritou que estava desligando o computador. Quando Kylie abriu, toda a estranheza que ela tinha sentido na noite anterior voltou a assombrá-la. O mais engraçado era que, na noite anterior, estava se sentindo pouco à vontade por causa da ausência do pai e agora estava sentindo a mesma coisa por causa da presença dele.
— Oi, Fofinha!
Kylie se perguntou mentalmente se a mãe sabia que o pai iria aparecer.
— Já estou pronta... — Os tênis da mãe derraparam quando ela brecou ao entrar no saguão de entrada. As marcas pretas no chão de mármore e o choque no rosto da mãe responderam à pergunta de Kylie.
A mãe não sabia que ele viria. E, com toda a certeza, não estava nada feliz com isso.
O olhar do pai se desviou para a mãe.
— Oi, benzinho — ele a cumprimentou, sorrindo.
O sorriso nervoso do pai provocou uma sensação ruim no estômago de Kylie. Tudo bem, o pai merecia estar nervoso. Mesmo assim parecia errado atender o pai na porta se aquela tinha sido a casa dele. Seu castelo. Agora ele não sabia se era bem-vindo. E, se a expressão da mãe servia de indicação, ele não era.
— Achei que podia levar as minhas garotas pra almoçar — ele disse.
A mãe recuou um passo.
— Eu... eu devia saber que você queria vê-la. — Ela fez um gesto com a mão em direção à porta. — Vocês dois podem ir.
— Por que não vem também? — insistiu o pai.
— Melhor, não — contemporizou a mãe.
— Kylie quer que você vá. — O olhar dele voou para ela. — Não quer, Fofinha? Como nos velhos tempos, nós três juntos.
A mãe franziu a testa. Kylie franziu a testa. O pai ficou ainda mais nervoso. A tensão no ar aumentou.
A mãe enrijeceu o queixo.
— Por que não vamos os quatro? Sua piranha pode ir também.
— Humm, péssima hora, hein? — A voz de Trey soou atrás do pai.
A mãe de Kylie subiu as escadas pisando duro. O pai parecia atordoado. Trey parecia constrangido.
Então o pai franziu a testa para Kylie.
— Você não disse à sua mãe que estava tudo terminado?
Será que ela tinha ouvido direito?
— O quê?
— Você não disse a ela que estava tudo acabado com Amy?
— Será que eu devo voltar outra hora? — perguntou Trey.
— Deve — respondeu o pai.
Kylie concordou com a cabeça. Ficou observando Trey se afastar. Ouviu a mãe chorando. Kylie ficou olhando para o pai – o padrasto. A ideia de que ele tinha tentado usá-la para convencer a mãe a deixava furiosa. O fato de esperar que ela contasse à mãe sobre o fim do relacionamento dele também a enfurecia.
Ela apontou o dedo para o pai.
— Nem tente me usar de novo para convencer minha mãe!
— Eu pensei...
— Então não pense! — Ela bateu a porta, sacudindo os alicerces da casa. A janelinha de vidro da porta se estilhaçou. Ela viu a expressão chocada do pai através da janela quebrada antes de ele se afastar.
Ela respirou fundo.
Depois expirou o ar.
Então subiu as escadas de dois em dois degraus para ver como a mãe estava.
Kylie levou uma hora para convencer a mãe a ir à pizzaria outra vez. Depois tentou ligar para Trey, para saber o que era tão importante a ponto de o fantasma enviar a mensagem dele para todos os celulares do hotel mal-assombrado. Elas já estavam quase terminando a pizza, ainda longe de recuperar o mesmo estado de ânimo jovial de antes, quando o telefone começou a coaxar.
— Ai, querida — comentou a mãe. — Troque esse toque do celular. — Ela cruzou os braços e chamou o garçom. — Pode desligar o ar-condicionado, por gentileza?
Kylie agarrou o celular. Mas não havia ninguém na linha, só a transmissão de uma antiga mensagem de voz.
— Oi, Kylie. É Sara. Desculpe eu ter desligado daquele jeito. Eu... precisava resolver uma coisa. Olhe, eu realmente quero ver você quando estiver em casa. Por favor, me ligue, tá?
— Quem era? — perguntou a mãe, e depois acrescentou em voz mais baixa —, seu pai?
— Não. Uma mensagem de Sara.
Kylie olhou para a pizza e teve um mau pressentimento.
— Mãe, você se importa se eu for à casa de Sara depois do almoço?


— Oi, Kylie — cumprimentou-a a senhora Jetton uma hora depois. — Sara vai ficar muito feliz em vê-la.
Kylie analisou a expressão da mãe de Sara. Os olhos pareciam vermelhos e o rosto, pálido. O clima melancólico que pairava no ar aumentou a preocupação de Kylie pela ex-melhor amiga.
— Ela está no quarto — disse a mãe.
Kylie quase perguntou o que havia de errado, mas o calafrio que percorreu sua espinha a impediu de falar. O curto trajeto da sala até a porta do quarto de Sara foi suficiente para encher a cabeça de Kylie com dezenas de lembranças. E, por uma estranha razão, essas lembranças a deixaram com lágrimas nos olhos.
“Você tem que salvá-la. Tem que salvá-la.”
As palavras do fantasma vibravam na cabeça de Kylie. Ela engoliu em seco e disse a si mesma que estava exagerando, que tudo devia estar bem.
Kylie abriu a porta do quarto de Sara e, ao pousar os olhos na amiga, quase perdeu o fôlego.
Sara estava com uma aparência... horrível. Tão pálida que Kylie ficou olhando seu peito para ver se ela estava respirando.
Sara abriu os olhos.
— Ela te contou, não é?
Kylie limpou as lágrimas com as mãos.
— Contou o quê?
— O que o médico... Se não contou... por que está chorando?
— Estou feliz de ver você... — Kylie tentou sorrir.
— Você sempre mentiu muito mal. — Sara puxou as cobertas. — Mãe, pode desligar o ar, por favor? Estou congelando aqui.
— Querida, já desliguei! — gritou a mãe da sala. — Já telefonei para o eletricista. Tem algo errado com o ar-condicionado outra vez.
Um álbum de foto, na mesinha de cabeceira de Sara, caiu no chão.
Kylie pegou-o. Não ficou surpresa ao ver o rosto na foto. Então ela olhou para os pés da cama de Sara e viu o mesmo espírito da mulher. Ela não estava mais coberta de espaguete nem tinha a camisola ensanguentada, mas sua expressão era tão medonha quanto antes.
— Quem é? — perguntou Kylie, passando a mão no rosto da mulher da foto.
Sara se curvou para ver. Parecia que o movimento lhe causava dor.
— Minha avó. Ela morreu quando eu tinha 4 anos. De algum tipo de câncer. De arrepiar, né?
Câncer. A palavra causou outro sobressalto em Kylie e ela teve que se conter para não deixar os lábios tremerem. Olhou para o espírito.
— Não posso consertar isso.
Sim, você pode — insistiu o fantasma.
— Não pode consertar o quê? — Sara olhava para o álbum como se Kylie tivesse quebrado alguma coisa.
— Nada. — Kylie sentou-se ao lado de Sara. As lembranças das duas naquela cama, confidenciando segredos, rindo de bobagens, voltaram à memória.
Ela engoliu as lágrimas que ameaçavam dominá-la.
— Lembra quando nos deitávamos aqui e ficávamos beijando o espelho para praticar antes do baile do sexto ano?
Sara sorriu.
— Lembro. — Ela se reclinou no travesseiro e fechou os olhos. Seu longo cabelo castanho parecia mais ralo e sem brilho. O silêncio ficou mais pesado. Mais triste.
Kylie acariciou o braço de Sara.
— O que o médico disse?

Um comentário:

  1. ahhh ja tava descofiada que era a Sara , mas o que o ex dela tem a ver com isso ?

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