30 de setembro de 2016

Capítulo 30

Só foi preciso um minuto para que Kylie chegasse à cabana de Derek. No momento em que se aproximava, viu Chris saindo da cabana, vestido para sua corrida matinal, e parou. Teria se escondido no bosque, mas Chris era um vampiro, o que significava que provavelmente já a ouvira chegar. Então ela fingiu que estava correndo e esperou que ele não a parasse para fazer perguntas.
Quando se cruzaram, ela acenou para ele. Ele sorriu e continuou seguindo em frente. Ela continuou pela trilha até sentir que estava fora do seu raio de audição. Então deu meia-volta, correu para a cabana e foi direto para o quarto de Derek.
Ele estava na cama, ainda dormindo. O peito largo estava nu. Os lençóis, enrolados um pouco abaixo da cintura, e Kylie não tinha certeza se algo mais o cobria além do lençol. Ela tinha ouvido falar que a maioria dos garotos dormia sem roupa. Mas ela já o tinha visto nu e isso não a assustava mais.
— Derek?
Ele colocou o braço sobre o rosto.
Ela se aproximou da cama e tocou no ombro dele.
— Derek?
Os olhos dele se abriram e ele se sentou na cama. Ficou olhando para ela, mas não parecia de fato acordado.
— Você está vestida, então isso não é um sonho. — Ele se retraiu, ao perceber que tinha falado aquilo em voz alta, e depois desabou na cama outra vez e ficou olhando o teto.
— Não é um sonho. — Ela se sentou ao lado dele. — Fiquei sabendo o que planeja fazer e não quero que você vá. Por favor, não vá.
Ele ficou olhando para ela com olhos de sono, mas ela não sabia dizer se ele estava mesmo acordado.
— Como você descobriu?
Ele não tinha respondido à pergunta dela, por isso ela não respondeu à dele.
— E você não ia nem se despedir? — ela disse, com lágrimas nos olhos.
Ele se sentou e puxou os lençóis ao redor da cintura.
— Eu ia me despedir.
Ela piscou para diminuir a emoção.
— Você está fazendo isso por minha causa, não está?
— Não. Não só por sua causa. — Ele tocou o braço dela e foi como se ele abrisse as comportas do coração dela, dando vazão às suas emoções.
— Por favor, não vá embora — ela pediu, em meio às lágrimas abundantes.
— Tenho que ir. Tenho que pôr a cabeça no lugar. — Ele piscou. — Você tinha razão. Bom, pelo menos em parte. Ainda acho que você tem umas questões pra resolver com Lucas. Mas... tinha razão também quando disse que eu estava com ciúme. Minha capacidade de ler emoções está ficando mais forte. E eu não sei por que, mas com você é como se eu sentisse tudo o que você sente, mas... com o triplo de intensidade. Não sei se é porque gosto de você demais ou... sei lá. Mas quando sente algo que eu não gosto, atração por outro cara, raiva ou até decepção com alguém... parece que vou enlouquecer. É como se eu tomasse uma injeção de adrenalina na veia. — Ele passou a mão no rosto. — Tenho que aprender a lidar com isso senão...
— Senão o quê? — ela perguntou.
Ele não respondeu, mas Kylie sabia o que ele queria dizer. Ou ele aprendia a lidar com as emoções que ela provocava dentro dele ou teria que se afastar dela. Mas não era exatamente isso que ele estava fazendo? Se afastando dela?
— E você tem que se resolver com Lucas e... — Ele fez uma pausa. — Eu também vou confrontar meu pai. E quando voltar, daqui a um mês, veremos como andam as coisas. Até lá você pode ter se apaixonado por Lucas. E se isso acontecer, vou ter que aceitar.
— Vai aceitar fácil assim?
— Não. Mas não vejo outra escolha.
— Mas você tem outra escolha. Fique. Dê uma chance a nós dois. Vamos superar isso.
Ele balançou a cabeça.
— Não posso, Kylie. Simplesmente não posso.
Ela olhou para ele e, embora fosse difícil aceitar, finalmente aceitou. Derek estava indo embora. Ele tinha feito sua escolha e não era ela.
Com o queixo erguido, certa de que tinha feito tudo o que estava ao seu alcance, ela se virou e foi embora. Ele podia ter despedaçado seu coração, mas não iria despedaçar seu espírito. Ela superaria a dor. Podia apostar que sim.


Uma semana depois, Kylie estendeu um cobertor às margens do rio, onde ela e a mãe tinham se sentado para conversar sobre Daniel. Kylie só queria ficar sozinha para poder pensar, tentar imaginar como ela convenceria a mãe a matriculá-la na escola de Shadow Falls. E, quem sabe houvesse uma possibilidade de Daniel aparecer enquanto ela estivesse ali?
Ela se deitou no cobertor e fitou o céu azul, mas logo ouviu alguém se aproximar.
— Está vendo algum elefante? — uma voz masculina conhecida perguntou.
Ela sorriu para Lucas.
— Não, mas acabei de ver uma girafa.
— Onde? — ele perguntou, olhando para cima.
— Ali — ela disse, apontado para a esquerda. — O pescoço agora está separado do corpo, mas ainda dá pra ver se você olhar bem.
Ele se sentou no chão ao lado dela. Ela achou que ele estava olhando para as nuvens, mas, quando olhou, viu que estava olhando para ela. Ele sorriu.
— Você fica mais bonita a cada dia, Kylie Galen.
Ela revirou os olhos.
— Não comece.
— Tá legal, mas posso dizer que vou sentir a sua falta?
Ela se sentou.
— Vai pra casa da sua avó?
— Vou. Estamos morando em Houston.
Kylie fitou a ponta do tênis e decidiu simplesmente perguntar:
— Lucas, você está trabalhando para a UPF?
— Quem te contou? — ele perguntou, arregalando os olhos.
— Ouvi Burnett e Holiday conversando outro dia.
— Depois que conheci a gangue em que minha irmã estava, pedi a Burnett para me ajudar a pegar uns caras da pesada. Então, de fato, eu meio trabalhei para eles. E disse que se precisassem de mim para qualquer coisa eu estava disponível.
— Não é perigoso?
Ele a analisou atentamente.
— Está perguntando isso porque está preocupada comigo ou Derek?
— Com os dois. — Ela já tinha aceitado que Derek havia partido. Ainda estava triste, mas a tristeza ia passar.
— Não é tão perigoso assim. Se a gente seguir as regras do jogo, geralmente tudo corre bem.
Ele tirou uma mecha de cabelo do rosto dela.
— Você sabe que quero ser mais do que seu amigo, não sabe?
Ela continuou a contemplar a ponta do tênis.
— Não espero que responda agora — ele continuou. — Só quero saiba antes que outro cara tente se aproximar. — Ele se inclinou na direção dela. — Sou um cara paciente, Kylie. Esperei onze anos por você. Posso esperar um pouco mais, até você estar pronta.
Ele pressionou os lábios contra a bochecha dela. Não foi nada parecido com os outros beijos que tinham trocado, especialmente nos sonhos. Mas a proximidade dele, cheiro amadeirado, a sensação dos seus lábios contra a pele fizeram que centenas de borboletas flutuassem dentro dela.
Quando olhou para cima, ele já tinha ido embora.
E o mesmo tinha acontecido com sua capacidade de julgamento. Por que ela não tinha ideia do que planejava fazer, repreendê-lo por beijá-la... ou beijá-lo também.
E talvez fosse melhor ela não responder à própria pergunta.


Sexta-feira de manhã, Kylie, Miranda e Della, cada uma carregando mala, pegaram a trilha para ir ao encontro dos pais. Elas andavam devagar, como prisioneiras condenadas a caminho da execução.
— Vão me obrigar a mijar a toda hora pra fazer a droga do exame antidoping... — murmurou Della.
Miranda suspirou.
— Vou me dar mal naquela competição e minha mãe vai me pôr pra adoção...
— Vou fazer um passeio num hotel mal-assombrado — Kylie acrescentou. As duas amigas a encararam. — Não me perguntem mais nada.
Holiday as encontrou no final da trilha, com seu jeito animado de sempre.
— Sorriam, garotas! São só alguns dias.
Elas todas se viraram e se entreolharam. Kylie pôs a mala no chão e abraçou ambas.
— Espero um telefonema de vocês duas vezes por dia.
— Duas vezes por dia — repetiu Della. — Espero que você não se importe se eu ligar enquanto estou fazendo o exame antidoping, porque é isso o que vou fazer o tempo inteiro.
— Só não dê descarga — disse Miranda. — Odeio quando dão descarga enquanto estão falando comigo.
Cinco minutos depois, no refeitório, Kylie deu um abraço apertado em Holiday.
— Cuide de Socks.
— Estou pensando em levá-lo pra minha cabana.
Quando Kylie e a mãe estavam prestes a sair do refeitório, Perry apareceu e deu um cutucão nela com o cotovelo. Para Perry, aquilo equivalia a um abraço. Kylie lhe exibiu um sorriso caloroso.
— Parece que você fez bons amigos aqui — comentou a mãe.
— É, tem razão, mãe. Eles são especiais.
Kylie quase saiu correndo pela porta quando Lucas parou diante dela.
— Olá, senhora Galen — ele cumprimentou. — Meu nome é Lucas. Eu só queria me despedir da sua filha.
O coração de Kylie quase saiu pela boca ao pensar que a mãe podia reconhecê-lo.
— Prazer em conhecê-lo, Lucas — disse a mãe, e se afastou um pouco para lhes dar privacidade.
Ele sorriu.
— Se cuida.
— Vou me cuidar.
— E sonhe comigo — sussurrou ele, inclinando-se na direção dela.
Ela revirou os olhos, mas deu uma risadinha e se afastou, aproximando-se da mãe.
— Ele é uma gracinha — disse a mãe, mas com o mesmo tom que usava quando dava a Kylie os panfletos sobre sexo. Elas saíram do refeitório e foram para o carro.
— É — Kylie concordou, e pela enésima vez torceu para que o final de semana transcorresse com tranquilidade. Sem surpresas inesperadas ou silêncios longos e desconfortáveis entre ela e a mãe.
Quando a mãe deu partida, o frio que invadiu o interior do veículo foi mais forte do que o ar-condicionado.
— Uau! Nunca vi este carro tão frio antes! — Quando a mãe arrancou,
Kylie deu uma olhada no banco de trás e viu sentado ali o fantasma com sua camisola cheia de sangue. De repente, o espírito deu um salto para a frente e agarrou o ombro de Kylie. O odor que exalava dela era repugnante.
Kylie reprimiu a ânsia de vômito.

— Então — disse a mãe, alheia a tudo o que estava acontecendo. — Onde você gostaria de almoçar? Estou faminta!

Um comentário:

  1. mano que raiva do Derek...caramba...tá que ela se sente atraída pelo Lucas...mais ela tá escolhendo ele e esse babaca fica com frescura...

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