18 de setembro de 2016

Capítulo 30

Paul tinha razão sobre uma coisa. Jesse estava mesmo esperando por mim do lado de fora do restaurante.
Quase passei direto por ele... não porque não estava esperando vê-lo. Estava. Ou pelo menos eu esperava que ele estivesse ali... mas porque, quando notei uma figura escura na sombra da entrada do hotel, havia um brilho vermelho vindo de sua boca.
— Jesse? — Quase deixei a bolsa cair de tanto choque. — Você está fumando?
— Suzannah. — Ele se inclinou para apagar o cigarro em uma das plantas iluminadas. — Eu não esperava que fosse voltar tão cedo.
— Decidimos não pedir sobremesa. Quero dizer, eu decidi. Desde quando você fuma?
Ele deu de ombros, constrangido.
— Eu não fumo. Quero dizer, fumo, é claro, de vez em quando. Mas não muito. É um mau exemplo para os pacientes.
— Quem está mantendo segredos dessa vez?
Observei o rosto dele sob a luz fraca. Estava tarde, e tão frio que os motoristas tinham entrado no hotel para se manter aquecidos. Estávamos a sós na noite fria.
Agora que havia apagado o cigarro, Jesse colocou as mãos nos bolsos para mantê-las quentes, e me encarava com uma expressão que só pude descrever como ressabiada.
— Então? — perguntou ele finalmente. — Cadê ele?
— Ele está pagando a conta de 4 mil dólares. Nós vamos embora. Aqui.
Ele olhou para o saco plástico festivo que entreguei a ele como se carregasse explosivos.
— O que é isso?
— É um muffin de banana com nozes. O Mariner's dá um a todos os clientes que vêm jantar. É para comer no café da manhã. Você saiu sem pegar o seu.
A boca dele se curvou em um leve sorriso.
— Tudo bem. Pode ficar com o meu.
— Que foi, Jesse? — perguntei com calma, e botei o muffin na bolsa. — Não quer uma lembrança de sua experiência no Mariner's?
— Não.
— Eu também não quero, na verdade. — Estiquei a mão. — Desculpe.
Durante alguns batimentos agonizantes do coração, ficamos ali debaixo da entrada, minha mão esticada na direção dele sobre o tapete vermelho. Não havia nenhum som a não ser o das ondas batendo na praia vários metros abaixo de nós.
O que estava acontecendo? Ele ia me deixar ali parada com a mão esticada para sempre? Será que ele fazia ideia de como pedir desculpas era difícil para uma pessoa como eu?
Ele sabia. Finalmente, ele tirou uma das mãos do bolso e entrelaçou os dedos fortes nos meus.
— Você não precisa pedir desculpas, Suzannah — disse, com uma voz tão amena e segura quanto sua mão. — Nada disso foi culpa sua. Foi dele.
— Obrigada, Jesse. Mesmo assim, você devia ter escutado a história de mim, e não dele. Eu quis contar, só fiquei...
— Com medo de eu ficar com raiva — falou Jesse. — Sim, entendo. Mas eu também devia ter confiado em você. Vamos aceitar então que nós dois cometemos erros, não só hoje à noite, e deixar como está. — Ele começou a me levar em direção à BMW de Jake, estacionada a alguns metros dali. — Suzannah, você realmente acredita?
— Em quê?
— Na maldição. Que...
— Claro que não — interrompi. — Não acho que você tenha nenhum centímetro assassino em seu corpo... só se o caso for Paul. Mas, mesmo que seja verdade, não precisamos mais nos preocupar com isso.
— Como assim? — Ficou surpreso. — David disse que não tinha como quebrar a maldição. Que vinha pesquisando sobre isso com um amigo que...
— Não importa. A Pine Crest Road, 99, não vai ser demolida.
A voz dele não estava mais tão calorosa.
— Por quê?
— Porque ela pertence a mim.
Chegamos ao carro de Jake, mas Jesse não se moveu para pegar as chaves no bolso. Soltou minha mão.
— A casa é sua? Como conseguiu isso?
— Bem, ainda não é minha de verdade — explicou. — Ainda tenho de assinar uns papéis. E, pelo visto, vou ter alguns problemas com impostos. Suspeito que vão me extorquir um belo valor. Mas Paul vai me transferir a propriedade da casa para que eu nunca revele que ele é o verdadeiro pai das trigêmeas, e para que eu dê aulas de mediação a elas quando forem mais velhas.
Jesse ficou me olhando em silêncio por vários segundos. Era um pouco difícil ver o rosto dele, porque a iluminação do estacionamento não era a melhor e a lua estava brincando de pique-esconde com as nuvens. Mas tive a impressão de que ele não parecia muito feliz.
Isso se confirmou quando ele soltou um palavrão (em espanhol, é claro) antes de finalmente dizer:
— Você é quem está possuída.
— Oi? — Olhei para ele. — Como assim?
— As pessoas estão preocupadas que eu tenha um lado obscuro? Acho que elas deviam estar se preocupando com você.
— Ah, vamos lá, Jesse. Você quer que sejamos honestos um com o outro? Então sejamos honestos. Você deve ter suspeitado.
— Não, Suzannah, a possibilidade de Paul Slater ser pai de suas sobrinhas nunca me passou pela cabeça, e não sei como você ficou sabendo.
— Lucia me contou — falei antes de pensar.
Assim que as palavras saíram de minha boca, vi nos olhos dele a traição que eu havia cometido. Mas era tarde demais para desfazer o estrago.
— Lucia te contou? — Jesse parecia ter levado um tapa. — E você nunca me falou nada?
Eu me defendi.
— Eu não ia falar nada para ninguém — insisti. — Pareceu o tipo de coisa que se deve manter em segredo...
— De mim? Mas era para a gente se casar!
— Como assim, era? — Meu coração se contorceu. — Jesse, eu entendo você ficar com raiva de mim, mas não acha que é um pouco demais ficar com tanta raiva assim....
— Eu não estou com raiva de você, Suzannah. — Ele passou uma das mãos pelos cabelos grossos e negros, frustrado. — Eu... eu não sei o que estou sentindo.
— Use palavras. — Era uma frase que falávamos para as trigêmeas frequentemente.
— Ok. — Ele olhou para mim com irritação. — Estou decepcionado.
— Decepcionado?
Eu não acho que ele poderia ter escolhido uma palavra que machucasse mais. Deus sabe que Jesse e eu havíamos discutido outras vezes, mas ele nunca usou aquela arma de seu arsenal. Aquilo perfurou meu coração como um salto agulha, e a dor me deu uma vontade selvagem de machucá-lo também.
— Está falando sério? Ah, me desculpe, Dr. De Silva. Eu não quis te decepcionar. Deus sabe que nunca vou ser tão elegante quanto sua preciosa Srta. Boyd. Achei que estivesse fazendo um favor para você esta noite...
— Já falei para você que não quero favores, Suzannah — rosnou ele. — Nunca esperei favores e nunca pedi nenhum. Tudo que sempre quis de você foi a verdade.
— Que sempre dei a você, Jesse — falei. — Admito que nem sempre falo tudo com a antecedência que devia, mas sempre acabo contando a verdade.
— Sempre acaba contando? Anos depois, né, no caso do que aconteceu entre você e Slater na formatura. E eu teria descoberto sobre seu planinho de hoje se David não tivesse me ligado?
— Que planinho?
Ele sorriu com cinismo.
— São tantos que você nem acompanha mais! O que envolvia seu acordo com Slater.
Ah, esse plano.
— Nunca planejei cumprir esse acordo, Jesse. Eu ia apelar para as algemas e a arma de choque que você colocou no carro para usar com o padre Francisco. Então...
— Numbre de Dios. — Ele parecia alarmado. — Então eu cheguei e você não fez nada. E ainda bem que eu cheguei. Um homem como Slater, que não tem escrúpulos quanto a usar força contra uma mulher, teria gostado...
— Não. Eu usei as armas com Delgado. Paul teria se ligado se eu levasse a bolsa para o quarto dele. Em vez disso, usei o remédio.
Jesse balançou a cabeça, incrédulo.
— E viu como adiantou muito? Ele toma remédios desse tipo para se divertir, Suzannah!
— Eu sei. — Meus ombros ficaram pesados. — Acho que pessoas vivas não obedientes não são meu forte.
— Eu não diria isso. Vem aqui.
Eu estava olhando para meus sapatos. Levantei o rosto, sentindo uma pontada de esperança.
— O quê?
— Eu falei vem aqui. Você está tremendo.
Dei um passo na direção de Jesse, que tirou o blazer e o colocou sobre meus ombros.
Podia até estar com raiva de mim – e ser parte demônio – mas, ao contrário de Paul, que era todo humano, Jesse ainda era um cavalheiro. O calor do corpo dele logo penetrou no meu e me aqueceu.
Mais que o calor do blazer, no entanto, foi seu cheiro fresco e o toque de seus dedos em minha pele que me lembravam do quanto eu o amava.
— Ai, Jesse — falei —, será que a gente pode não brigar? É a pior coisa.
Ele não pareceu tocado.
— Não, Suzannah. A pior coisa é ouvir de sua futura esposa que ela se voluntariou a abrir uma escola de mediação na antiga casa com o propósito único de educar as filhas de Paul Slater.
— Jesse, por favor. Você sabe que não é isso que quero dizer. Não uma escola. Eu estava pensando na clínica que sempre quisemos abrir. Você cuida do bem-estar físico das crianças, e eu cuido da saúde mental delas. Você devia ver a identidade visual que Cee Cee criou...
— Você não pode abrir uma clínica médica em um bairro residencial, Suzannah.
— Ah — falei. — É, você deve ter razão. Então a gente vai ter só de morar lá.
— Na casa onde eu morri?
— Na casa onde nós nos apaixonamos. Uma casa que consegui de graça, caso você não tenha entendido essa parte.
Qualquer casal que tivesse passado o tempo que passamos em um relacionamento a distância (não só porque fomos para faculdades diferentes, mas também porque um de nós era um morto-vivo durante grande parte do tempo) estava sujeito a brigas – talvez um pouco mais para nós por causa de nossa situação em particular...
Mas nunca tivemos uma briga como aquela.
No entanto, meu trabalho é resolver conflitos. Existem várias maneiras de fazer isso. Nem todas incluem armas.
Pelo menos não armas que guardamos em bolsas de ginástica.
E, a julgar pelo calor que vi se acendendo nos olhos de Jesse, eu estava começando a ter uma ideia do tipo de arma que resolveria aquele conflito da melhor forma. E, felizmente, essa arma eu tinha em meu arsenal. Eu vinha tentando usá-la a meu favor havia um bom tempo, sem sucesso.
Graças a Paul, agora eu tinha uma ideia do porquê. Era o último objetivo de Paul, mas, ao tentar me separar de Jesse, ele me deu a chave para finalmente nos unir.
— Vem. — Eu o segurei pelo cinto e fiquei feliz quando ele me permitiu aproximá-lo alguns centímetros de mim. — A melhor maneira de resolver isso é provar que Paul está errado.
A sobrancelha com a cicatriz em forma de lua crescente se ergueu.
— De que maneira?
— Acho que se ainda achamos que tem alguma coisa maligna à espreita dentro de você — falei, e o aproximei de mim ainda mais —, a gente deve libertá-la. É basicamente meu dever como mediadora, na verdade.
Ele estava apoiado sobre mim, pressionando minhas costas contra o carro de Jake. Senti o batimento estável do coração dele embaixo do terno, e os músculos das pernas dele contra as minhas. O calor que ele emanava fazia com que fosse difícil de acreditar que ainda havia alguma parte dele que talvez estivesse no túmulo. Mas nunca se sabe.
Sua boca se curvou nos cantos.
— Suzannah...
— Shhh. Venho treinando para isso há muito tempo. — Eu ainda estava segurando o cinto dele. — Estou pronta para assumir essa missão muito importante.
— Suzannah. — Ele estava com as duas mãos sobre o carro, prendendo-me com os braços longos e musculosos. — Sei que está brincando, mas isso é sério. Você não teria passado por tudo isso se não acreditasse pelo menos um pouco que...
— Não estou brincando, e não interessa no que eu acredito. — Mexi na fivela do cinto. — No que você acredita? Se o motivo real que fez com que você adiasse nossa primeira vez por tanto tempo foi medo de que isso pudesse libertar alguma coisa demoníaca, então acho que temos a obrigação de descobrir. — Fiquei olhando dentro dos olhos dele, dedos presos na fivela. — A verdade, Jesse, é que não tenho medo de fantasmas.
De Silva me olhou com olhos negros repletos de alguma coisa indecifrável.
— Talvez — disse ele, colocando as mãos em minha cintura — você tenha razão.
Meu pulso deu um pulo irregular.
— O que prescrevo é que a gente volte para a Cruzada hoje — falei com a voz repentinamente rouca —, abra uma garrafa de vinho e converse sobre como eu fui decepcionante, com muitos detalhes, no seu quarto. E por motivos terapêuticos, acho que devemos fazer isso sem roupa.
A resposta dele foi o sorriso de lado do qual senti tanta saudade, sem traços de cinismo dessa vez.
— A gente pode tentar isso — disse ele, abaixando a cabeça para dar um beijo em meu pescoço. — Ou podemos conversar sobre algumas de suas qualidades menos decepcionantes.
Fingi estar chocada.
— Peraí... eu tenho alguma?
— Consigo pensar em algumas. — Uma das mãos dele subiu pela minha cintura e parou perigosamente perto de meu seio esquerdo.
— Me diz uma. Vamos ver o que será libertado.
— Hummm. Cabeça dura?
— Não é um elogio. Tente de novo.
— Inteligente.
— Ah, boa. — A mão chegou ainda mais perto de meu seio, ao passo que os lábios foram em direção à boca. — Que tal outra?
— Linda.
— Gostei dessa. Que mais?
Ele falou alguma coisa incompreensível. Conforme continuou me beijando – um beijo para cada palavra – senti algo na frente da sua calça que mostrava que pelo menos uma parte dele decididamente não estava decepcionada comigo.
— A gente pode conversar sobre essas coisas também — falei. Suas mãos envolveram meus seios, e seus lábios beijaram os meus com fome. — Estou aberta a sugestões.
— Suzannah, Suzannah, Suzannah — sussurrou ele depois de certo tempo. — Te quiero.
— Eu também — sussurrei, passando os braços ao redor de seu pescoço. A melhor parte de brigar era fazer as pazes depois. — ldem.
Ele tinha acabado de me dar um daqueles beijos longos e quentes que, baseado em minha experiência com ele, em geral levava a beijos mais longos e mais quentes, quando o som de alguém batendo palmas fez com que os dois nos assustássemos e nos virássemos.
Não tinha como dizer há quanto tempo ele estava parado embaixo da entrada do hotel, bisbilhotando silenciosamente. O vento vindo do oceano levava a fumaça do charuto que ele fumava para a direção oposta – por isso não notei. Geralmente sou mais sensível a esse tipo de coisa.
— Brilhante — disse Paul ainda aplaudindo, charuto preso nos dentes. — Uma performance lindíssima. Não vejo uma apresentação tão divertida desde... bem, desde o filme pornô que assisti em meu quarto aqui no hotel.
Senti todos os músculos de Jesse se tensionarem. Segurei os ombros de seu blazer; eu sabia exatamente o que ia acontecer.
— Jesse, não — falei, o medo tomando meu estômago. — Ele não vale a pena...
Tarde demais.
Ele chegou em Paul com três passos. O som de osso batendo em osso dava náusea, quase o mesmo som da coronha quando bateu no crânio de Delgado.
É estranho ver nas coisas em que a consciência se foca em momentos como esse. A minha se prendeu no charuto que saiu voando da boca de Paul pelo ar da noite – criando uma chuva de fagulhas vermelhas – e parou no concreto perto de meus saltos altos, seguido, em poucos segundos, pelo rosto de Paul, em uma chuva também vermelha de gotas de sangue.
— Eu avisei — disse Jesse para Paul, respirando com força. Ele passou por cima do corpo imóvel de Paul para me pegar pelo braço e me afastar da cena. — Mas você não me escuta.
A única resposta de Paul foi um gemido enquanto ele se esforçava para se sentar.
— Jesse. — Eu estava completamente chocada com a violência que havia acabado de testemunhar, e olhe que vi bastante violência naquela noite. Naquele momento, não foi difícil acreditar que Jesse tinha um demônio dentro de si. Ele havia acabado de libertá-lo na pessoa que mais odiava, em vez de sobre as pessoas que mais amava. — Você não precisava...
— Sim — disse ele com uma voz que me deu calafrios de tão gelada. — Precisava, sim.
Ele colocou uma coisa em minha mão. Quando olhei para baixo a fim de ver o que era, uma parte longínqua de meu cérebro ficou surpresa ao identificar as chaves da BMW.
— Vá para casa. — Jesse me segurou pelos ombros enquanto me dava instruções com cuidado. — Para sua casa. Ande logo. Vai ser melhor se você for embora agora.
— Por quê? — perguntei, abobada. — Para onde você vai?
— Não se preocupe comigo. Eu vou estar bem. Ligo quando puder.
— Me liga? Não estou entendendo. Para onde você vai?
Então eu vi os motoristas saindo do hotel, falando com Jesse em espanhol rapidamente e com furor, e ouvi a sirene a distância. Vi também o sorriso lento e maldoso no rosto de Paul por trás do sangue todo quando ele se sentou.
De repente, entendi exatamente por que Jesse me deu as chaves do carro e para onde ele ia.
Tudo que eu podia fazer era entrar no carro e dirigir para casa.

3 comentários:

  1. Gente, Paul é maravilhoso! Sabia que ele não ia deixar barato assim... Jesse todo esquentadinho.

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  2. Ah, achei que ia ser agora! Mas tava fácil demais...
    O Paul tá meio chato nesse livro, tá perdendo o jeito.
    E agora Jesse? :x

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  3. (Jake balançou a cabeça, incrédulo.) Nesta parte não deveria ser Jesse???

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