13 de setembro de 2016

Capítulo 3

Mark tirou a minha mão de cima do seu ombro com olhos selvagens.
— O quê? — exclamou ele, surpreso. — Não! É isso que as pessoas acham, que eu matei Jasmin? Mas não foi nada disso que aconteceu. Eu jamais a machucaria!
— Claro — falei com o tom de voz mais calmo possível.
Como graduanda de Psicologia – contei que também estou estudando? Não para ser médica, como o Jesse. Estou apenas na graduação por enquanto. Mas vou me formar em Psicologia. E, depois da graduação, vou fazer mestrado em Aconselhamento. Quero ajudar jovens que são como eu era, que sentem que têm segredos que não podem contar a ninguém. Como eu também era assim, vou saber reconhecer essas pessoas e, espero, ajudá-las.
Quer dizer, fora as que cheguei muito tarde para ajudar, como a Jasmin. E o Mark.
— Olha — falei para Mark. Ele ainda me olhava, incrédulo. Às vezes os espíritos, especialmente os jovens, demoram um pouco para entender que estão mortos e como morreram; mesmo quando foram responsáveis pelo próprio falecimento. — O que foi feito, foi feito. Você não tem como voltar e mudar. Agora é andar pra frente. Jasmin fez isso, e é por isso que não está aqui. E agora chegou a hora de você seguir em frente também, Mark.
— S-seguir em frente? — Ele parecia confuso.
— Isso. Pra sua próxima vida, o pós-vida, o paraíso, o inferno, sei lá. — Não quis entrar nos detalhes técnicos porque não sei ao certo para onde os espíritos vão depois que eu os encaminho para a luz. Meu papel é apenas direcioná-los. — Você não pode ficar perambulando por aqui, descontando sua raiva no túmulo da Jasmin. Não é saudável pra ninguém, principalmente pra você.
— Não estou falando de ninguém. Estou falando sobre aquele babaca do Zack Farhat. Ele fica vindo aqui e colocando flores no túmulo da Jasmin, e isso não é certo porque...
— Claro — falei, mantendo o tom falsamente calmo. — Mas o negócio, Mark, é que quanto mais cedo você conseguir se desapegar de coisas como esse tal de Zack, mais cedo você vai poder estar com ela.
Eu estava mentindo descaradamente.
Não achava nem um pouco que o Mark se encontraria com a Jasmin na próxima vida – não importa onde fosse – depois do que fez com ela. Mas mentir me pareceu a forma mais rápida de acabar logo com aquilo.
— Não faz mais diferença.
— Faz, sim — disse ele. — Claro que faz. Por que você está falando que não faz mais diferença? E por que fica repetindo que eu matei a Jasmin? Eu não fiz isso.
A temperatura tinha começado a cair – o que era estranho, porque eu havia checado a previsão do tempo no telefone antes de sair de casa e visto que tinha uma frente quente chegando. Essa devia ter sido a minha primeira indicação, mas não me toquei. É claro que não. Estava com tanta raiva do que ele havia feito que deixei as minhas emoções atrapalharem o meu senso comum.
— Estou dizendo que essas coisas não importam, Mark. E não importam porque você e a Jasmin estão mortos. Vocês dois morreram instantaneamente quando você bateu o seu carro naquela ribanceira perto da ponte Rocky Creek na semana passada. Lembra? Você devia se lembrar. Era você quem estava dirigindo.
Foi nesse exato momento que veio um vento mais forte, e a neblina começou a dar voltas em torno de nós junto com as pétalas do arranjo de flores que Mark havia destruído.
E, mesmo assim, eu não percebi o que estava acontecendo.
— Não foi nada disso que aconteceu! — explodiu Mark. — Eu jamais faria isso! Jamais a machucaria. Falei pra você, eu a amava!
— É, todo mundo sabe o quando você amava a Jasmin, Mark. — Eu mal acredito que não captei os sinais até então, mas ele de fato me deixou puta. Assassinos costumam fazer isso. — Eu sei que você pediu ela em casamento no restaurante; todos os garçons viram você se ajoelhando e oferecendo o anel da sua avó. Eles disseram que foi muito fofo. Mas alguma coisa aconteceu no carro, não aconteceu? Deve ter acontecido, porque ninguém conseguiu encontrar o anel nos destroços. Não estava no dedo da Jasmin, e também não estava na caixa de veludo. O que aconteceu com o anel, Mark? Vocês brigaram no caminho pra casa? Ela mudou de ideia e tacou o anel pela janela? Foi por isso que você bateu com o carro?
O rosto dele estava pálido – o mais pálido que um fantasma conseguia ficar. Era o incentivo que eu precisava para continuar, embora fosse a pior coisa que eu poderia ter feito.
No entanto, estava frio, era Dia dos Namorados, e eu estava em um cemitério com um menino que matou a namorada de maneira egoísta e que agora nem deixava que outras pessoas colocassem flores no túmulo dela.
— Pois é — continuei de forma descuidada. — Foi o que eu pensei. Eles nunca vão encontrar aquele anel porque é uma estrada à beira-mar, e ele deve estar no fundo do oceano agora. Mas foi por isso que você matou a Jasmin, não foi? Porque ela rejeitou você. Vocês eram muito novos, e ela ia pra uma faculdade da Ivy League no ano que vem, ao passo que as suas notas não estavam tão boas assim. Você ia ficar por aqui e ir pra uma faculdade comunitária porque foi o único lugar onde conseguiu entrar... e isso não é motivo pra vergonha, pode acreditar. Eu também faço algo parecido. Mas talvez pedir ela em casamento tenha sido uma forma de tentar forçar a fidelidade dela enquanto estudava longe, e no calor do momento, ela aceitou. No entanto, quanto mais vocês chegavam perto de casa, mais ela percebia que havia cometido um erro, aí ela...
— Não! — rosnou ele, tão alto que fiquei surpresa pelas pessoas nas casas e no comércio ali perto não terem saído correndo para ver o que estava acontecendo.
Contudo, existe apenas uma pessoa além de mim na região da baía de Monterey que é capaz de captar as ondas sonoras de espectros – principalmente agora que o Jesse estava estudando tão longe – e essa pessoa estava em um retiro seminarista em Novo México. Eu sabia disso porque o padre Dominic gostava de manter os seus alunos atuais (e antigos) informados sobre suas atividades diárias pelo Facebook.
O dia em que o diretor da minha antiga escola começou um perfil no Facebook foi o dia em que eu desisti das mídias sociais. Por enquanto está dando certo, visto que prefiro as interações ao vivo. É mais fácil ver quando as pessoas estão mentindo.
A não ser, é claro, que sejam fantasmas.
Aí fica um pouco mais difícil.
O vento começou a ficar bem mais forte. E não apenas isso: a temperatura caiu mais uns quatro ou cinco graus, e tudo no último segundo, o que é obviamente impossível.
Assim como o meu trabalho. Do qual eu realmente gostaria de desistir porque, além de ser perigoso, nem recebo dinheiro. Pelo menos como conselheira eu vou receber salário, aposentadoria e plano de saúde.
— Olha, Mark — falei, me abaixando quando um vaso fino de flores que havia sido arrancado pelo vento forte veio voando na minha direção e bateu direto na lápide do J. Charles Peterson. — Acidentes causados por raiva nas estradas são muito comuns. Quase 7 milhões de acidentes de carro ocorrem todo ano por esse motivo. Entendo que talvez não fosse a sua intenção. Mas, se a Jasmin não jogou o anel fora, onde ele foi parar? Se não admitir, vai ficar preso aqui neste plano de existência, o que não vai ser legal pra você...
— Tô dizendo que não fiz isso! — rugiu Mark. — E ela não jogou o anel fora. Foi o Zack. Tem que ser. Foi ele!
Outros arranjos de flores começaram a ser lançados perigosamente perto da minha cabeça. Eu estava sendo alvejada por flores, o que soa agradável, mas não é. Elas machucam quando são chicoteadas pelo vento.
— Achei que tinha visto a caminhonete monstro dele no estacionamento, mas a Jasmin falou que eu estava sendo paranoico — continuou Mark. — E depois eu vi os faróis seguindo a gente na estrada.
— Peraí... — falei, com os braços para cima a fim de proteger o meu rosto dos buquês mortos voando na minha direção. — Como assim?
Mas era tarde demais. Muito tarde mesmo. Tarde demais para Mark e Jasmin, tarde demais para Zack, e, talvez, tarde demais para mim também.
— Por que ninguém me escuta? — indagou Mark. — Ele estava com o farol alto aceso, mas ainda assim eu reconheci aquela merda de caminhonete dele. Estava bem acima do limite de velocidade, o que me forçou a ir mais rápido também. E você sabe que tem aquela faixa fechada logo depois da ponte Rocky Creek...
Senti o estômago apertar. Fiquei sabendo disso pelo jornal.
Eu já tinha visto coisas demais pelo jornal.
O problema foi que dei ouvidos para a matéria. Acreditei nela. Eu, o tipo de menina que a mídia insiste que não existe. Por que acreditaria em qualquer coisa que dissessem?
— Mark — falei. Havia nuvens no céu previamente limpo, o que era estranho, porque o aplicativo de previsão do tempo no meu celular não falou nada sobre chuva. Um trovão rugiu, e, de repente, além de estar sendo atacada por flores, fui atingida por uma chuva forte e incisiva. — Você tem certeza de que...?
— Como assim, se eu tenho certeza? — retrucou ele. — Sim, tenho certeza. Estou falando pra você, foi ele. Não me lembro do que aconteceu depois disso, mas desde que acordei, fico vendo ele colocar flores no túmulo da minha namorada.
Aquilo não era bom sinal. Não mesmo.
— Mark...
— E agora você está me dizendo que todo mundo acha que eu matei a Jasmin, que ele é um santo e que eu tenho que seguir em frente?
Engoli saliva e protegi a cabeça dos pingos com os braços.
— Tá bom, olha — falei. — Eu não sabia de todos os fatos desse caso até agora, Mark. Mas, agora que sei, por que a gente não vai com calma pra reavaliar a situação e...
— Ir com calma e reavaliar a situação? — repetiu Mark. Estava aos prantos, e era compreensível. Eu também estava com vontade de chorar. — Não, obrigado. Agora que você me contou que é isso o que está acontecendo, acho que tenho uma proposta melhor. E com certeza não tem nada a ver com eu seguir em frente, ou ir com calma e reavaliar a situação.
— Mark — berrei. Precisei berrar para que ele me escutasse apesar dos trovões e da chuva. — Não. Sério. Não faça nada de que vá se arrepender depois. Se o que está me contando é verdade, então você tem uma chance muito boa de se juntar a Jasmin, onde quer que ela esteja. Mas, se você fizer o que está pensando em fazer, vai perder essa chance pra sempre. Vem comigo. Vou ajudar você a atravessar, e depois cuido desse tal de Zack. É meu trabalho, não o seu. Você não vai querer...
Mas era tarde demais. Em um redemoinho de lágrimas e chuva e pétalas de rosas, ele foi embora.
E eu estava ferrada.

3 comentários:

  1. ela sempre foi assim acusando primeiro e perguntando depois por isso ela se ferra😒😒
    ass: mary protegida de Durga

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