18 de setembro de 2016

Capítulo 2

O escritório da escola tinha ar condicionado, mas o calafrio que senti na espinha não teve nada a ver com o fato de que meus supervisores (alguns dos quais se vestem com hábitos religiosos) gostavam de manter o clima bem fresco, com o termostato nos 19 graus.
— Sinto muito — respondi, agradecida por meu calafrio não transparecer na voz. — Sou uma pessoa realmente ocupada e importante, e não tenho tempo para babacas riquinhos do passado que querem consertar seus erros. Mas desejo sorte no caminho em direção à iluminação transformadora. Tchauzinho.
— Suze, espere. Não quer salvar sua casa?
— Não é mais minha, lembra? É sua. Então não ligo pro que acontecer.
— Fala sério, Suze. É a primeira vez em seis anos que você me liga de volta quando tento falar com você. Sei que se importa... com a casa.
Ele tinha razão. Fiquei chateada quando minha mãe me disse que ela e meu padrasto, Andy, iam vendê-la – muito mais que Jesse quando ficou sabendo.
— É só uma casa, Suzannah — disse ele naquela ocasião. — Seus pais não moram nela há anos, e nem nós. Não tem mais nada a ver conosco.
— Como é que você pode falar isso? — respondi chorando. — Aquela casa tem tudo a ver conosco. Se não fosse por ela, a gente nunca teria se conhecido!
Ele riu.
— Talvez, mi amada. Mas talvez não. Sinto que eu teria encontrado você, ou você me encontrado, não interessa onde estivéssemos. Aquela casa é só um lugar, não é o nosso lugar, não mais. Nosso lugar é um com o outro, onde quer que estejamos.
Então ele me puxou para perto e me beijou. Foi difícil me incomodar com alguma coisa depois disso.
Acho que entendo por que o casarão vitoriano na Pine Crest Road, 99, não significava nada para ele. Na visão de Jesse, era apenas o lugar onde havia sido assassinado.
Para mim, no entanto, foi a casa na qual nos encontramos e, com o tempo e depois de vários desentendimentos, nos apaixonamos – embora durante anos tivesse parecido um romance amaldiçoado: ele era uma Pessoa Morta Não Obediente; eu, a menina cujo trabalho era livrar o mundo da espécie dele. Acabou dando certo, mas por pouco.
Embora o chamado “dom” de se comunicar com os mortos possa soar incrível, acreditem em mim: quando um fantasma aparece em seu quarto – mesmo um que fique tão bem sem camisa quanto Jesse – a realidade não se parece nada com os filmes ou a TV, ou com Médium, o novo reality show de sucesso (que, sinto dizer, é baseado no filme e no jogo de RPG best-seller de mesmo nome).
A “realidade” é de partir o coração e, às vezes, é bem violenta... como minha necessidade de comprar botas novas ilustrou.
Exceto, é claro, que, no final das contas, foi esse “dom” que me permitiu conhecer e ficar íntima de Jesse, e até ajudar a fazer com que sua alma voltasse a seu corpo, embora meu chefe e companheiro de trabalho de mediação, o diretor da Academia da Missão, o padre Dominic, goste de achar que isso foi “um milagre” pelo qual devemos agradecer. Ainda estou em cima do muro, sem saber se acredito ou não em milagres.
Existe uma explicação racional e científica para tudo. Até o “dom” de ver fantasmas parece ter um componente genético. Provavelmente também existe uma explicação científica para o que aconteceu com Jesse.
Uma coisa que não tem explicação – pelo menos não uma que eu tenha encontrado até hoje – é Paul. Mesmo que ele tenha me mostrado o incrível truque de viajar no tempo que, eventualmente, levou ao “milagre” que trouxe Jesse do mundo dos mortos à vida, Paul não o fez por ter um coração bom. Fez porque queria se dar bem comigo.
— Olhe, Paul — falei. — Você tem razão. Eu me importo, sim. Mas com pessoas, não com casas. Então por que você não pega suas desculpas e seu novo projeto de construção chique e seu avião particular e enfia tudo no orifício retal, que, caso você não saiba, é também conhecido como cu. Adios, muchacho.
Já ia desligar quando a gargalhada de Paul me fez parar.
— Orifício retal — repetiu ele. — Sério, Simon?
Tive de encostar o telefone no ouvido novamente.
— Sim, sério. Tenho alto conhecimento de termos médicos corretos agora que estou noiva de um médico. E isso não é apenas onde você deve enfiar suas desculpas, falando nisso. É também o que você é.
— Tá bom. Mas e Jesse?
— O que tem Jesse?
— Entendo você não ligar para mim, nem para a casa, mas achei que você ficaria pelo menos um pouco preocupada com seu namorado.
— Eu me preocupo com ele, mas não sei o que a demolição de minha casa tem a ver com isso.
— Tem só tudo a ver. Vai me dizer que não se lembra de todos aqueles textos de meu avô sobre funerais egípcios que a gente costumava estudar juntos depois das aulas? Isso magoa, Suze. Magoa muito. Dois mediadores problemáticos se deliciando com hieróglifos ancestrais... Achei que tínhamos algo especial.
Quando você é uma menina normal e um menino tem tesão por você, ele te convida para ver filmes na casa dele depois da aula.
Quando você é uma mediadora, ele te convida para estudar os textos do avô sobre funerais egípcios, para que aprenda mais sobre seu chamado.
É. Eu realmente era popular na escola.
— O que tem eles? — indaguei.
— Nada de mais. Só achei que você fosse se lembrar do que O livro dos mortos diz sobre o que acontece quando uma casa que foi assombrada é demolida... Que, quando um demônio tem seu destino final alterado, libera a ira das chamas eternas do submundo em cima de tudo o que encontra, amaldiçoando até mesmo os que amou um dia, com a fúria de mil sóis. Esse tipo de coisa.
Xinguei... em silêncio, para mim mesma.
O avô de Paul, além de ser absurdamente rico, era também um dos egiptólogos mais proeminentes do mundo. Quando o assunto era maldições obscuras e ancestrais escritas em pedaços velhos de papiro, o cara geralmente acertava.
Por isso eu estava xingando. Tinha me enganado: Paul não havia ligado para pedir desculpas. Aquilo era bem, bem pior.
— Boa tentativa, Paul — falei, tentando manter a voz tranquila e os batimentos cardíacos estáveis. — Mas acho que o que lemos foi sobre múmias enterradas em pirâmides, e não sobre fantasmas que um dia já assombraram residências no norte da Califórnia. E, mesmo que Jesse jamais tenha sido um anjo, também não foi um demônio.
— Talvez não para você. Mas ele me tratou...
— Porque você estava sempre tentando exorcizar e acabar com ele. Isso deixaria qualquer pessoa ressentida. E minha casa na Pine Crest Road não foi seu destino final.
Antes mesmo de ele voltar a viver, ele achou seus restos mortais e os colocou em outro lugar.
Não dava para ver o túmulo do Jesse de minha mesa de trabalho, mas eu sabia que ele estava ali perto, na parte mais antiga do cemitério da missão. Na Semana Santa, era tarefa dos alunos do quinto ano colocar cravos sobre ele (assim como sobre todos os outros túmulos com importância histórica), além de tirar as ervas-daninhas que pudessem ter aparecido.
O fato de não ter nada enterrado no túmulo do Jesse – visto que ele está vivo, e muito bem, obrigada – é algo que não acho que deva comentar com os alunos do quinto ano. As atividades ao ar livre são boas para as crianças. Já foi comprovado que passar muito tempo jogando videogame afeta suas habilidades sociais.
— Então demolir a casa onde ele morreu não vai machucá-lo — continuei. — Não sou fã de condomínios, mas olhe, se é disso que você gosta, manda ver. Mais alguma coisa? Realmente preciso ir agora, tenho um milhão de coisas para preparar até o casamento.
Paul gargalhou. Pelo visto, meu tom sério não o enganou.
— Ai, Suze. Amo ver que tanta coisa no mundo mudou, mas você, não. Esse seu namorado assombrou aquela velha mansão durante uma eternidade, esperando por... ele estava esperando pelo quê mesmo? As vítimas de assassinato são as assombrações que dão mais trabalho. — Ele disse a palavra assombrações da mesma maneira que dizem manchas num comercial de detergentes. — Só querem justiça... ou, no caso de Jesse, vingança.
— Isso não é verdade. — Foi um erro interromper; recebi mais um pouco da gargalhada debochada de Paul.
— Não mesmo? Então pelo que acha que ele estava esperando durante todos aqueles anos, Suze? Você?
Senti minhas bochechas ficando quentes de novo.
— Não.
— É claro que você acha isso — disse Paul com sarcasmo. — Mas essa sua historinha de amor talvez não tenha um final feliz.
— É mesmo, Paul? E por quê? Por causa de algo escrito em um rolo feito de papiro há 2 mil anos? Acho que você tem assistido a muitos episódios de Médium.
A voz dele ficou fria.
— Estou apenas repetindo o que a maldição diz: que devolver uma alma ao corpo à qual pertenceu é tarefa dos deuses.
— Do que você está falando? Foi você quem...
— Suze, só fiz o que pessoas como nós devem fazer: tentar ajudar uma alma infeliz a encontrar o descanso justo.
— Voltando no tempo para fazer com que ele não morresse e nunca me conhecesse?
— O que eu fiz não interessa. Vamos falar sobre o que você fez. A maldição diz que o humano que tentar ressuscitar um cadáver vai ser o primeiro a sofrer a ira do demônio quando este for despertado.
— Isso é ridículo, porque não tem nenhum demônio dentro de Jesse, e porque não fui eu que o ressuscitei. Foi um milagre. Pergunte ao padre Dom.
— Sério, Suze? Quando começou a acreditar em milagres? — Eu odiava o fato de ele me conhecer tão bem. — E desde quando você acha que pode mexer com o tempo e o espaço (e com a vida e a morte) sem arcar com as consequências? Se você ajuda a criar um monstro, devia estar preparada para quando ele voltar e te pegar. Ou você desconhece a indústria inteira de filmes hollywoodianos de terror?
— Ficção — falei com a boca seca. — Filmes de terror são ficção.
— E o conceito de bem e mal? É ficção? Pense, Simon. Não há como ter um sem ter o outro. Precisa existir um equilíbrio. Você recebeu seu lado bom. O Menino Fantasma está vivo agora e retribuindo à comunidade com suas mãos curadoras... o que, aliás, me dá vontade de vomitar. Mas cadê o mal? Você não percebeu que tem alguma coisa faltando nesse milagrezinho que fez?
— Hum — respondi, tentando achar uma resposta à altura.
Porque ele tinha razão. Como qualquer californiano que faça jus a seus chinelos pode atestar, não dá para ter yin sem yang, surfe sem areia, um latte sem leite de soja (porque ninguém na Califórnia bebe derivados de leite, exceto eu... mas nasci em Nova York).
— Acho que o lado ruim é... você. — Era uma resposta fraca, mas foi o melhor que consegui inventar, considerando o terror que estava lentamente tomando minhas vértebras.
— Muito engraçado, Suze. Mas você vai precisar de uma resposta melhor. O humor não funciona como defesa contra as forças do mal. Que moram, como você bem sabe, dentro de seu garoto milagre, só esperando pela oportunidade de explodir e matar você e todo mundo que ama por causa do que fez.
Agora ele passara dos limites.
— Eu não sei bem nada disso. Como você sabe? Não fala com ele há seis anos. Não sabe nada sobre nós. Não pode simplesmente chegar aqui e...
— Eu não preciso ter falado com ele para saber que, depois de ter vivido como uma assombração por um século e meio, não deve ter escapado de algumas coisas bem malévolas. O De Silva não deu só uma andada pelo vale da sombra da morte, Simon. Ele acampou lá e derreteu marshmallom na fogueira. Ninguém tem como sair dessa sem nenhum arranhão, independentemente de quantas crianças com câncer ele esteja curando agora, e independentemente de quantas listas de presente de casamento a namorada dele esteja escolhendo para garantir pra si mesma que está tudo indo muito bem.
— Isso não é justo — protestei. — E isso não é justo. Só falta você falar que todas as pessoas que já sofreram trauma na vida são destinadas a nunca os superar, mesmo que tentem muito.
— É mesmo? Você vai se apoiar nessas baboseiras de psicologia de escola? — A voz dele se encheu de um tom divertido. — Eu esperava mais de você. Pode afirmar com honestidade, Simon, que, quando olha nos olhos castanhos e gigantes de novela do De Silva, jamais vê sombras?
— Não. Não, é claro que vejo às vezes, porque ele é humano. E seres humanos não são felizes cem por cento do tempo.
— Não é desse tipo de sombra que estou falando, e você sabe disso.
Percebi que segurava o telefone com tanta força que uma marca vermelha no formato do plástico duro havia se formado em minha pele. Precisei trocar de mãos. Porque ele estava certo. Eu via, sim, alguns lampejos ocasionais de escuridão nos olhos de Jesse... e não eram de tristeza.
E por mais que eu não estivesse mentindo quando contei a Paul sobre o desejo de Jesse em ajudar às pessoas mais doentes e oprimidas de nossa sociedade – era uma parte primordial da personalidade dele – de vez em quando eu me preocupava, sim, pensando que a razão que levava Jesse a lutar tão desesperadamente contra a morte quando a via chegando para seus pacientes mais fracos era que ele temia que ela também estivesse voltando para reclamá-lo...
Ou, pior, que ainda existisse uma parte dela dentro dele.
Se o que dizia O livro dos mortos era verdade, e se Paul realmente demolisse o número 99 da Pine Crest Road, eu não tinha como saber o que isso causaria.
E provavelmente não seria possível contar com outro milagre. Não dá para uma pessoa receber tantos milagres em uma só vida, e eu tinha a impressão de que Jesse e eu já havíamos recebido nossa parte.
Se é que milagres existem. Não estou dizendo que sim.
Como se tivesse sentido novamente o que eu pensava, Paul deu uma risada.
— Está entendendo o que quero dizer, Simon? Você pode tirar o garoto da escuridão, mas não pode tirar a escuridão do garoto.
— Tá bom — respondi. — O que você quer de mim exatamente para não demolir a casa e não libertar a Maldição do Papiro ou sei lá qual o nome disso? Perdão? Tudo bem. Eu perdoo você. Dá pra sumir agora e me deixar em paz?
— Não, mas obrigado pela oferta — disse Paul, a voz suave como seda. — E o nome é Maldição dos Mortos. Não existe Maldição do Papiro. As maldições são escritas em papiro, não são...
— Fale logo o que você quer, Paul.
— Já falei o que quero. Outra chance.
— Precisa desenvolver o tema. Outra chance de quê?
— De ter você. Uma noite. Se eu não conseguir te tirar do De Silva em uma noite, não sou digno do nome Slater.
— Você só pode estar me zoando.
Se eu não tivesse tão enjoada, teria soltado uma gargalhada. Tentei não deixar que meus sentimentos conflitantes – desprezo, medo, confusão – transparecessem na voz. Paul se alimentava de sentimentos da mesma forma que buracos negros se alimentavam de estrelas.
— Na verdade, não estou — disse ele. — Já falei, nunca é bom brincar quando forças do mal estão envolvidas.
— Paul. Em primeiro lugar, você não tem como recuperar uma coisa que nunca teve.
— Suze, de onde você tirou isso? Eu realmente acho que houve algo entre nós. Você está querendo mesmo sugerir que foi tudo minha imaginação? Porque eu tive bastante tempo para pensar sobre isso, e preciso dizer que não concordo.
— Em segundo lugar, estou noiva. Isso significa que estou fora do mercado. E, mesmo que não estivesse, ameaçar demolir uma casa multimilionária e liberar um espírito maligno que talvez viva dentro de meu namorado é mais baixo até do que...
Ele me interrompeu.
— E daí que você está noiva? Se Hector não dá valor suficiente para o relacionamento a ponto de consumar o ato — Paul arrastou a segunda sílaba do nome de batismo de Jesse de maneira desagradável —, o que eu sei que ele não faz, você ainda está na pista, até onde eu sei.
— Peraí. — Não dava para acreditar no que eu estava ouvindo. — Isso não é justo. Jesse é católico romano. Essas são as crenças dele.
— E eu e você não cremos em nada — destacou Paul. — Então não entendo por que quer ficar com um cara que acredita que...
— Nunca falei que não creio em nada. Eu creio em fatos. E o fato é que quero ficar com Jesse porque ele me faz sentir uma pessoa melhor do que acho que sou na verdade.
Houve um momento de silêncio no outro lado da linha. Por um ou dois segundos, achei que tivesse de fato conseguido fazer com que ele visse que o que estava fazendo era errado. Paul tinha um pouco de bondade dentro de si – eu sabia disso porque o tinha visto em ação uma ou duas vezes. Até verdadeiros monstros podem ter algumas características agradáveis. Hitler gostava de cachorros, por exemplo.
Mas, infelizmente, a parte boa de Paul estava enterrada embaixo de tanto narcisismo e ganância que raramente conseguia ser vista, e esse momento não foi uma exceção.
— Nossa, Simon, esse realmente foi um momento Hallmark — disse ele com sarcasmo. — Você sabe que eu posso te fazer se sentir bem...
— Claro, e você começou muito bem ameaçando transformar meu namorado em um demônio.
— Não culpe o mensageiro, baby. Não sou o vilão aqui. Se não fosse eu a demolir sua casa, seria alguma outra construtora podre de rica.
— Duvido muito.
— Que saco, Simon. Você devia me agradecer. Estou tentando fazer um favor para você. De onde vem tanta hostilidade?
— Do meu coração.
— Que palhaçada. — Agora ele soava irritado. — Por que sou obrigado a respeitar as crenças de outra pessoa? Isso se chama mercado livre. Por que um homem não pode tentar ganhar uma coisa que ainda está disponível?
— A gente acabou de viajar no tempo para 1850? Você realmente acha que mulheres são coisas que você pode ter?
— Engraçadinha. Isso não posso negar, você sempre foi engraçada, Simon. É o que sempre gostei em você. Quero dizer, isso e sua bunda. Ainda tem uma bunda linda, não tem? Tentei achar fotos suas nas mídias sociais, mas você é surpreendentemente discreta. Ai, merda, quero dizer... Esquece. Você é feminista, não é? Deve ter achado esse comentário da bunda meio sexista.
— É com isso que está preocupado? Que vou te achar sexista? E não que vou te denunciar por tentar me chantagem para sair com você?
— Acho que você vai ter um pouquinho de dificuldade em provar algum delito meu, Suze, mesmo que esteja gravando esta ligação, o que você deve ter pensado em fazer só agora. Não há menção a nenhum valor em dinheiro, e, mesmo que você chame de coerção, tenho certeza de que vai dar trabalho explicar aos policiais por que a demolição de um prédio legalmente meu é uma ameaça a você. Se bem que, se você mencionar o negócio dos textos egípcios, os poliças vão rir bastante.
Infelizmente, ele tinha razão. Isso era o que irritava mais. Até ele dizer:
— Ah, e vou querer um pouco mais que apenas uma saída comigo. Não quero ser descarado, mas certas virtudes não me interessam. Ao contrário do Hector, não me importo com casamento. Mas até acho que casar com você deve ser legal... como ser caçador de tempestades. Não tem como saber o que esperar a cada dia. Mas estou me adiantando demais. Primeiro, nosso encontro: definitivamente vai haver intimidade física. Senão, como vou conseguir provar para você que mudei?
Fiquei tão chocada que por certo tempo não consegui formular uma resposta, nem mesmo um palavrão, e isso para mim era anormal.
— Não se preocupe — garantiu ele suavemente. — Faz muito tempo que não bebo Goidschläger. Aprimorei bastante minhas técnicas. Não vou jogá-la em nenhuma parede.
— Nossa — respondi, quando finalmente consegui falar. — O que houve com você? Quando foi que ficou tão desesperado por companhia feminina a ponto de recorrer à extorsão sexual? Já pensou em tentar o Tinder?
Ele gargalhou.
— Boa! Está vendo, sinto saudade disso. Sinto saudade de nós.
— Nunca existiu nós, seu pervertido. E o que foi que aconteceu entre você e Kelly, afinal?
— Kelly? — Ele riu mais um pouco. — Kelly Prescott? Pelo visto você também não tem lido o boletim online dos alunos.
— Não — admiti, sentindo-me culpada. A culpa foi apenas porque o boletim era escrito por Cee Cee, minha melhor amiga, e eu jamais lia nada.
— Bem, digamos apenas que Kelly e eu não fomos feitos um para o outro; não como eu e você. Mas não se preocupe com a velha Kel. Ela buscou conforto em um cara duas vezes mais velho que ela, e com duas vezes mais dinheiro que eu, o que é muito porque, como já falei, estou podre de rico. Kelly Prescott se tornou Sra. Kelly... Walters, acho que foi o que o boletim informou. Fez uma festa gigantesca no resort da praia Pebble. Peraí, você não foi convidada?
— Não me lembro. Minha agenda social tem estado bem cheia.
É claro que eu estava mentindo. Fui convidada, sim, mas só porque tenho relações familiares com a melhor amiga dela, Debbie, que foi dama de honra. Declinei educadamente, dizendo que tinha um compromisso (falso) que já estava marcado, e ninguém nunca mencionou sentir minha falta.
Não sou muito chegada a casamentos, de qualquer maneira. Reuniões grandes com vários humanos tendem a chamar a atenção dos mortos-vivos, e eu geralmente acabo tendo de mediar PMNOs entre goles de cerveja.
Meu casamento vai ser diferente. Vou chutar para fora qualquer morto que aparecer sem ser convidado.
— Então, quando vamos jantar? — perguntou Paul. — Ou, mais diretamente, o que vem depois do jantar. E não estou falando da sobremesa.
— Quando Júpiter se alinhar com o planeta Vai Se Ferrar.
— Ah, Suze. Essas suas piadinhas sensuais são do que mais senti falta. Estarei em Carmel neste fim de semana. Mando mensagem sobre os detalhes de onde vamos nos encontrar. Mas, de verdade, não me parece que esteja levando muito a sério tudo que falei sobre a vida de seu namorado correr perigo.
— Levo isso a sério, sim. Levo tão a sério que mal posso esperar para te encontrar e realizar meu velho sonho de meter meu pé na sua bunda.
— Você pode meter qualquer parte de seu corpo em qualquer orifício do meu, Simon, contanto que eu possa fazer o mesmo com você.
Fiquei tão irritada que sugeri que ele chupasse uma parte de meu corpo que eu tecnicamente não tenho, considerando que sou do sexo feminino.
Foi uma pena que a irmã Ernestine, vice-reitora, tivesse escolhido exatamente aquele momento para voltar do almoço.
— O que você falou, Suzannah? — indagou ela.
— Nada. — Desliguei na cara de Paul e coloquei o celular no bolso do jeans. Eu teria de lidar com ele (e investigar se a tal “maldição” a qual ele se referiu era verdadeira) em outro momento. — Como foi o almoço, irmã?
— Vamos conversar sobre o quanto você deve para a jarra dos palavrões mais tarde, senhorita. Temos problemas maiores a resolver agora.
Tínhamos mesmo. Percebi assim que vi a menina morta atrás dela.

4 comentários:

  1. Paul é demais!!! Caramba como eu tava com saudade dessa estória! #PaulSafado

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  2. Ah,eu tava esperando tanto por esse livro! Valeu Karina, você é demais! ;)

    Mas sério Jesse, 6 anos?
    Cara é muita tensão! Kkkkkkkkk

    Carla.

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  3. "...e enfia tudo no orifício retal, que, caso você não saiba, é também conhecido como cu." kkkkkkk sumemo Simon kkk

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