30 de setembro de 2016

Capítulo 29

Kylie quase perdeu o fôlego ao ver uma menina ruiva gritando no meio do quarto, trancada dentro uma grande gaiola roxa. Então seu olhar se fixou em Miranda, reclinada na cama, pintando as unhas dos pés, como se fossem uma preguiçosa manhã de domingo.
— Me deixa sair, sua piranha — a garota gritava da gaiola.
Miranda acabou de esmaltar a unha de rosa-choque antes de olhar para a garota.
— O que foi? — perguntou ela, com um sorriso largo para Kylie.
— Sua cadela! — a garota gritou para Miranda e depois olhou para Kylie. — Faça ela me soltar!
— Acho que sou eu quem deve perguntar o que foi... — Kylie disse a Miranda, olhando de volta para a menina.
Pelo que Kylie conseguia farejar, não tinha havido perda de sangue.
Ainda, pelo menos.
— Me solte! — a prisioneira rosnava.
Kylie relanceou os olhos para Miranda e arqueou uma sobrancelha.
— Veja só o que eu capturei — disse Miranda, com uma risadinha. — Lembra que eu disse que tinha alguém espionando a nossa cabana? Pois coloquei uma armadilha. E veja se não peguei Tabitha Evans.
— Você conhece ela? — perguntou Kylie.
— Conheço. É uma das bruxas que vão competir comigo daqui a duas semanas.
Tabitha sacudia tanto as barras que a gaiola tremia.
— Eu sou a bruxa que vai pôr um feitiço em você se não me deixar sair!
— Não se preocupe — disse Miranda. — Seus poderes não funcionam enquanto estiver na minha gaiola especial. E coloquei também um silenciador a uns trezentos metros daqui, portanto ninguém vai ouvir seus gritos.
— O que ela está fazendo aqui? — Kylie perguntou, preocupada com a prisioneira.
— Tentando abalar minha autoconfiança, para que eu desista da competição.
— E se eu soubesse que você era tão idiota não teria perdido meu tempo — a garota gritou.
Tudo bem, então Tabitha merecia estar presa.
— Você acha que foi ela quem desarmou o alarme de segurança? — Kylie perguntou.
— Não, isso foi obra de magia. Uma magia patética e injustificada, é claro. — Miranda olhou para a garota na gaiola.
Tabitha sibilou.
— Você é que é patética.
Miranda ergueu uma sobrancelha para a prisioneira.
— E você é que está engaiolada.
A garota voltou a gritar alto. Miranda sorriu orgulhosa.
Sem dúvida nenhuma, capturar Tabitha tinha feito um bem enorme ao ego de Miranda. Kylie odiava ter que cortar o barato de Miranda, mas...
— Por mais engraçadinha que ela fique nesta gaiola, você sabe que não pode deixá-la aí para sempre.
— Nem pretendo. Eu disse que, se ela transformar Socks novamente num gato, ela pode ir.
— E eu já disse que não vou fazer isso! Foi você quem fez a burrada. Você que desfaça.
— Por favor — pediu Miranda. — Há semanas, tudo o que eu tento fazer dá errado.
Miranda tirou os pés da cama e se aproximou da gaiola.
— Transforme o gambá num gato e você pode ir.
— Pela milésima vez, não vou fazer isso!
Miranda olhou para Kylie.
— Quer que eu pinte as suas unhas? — A dúvida pairava nos olhos de Miranda.
— Olhe aqui — rosnou Tabitha. — Se não foi você quem fez aquilo, então pode ter sido aquele velho.
— Tenho uns esmaltes vermelhos bem bonitos — disse Miranda a Kylie, ignorando Tabitha.
Kylie não era tão boa em ignorar as pessoas.
— De que velho você está falando?
— Não acredite em nada que ela diz — disse Miranda.
— Eu não sei quem ele é, mas é um vampiro. E tem outros poderes também, porque estava usando uns feitiços parecidos com os meus. Um velho bem assustador.
— Ah, por favor... — disse Miranda. — Me diga alguma coisa em eu possa acreditar.
— Estou falando a verdade! — Tabitha jurou.
Miranda revirou os olhos. Então girou seu dedo mínimo cor-de-rosa
— Espere — pediu Kylie, mas era tarde demais; a gaiola e Tabitha desapareceram.
— Esperar o quê? — perguntou Miranda.
— Pra onde ela foi? — perguntou Kylie.
— Você disse que eu não podia deixá-la aqui pra sempre.
Kylie franziu a testa.
— E se ela estivesse dizendo a verdade sobre o velho esquisito?
— Ah, por favor, ela inventou aquilo tudo. Della teria farejado um vampiro. Tabitha é louca.
Kylie tinha que admitir, Miranda tinha razão. Della podia farejar vampiros a quilômetros de distância.
Miranda desabou na cama.
— Acredita que capturei Tabitha Evans? Essa foi boa!
Socks entrou no quarto andando de leve, cheio de cautela. Sua cauda fofa, preta e branca, estava espetada para cima como se ele estivesse pronto para dar suas borrifadas e fugir se necessário. Kylie olhou para Miranda. Ela podia ser boa em armar armadilhas, mas ainda não tinha conseguido encontrar um contrafeitiço para transformar Socks novamente num gatinho.
Então Kylie se lembrou da conversa com Derek. Ela tentou tirá-lo da cabeça, mas foi impossível. Tudo o que sentia era um buraco no peito, onde antes estava o seu coração.
— Eu vou me deitar. — Antes de ir para o quarto, ela foi ver o que havia na geladeira. Ao abrir a porta do freezer, admirou-se ao ver os litros e litros de sorvete que Miranda tinha comprado para aliviar seus dias de fossa.
Pegando uma colher na gaveta, Kylie se perguntou se haveria sorvete suficiente no universo para fazê-la se sentir melhor.
Ela achava que não.


A semana seguinte passou num instante. Kylie doou seu litro de sangue e tomou pelo menos dez de sorvete. Derek continuou a evitá-la e Lucas, a assediá-la. Mas como ela podia ficar brava com ele? Ele nunca passava dos limites. Era só amigo dela. Com o coração em pedaços, ela precisava mesmo de um amigo.
Claro, eles nunca falavam de Fredericka ou dos seus sonhos – e graças a Deus ela estava conseguindo controlá-los. Lucas tinha perguntado de Derek, no entanto, e Kylie tinha respondido que aquele era um assunto doloroso para ela. A única coisa que Lucas havia dito era que Derek era um idiota. Por alguma razão, ela gostou de ouvir Lucas dizendo aquilo.
Também gostou do fato de Fredericka ficar longe do caminho dela. Kylie não tinha certeza, mas suspeitava que Lucas tinha algo a ver com aquilo.
O fantasma continuava aparecendo todas as manhãs. Às vezes falava, mas nunca oferecia nada que ajudasse Kylie a descobrir quem estava em perigo. Sempre que Kylie começava a se preocupar com os avisos do espírito, Holiday a levava à cachoeira. Já tinham ido lá três vezes. E Kylie continuava saindo dali com a mesma mensagem: continue concentrada e tenha fé.
Holiday não tinha mencionado Burnett durante todo esse tempo. Kylie imaginava se ela tinha contado que encontrara outro investidor ou se estava reconsiderando a oferta dele. Kylie tinha pegado Holiday espiando pela janela, observando Burnett jogar basquete com os campistas pelos menos umas seis vezes. Duas ou três dessas vezes, Kylie tinha ficado ali com ela, só para poder observar Derek. Não que ele não soubesse que ela estava olhando. Ele sempre relanceava os olhos para a janela.
Seus olhos se encontravam. Kylie se lembrava de quanto sentia falta dele, enquanto ele parecia chateado.
— Quer falar a respeito? — Holiday tinha perguntado da última vez.
Kylie tinha concordado em desabafar com ela, mas só diante de uma taça de sorvete. Ela já tinha acabado com o sorvete de Miranda e precisava de mais. Então Kylie e Holiday tiraram a tarde de folga e foram à sorveteria da cidade, onde se empanturraram de sorvete em colheradas cremosas e geladas de puro deleite.
— Por que sorvete faz tão bem quando estamos na fossa? — perguntou Kylie.
— Porque, em grandes quantidades, ele congela o coração e entorpece um pouco a dor... — Holiday respondeu, fazendo as duas rirem.
Daniel não tinha feito nenhuma visita desde o dia em que a mãe tinha aparecido no acampamento e tido a memória apagada, mas o pai telefonara duas vezes. Kylie tinha atendido da segunda vez. Eles conversaram sobre o trabalho dele, sobre o tempo, e então mencionaram a possibilidade de Kylie estudar na escola Shadow Falls. Ele não tinha dito nem sim nem não, pois achava que a decisão era da mãe dela.
Quando desligaram, ela percebeu que os pais deviam estar conversando, pois não havia outro jeito de ele saber da escola. Kylie não sabia o que sentia a respeito. Será que a mãe estava pronta para perdoar o padrasto? Kylie quase ligou para a mãe e perguntou, mas iria para casa no final de semana e achou que podia esperar e perguntar pessoalmente.
Miranda quase não falava mais de Perry. Não que isso impedisse Perry de observar Miranda. Sempre que ele estava por perto, não tirava os olhos dela. Kylie sabia que Miranda reparava. Ela só preferia ignorar. Mas isso era compreensível, considerando o stress que ela estava sentindo com relação a competição em que a mãe a inscrevera no final de semana dos pais. Quando não estava praticando para a competição, ela ficava tentando resolver o enigma do que fazer com Socks.
Depois de duas semanas, Socks nem parecia se importar em ser um gambá. Ele parecia ter compreendido o poder do seu rabo e o eriçava, com ar ameaçador, à menor provocação. Até Della tinha que andar na linha com ele. Por sorte ele não tinha borrifado seu fedor outra vez.
Della estava aterrorizada com a ideia de ir para casa. E agora estava aterrorizada também com a ideia de cumprir a tarefa que a UPF a incumbira. Ter de descobrir se o primo era responsável pelos assassinatos não era fácil para ela.
Della amuada e Miranda estressada eram garantia de bate-boca. Kylie muitas vezes se perguntava se elas realmente se matariam se ela não interferisse. Mas ela amava demais as duas para arriscar.
O investigador particular finalmente descobriu que Kent e Betty Bringhten estavam de férias na Irlanda. Por isso a busca de Kylie para descobrir o que ela era teria que esperar mais um pouco. Não era ótimo?
A única coisa boa que tinha acontecido nos últimos tempos era o fato de Kylie não se sentir mais observada. Será que Tabitha era a causa daquilo? Mas, quando pensava na menina, também se lembrava do que ela falara sobre o velho vampiro que andava à espreita.
Por alguma razão, isso incomodava Kylie. Mas não o suficiente para contar a Holiday, pois essa revelação podia pôr Miranda numa grande encrenca. E, depois do incidente de Burnett com Della, pôr amigos em apuros era a última coisa que Kylie queria fazer.
Na terça de manhã, Kylie acordou sentindo o quarto mais gelado do que normalmente. Ou o fantasma estava tentando enviar uma mensagem ou havia mais de um espírito por perto. Que maravilha! Era tudo de que precisava: outro fantasma.
— O que você quer? — Kylie perguntou, tremendo embaixo das cobertas.
O telefone começou a coaxar. Ou o toque do telefone tinha mudado ou Miranda o tinha transformado num sapo. Kylie agarrou o telefone e ele parou de fazer o estranho som e foi direto para o serviço de mensagens de voz.
Primeiro ela ouviu a mensagem do pai, depois a mensagem que o detetive tinha deixado alguns dias antes. Em seguida, veio uma mensagem que Kylie não tinha ouvido ainda. Era de Trey, seu ex-namorado. Por que será que ela não tinha atendido a essa ligação? Ele pedia para ela retornar, porque era importante.
— Ah, tá legal — ela murmurou. — O que aconteceu, Trey? Ouviu dizer que meus peitos estão maiores e quer conferir? — Ela fechou o telefone, mas não apagou a mensagem.
Mal tinha fechado os olhos para tentar dormir de novo quando o telefone começou a coaxar outra vez.
Agarrando-o, ela olhou para ter certeza de que estava desligado. Estava. Então como podia fazer barulho? Ela apertou o botão novamente. O coaxar continuou.
— É você que está fazendo isso? — perguntou ao espírito. — Se é, então pare. Porque não é engraçado. E você não está me dizendo o que preciso saber.
O telefone silenciou. O fantasma apareceu nos pés da cama.
— Você tem que fazer alguma coisa rápido. Ela está morrendo.
Assim como antes, o espírito ofereceu mais uma dica assustadora com misterioso “ela”.
Kylie se vestiu e decidiu visitar Holiday. Ela duvidava de que ouvir Holiday dizendo que tudo ia acabar bem diminuiria o seu medo, mas tinha que tentar.
Ela não tinha chegado à varanda do escritório quando ouviu voz tinindo nos seus ouvidos.
— Vai me dizer que isso não é perigoso? — Holiday perguntava, parecendo furiosa.
— Não posso negar — Burnett respondeu. — Esse trabalho é simplesmente perigoso.
— Então, não. Ele não pode ir.
— Mas eu não vim pedir a sua autorização — continuou Burnett, também irritado. — Ele conseguiu a permissão da mãe dele. Está indo hoje por volta do meio-dia.
Kylie se virou e começou a voltar pelo caminho de onde veio. Ela teria que tampar os ouvidos, mas, como sabia que não adiantaria, só continuou andando, esperando que as vozes fossem diminuindo cada vez mais.
— Não está certo — insistiu Holiday. — Primeiro você envolve Lucas e agora Derek. Eu tenho que interferir!
Kylie parou. Primeiro Lucas e agora Derek? Mas do que ela estava falando?
— Acontece que os dois são garotos excepcionais — explicou Burnett.
— E é isso o que estou querendo dizer. São apenas garotos, Burnett.
— Eu tinha 16 quando fui trabalhar na UPF. Lucas tem 18. Só faltam alguns meses para Derek fazer também. E ele é capaz de apagar memórias. Você sabia que esse dom é raríssimo?
— Não me importa nem um pouco. Eu me preocupo com ele.
— Ele só vai ficar fora um mês ou até menos. Volta a tempo de começar a escola no ano que vem.
— Supondo-se que não seja morto tentando fazer o serviço do governo.
— Sinto muito — disse Burnett, com arrependimento na voz.
Kylie ouviu a porta batendo. Burnett tinha ido embora, mas ela não saiu do lugar. Ficou parada ali na trilha, digerindo o que tinha acabado de ouvir. Derek estava indo embora. Ele ia trabalhar para a UPF. Não voltaria antes de um mês.
Supondo-se que não seja morto tentando fazer o serviço do governo.
As palavras de Holiday não saíam da sua cabeça. O coração de Kylie gelou. Ela pegou novamente a trilha, a caminho da cabana de Derek.

6 comentários:

  1. Estou começando a achar que a pessoa que está em perigo é a Sara.

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    1. Eu estou pensando nisso desda primeira vez que o fantasma anunciou que era "ela" a pessoa que Kylie precisava salvar

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    2. Ainda bem que não é só eu que penso assim. Estou começando achar que o raciocínio lento é um dos poderes de Kylie kkkk

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  2. eu já tenho certeza disso ta meio ovio isso primeiro achei que fosse a mãe mais agr essa menina é meio lerda pra nao saber ainda👌
    ass: mary dampira

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  3. Caramba!Éh Sério!Se O Derek Ñ Parar Com Essa Palhaçada E A Kylie Ñ Parar D Correr Atraz Dele...Eu Entro Na História Meto O Pé Na Bunda Do Derek Roubo O LUCAS Pra Mim...E Ainda Dou Uns Colão D Brinco Na Kylie Pra Ver Se Ela Cria Juízo E Para D Ficar Se Humilhando Pra Esse Ridículo..Ele Jáh Táh Me Irritando!

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