30 de setembro de 2016

Capítulo 28

— Como faço isso parar? — Kylie, exausta com a falta de sono, fez a pergunta enquanto desabava na cadeira em frente à escrivaninha de Holiday, no início do seu encontro das duas horas. — Eu não quero passar por toda essa droga de entrar no sonho dele outra vez.
Holiday se sentou e apertou os lábios.
— Seu dom é muito especial para se referir a ele assim. E você não pode fazê-lo parar, mas pode controlá-lo com um pouco de prática.
— Tudo bem, então como eu controlo essa droga?
Holiday riu.
— Você se viu entrando no mundo dos sonhos novamente?
— Você quer dizer, como se eu estivesse voando?
— É, como se estivesse voando
— Sim, mas às vezes eu só acordo quando já estou no sonho.
— Tá legal, você tem que fazer o seguinte. Antes de ir pra cama... — Holiday descreveu uma série de técnicas que a levariam a acordar do sonho. Não era garantia que Kylie conseguiria controlar o sonho, mas Holiday achava que era o primeiro passo.
Elas tinham mudado de assunto e começado a falar do fantasma quando o celular de Holiday tocou. Ela o pegou da escrivaninha e olhou o visor para ver quem estava ligando. Seus olhos se iluminaram.
— Eu... preciso atender essa ligação. Pode me dar uns minutos? — Kylie se levantou para sair, mas Holiday saltou da cadeira antes e começou a se dirigir para a porta.
— Olá, senhor Eastman.
Holiday fechou a porta atrás dela com um dique e Kylie se recostou na cadeira e fechou os olhos.
— Sim, estou muito empolgada que esteja considerando minha oferta — as palavras de Holiday chegaram aos ouvidos de Kylie.
Ela abriu os olhos novamente. Ah, não, não era hora de recuperar sua superaudição...
— Não sabe como Shadow Falls precisa de alguém como o senhor na diretoria.
Kylie tampou os ouvidos com as mãos, sem querer ouvir a conversa.
— Sim, cem mil devem cobrir os gastos.
Kylie franziu a testa quando a voz continuou vazando pelas suas palmas. Então percebeu o que aquilo significava. Holiday tinha encontrado outro investidor para Shadow Falls, o que significava que Burnett seria afastado.
Kylie sentiu seu peito se encher de um mau pressentimento, como se algo estivesse errado. Mas o que ela poderia fazer?
Depois de alguns minutos, ouviu Holiday dizer ao senhor Eastman que ela logo entraria em contato e mandaria os papéis para ele assinar. Ela ouviu a amiga desligar e refletiu se deveria dizer a ela que tinha ouvido sua conversa ao telefone.
Vários minutos se passaram e Kylie chegou à conclusão de que não precisava dizer nada. Ao ver que Holiday não voltava para a cabana, ela foi ao encontro dela.
Holiday estava no outro cômodo, olhando pela janela para a quadra de basquete. Quando Kylie se juntou a ela, notou que Burnett estava jogando com um grupo de garotos. O olhar de Kylie se demorou em Derek, mas suspeitou que não era Derek que intrigava Holiday. Não havia dúvida que a líder do acampamento estava refletindo sobre sua decisão. Com sorte ela pensaria melhor em aceitar a oferta de Burnett.
Justo nesse momento, Derek se virou. Seu olhar encontrou a janela e soube que ele a havia sentido. Ele não sorriu nem acenou. Voltou as costas novamente e continuou a jogar, ignorando-a. Foi nesse momento que ela decidiu. Já bastava daquilo. Ela e Derek precisavam conversar.
Na manhã seguinte, Kylie acordou se sentindo revigorada. Quando o frio invadiu o quarto, ela já tinha dormido cinco horas inteiras. As dicas de Holiday sobre como acordar antes do sonho tinham começado a funcionar.
Ela tinha acordado duas vezes com a sensação de estar flutuando. Uma vez, tinha chegado a ver Lucas, mas foi capaz de retroceder antes que ele a notasse. Ela teve certeza de que ele nem tinha percebido que ela estivera lá. Ou pelo menos era isso o que ela esperava.
Puxando as cobertas até o queixo, ela olhou em volta. Nenhum fantasma estava presente, mas o frio continuou dando a Kylie a certeza de que o fantasma estava presente. Quando o telefone caiu da mesinha de cabeceira – de novo se lembrou de que tinha acontecido a mesma coisa no outro dia.
— É você que esta fazendo isso? — ela perguntou ao espírito. — Quer dizer alguma coisa?
Nenhuma resposta. Pegando o telefone, para saber se havia alguém na linha desta vez, ficou aliviada ao constatar que não havia ninguém. Então, ao ver a luz das mensagens piscando, ela se lembrou de que não tinha deletado as mensagens antigas.
Kylie tinha falado com o investigador e transmitido a ele as novas informações sobre os avós. Ele disse que ia tentar se comunicar com eles. Mas quem disse que isso a impediria de telefonar também? Ela tinha feito várias tentativas na tarde do dia anterior, mas só a secretaria eletrônica atendia.
Kylie decidiu apagar as mensagens antigas quando viu que havia uma nova de Sara. Lembrando-se do misto de emoções que sentira da última vez que se falaram, ela colocou o telefone na mesinha e deu a si mesma a permissão para só ouvir a mensagem mais tarde. Além disso, precisava ter uma conversinha com Derek para fazê-lo cair em si. Ela esperava que seu plano funcionasse.
Kylie esperou do lado de fora do refeitório antes do café da manhã, para ver se localizava Chris. Ela rezava para que ele não aparecesse com Derek.
Quando localizou Chris andando na direção do refeitório com Jonathon, relaxou. Quando ele chegou mais perto, ela fez sinal para que ele fosse ao encontro dela. O vampiro disse algo a Jonathon e se aproximou dela. Kylie viu um brilho de curiosidade em seus olhos, para saber o que ela tinha a lhe dizer.
Não era segredo para ninguém que Chris, um dos líderes dos vampiros, se achava um verdadeiro garanhão. E Kylie tinha que admitir que, com seu cabelo louro e olhos claros, ele tinha a seu favor um visual de garoto de praia. Seu corpo também não era nada mal. Mas, se ele achava que Kylie sentia algo por ele, estava prestes a ficar desapontado.
— E aí? — Ele sorriu.
Kylie não tinha pensado muito em como abordar o assunto, então foi direta.
— Preciso de um favor. — Chris era encarregado da Hora do Encontro dos Campistas, quando os nomes eram sorteados e pares de campistas tinham uma hora para conhecer melhor um ao outro.
— Que tipo de favor? — Ele olhou os seios dela de relance.
Ela quase pediu satisfações, mas, considerando que precisava dele, deixou passar a afronta.
— Ouvi dizer que, se eu quiser ter certeza de que sorteiem uma determinada pessoa para mim, você pode dar um jeito.
— Ah... — Ele parecia desapontado, o que a levou a ter certeza de ele esperava que ela tivesse outros motivos para chamá-lo. Mas se recuperou logo, porém. — Você também ouviu dizer que isso tem um preço?
— Sangue, não é?
— É isso aí.
— Tudo bem. Vou dizer a Holiday que estou doando. — Ela começou a se afastar, mas ele a pegou pelo braço.
— Ei, você se esqueceu de me dizer quem é. — Ele franziu a sobrancelha. — Deixe que eu adivinho. Lucas?
Kylie franziu a testa.
— Derek.


Derek não estava por perto quando os nomes foram chamados, por isso ela teve que procurar por ele. Estava no refeitório conversando com Steve e Luis. Quando a viu parar ao lado dele, ele franziu a testa. Aquilo doeu. Forçando um sorriso, ela se inclinou para mais perto dele e sussurrou:
— Adivinhe. — Ela balançou o papelzinho com o nome dele no ar. Ele se despediu dos dois garotos e acenou com a cabeça para que ela o seguisse. Eles saíram do refeitório e se afastaram da movimentação. Ela estava pensando se ele planejava levá-la à pedra, mas ele parou.
Seus olhos verdes a estudaram.
— Você armou isso?
— Armou o quê? — ela perguntou, fingindo inocência.
Ele pegou o braço dela e olhou a dobra do cotovelo. Ela sabia que ele estava procurando um esparadrapo ou uma marca de agulha, mas o toque dele enviou uma corrente elétrica pelo braço dela.
— Você comprou meu nome com sangue? — perguntou, largando o braço de Kylie.
Ela deu de ombros.
— E daí? Você fez o mesmo por mim. Duas vezes.
A emoção toldou os olhos dele de um jeito que a fez perder o fôlego.
— Temos que conversar, Derek. Isso... — ela fez um movimento com a mão entre eles — não está certo.
Ele passou a mão pelos cabelos castanhos.
— O que não está certo é eu gostar de você enquanto você gosta de outra pessoa.
— Muito bem! — Kylie sentiu a raiva crescer e quase perdeu a esperança. — Quer saber se eu gosto de Lucas? Gosto, mas não do mesmo jeito que gosto de você.
Ele balançou a cabeça.
— Você não pode mentir pra mim, Kylie. Eu sei o que você sente e, quando está com ele... se sente atraída...
— Tudo bem, até admito que me sinto atraída. Mas isso não significa nada.
— Uma ova que não significa! — Ele começou a se afastar.
Kylie agarrou o braço dele.
— Você não é diferente.
— O quê? — Os olhos dele brilharam de raiva e ressentimento.
— Eu vi você olhando para Miranda quando estávamos nadando.
— Eu não olhei...
— Olhou, sim!
— Ah, mas que bobagem... — Ele começou a se afastar dela outra vez.
Kylie quase deixou que ele se fosse, mas se lembrou de que teria de doar seu sangue por isso. Droga! Queria que seu sangue valesse a pena.
Foi atrás dele.
— Perry até notou, porque ele começou a te olhar feio.
Ele continuou a andar e ela fez o mesmo.
— Me diga, eu perdi a compostura por causa disso? Não, não perdi, porque, embora eu saiba que você pode achá-la bonita de biquíni, isso não significa que não gosta de mim.
Ele parou de andar e olhou para ela.
— É diferente.
— Por que é diferente? Se eu pudesse ler suas emoções, como você pode ler as minhas, eu teria lido pura e simplesmente “atração”.
— É, mas... mas eu sou homem.
Ela ficou chocada.
— Quer dizer que só os homens podem se sentir atraídos por alguém? Ah, por favor! Em que século você vive?
Os olhos dele se estreitaram.
— Não quis dizer isso.
— Então o que quis dizer?
— Quis dizer... — Ele tensionou a mandíbula. — Ah, Cristo, sei lá, mas é diferente...
— Não é, Derek! Será que não vê? Você está com raiva porque está com ciúme e não tem razão para estar.
— É mais do que isso. Você já disse que gosta dele. Não é só...
— É, eu gosto dele. A gente se conheceu muito tempo atrás. E talvez isso tenha nos ligado de certa forma. E, sim, ele é atraente. Mas... eu quero ficar com você...
Ela pensou que tinha conseguido convencê-lo, mas ele desviou os olhos dela e olhou ao longe.
— Eu não posso, Kylie. Até que você me prove que ele não significa nada pra você, eu não posso. — Ele se afastou.
— Derek? — ela chamou.
Ele se virou.
— O quê?
Ela sentia o peito oprimido.
— Você mentiu pra mim.
— Por quê? — Só havia frustração nos olhos dele.
— Você disse que seríamos amigos. Não é assim que se trata um amigo.
Ele olhou para cima, em direção ao céu, antes de encontrar os olhos dela.
— Tem razão. Desculpe. Acho que não posso ser seu amigo. — E se afastou.
Desta vez ela deixou que ele se fosse.


Foi duro enfrentar aquele dia. Kylie queria pedir a Holiday para tirar folga das atividades, mas ela já tinha implorado demais aquele dia. Então foi na aula de arte, fez caminhadas e ocupou seu tempo decorando bolos.
Toda vez que começava a pensar em Derek, ela procurava tirá-lo da cabeça. Ficou tão absorta com a tarefa de decorar bolos que metade da aula já tinha passado quando percebeu que Miranda não estava lá.
Assim que a aula acabou, ela correu para a aula de música e no caminho encontrou Della, que ia para o lago, fazer aulas de caiaque. Della andava calada ultimamente, ainda tentando se recuperar da visita à UPF e dos testes. E ela morria de medo de ter que tentar secretamente ajudar a prender o primo por assassinato. Evidentemente, essa preocupação afastava dos pensamentos dela a preocupação com o final de semana na casa dos pais. Ei, é preciso ver o lado bom das coisas!
— Você viu Miranda? — perguntou Kylie.
— Não, por quê? Algum problema?
— Ela não foi à aula de decoração de bolos. Vou ver se está na cabana.
— Quer que eu vá com você?
— Não — respondeu Kylie, lembrando que Della estava ansiosa pela aula de caiaque. — Se não conseguir achá-la, eu te falo. Não deve ser nada de mais.
Infelizmente, um pouco antes de chegar à cabana, ela teve certeza de que sua conclusão tinha sido precipitada. Por quê? O grito agudo que veio lá de dentro.
Disparando a toda, Kylie chegou à porta da frente antes de perceber que gritos não eram de Miranda. Mas nem essa constatação fez com que diminuísse o passo. Alguém estava na cabana, gritando feito louca. E Miranda estava desaparecida.
Kylie escancarou a porta e entrou na cabana.
— Miranda?
— Aqui! — gritou Miranda do quarto. Mal dava para ouvir sua voz tão agudos eram os guinchos.
Ao abrir a porta do quarto, Kylie achou que estava preparada para ter surpresa. Mas não podia estar mais enganada.

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