18 de setembro de 2016

Capítulo 28

— Monsieur — disse o garçom, se curvando para colocar um guardanapo no colo de Jesse.
— Gracias.
Jesse não parecia nada incomodado com o fato de ter se convidado para jantar – e forçado a equipe a adicionar uma terceira cadeira e reorganizar uma mesa que obviamente era para duas pessoas – embora todo mundo no restaurante estivesse olhando para nós.
Coisas desse tipo não deixam Jesse sem graça.
Na verdade, acho que ele estava satisfeito, especialmente quando o sommelier trouxe a garrafa de Dom Pérignon que acompanhou a primeira parte do menu degustação – ostras frescas em meia concha, com cobertura de caviar Beluga.
— Eu trouxe minha própria garrafa — resmungou Paul, e encheu a taça de champanhe com o uísque que pegou no estúdio de Delgado.
sommelier pareceu não gostar, mas visto que Paul era um cliente, não havia nada que pudesse fazer.
— Como quiser, senhor — murmurou ele, e foi embora.
O Mariner's era o restaurante quatro estrelas do Carmel Inn, escolhido como o destino número um da baia pela Forbes Magazine. Paul se esforçou para reservar a melhor mesa, e a mais romântica – conhecida como “a Mesa da Janela” porque ficava escondida em um canto escuro do restaurante, com paredes de vidro. Ficava 10 metros acima da arrebentação da parte mais ao sul da baía de Carmel, de modo que os clientes tinham a sensação de comer em cima de um penhasco, um ninho privado acima do mar.
Entretanto, o ninho não estava tão privado e romântico assim essa noite, pois o restaurante ficou mais que feliz em adicionar um terceiro lugar à Mesa da Janela a pedido de meu noivo.
— Então — começou Jesse. — O que estamos celebrando? — Ele ergueu sua taça de champanhe. — O fato de eu ser um demônio?
Paul ergueu a própria taça.
— Eu brindo a isso se for para você ir para o inferno de uma vez por todas, De Silva.
— Pare — retruquei. — Os dois. Jesse, como você...?
— Seu meio-irmão David estava tentando falar com você — disse ele, dando de ombros. — Mas você não atendia, como sempre. Então ele me ligou para perguntar se eu sabia onde você estava. Deu a entender que tinha alguma coisa urgente a dizer, então eu naturalmente perguntei o que era. E David, sendo quem é, não quis trair sua confiança, mas acabei o convencendo de que seria melhor para ele se contasse. Imagine minha surpresa quando descobri que eu era o motivo da ligação. Ou melhor, o fato de que, aparentemente, estou ligado a algum tipo de maldição.
Senti como se alguém tivesse derramado champanhe gelado em minhas costas em vez de na taça.
— Jesse — falei. Eu ia matar David. — Olhe. Posso explicar...
— Ah, tenho certeza de que você pode explicar — disse Jesse. Estava degustando a comida com uma vontade que achei surpreendente para quem tinha acabado de descobrir que estava destinado a perder a alma e se tornar um assassino. — Estou ansioso para ouvir. Sim, vou experimentar o vinho, obrigado. — Ele sorriu para o garçom ao lado.
— Mas como você descobriu que a gente estaria aqui? — Eu não havia contado para David, nem para ninguém, sobre meus planos para aquela noite.
— Onde mais Paul Slater ficaria hospedado quando visitando Carmel? — Jesse apoiou o garfo para tomar um gole do vinho. — No melhor hotel. Agora, por onde começamos? Pelo acordo que ouvi vocês discutindo no carro, ou pelo que aconteceu na formatura?
— Jesse — falei depois de tomar vários goles d'água. Minha boca parecia cheia de areia. — Não é o que você está pensando.
— Não, está tudo bem, mi amada. — Havia um brilho perigoso nos olhos dele. — Se um homem está amaldiçoado a assassinar todo mundo que ama, é melhor saber que tem um motivo.
— Jesse. — Eu me engasguei. — Pare. Você sabe que isso não é verdade.
— Qual parte, exatamente, Suzannah? — Jesse tomou o resto do vinho. — Falei para você que podemos até não ter mais a conexão fantasma-mediadora, mas eu ainda consigo saber quando você está mentindo para mim, e você mentiu a semana inteira. Aquelas flores em sua mesa de trabalho? Elas não foram enviadas por um pai de aluno. Foram enviadas por ele. — Olhou para Paul com raiva.
— Assumo a culpa. — Paul deu uma piscadela para Jesse. — Mas ela não vale a pena?
Senti uma onda de raiva dos dois.
— É isso aí, Jesse — falei, antes que ele pudesse reagir à provocação de Paul. — Eu e Paul temos um caso tórrido desde o ensino médio pelas suas costas. Foi por isso que o levei, e não você, para o assassinato hoje. Paul é muito melhor em assassinatos que você.
Paul ficou confuso.
— Peraí. Você está sendo sarcástica?
— Claro, seu imbecil! — falei para ele. — A gente quase levou um tiro hoje porque você não sabe nem fechar um par de algemas.
— Então por que me levou?
— Porque eu não podia deixar que Jesse fizesse aquilo. Ele tem muito a perder.
Paul se encostou na cadeira com uma expressão de choque.
— Merda. Ela me usou.
— Ah, vê se cresce, Paul. Jesse, escute, eu...
— Achei que já tivéssemos conversado sobre isso. — Jesse cruzou os braços de tal maneira que os bíceps se inflaram por baixo do terno (os homens eram obrigados a usar temo e gravata no Mariner's). O de Jesse não era tão caro quanto o de Paul, mas ele estava muito, muito lindo mesmo assim. — Tive de prometer trabalhar mais seis plantões para conseguir que outro residente cobrisse meu turno na emergência, e depois de esperar por uma hora, descubro que você se atrasou porque matou Delgado? Como é que pôde pensar em fazer uma coisa dessas depois do que conversamos esta tarde, Suzannah?
— Em primeiro lugar, não falei que matei Delgado. Ele se matou. Em segundo lugar, desculpe por mentir, mas eu falei para você que não queria que arriscasse sua reputação por causa de um safado que nem...
— E eu falei para você que não queria que arriscasse a vida.
— Desculpe — repeti. Eu nunca tinha visto Jesse tão irritado. — Mas eu falei que não ia ficar sentada bordando gorros. Você já devia saber que não sou esse tipo de garota. E, no final das contas, valeu a pena. Tenho a lista de clientes de Delgado. Não os que compraram as fotos encomendadas; ele tinha uma memória separada para clientes particulares que compravam o que chamava de “fotos especiais”... fotos que você com certeza não quer ver. O nome do padre Francisco está na lista.
Jesse fez uma expressão de quem comeu algo amargo, mas depois apenas tomou mais um gole, ainda mais lento, de champanhe, que o garçom veio rapidamente repor.
— Ah. As notícias boas não param, não é?
— Mas isso é uma notícia boa, Jesse — garanti, com urgência, olhando dentro de seus olhos, que ainda estavam negros de tanta raiva suprimida, e mais alguma coisa que eu não conseguia identificar completamente. — Tem informação suficiente naquele pendrive para botar o padre Francisco e muitas outras pessoas na prisão, talvez pela vida inteira. Vou entregar tudo a Cee Cee amanhã.
Os lábios de Jesse se contorceram.
— Então o mundo deve acreditar que Delgado teve uma crise de consciência antes de se matar e mandou a lista de clientes particulares para a mídia local?
— Acho que é melhor assim. Cee Cee vai ter o cuidado de não mencionar Becca Walters.
Jesse assentiu, pensativo.
— E talvez isso permita que o espírito de Lucia descanse.
— Sem querer interromper o momento emocionante, mas posso falar uma coisa? — Paul levantou uma das mãos.
— Não. — Jesse apontou firmemente para Paul. — Você devia calar a boca, a não ser que queira acabar como Delgado. E você — o olhar furioso se voltou para mim — não pode me culpar por deduzir o pior, ainda mais depois do que David me contou. Que acordo é esse que vocês estavam discutindo quando estacionaram? E o que pode ter acontecido na formatura? Eu estava com você na maior parte do tempo.
— Jesse — falei —, eu quis te contar. Quis mesmo. Mas fiquei com medo de sua reação; tipo essa agora, por exemplo.
Ele estava indignado.
— O que estou fazendo de errado?
— Tudo! Eu tinha a situação totalmente sob controle até você chegar...
— Ah, por favor — gemeu Paul. — Por mais que eu goste de ver você se humilhando, Simon, preciso de um banho porque estou fedendo a comissário de bordo venezuelano. Então para mim já deu. Posso garantir a você, De Silva, que nada aconteceu na formatura exceto por um pequeno momento de indiscrição de minha parte, pelo qual sua namorada me deu um chute no saco. E hoje, como revanche, ela me forçou a ver um degenerado explodir o próprio cérebro. Pronto. Está feliz? Sério, eu desisto. Ela é toda sua.
Jesse foi para cima de Paul quando ele se levantou para deixar a mesa. Ele o segurou pela lapela do blazer, fazendo com que os pratos tilintassem e alguns talheres caíssem no chão.
— Ela nunca foi sua para você poder passá-la para mim, Slater — disse Jesse com raiva, o rosto grudado no de Paul. — E também não é minha. Mulheres não são cavalos, não pertencem a um homem ou outro, embora você ache que sim, visto que tem se esforçado tanto para roubá-la de mim.
— Eu não chamaria de esforço. — Paul não parecia tão preocupado por ter quase 2 metros de um ex-fantasma furioso sobre ele. — Não quando você facilitou tanto as coisas, fracassando em satisfazer as necessidades dela.
Felizmente, o sommelier chegou nesse exato instante, e nós dois conseguimos separar o Jesse de Paul antes que ele o machucasse fisicamente... mas não a tempo de evitar que todo mundo no restaurante se virasse para nós.
Senti todos os músculos de Jesse tensos sob meus dedos. Ele estava se coçando para dar um soco no rosto de Paul, e, sinceramente, ele merecia.
Mas nem o sommelier nem eu queríamos uma cena dessas no Mariner's, ainda mais na Mesa da Janela. Juntando nossas forças, e depois de vários puxões e empurrões, conseguimos fazer com que Jesse se sentasse de novo antes de causar qualquer dano.
— Jesse, por favor — implorei, enquanto o sommelier o arrumava feito uma mãe cuidadosa, dobrando o guardanapo, que havia caído, no colo dele e escovando seu terno. — Paul está bêbado. E, mesmo que tenha estragado tudo, ele fez um favor para você hoje. Sabe que não pode chegar nem perto de gente como Delgado.
Jesse me olhou com raiva. Eu me senti como um daqueles bolinhos dentro do forno vintage de minhas sobrinhas, queimando sob a forte luz branca.
— Ele me fez um favor? — Ele parecia incrédulo. — Suzannah, não preciso desse tipo de favor, nem dele, nem de ninguém, especialmente quando você está envolvida. E — adicionou, dando uma olhada obscura para Paul — ele está meio bêbado demais, não acha?
— O quê? Não. — Voltei rapidamente para o lugar ao mesmo tempo em que a segunda parte do jantar, um prato de borda dourada com salmão selvagem da baía de Monterey e limão Meyer, estava sendo posto por uma equipe de garçons tão profissionais que davam a impressão de não ter notado que quase houve uma briga no restaurante. — Ele me parece bem. Peraí, o que você está...
Parei de falar quando Jesse pegou minha bolsa embaixo de minha cadeira.
— Sério, por favor, podem continuar, vocês dois — balbuciou Paul da cadeira onde ele havia se jogado de volta. Para minha surpresa, ele ainda não fora embora do restaurante. — Finjam que eu não estou aqui. Estou acostumado.
Jesse começou a vasculhar minha bolsa. De repente, soube exatamente o que ele estava fazendo... e pelo que estava procurando. Meu coração veio parar na garganta.
— Jesse, não! — exclamei, tentando pegar as alças de couro para retomar a bolsa. — Eu...
Ouvi o barulho de algo chacoalhando, e tive certeza de que os dedos dele estavam em torno do frasco de remédio. Eu não tinha como detê-lo. Ele pegou o frasco do fundo da bolsa e franziu os olhos ao ler o rótulo sob a luz fraca da vela que iluminava a mesa do restaurante.
— O que é isso? — perguntou Paul com interesse. — Suze, você trouxe lembrancinhas para a festa? Meu tipo de garota.
— Não é o tipo de lembrancinha de que você gosta, Slater — disse Jesse, abrindo o frasco rapidamente e despejando o conteúdo na palma da mão. Contou rapidamente e perguntou: — Quantos você deu a ele?
— Só alguns. Eu coloquei na garrafa de uísque quando ele não estava olhando. Não queria que ele sentisse o gosto.
Jesse falou um palavrão.
— Você lhe deu calmante com álcool?
Vendo a expressão preocupada de Jesse, dei de ombros.
— É uma garrafa grande. Ele vai ficar bem, só um pouco fora de si por algum tempo.
— Obrigado pelo diagnóstico, Dra. Simon. — Jesse já estava com o celular na mão, pronto para ligar para a emergência. — Por que você faria uma coisa dessas?
Mordi o lábio. Eu teria de contar para ele mais cedo ou mais tarde. Olhe tudo que estava acontecendo porque eu não tinha contado – porque Becca não tinha contado.
Não, peraí. O assunto era eu agora.
Mas, no final, foi Paul que jogou tudo no ar.
— Calmante? Esse golpe foi bem baixo, Simon, até mesmo para você. — Pegou o celular dentro do temo. — Eu devia ter adivinhado que você nunca teve a intenção de cumprir com seu lado do acordo. Vou mandar uma mensagem para Blumenthal agora e confirmar a demolição na segunda-feira. — Isso fez com que Jesse parasse a ligação que estava fazendo.
— Essa palavra de novo. Acordo. Qual era o acordo?
— Hum — respondi, o pânico aumentando. — Nada. Só...
— Ai, não. — Paul sorriu e continuou digitando. — Que situação. Desculpe, Simon. Mas promessa é promessa. E, ao tentar me drogar, você acabou de quebrar a sua.
O olhar de Jesse parecia me queimar.
— Suzannah. Do que ele está falando?
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Paul continuou:
— Ah, não seja tão duro com ela, De Silva. Na verdade, você devia estar impressionado. É difícil achar uma mulher tão leal quanto ela hoje em dia... ou ao menos uma que não esteja interessada só no seu dinheiro, o que não seria um problema para você, eu sei, mas para mim...
— Ok, já chega.
Eu me levantei e joguei o guardanapo ao lado do novo prato que havia sido servido, risoto com trufa negra a Parmigiano-Reggiano, que, àquela altura, eu já não tinha interesse nenhum em provar.
— Vem, Jesse — falei. — Não precisamos ficar aqui ouvindo isso. Vamos embora.
Mas Jesse ficou onde estava.
— Não — disse ele. Seus olhos eram tão escuros quanto os de Paul eram claros; mais escuros ainda naquele instante, visto que aquelas sombras já familiares estavam voltando. — Estou interessado em saber desse acordo de vocês.
Comecei a sentir medo, apesar de haver um quarteto de cordas tocando uma música leve ao fundo.
— Jesse, ele não sabe o que está falando. Ele... ele está drogado, lembra?
Paul deu um gole com vontade na garrafa de uísque.
— Querida, tenho uma novidade para você. Eu tomo remédio como se fosse bala. Como você acha que mantenho meu estilo de vida altamente não saudável e ainda consigo ter uma ótima aparência? Alguns calmantes dentro de minha bebida não vão fazer nem cócegas, já que tomei quatro Dexedrines antes de sairmos do bar. Enfim, o que vocês têm é muito fofo, e fico com inveja, ainda mais porque agora os dois já sabem que vai acabar.
— E como vai acabar? — perguntou Jesse.
— Bem, não existe nenhum caso documentado, que eu saiba, de copulação entre uma humana e um cadáver reanimado, mas acho que uma coisa dessas pode desafiar todas as leis físicas e naturais. Se você quer saber minha opinião, é isso que provavelmente vai libertar as entidades demoníacas que residem no bom médico aqui. Mas quem sou eu para falar sobre isso? Não sou especialista. Vamos descobrir na segunda-feira, não vamos? Ah, e esse era o acordo que tínhamos, De Silva. Sua namorada ia me deixar transar com ela se eu não demolisse a velha casa. Mas agora o acordo foi quebrado. Então boa sorte na tentativa de não assassinar sua noiva.

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