30 de setembro de 2016

Capítulo 27

A confusão era evidente no rosto dele.
— Quem? Tom Selleck?
O constrangimento tomou conta dela. Ela tinha realmente dito aquilo?
— O que eu estou dizendo é que eu não acho que isso vai acontecer de novo. Então, vamos esquecer, ok?
— Por que não vai acontecer de novo? — O olhar dele ficou mais profundo, e ele baixou um pouco o rosto, chegando um centímetro mais perto. — É óbvio que você sente por mim o mesmo que...
— Você sente por Fredericka? — Ela gostaria de poder capturar a frase no ar antes que ela chegasse aos ouvidos dele.
Lucas arqueou as sobrancelhas e se apoiou nos calcanhares.
— Então é por isso que está com raiva.
Ela não negou. Não porque não quisesse, mas porque não achava que conseguiria.
— Olha, Fredericka e eu...
— Não importa.
— Importa pra mim. Nunca nem mesmo toquei nela enquanto estávamos fora. Nem uma vez.
— Não importa, porque... o que vocês dois são, o que vocês dois fazem só diz respeito a vocês. Porque eu e você... somos só amigos.
— Poderíamos ser mais — ele contestou. — Eu já sinto que somos mais.
— Não. — Ela olhou bem dentro dos olhos dele, esperando que ele entendesse que ela estava falando sério.
Ele colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha dela e com o polegar, acariciou seu rosto.
— A última vez em que eu estive nesta varanda, você me convidou pra entrar e eu achei que o convite incluía mais do que... sermos amigos.
Ela se lembrou de ficar ali, quase implorando para ele entrar, querendo... muito mais do que a companhia dele. Mas isso foi naquele dia, antes que ela começasse a gostar de Derek.
Ela pegou a mão de Lucas e tirou-a do seu rosto.
— Mas você disse não. E estava certo.
— Você acredita mesmo nisso? — Ele enlaçou os dedos dela com ternura.
Sim, ela acreditava, porque ele tinha fugido com Fredericka.
— Ela me seguiu, Kylie. Não pedi para que viesse comigo. Eu a tenho mandado pra casa, mas acabei precisando dela.
Kylie tentou puxar a mão, mas ele a apertou mais forte.
— Não quis dizer precisar dela no sentido... nesse sentido. Precisava ajudar alguém. — Ele fez uma pausa. — Não contei pra você nas cartas, porque, se Holiday soubesse, teria tido um ataque. Eu tenho uma meia-irmã. Ela ia entrar para uma gangue. Eu tinha que tirá-la de lá, Kylie. Ela não merecia aquilo... Eu devia ter ficado ao lado dela antes. Ela me ligou pediu ajuda uns meses atrás, mas eu não fui, porque teria que encarar meu pai. Foi minha culpa o que aconteceu com ela e eu tinha que ajudar. Então Fredericka me ajudou.
Kylie assentiu com a cabeça.
— Ela te ajudou. Tentou me matar.
Ele balançou a cabeça.
— Ela não ia matar você na noite passada.
Era ele quem estava lá. Ela sabia, mas ouvir ele dizendo fez com que ficasse mais real.
— Só queria te assustar — ele continuou. — Ela não gosta de você, porque sabe o que sinto por você.
— Você teve que brigar com ela para que parasse de me atacar.
— Isso não significa nada. É desse jeito que resolvemos as coisas quando estamos transformados. Não ficamos parados no lugar usando psicologia quando estamos no nosso estado natural.
— Mas a noite passada não foi a primeira vez que ela tentou me matar. Ela colocou um leão no meu quarto antes de você partir.
A expressão dele ficou mais sombria.
— Ela fez isso?
— Colocou um leão no meu quarto. Um leão da reserva florestal. Se não fosse Derek, eu podia ter morrido.
A descrença era patente em sua expressão.
— Ela não deve ter feito isso.
Kylie arrancou a mão da dele. Não podia acreditar que ele estava defendendo Fredericka. Mas por que era tão difícil de acreditar? Ele tinha admitido que fizera sexo com ela. E depois fugira com a garota.
Ele passou a mão pelo cabelo.
— Ela não é assim, Kylie. Sei que é um pouco impulsiva, mas... você não a conhece como eu.
— Tem razão. Não a conheço como você. E, como vocês têm tanto em comum, por que não vai procurá-la agora mesmo... e não fica com ela? É lá o seu lugar.
— Não é ela que eu quero. — As palavras dele foram sucintas. — É você. É você desde... desde o minuto em que a vi pela primeira vez.
Kylie fechou os olhos e balançou a cabeça. Estava tudo acontecendo rápido demais. Ela tinha finalmente se acostumado a vê-lo longe do acampamento e agora estava ali sacudindo sua vida outra vez.
— Me diga que não sente isso também — ele sussurrou. — Me diga que não sente a ligação que temos desde a primeira vez em que nos vimos.
Ela sentia, mas isso tinha sido cinco anos atrás. Ela o olhou nos olhos novamente.
— Eu não sei o que você está pensando, Lucas. Está me dizendo que não há nada entre você e Fredericka, mas ela obviamente pensa diferente. Talvez você deva resolver as coisas com ela antes de começar qualquer coisa comigo. — O coração dela se apertou quando percebeu que era basicamente a mesma coisa que Derek havia dito a ela.
— Você fala como se eu já não tivesse tentado.
Ela deu de ombros.
— Minha vida está realmente complicada atualmente. Se você estivesse por aqui nas últimas semanas, saberia. Por hora, podemos ser amigos. É isso aí.
Kylie ouviu vozes na trilha. Quando olhou, viu Derek e alguns amigos passando em frente à cabana. Ele nem se virou para olhar para ela. Ela suspeitava de que era porque já tinha visto. Visto ela e Lucas juntos e pensado o pior.
A culpa se abateu sobre ela, mas ela reprimiu o sentimento, esperando que Derek não estivesse perto o suficiente para senti-lo. Ela não tinta nada errado. Com a respiração presa na garganta, observou o grupo seu campo de visão.
Quando olhou para Lucas novamente, ele a observava.
— Ele é o motivo? Vocês dois estão juntos mesmo?
— Isso não importa. Você e eu somos só amigos, Lucas. Só amigos.
Ela se virou e abriu a porta. Um pouco antes de batê-la na cara dele, ela o ouviu dizer:
— Não se eu conseguir fazer você mudar de ideia, Kylie Galen.


Na manhã seguinte, Della tinha um ritual de manhã bem cedo e não iria tomar café da manhã. Miranda anunciou que também não iria aparecer. Kylie pressentiu que a bruxa estava ocupada com alguma coisa. Provavelmente tentando reverter o feitiço que colocara em Socks. Kylie teria perguntar, mas ela tinha lutado contra o sono a maior parte da noite, com medo de invadir os sonhos de Lucas, e não tinha a mínima disposição para uma conversa sobre possíveis contrafeitiços.
Ao entrar no refeitório sozinha, Kylie sentiu os olhos de todos sobrenaturais e soube que estavam arqueando as sobrancelhas como loucos para o seu padrão cerebral. Depois de abastecer sua bandeja com um bolinha e uma fruta, hesitou nos fundos do salão, à procura de uma mesa. Hoje todos tinham optado por se sentar com sua própria espécie. Como Kylie não tinha sua própria espécie, ou pelo menos não sabia a que espécie pertencia, marchou para uma mesa vazia.
Não sabia muito bem por que era tão difícil se sentar sozinha. Ela devia ter mais autoestima, em vez de deixar que algo tão tolo a fizesse se sentir desconfortável. Mas o fato de saber que se tratava de algo tolo não mudava nada. Ela olhou para o bolinho e tentou não parecer tão digna de pena quanto se sentia.
Ao ouvir um riso familiar, Kylie olhou para cima e viu que a risada vinha da mesa das fadas. Todos ali pareciam satisfeitos com a companhia calorosa do seu círculo de amigos. Todos menos Derek. Ela via nos olhos que estava sofrendo, mas o que ela podia fazer? Ela não tinha feito nada. Ele tinha. E ela tinha certeza de que, se ela tentasse se aproximar, ele ia afastar. Aquilo a feria lá no fundo.
Pegando seu bolinho, ela deu uma mordida. Era o seu preferido, de framboesa e cream cheese, mas ela mal sentia o gosto. Engoliu mais um bocado insosso e sentiu como se todo mundo na sala estivesse olhando para ela. Pelo que ela podia ouvir, seu novo padrão mental mutante ainda não tinha deixado de ser o tema da conversa.
De repente, uma bandeja surgiu ao lado dela. Pensando que era Della voltando mais cedo do ritual, Kylie sussurrou um “obrigada” e se virou com um sorriso.
Mas não era Della.
Lucas sorriu.
— Obrigada pelo quê?
— Nada — ela disse e quase pediu para que ele saísse. Mas, que droga, ela não tinha dito que eles eram amigos? E, como amigos, não havia razão para ele não se sentar ao lado dela. Bem, exceto por uma certa loba que gostaria de matá-la por causa disso.
Os olhos azuis brilharam com bom humor.
— Você está suja de geleia. — Ele passou o dedo pelo lábio dela. Depois levou o dedo à boca e lambeu-o.
— É para isso que servem os guardanapos — ela disse, pegando um e limpando a boca.
Ele deu uma risadinha.
Percebendo que Derek podia estar vendo a cena, Kylie olhou de relance para a mesa dele. Ele tinha ido embora. O que significava que tinha visto os dois juntos e saído. Mas que droga! Ela deixou que a culpa a consumisse por alguns segundos e depois se rendeu à raiva. Ela não estaria nessa situação se ele tivesse se aproximado dela e lhe feito companhia à mesa. Não mesmo.
Dando um profundo suspiro, ela pegou seu copo de leite e tomou um longo gole. Depois olhou para Lucas, que a observava.
— Você é linda demais.
Ela revirou os olhos e colocou o copo sobre a mesa.
— Só amigos — ela insistiu.
— Tudo bem, mas mesmo assim é linda. — Seu sorriso ficou mais largo. — Mesmo com um bigode de leite. — Ele passou o guardanapo a ela e continuou rindo. Então sua expressão ficou séria. — Burnett me disse o que aconteceu com Della. Vai ficar tudo bem com ela?
— Acho que sim. — Ela não deu detalhes nem mencionou Chan. Não sabia o quanto Burnett tinha contado ou quanto Della podia falar sobre os acidentes do Código Vermelho.
— Ouvi falar sobre o que aconteceu na cidade e com a sua mãe — ele acrescentou. — Parece que você passou por maus bocados enquanto eu estava fora.
— É, maus bocados.
Ela pegou o bolinho e deu uma mordida sem sentir gosto nenhum, é claro.
— Também ouvi... — os olhos dele brilhavam de bom humor — o que seu gambá fez com Fredericka. Tenho certeza de que ela mereceu.
— Pode apostar. — Será que era assim que ele pretendia demonstrar sua lealdade a Kylie e não a Fredericka? Não que ele tivesse que escolher entre as duas. Kylie e Lucas eram só amigos. E, se ela apenas conseguisse esquecer como era bom beijá-lo, achava que eles realmente podiam ser amigos. — As suas últimas semanas parecem ter sido agitadas também. Ficou tudo bem com a sua irmã?
Ele assentiu.
— Acho que sim. Deixei-a com alguns amigos. Vou falar com Holiday sobre matriculá-la aqui na escola. Você vai se matricular, não vai?
Kylie beliscou um pedaço do bolinho.
— Espero que sim. Minha mãe ainda está pensando a respeito.
Só de pensar que a mãe podia dizer não, ela sentia o estômago se contrair. Ela pertencia a este lugar, como os outros ali. Seu olhar passou pelas outras mesas, que pareciam cheias de famílias de sobrenaturais. Tinha esperança de que logo descobriria a que mesa pertencia.
Esse não é o mesmo mundo onde você costumava viver. Kylie ouviu em sua cabeça as palavras de Miranda. Não, ela não vivia no mesmo mundo. Este era sombrio e às vezes muito perigoso, mas era seu mundo agora.

3 comentários:

  1. YEAH!!!Lucas meu "cachorrão" esta de volta quer dizer lobo huashuashuas😈😎🎆🐺.

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  2. VAAAAAAAII LUCAAAAAAAAAAAAASSSSSSSSSSSSSSSSSSS <3 \O/

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  3. Seria perfeito se o Lucas não tivesse defendido a Fredericka
    Antes

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