24 de setembro de 2016

Capítulo 27

Kylie olhou para suas novas amigas, sem saber se deveria dividir algo íntimo com elas. Embora ainda ligeiramente perturbada por sua observação “normal”, sentia-se ligada às duas – como, até então, só havia se ligada a Sara.
— Sim, quer dizer, não. Eu nunca fiz... Vocês sabem. Acho que isso significa que, por causa disso, não sou apenas uma aberração, mas uma aberração virgem — Kylie olhou para as próprias mãos durante um instante prosseguiu: — Não era a hora, entendem?
Miranda inclinou-se para ela.
— Não seja dura demais consigo mesma. Eu também não fui tão longe. Não me entenda mal, cheguei perto, mas, como diria meu tio, isso não é um jogo de amarelinha, certo?
Kylie e Miranda viraram-se para Della, que parecia mais pálida que normal.
Miranda deu uma tapa na mesa.
— Desembucha, vampira. Nós já dissemos tudo.
Kylie cutucou Miranda levemente com o cotovelo.
— Della não precisa contar nada, se não quiser — Kylie recostou na cadeira e decidiu que era melhor mudar de assunto. — Fredericka me flagrou me despedindo de Trey.
— Que droga! — exclamou Della, recobrando a cor imediatamente — E o que ela fez?
— Ameaçou fazer fofoca a meu respeito, mas então Holiday apareceu saindo do refeitório justamente naquele momento.
— Fredericka contou tudo a ela? — perguntou Della.
— Não, decidi contar eu mesma e não dar esse gostinho àquela cadela.
— O quê? — estranhou Miranda. — Contou a Holiday que trouxe um normal para o acampamento sem permissão? Ela não subiu pelas paredes?
— Não, apenas me pediu para não fazer mais isso — disse Kylie.
Della pigarreou.
— Você contou a ela que fui eu quem o trouxe à cabana?
Kylie revirou os olhos à maneira espalhafatosa de Sara.
— Eu não faria isso, Della — e levantou-se para ir checar no computador se por acaso sua mãe tinha respondido seu e-mail.
— Sabe o que ouvi? — perguntou Miranda, com ar de quem tinha uma grande fofoca para contar. — Ouvi que os pais de Fredericka são malandros. Alguém precisou fazer muito esforço para trazê-la para cá.
— O que você quer dizer com “malandros”? — quis saber Kylie, lembrando-se de Burnett, da UPE, ao sugerir que seus pais também poderiam ser aquilo.
— Pessoas que não seguem as regras. No caso dos lobisomens, são àqueles que caçam alimentos que não fazem parte da lista aprovada.
— Que não fazem parte da lista... Você quer dizer... Humanos? — perguntou Kylie, com um calafrio.
— Ou outros sobrenaturais e animais domésticos. Até os de estimação.
O pensamento de Kylie disparou para Lucas Parker e seus pais. Lucas e Fredericka seriam daquele jeito porque os pais deles eram malandros?
Della se levantou e foi até a geladeira.
— Querem algo para beber? — perguntou, olhando por cima do ombro.
— Uma Coca Diet, por favor — pediu Kylie.
— Miranda?
— Coca Diet está bom.
Não havia nenhuma mensagem na caixa de entrada de Kylie.
— Perguntei à minha mãe a que hora ela e meu pai nasceram — disse.
— E aí? — perguntou Della, colocando o refrigerante ao lado do computador.
Kylie o pegou e voltou à mesa.
— Mamãe não se lembra e prometeu dar uma olhada nas certidões de nascimento. Vai me mandar um e-mail... Quando encontrar as certidões — Kylie sentou-se. — Do jeito que ela é, isso talvez só aconteça no ano que vem.
— Quando as mães dizem “talvez”, querem dizer na verdade “não” — filosofou Miranda, dirigindo-se à escrivaninha para checar seus próprios e-mails.
Della se sentou, abriu o refrigerante e tomou um longo gole.
— Você pode tomar isso? — perguntou Kylie.
— Posso — respondeu Della, fechando a cara. — Por quê?
Kylie encolheu os ombros.
— Não sei. Vi você comendo calabresa, mas achava que vampiros bebiam apenas...
— Sangue? — completou Della, parecendo aborrecida pelo fato de Kylie não ousar dizer a palavra.
— É, sangue — repetiu Kylie, procurando não fazer cara de nojo.
— Não, posso comer e beber outras coisas. Mas elas não são tão nutritivas nem têm o mesmo sabor de antes. Ah, e algumas coisas realmente fazem mal. Por exemplo, brócolis.
— E o que acontece se você comer brócolis? — perguntou Kylie.
— Explosões. Muitos gases.
Kylie fez uma careta.
— Acho que isso acontece com todo mundo.
— Della tem razão — disse Miranda, olhando por cima do ombro. — Não há nada pior do que pum de vampiro. Exceto... — fixou-se na tela e começou a digitar. — Exceto o de uma bruxa depois de comer um burrito de feijão.
Todas riram. Passada a euforia, o silêncio reinou novamente. Della girou a lata de refrigerante nas mãos.
— Eu fiz.
— Caramba, você soltou um pum? — perguntou Miranda, cobrindo nariz com a mão.
— Não — respondeu Della. — Fiz sexo.
Fez-se um silêncio carregado de expectativas.
— E? — perguntou Miranda finalmente, voltando-se na cadeira.
— Foi ótimo. De verdade. Lee e eu estávamos namorando há um ano. Eu o amava. Parecia certo — lágrimas brotaram nos olhos de Della, mas mesmo sem elas era possível perceber o sofrimento em sua voz. — Depois eu me transformei em vampira.
— Ele não aceitou a transformação? — Kylie sentiu pena da amiga e se lembrou do quanto tinha sofrido ao ser abandonada por Trey.
Della enxugou as lágrimas.
— Na verdade, eu não contei. Ia contar, mas... — mordeu o lábio. — Fui vê-lo depois da mudança e ele deu um pulo para trás depois que me beijou. Disse que eu estava gelada, talvez doente, e que não queria me beijar até que eu... Ficasse quente de novo.
— Que idiota! — exclamou Miranda.
Della respirou fundo.
— Como dizer ao cara que você ama que nunca mais vai ficar quente de novo? — o queixo de Della tremeu.
Kylie segurou sua mão.
— Você devia ter tentado contar para ele. Talvez, se soubesse, ele entenderia...
— Não — Della sacudiu a cabeça e seus macios cabelos negros flutuam em ondas em volta de seu rosto. — Acho que não. Ele é um cara maravilhoso, mas pertence à segunda geração chinesa, muito quadrada. Como a família dele e a dos meus pais também. Quase terminou comigo quando soube que mamãe era euro-americana.
— Ele não me parece tão maravilhoso assim — comentou Kylie.
Della sacudiu de novo a cabeça.
— Não é só culpa dele. Tem também a criação. Somos criados para acreditar que somos perfeitos. Frequente as melhores escolas, tire as maiores notas, consiga os empregos mais promissores. Não se espera que... — mordeu o lábio. — Não se espera que sejamos monstros.
— Você não é um monstro — corrigiu Kylie, chocada ao ouvir isso. Mas a própria, no começo, não pensava assim da amiga? E, pior ainda, não tinha medo de ser também uma aberração da natureza?
— Ela está certa — decretou Miranda.
Kylie apertou gentilmente a mão gelada de Della.
— Se ele não ama você, logo encontrará alguém que ame. Você é jovem. Bonita. Ainda tem a vida inteira pela frente.
A pergunta deu voltas na cabeça de Kylie e, por fim, antes que ela pudesse se conter, brotou dos seus lábios:
— Você é imortal? Ou já está...
— Morta? — completou Della.
Kylie ficou vermelha de embaraço.
— Ah, desculpe! Estou sendo grosseira. Queria fazer com que se ser se melhor e agora... Falei sem pensar.
— Tudo bem — tranquilizou-a Della. — Não estou morta. O corpo de um vampiro só funciona de maneira diferente, apenas isso. Não acredite tudo o que lê nessas historinhas para adolescentes. Não somos imortais, mas vivemos cerca de 150 anos.
— É bastante tempo. — Kylie olhou para Miranda. — E as bruxas?
— A expectativa de vida é mais ou menos a mesma — disse Miranda, sem se desviar da tela do computador.
— E os outros sobrenaturais? — Kylie estava curiosa para saber se, caso fosse também sobrenatural, viveria mais tempo que o normal.
— As fadas são as que vivem mais — respondeu Miranda, digitando alguma coisa no teclado. — Sei de uma velhinha que tem uns quinhentos anos, por aí.
— Agora está com esperança de ser fada? — brincou Della.
Kylie pousou o cotovelo direito na mesa e apoiou o queixo na mão.
— Não. Que droga, não sei — murmurou, com um suspiro. — Isso é estranho. Por que mamãe não me dá uma resposta ao menos uma vez na vida? Odeio suspense.
Olhou para Miranda.
— Você não poderia me ajudar?
— Como? — perguntou Miranda, ainda concentrada no e-mail.
— Kylie, você é corajosa — riu Della, entendendo o que Kylie queria dizer. — Não se lembra de como ela lança seus feitiços?
— Um presentinho para você — resmungou Miranda, mostrando dedo para Della.
Della caiu na gargalhada.
— Pelo menos, não é o mindinho.
Kylie ignorou Miranda e seus gestos.
— Você não poderia lançar um feitiço que fizesse mamãe encontrar certidões de nascimento e me passar logo a informação? Falo sério. Se é capaz de fazer um sanduíche de pasta de amendoim e geleia aparecer do nada isso não seria nada pra você.
— Bem... — começou Miranda, sempre concentrada na tela do computador. Vou te dizer como. Toque seu nariz três vezes e diga “Miranda é uma deusa”.
Kylie fitou a nuca de Miranda.
— Está falando sério?
— Estou — Miranda virou-se finalmente para ela e não parecia estar brincando. — Anda, toque o nariz três vezes e diga “Miranda é uma deusa”.
— E não vai transformar minha mãe num sapo? — Kylie manteve o indicador suspenso diante do nariz.
— Eu não faria isso se fosse você — advertiu Della, para Kylie.
Miranda olhou feio para Della e ergueu o dedo mínimo.
— Prometo que este aqui não vai se meter.
— E se eu fizer isso, mamãe vai me mandar um e-mail? — Kylie não podia acreditar que estava caindo naquela conversa, mas...
— Ei! — gritou Miranda. — Vem checar o computador. Você acaba de receber uma mensagem de sua mãe.
Kylie deu um salto e, literalmente, arrancou Miranda da frente do monitor. Segurando a respiração, agarrou o mouse. Podia estar a um clique de saber se era realmente sobrenatural.
Um clique.
Meu Deus, como estava apavorada!

Um comentário:

  1. um suspense... Della não é mais virgem coitada fiquei com dó dela
    ass: Mary leger

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