30 de setembro de 2016

Capítulo 26

Sentindo como se tivesse um líquido efervescente nas veias, Kylie viu Luis, agora totalmente transformado em lobo, correr para a floresta. Então todo mundo se virou para olhar para ela.
Observando.
Esperando.
Ela olhou para Holiday.
— Eu preciso... ficar sozinha... — Ela se afastou para longe. Não correu, pois não queria chamar ainda mais atenção, mas andou rápido, assustada com os sons guturais que a qualquer minuto começariam a fluir da sua garganta.
Embrenhou-se no bosque antes que a vontade irreprimível de correr a dominasse. Deslocou-se a passos rápidos, contornando árvores, pulando troncos e se desviando de galhos. O quanto ela correu, não fazia ideia. Mas, sem fôlego, sem energia, finalmente desabou no chão, reduzida a um feixe de músculos trêmulos.
Ainda ofegante, começou a olhar para as mãos. Tocou o rosto para ter certeza de que não tinha começado a mudar.
Nada. Mudança nenhuma. Ela fechou os olhos e tentou deter a sensação de formigamento na pele. E foi nesse momento que ouviu.
Um rosnado alto e agourento.
Abrindo os olhos, ela viu um lobo avançando na direção dela. Quase todo branco com manchas cinza e marrom, os olhos de um dourado cintilante. Seus beiços se arreganharam e ela viu seus dentes afiados. Esse não era um lobo comum. Era um lobisomem.
Kylie tentou ficar de pé, mas os músculos das pernas tremiam tanto que se recusaram a obedecer. O lobo pareceu perceber sua fraqueza. Sua postura ficou mais agressiva. O pelo grosso das costas se arrepiou e, quando Kylie olhou nos olhos dele, ela soube. Soube com toda a certeza que era Fredericka. O rosnado da lobisomem ficou mais grave e então ela atacou.
Kylie encontrou forças para ficar de pé num salto e estava prestes a correr quando outro lobo, ainda maior, apareceu entre as árvores. Fredericka estancou. A princípio, Kylie chegou a acreditar que seria atacada por duas feras em vez de uma. Mas o segundo lobo, de pelo acinzentado e olhos de um dourado mais claro, virou-se para o outro e rosnou. Kylie ouviu os dois rosnando, medindo forças e se preparando para se atracarem. Ouviu o som de dentes entrechocando-se e, depois, reconhecendo uma chance de escapar, disparou em meio às árvores. Correu, tão rápido quanto antes, pois já estava exausta, mas forçou-se a seguir em frente e não parou até chegar à sua cabana.
Prostrando-se nos degraus da varanda, forçou o ar a entrar nos pulmões. Quando olhou para a floresta, viu um par de suaves olhos dourados fixos nela. A segunda golfada de ar lhe trouxe o reconhecimento. Ela não sabia bem como sabia, mas a revelação veio com tamanha clareza que ela não questionou.
Lucas estava de volta.


Na manhã seguinte, Kylie acordou como sempre: com a queda na temperatura do quarto. Ela grunhiu, mal-humorada, rolou na cama e olhou de relance o relógio, sem querer acreditar que já estava amanhecendo. Mas não havia como negar. Já eram 4:59 da manhã. O espírito tinha chegado pontualmente.
Não era justo, e não só porque não queria encarar Lucas ainda. Ela tinha acabado de deitar a cabeça no travesseiro! Nunca três horas tinham se passado tão rápido. Já eram 2 da manhã quando ela desabou na cama.
Na noite anterior, quando Kylie correu para dentro ao ver Lucas, Holiday estava esperando por ela para se certificar de que estava tudo bem. Della e Miranda estavam esperando com a líder do acampamento na mesa da cozinha, todas as três com um olhar sombrio. Suas duas colegas de alojamento pareciam chocadas quando Kylie finalmente chegou. Não havia dúvida de que tinham pensado seriamente que ela se transformara em lobisomem. Mas Holiday não parecia tão surpresa.
Depois de pensar a respeito, Kylie começou a levantar suspeitas. Será que Holiday sabia algo que não queria falar? Kylie amava a líder do acampamento, mas a crença que tinha naquela bobagem de que Kylie devia descobrir tudo sozinha, a ideia de que a pessoa precisava encontrar suas próprias respostas, já estava deixando Kylie com os nervos à flor da pele.
O frio invadiu o quarto, trazendo Kylie de volta ao presente.
“Você tem que salvá-la.”
E falando em nervos à flor da pele...
Kylie gemeu e se sentou. O fantasma estava em pé aos pés da cama. O cheiro doce de sangue invadiu as narinas de Kylie antes que ela visse o espírito vestindo a camisola de hospital ensanguentada. O fantasma encontrou os olhos de Kylie e apertou o abdômen como se estivesse passando mal.
— Se vai vomitar — disse Kylie —, se incomoda em se afastar um pouco da cama?
O som frio e indiferente da sua própria voz atingiu Kylie como um tapa.
— Desculpe — ela sussurrou. — Eu só quero... descobrir o que está acontecendo e é frustrante ver que não consigo...
O fantasma pousou a mão no pé de Kylie. Mesmo por baixo do cobertor, ela sentiu o toque gélido.
“Você é capaz de deter isso. Por favor detenha.”
— Deter o quê? Já começou? — Kylie perguntou, sentindo a tensão na mandíbula. Alguém que ela amava já estava sofrendo? Sequestrada e torturada pela Confraria do Sangue ou coisa pior?
— Droga, me responda! — Kylie gritou. — Ou pelo menos me ajude a ter uma visão que eu possa entender. Não me importo se for algo horroroso, só me faça ver!
A visão do velório ainda não fazia sentido.
Os contornos do fantasma foram esmorecendo e o mesmo aconteceu com a sensação fria do seu toque. Mas então Kylie sentiu um formigamento quente nos tendões dos pés, que subiu pelo peito do pé até chegar ao calcanhar. Kylie pressionou o pé com a mão. Ela nunca tinha sentido isso com Daniel. Será que significava alguma coisa?
A frustração se avolumou dentro dela, mas o som de uma cascata encheu sua cabeça. Será que os anjos da morte estavam lhe dizendo que tudo ficaria bem?
O telefone de Kylie emitiu um bipe, anunciando a chegada de novas mensagens. Havia três: uma do investigador particular, outra de Sara e outra de sua mãe.
Com medo de que a pessoa amada já estivesse em perigo, e sem se importar com a hora, Kylie ligou para a mãe.


Mais tarde, às oito horas da manhã, Kylie depositou sua bandeja de café da manhã sobre a mesa do refeitório e se sentou ao lado de Della e Miranda, procurando não olhar em volta para não correr o risco de vê-lo. Ou vê-los. Ela não estava tão ansiosa para ver Derek agora como também não estava para ver Lucas. O esforço que ele fizera, na noite anterior, para evitá-la ainda doía. Tudo bem, ela sabia que tinha feito o mesmo com ele algumas semanas atrás, mas agora era diferente. Ela não o tinha evitado porque não queria estar com ele; pelo contrário, tinha evitado porque queria demais estar com ele.
Encarando seus ovos mexidos, que pareciam tão apetitosos quanto um bicho atropelado, Kylie se lembrou da conversa que tinha travado com a mãe. Francamente, ela não sabia se a mãe tinha acreditado em toda aquela história de “acordei de um pesadelo e não percebi que horas eram”. Mas, quando a mãe confessou que andava tendo terríveis pesadelos também, Kylie não pôde deixar de pensar se aquilo não era resultado das lembranças que Derek apagara. Estariam os pesadelos da mãe relacionados ao que ela vira em Shadow Falls?
De repente, Kylie sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Sem nem precisar olhar para trás, sentiu que alguém tinha os olhos fixos nela. Incapaz de resistir, olhou por cima do ombro. Ela deveria saber.
Fredericka.
Voltando a se virar para a frente, passou os olhos pelo refeitório e deu de cara com Derek. Os olhos dele expressavam preocupação, carinho, mas não a ponto de levá-lo a se aproximar. Será que ele não sentia o quanto ela precisava dele? Ela desviou os olhos, mas só para ser enfeitiçada por um par de olhos azuis. Lindos olhos azuis que a levaram de volta à infância e à tentativa de ver elefantes em meio às nuvens.
Lucas relanceou os olhos para a porta e fez um sinal com a cabeça, como se pedisse para ela encontrá-lo lá fora.
Kylie teve que reunir toda a sua coragem para o que fez em seguida.
Ela pegou o garfo e começou a engolir a comida em grandes bocados, como se estivesse com fome demais para parar. Sim, ela preferia comer ovos mexidos frios com gosto de bicho morto do que falar com Lucas. Pura e simplesmente, não estava preparada para encará-lo ou aos seus sonhos. Ela também tinha certeza de que sair do refeitório para encontrar Lucas iria sem dúvida magoar Derek. Ela não queria fazer isso. Mesmo que ele não parecesse se importar em magoá-la.
Foi só depois da aula de artes que Kylie voltou à cabana para fazer dois telefonemas. Sentada à mesa do computador, pegou o mouse e localizou o telefone dos avós novamente. Tinha demorado para decidir para quem ligaria primeiro. Se para o investigador ou para os avós. Então tinha optado pelos avós. Embora não tivesse a mínima ideia do que ia dizer. Como contar a eles que ela era sua neta há muito perdida, mas que não era de fato neta deles, porque ela sabia que o pai tinha sido adotado?
Ah, não, aquilo não ia ser nada fácil...
Quando a tela do computador se acendeu, mostrou uma lista de acidentes de carro na área de Springville, a cidade de Della. Kylie ficou apreensiva ao perceber que Della ainda suspeitava do que poderia ter feito durante a fase de transformação.
Kylie olhou para a porta fechada do quarto de Della. Ela muitas vezes voltava à cabana e tirava um cochilo depois do almoço.
Abrindo outra tela, Kylie procurou o telefone de Kent B. Brighten, em Gladlock, Texas. Insegura quanto ao que dizer, pegou o telefone antes de perder a coragem.
O telefone tocou uma vez.
Duas.
Três vezes.
Uma secretária eletrônica atendeu.
“Olá, você ligou para Kent e Becky Brighten. Não estamos em casa agora, mas se quiser deixar...” A voz continuava.
Eles ainda estavam vivos.
O coração de Kylie estremeceu. Ela ouviu o bipe da secretária.
Hora da decisão. Deixava uma mensagem? Ou não deixava?
Apertou o botão de desligar.
Dez inspirações e, trinta segundos depois, ela ligou para o investigador. Outra secretária eletrônica. Mas ela deixou uma mensagem, dizendo que tinha conseguido o nome e o número dos pais adotivos de Daniel.
Tentando se agarrar à possibilidade de realmente encontrar os Bightens, ela percebeu que queria conhecê-los por outros motivos que não eram simplesmente encontrar os pais biológicos de Daniel. Seria bom saber mais sobre o pai. Ela fechou a janela e outra apareceu na tela do computador. Era uma janela dupla de dois artigos de jornal sobre dois acidentes de carro diferentes, ambos com vítimas.
Kylie começou a ler. Um era sobre um homem de quase 50 anos e o outro era... o coração de Kylie gelou. Uma mulher e sua filhinha de 6 anos de idade.
Como Della podia achar que seria capaz de fazer algo como aquilo?
Kylie ouviu uma batida na porta da cabana e o pânico invadiu seu peito. Seria Lucas? Ou Fredericka outra vez? Ela percorreu o quarto com os olhos, esperando que Socks estivesse escondido. A batida soou mais alta.
— Kylie? — A voz grave de Burnett trovejou do outro lado da porta.
— Pode entrar — disse ela em voz baixa, sabendo que ele podia ouvi-la.
Ele abriu a porta e foi até a mesa da cozinha. No mesmo instante ela começou a ficar preocupada com a razão de ele estar ali. Claro que não tinha voltado para arrancar dela mais informações sobre Holiday. Se fosse esse o caso, ele sairia dali desapontado.
Ele apontou para uma cadeira.
— Se importa se eu me sentar?
— Não. — Então, incapaz de se controlar, ela deixou escapar. — Se é sobre Holiday, eu...
Ele ergueu a mão.
— Não é sobre Holiday. — Ele franziu a testa. — Embora eu tenha que admitir que ainda não consigo saber o que ela tem na cabeça.
— Talvez se Selynn não estivesse por perto, ela... — Kylie tampou a boca, percebendo que estava sendo indiscreta outra vez.
— Selynn está aqui por ordem da UPF, por isso não posso mandá-la embora. Mas depois de hoje com certeza está de partida.
Embora Kylie não tivesse visto a lobisomem desde o episódio às margens do riacho, tinha ouvido falar que ela ainda estava em Shadow Falls. Alguém lhe contara que ela estava ali por causa do incidente com o vampiro. Mas, se estava indo embora, será que isso significava que ele tinha sido pego...?
— Aconteceu alguma coisa? Vocês o pegaram? — Ela se lembrou das duas garotas mortas e a visão enviou agulhadas de dor ao seu coração.
Burnett se recostou na cadeira.
— Foi isso que vim contar a você. Acabei de saber que a Confraria do Sangue está com o sujeito. Eles vão... cuidar da situação.
— O que quer dizer com... cuidar da situação? — ela perguntou.
— Exatamente isso. Vão cuidar de tudo.
— Vai haver um julgamento... ou coisa assim? — Será que Kylie teria que testemunhar?
Burnett olhou bem para ela, como se se lembrasse da sua promessa de que o vampiro não sairia impune.
— Não vai ser bem um julgamento. A Confraria do Sangue basicamente decide o destino dele, mas... me garantiram que não veem com bons olhos a matança de normais.
Ela nem queria pensar no destino que dariam a ele. Esse pensamento diminuiu um pouco o alívio que sentiu ao pensar que nunca mais teria que se deparar com o vampiro novamente. Mas como ela podia se sentir aliviada? Será que o incidente estava ligado ao aviso do fantasma? Será que alguém que ela amava ainda estava em perigo?
Ela olhou para as próprias mãos, tentando digerir a informação e formular suas perguntas. Quando olhou para Burnett, os olhos dele estavam presos na tela do computador.
— O que é isso? — perguntou num tom sombrio.
Sem querer que ele suspeitasse que Della tinha cometido aquele crime horrível, ela agarrou o mouse e apertou o botão de fechar.
— Nada.
Era tarde para lembrar que ele sabia quando ela estava mentindo. E, mesmo que não soubesse, sua tentativa desajeitada de esconder a tela tinha revelado a verdade.
Os olhos dele se fixaram nos dela.
— Kylie, não faça isso.
— Não fazer o quê? — ela perguntou, insegura sobre o que ele pensava que ela estava fazendo.
— Não me diga que você está investigando acidentes de carro do Código Vermelho.
Código Vermelho. Kylie se lembrou de que esse era o nome que a UPF dava aos acidentes de carro forjados para mascarar a morte causada por sobrenatural. Ela olhou de volta para a tela em branco.
— Então... um daqueles acidentes é um caso de Código Vermelho? — Talvez para encobrir mortes provocadas por um vampiro? Assim como Della temia que tivesse acontecido quando ela se transformou?
Burnett virou a cabeça e estudou o semblante dela, sondando suas emoções.
— Se não é você quem está investigando esses acidentes, então quem é?
Ah, merda, Kylie pensou. O que vou dizer? O que vou dizer? Não posso mentir, ou ele vai descobrir.
— Della? — ele perguntou.
— Não — ela mentiu novamente, sem pensar.
Ele fechou os olhos.
— Por favor — pediu Kylie, sem nem mesmo saber o que estava pedindo.
Os olhos escuros dele se abriram e ele olhou para ela.
— Ela não pode ter feito isso — disse Kylie. — É uma boa pessoa.
Burnett relanceou os olhos para o quarto de Della. Colocou a mão sobre o ombro de Kylie, apertando levemente, e depois saiu da cabana sem dizer uma palavra.
Dois segundos depois, Della saiu do quarto. Kylie viu lágrimas de culpa nos olhos dela.
— Está tudo bem — ela disse, embora parecesse assustada. — Eu ia contar pra ele de qualquer jeito. — Então ela abriu a porta da cabana, como se fosse atrás de Burnett.
— Você não pode ter feito isso — disse Kylie.
Della olhou por cima do ombro. Lágrimas brilhavam em seus olhos.
— Espero que esteja certa.
Kylie ficou sentada ali durante uns trinta minutos, entorpecida pela culpa. Se não estivesse lendo a tela quando Burnett entrou, isso não teria acontecido. Então resolveu que não podia ficar simplesmente sentada ali. Tinha que fazer alguma coisa. Disparou para fora da cabana e saiu a toda para o escritório, onde esperava que Burnett estivesse com Della.
Como todo mundo estava na aula ou em alguma reunião, a trilha estava vazia. Não tinha andado muito quando teve a sensação de ser observada, mas seu coração e sua mente estavam concentrados demais em Della para se importar.
Kylie chegou ao final da trilha e viu o carro de Burnett saindo do estacionamento, com Della dentro dele.
— Não! — ela gritou.
— Está tudo bem — Holiday tranquilizou-a, atrás dela.
Kylie olhou para trás e, ao ver a mesma preocupação crispando o rosto de Holiday, soube que a amiga também estava a par do que tinha acontecido.
— É culpa minha. — A culpa enchia seus pulmões, tornando mais difícil respirar.
Holiday conduziu-a até o escritório, onde deu um abraço em Kylie.
— Está tudo bem — ela repetiu, enviando um fluxo de calma para ela.
— Onde ele a está levando? — Kylie sentia o bolo de emoção na garganta.
— Para o escritório da UPF, fazer alguns testes. DNA e marcas de mordida.
— Então um dos acidentes de carro era um Código Vermelho? — Kylie perguntou.
— Os dois — Holiday admitiu.
O coração de Kylie ficou apertado.
— Está tudo bem? — Uma voz masculina soou na porta de entrada.
Lucas estava apoiado no batente. Os olhos cheios de preocupação.
— Está — disse Holiday, acenando para que ele saísse.
Ele não se mexeu.
— Você está bem? — ele perguntou a Kylie, como se precisasse ouvir isso dela.
Ela ainda não tinha falado com Lucas desde que ele voltara e, por alguma razão, a sua voz se recusava a sair. Tudo o que ela conseguiu foi assentir com a cabeça. Ele saiu da cabana com um olhar de autêntica preocupação.
Holiday levou Kylie até o sofá e elas se sentaram.
— Você vai ver, tudo vai acabar bem. — Ela pousou a mão nas costas de Kylie e uma onda de conforto percorreu todo o seu corpo.
Mas a imagem de Della com os olhos cheios de medo não saía da cabeça de Kylie. Não era típico da amiga vampira sentir medo. Ela era forte e ousada, e amorosa demais para ferir alguém.
— Ela não fez aquilo — disse Kylie. — É uma estupidez fazê-la se submeter àqueles testes.
— Della quis fazê-los. Ela precisa saber.
— Mas ela não seria capaz — repetiu Kylie, percebendo que Holiday não concordara com ela.
— Isso é o que esperamos, Kylie. Mas, se fez, existem circunstancias atenuantes. Ela estava passando por uma transformação. A UPF vai levar isso em consideração, tenho certeza.
Kylie estremeceu por dentro ao ouvir as palavras de Holiday. Não sabia o que a aborrecia mais – que Holiday pudesse acreditar que Della tinha feito aquilo ou que vampiros recém-criados pudessem matar humanos inocentes e não serem responsabilizados.
Holiday ligou para Kylie três horas depois e disse que Della estava voltando. Deu permissão para Kylie e Miranda tirarem uma tarde de folga e esperar por ela. E foi justamente o que elas fizeram. Sentaram-se à mesa da cozinha para esperar. Enquanto isso, Kylie girava uma lata de Diet Coke nas mãos. Miranda nem sequer se movia.
— Ela não fez aquilo — Kylie continuava dizendo. — Como pode pensar que fez?
Miranda gemeu como se estivesse cansada de ouvir Kylie repetindo a mesma ladainha.
— Este não é o mesmo mundo onde você costumava viver. Coisas ruins acontecem. Coisas muito ruins. Adolescentes morrem. Gatos viram gambás. Lobisomens entram na sua cabana e tentam matar você. E, quando um vampiro se transforma pela primeira vez, ele pode... fazer coisas que normalmente não faria.
— Você acha que ela fez aquilo!? — acusou-a Kylie.
— Não sei — defendeu-se Miranda. — Mas, se fez, não foi culpa dela e não vou deixar de amá-la por isso. E, droga!, você também não deveria. Ela acha que você pode fazer até milagres. Se virar as costas pra ela, isso vai matá-la.
Lágrimas surgiram nos olhos Kylie à mera sugestão de que Della poderia ter feito algo tão terrível. Mas no fundo ela sabia que, mesmo sendo verdade, não viraria as costas para a amiga.
Dez minutos depois, Della, com os olhos vermelhos, entrou na cabana e desabou numa cadeira.
— As mordidas não eram minhas. Nenhuma das digitais, nada.
Um sorriso apareceu nos lábios de Kylie e seu coração ficou mais leve.
— Eu disse a você.
Lágrimas correram pelos olhos escuros de Della e rolaram pelas bochechas pálidas.
— Acham que são de Chan.
Miranda olhou de Della para Kylie.
— Quem é Chan?
— Meu primo — respondeu Della, sem se importar mais em manter segredo. — Ele me ajudou durante a transformação. Não precisava, mas ajudou.
— Oh... — exclamou Miranda.
— Agora eles querem que eu descubra se foi mesmo ele — Della continuou. — Que eu me aproxime dele furtivamente e consiga uma prova de que é culpado — disse, soluçando. — Mas ele me ajudou quando não havia mais ninguém ao meu lado e agora eu tenho que...
— Diga simplesmente que não vai fazer isso — disse Kylie.
— Ninguém pode dizer não à UPF — Della deu um longo suspiro. — Além disso... eles me mostraram fotos. — Os olhos de Della se encheram de tristeza. — Havia um bebê. Foi horrível. Se ele fez aquilo, tem de ser detido antes que faça novamente. Não sei se conseguiria viver em paz se eu deixasse isso acontecer.
Naquela noite, Kylie teve que participar de uma convocação porque alguém tinha tentado burlar o alarme de segurança novamente. De acordo com Burnett, o alarme tinha sido desligado – o que ele não sabia era se o responsável era alguém de fora ou de dentro do acampamento, mas ele estava determinado a descobrir.
Kylie não pôde deixar de imaginar se a sensação de ser observada tinha ligação com o fato de o alarme ter sido desligado, pois, agora que o alarme estava sob vigilância, ela não sentia nada, exceto segurança.
Depois da reunião, foi direto para a cabana e, quando subia o primeiro degrau da varanda, um barulho a sobressaltou. Adeus sensação de segurança. Seu coração disparou e ela se virou. Achou que veria Fredericka.
— Quanto tempo você acha que vai conseguir evitar falar comigo? — perguntou Lucas, entrando na varanda.
Kylie se aproximou mais um pouco da luminária sobre a porta da frente, onde os insetos zumbiam, e consultou o relógio.
— Obviamente por apenas doze horas — ela disse, notando que eram nove horas em ponto. Mais cedo, no escritório, ela estava preocupada mais com Della para pensar em Lucas e nos seus sonhos. Mas não agora. Ela se afastou da luz, esperando que ele não visse o embaraço corar suas bochechas.
— Então você admite que tem me evitado? — O humor era evidente em sua voz grave.
Um tipo de humor que Kylie não apreciava. Ela encontrou os olhos antes de desviá-los.
— Eu negaria, mas você não ia acreditar em mim. — Além disso, e coisas que me deixam pouco à vontade é uma especialidade minha...
Instantaneamente, ela se lembrou de ter confessado a Holiday que o confronto com o pai tinha feito com que se sentisse melhor. Seria melhor esperar que o confronto com Lucas surtisse o mesmo efeito?
Ela deu uma olhadinha na porta da cabana e se deu conta de que não podia mais evitar aquele encontro. Olhou para Lucas e foi direto ao ponto.
— Se não vai negar, então, espero que me explique a razão de estar agindo assim.
Ela olhou para ele novamente e, embora quisesse acreditar que ele não sabia sobre os sonhos, ela não se atrevia a tanto. Obviamente, ela era muito mais hábil evitando do que negando.
— Tenho minhas razões...
— Qual é a razão? — Ele chegou mais perto e seu cheiro, amadeirado e intenso, invadiu suas narinas.
— É mais de uma.
— Tudo bem. — Ele pegou na ponta de uma mecha loura dela e esfregou-a entre os dedos. — Me diga que razões são essas.
Ela tirou o cabelo da mão dele e deu um passo para trás.
— Dizer a você? E lhe negar a chance de descobrir por si mesmo? — Ela pretendia ser sarcástica, mas pelo visto não conseguiu atingir seu objetivo, porque ele riu.
Ela fez cara feia. E o humor desapareceu do rosto dele.
— Tudo bem, meu primeiro “chute” é que você está começando a perceber que tem alguns dons. Sonhos lúcidos, por exemplo?
Ela enrubesceu, mas não desviou os olhos desta vez.
— Agora que eu entendi o que é isso, não vou ter mais problemas. — Ela rezava para estar certa. Holiday tinha dito que conseguiria ter mais controle sobre os sonhos, não tinha? Com certeza conseguiria bloquear seu dom. Deus do céu, esperava que isso fosse verdade!
Ele estudou o rosto dela.
— Que coisa feia... — O tom de voz dele insinuava um flerte novamente. Ela relanceou os olhos para a porta novamente. Já tinha dito o que precisava não tinha?
Quando ela estendeu a mão para pegar na fechadura, ele pegou o braço dela. Seu toque não era rude, pelo contrário. Era terno, dando tempo a ela para pensar. Ela tinha tido um dia infernal e ainda se lembrava de como ele parecia genuinamente preocupado no escritório.
— Me dê mais uns minutinhos, por favor — ele pediu.
Ela continuou a olhar para a porta, consciente de que ele ainda não tinha largado o braço dela. Consciente de que seu toque fazia todo o seu braço formigar de um jeito agradável.
— Então, quais são as outras razões? — ele perguntou. Vendo que ela não respondia, ele continuou: — Por que está com tanta raiva de mim, Kylie? E não adianta negar. Posso não ser capaz de sentir emoções, como... algumas pessoas.... mas vejo nos seus olhos.
Kylie sabia a quem ele se referia ao dizer “algumas pessoas”. Devia ter ouvido sobre ela e Derek. Melhor assim, ela pensou. Mas, fosse qual fosse a história que tinha ouvido, Derek já tinha se incumbido de terminá-la. Ele apertou um pouco mais o braço dela.
— Me diga por que está tão chateada pra que a gente possa superar isso.
Uma palavra estava na ponta da sua língua. Fredericka. Mas admitir que ela estava chateada por causa de Fredericka significava que ela tinha algum sentimento por ele. Ela não queria admitir isso a Lucas. Não gostava de admitir nem para ela mesma. E nem era realmente verdade. Ela só estava confusa.
— Estou cansada... — Ela se arriscou a olhar para ele.
Seus olhos azuis estavam mais brilhantes sob a iluminação da varanda. A mão dele ainda estava em volta do pulso dela e seu polegar começou a acariciar sua pele.
— Recebeu minhas cartas, não recebeu?
— Recebi.
— Se são os sonhos que estão te incomodando, saiba que eu não...
— Eu sei. Fui eu, não você. — Ela tirou o braço da mão dele.
Ele arqueou uma sobrancelha, como se a contemplasse.
— Não foi só você — ele disse, como se custasse muito confessar aquilo. — Pelo menos não o primeiro sonho. Quero dizer...
Quando ele hesitou, a mente dela assumiu o comando.
— Então era você? Você entrou no meu sonho?
— Não, não tenho essa capacidade. Mas, quando você entrou no meu, da primeira vez, eu já estava sonhando com você. — Ele deu de ombro como se para tirar um pouco da culpa dos ombros. — De início, não percebi que você estava realmente ali. Não até o sonho ficar mais vivido e real. E não disse nada depois, porque sabia que você não ia entender. Sabia que ficaria aborrecida. Eu provavelmente devia ter parado com aquilo, mas... era só um sonho. Ah, droga, eu não queria parar.
Embora ela tivesse que admitir que ele fora sincero, ela ainda estava aborrecida. Ele devia ter parado. Ou pelo menos contado a ela, para que não voltasse pela segunda vez. Mas ela não sabia como reagiria se ele tivesse contado. Tanta coisa tinha acontecido aquela semana... Agora ela aceitava coisas que na época não teria aceitado.
— Mas o segundo sonho foi mais você... — As sobrancelhas dele arquearam, como se o pensamento o agradasse.
Pega de guarda baixa pelo azul cintilante dos olhos dele, ela disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
— Aposto que tia Stella sonhava com Tom Selleck também.

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