30 de setembro de 2016

Capítulo 25

— Ora, ora, se não é a garota fantasma... — O tom mordaz de Fredericka pegou Kylie desprevenida.
Mas em maldade ela ganha longe de você. É melhor não se meter com ela. As palavras de Derek soaram na cabeça de Kylie.
Tudo bem, então Derek estava certo. De fato era melhor não se meter com Fredericka. Kylie só não sabia se tinha essa opção agora, considerando, que a lobisomem estava a menos de três metros dela. Ela não tinha escapatória. Era tarde demais para correr e se esconder debaixo da cama.
Então ficou parada ali, encarando os olhos escuros da garota e esperando que a lobisomem não percebesse a insegurança que sentia.
Com Selynn, no dia anterior, Kylie não tinha sentido medo. Medo nenhum. Tinha agido por instinto, para proteger a mãe. Agora a única pessoa que precisava de proteção era ela mesma; e o instinto de atacar parecia ter tirado férias.
— Puxa, não ouvi você bater. — Kylie tentou imitar o tom curto e grosso de Fredericka e a postura defensiva, esperando intimidá-la.
A sombra de um sorriso brilhava nos lábios da outra, como se o blefe de Kylie não tivesse surtido efeito.
— Achei melhor pôr um fim nessa conversinha. — Fredericka olhou em volta da cabana como se admirasse a mobília. Não que fosse muito diferente da que havia nas outras cabanas. O sofá marrom de estofamento fofo fazia par com a cadeira dourada de estofamento fofo, e quase combinavam. A mãe de Kylie tinha trazido algumas almofadas que acrescentavam um pouco de cor ao ambiente. As mesinhas de cabeceira tinham abajures de cúpula branca e Miranda tinha acrescentado alguns cristais pelo quarto todo.
Atrás de Fredericka, Kylie viu Socks ficar paralisado de pânico diante da estranha, mas logo recuperou os movimentos e se enfiou embaixo de uma almofada vermelha e dourada do sofá.
Kylie não o culpava por isso.
— A que conversa está se referindo? — Kylie perguntou. — Uma que explica que é falta de educação entrar na casa dos outros sem bater? — Seu comentário irritado podia ter enfurecido Fredericka, mas Kylie sentiu que aquilo era um teste e mostrar medo era mais perigoso do que provocar a outra.
Fredericka soltou um grunhido baixo e seus olhos brilharam. Quando Kylie percebeu o olhar da lobisomem medindo-a de alto a baixo, precisou de toda a sua coragem para não se enfiar embaixo de uma almofada como Socks.
Fredericka arqueou as sobrancelhas. Kylie, orgulhosa do seu novo talento, arqueou as suas também. O padrão da outra se parecia muito com o dos outros lobisomens que ela tinha observado no riacho, mas as bordas mais escuras pareciam um mau presságio. Será que significavam alguma coisa? Kylie realmente precisava ler urgentemente um manual básico de padrões mentais.
— Ouvi dizer que você pode ser uma de nós. — Os olhos de Fredericka se estreitaram.
A ideia de compartilhar a mesma herança sanguínea daquela praticante de bullying deixou Kylie enojada. Seu olhar se voltou para a almofada tremulante sobre o sofá. Ela se lembrou de que Holiday lhe dissera sobre ela não ser um lobisomem porque os felinos tinham aversão a eles. Kylie esperava que Holiday estivesse certa. Até mesmo tomar sangue pelo resto da vida lhe parecia uma opção melhor do que ser um lobo.
Kylie assumiu uma postura defensiva.
— Se eu fosse você, não acreditaria em tudo o que ouço.
— E, se eu fosse você, não me esqueceria de que, se você se transformar, provavelmente vamos nos encontrar. E na lua cheia as emoções estão geralmente fora de controle, o que eleva muito o número de acidentes.
— Então tenho certeza de que você vai ficar atenta — respondeu Kylie, blefando de verdade agora.
Fredericka fez cara feia.
— Principalmente quando uma fêmea sente que outra esta dando cima do seu macho.
— Então você ainda está tendo trabalho para segurar o seu? — disse Kylie, tentando afugentar o medo.
Os olhos de Fredericka cintilaram.
— Que cheiro é esse? — perguntou ela, tampando o nariz.
Kylie não ousou olhar para a almofada onde Socks estava escondido..
— Não sei dizer, mas se incomoda, a porta está bem atrás de você.
— Tem cheiro de... sei lá, leão, talvez? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha.
Kylie não piscou.
— Eu sabia que tinha sido você.
— Eu o quê? — O sorriso de Fredericka virou uma risadinha maliciosa. Então ela recuou alguns passos e desabou sobre o sofá com um baque exagerado, como se planejasse descansar ali por um tempo.
O som do sofá soltando o ar do estofamento foi logo substituído por algo entre um silvo e um miado. A almofada caiu no chão e um rabo branco e preto borrifou algo no ar. Fredericka se virou justo no momento em que Socks expelia uma secreção malcheirosa diretamente em seu rosto.
A alguns metros de distância, Kylie teve que cobrir o nariz para suportar o mau cheiro, mas não pôde deixar de sorrir.
A lobisomem gritou e mergulhou sobre o animal. Embora Socks estivesse em contato com seu lado gambá, ele obviamente não tinha perdido suas raízes felinas. Voou do sofá, como qualquer gato aterrorizado, e aterrissou sobre o abajur da mesinha, que se estatelou no chão.
Esfregando os olhos com as palmas e urrando, Fredericka se levantou do sofá e avançou na direção de Socks. Este, agora empoleirado sobre a poltrona estofada, reagiu de acordo e voou novamente, quicando nas paredes enquanto tentava correr para salvar a sua vida.
Pensar no que a lobisomem ia fazer com seu gatinho fez Kylie sair da letargia e se juntar à perseguição. Cadeiras de madeira estatelaram-se no chão, o micro-ondas voou do balcão, a mesa do computador quase tombou e alguns pratos caíram e se espatifaram ao lado das cadeiras. Tudo rodava em círculos, enquanto um gato transformado em gambá, uma lobisomem e uma sobrenatural não identificada perseguiam um ao outro em torno da sala/cozinha, cada um com seus próprios interesses em mente.
Socks para salvar sua pele.
Fredericka para matar.
Kylie para proteger.
Infelizmente, Socks não era páreo para a fúria da lobisomem e, em segundos, estava encurralado embaixo da geladeira. Um rugido alto encheu a cabana. Um surto de adrenalina percorreu o corpo de Kylie quando ela viu Fredericka investir contra o pobre animal.
Justo quando a lobisomem ia alcançar as patas de Socks, Kylie alcançou os braços da garota. Levantando-a no ar, carregou a lobisomem esperneando pela porta da frente e atirou-a para fora.
Fredericka aterrissou com um baque surdo a uns bons dois metros da varanda. Seus olhos, agora chispando com um brilho dourado, fitavam Kylie com terror. Ela se ergueu do chão e ficou de quatro, com os joelhos dobrados e o corpo oscilando para a frente e para trás, como se estivesse recuperando as forças para atacar novamente.
Kylie não vacilou.
Inspirou o ar.
Depois expirou.
E se preparou para um novo assalto.
— Sua cadela! — Fredericka rugiu e jogou a cabeça para trás.
— Machuque o meu gato e você vai ver que grande cadela eu sou!
A voz de Kylie soou como a de um animal feroz, tal como a da lobisomem. Então, de repente assustada, não com Fredericka, mas com o que faria se a garota investisse novamente, ela deu um passo para trás e bateu a porta da frente. Toda a cabana estremeceu com o impacto. E nesse exato instante uma presença fantasmagórica preencheu o espaço.
Ela tinha companhia.
Que ótimo! A cabana fedia a gambá, havia uma lobisomem espumando de raiva do lado de fora e agora o espírito queria lhe fazer uma visita.
Cinco minutos depois, Kylie ainda estava de costas para a geladeira, respirando pela boca para não engasgar com o fedor e tentando se acalmar e acalmar também um apavorado gato-gambá. Socks, segundos depois de Kylie ter entrado, tinha escalado sua perna, se enrodilhado nos seus braços e enterrado o focinho pontudo debaixo do seu braço. Kylie se perguntava se o focinho em sua axila não seria mais para escapar do mau cheiro do para se esconder.
O fantasma entrou na minúscula sala de estar como se estivesse tentando pensar. Kylie observou o espírito da mulher andando em círculos antes de notar as roupas que ela vestia.
— Por que está usando uma camisola de hospital? — Kylie perguntou, mas o espírito não respondeu. E, quando os seus contornos começaram a ficar indefinidos, Kylie suspirou aliviada. Fechou os olhos e tentou se lembrar da sensação de calma que a invadira na cachoeira, aliviando a aflição, que sentia diante da ameaça de que “alguém que ela amava ia morrer”.
Então a porta da cabana se escancarou. Achando que podia ser Fredericka novamente, Kylie tencionou os músculos, para em seguida relaxar novamente ao ver Holiday e Miranda.
— Está tudo bem? — Holiday perguntou.
Kylie assentiu e Socks, percebendo a nova movimentação, enfiou-se ainda mais sob a axila de Kylie. Miranda e Holiday tamparam o nariz com a mão e contemplaram a cabana revirada com os olhos arregalados.
— O que aconteceu? — perguntou Holiday.
Fredericka aconteceu, Kylie quase respondeu, mas então engoliu as palavras. Ela nunca tinha sido fofoqueira e não era agora que ia começar a ser.
— Socks entrou em pânico. — E isso não era totalmente mentira.
Holiday, com a mão sobre o nariz, soltou um sorrisinho para Kylie.
— Eu sei que Fredericka esteve aqui. — Sua voz veio abafada por trás da palma da mão.
— Ela te contou? — perguntou Kylie.
— Não precisou — disse Miranda, metendo-se na conversa. — Nós sentimos o fedor que ela exalava quando passou na frente do escritório.
— Mas o que aconteceu? — Holiday repetiu por detrás dos dedos.
Miranda se aproximou de Kylie.
— Ela estava cuspindo fogo — interrompeu Miranda novamente, com humor na voz. — Estou falando sério. Socks borrifou esse fedor na cara dela? — A bruxa riu e torceu o nariz para o cheiro novamente, enquanto movia as mãos como se realizasse algum tipo de magia.
Quando Kylie inspirou outra vez, já não havia mais nenhum cheiro de gambá.
— Obrigada — disse a Miranda, surpresa que a amiga tivesse eliminado o cheiro sem provocar nenhum acidente.
— De nada — respondeu Miranda, com ar orgulhoso. — Eliminar odores é fichinha. A gente aprende quando está começando a usar o caldeirão.
Holiday baixou a mão.
— Miranda, posso ficar um minuto sozinha com Kylie?
Miranda revirou os olhos.
— Por que todo mundo está sempre me mandando sair? — Ela saiu pisando duro do quarto, mas lançou um sorriso para Kylie antes de fechar a porta.
Holiday olhou para Kylie.
— Agora me diga. O que aconteceu?
Fredericka simplesmente deu uma passadinha aqui para lembrar que tentou me matar uma vez colocando o leão no meu quarto e isso não foi suficiente para ela.
Ao ver que Kylie não respondia, Holiday estudou seu rosto com suspeita.
— Minha função aqui é mostrar a todos que podemos conviver juntos sem acidentes. — Ela suspirou. — Eu concordei que ela voltasse porque... sei que ela não tem para onde ir. Tenho receio de que entre numa gangue, mas, se ela começar a arranjar encrenca, Kylie, mostro a ela a porta de saída.
Kylie sabia que Holiday estava falando sério e apreciou muito sua lealdade. Embora a tentação de contar a verdade borbulhasse dentro dela, seu sentimento de lealdade levou a melhor. Ela sabia o quanto era importante para Holiday salvar cada um dos campistas do lado negro do mundo sobrenatural. Até mesmo Fredericka.
Kylie não sabia se a lobisomem merecia ser salva ou se era uma completa selvagem. Mas Kylie não queria ser dedo-duro. Além disso, não queria que Holiday tivesse que resolver os seus problemas. Tentou não se esquecer de como arremessara Fredericka pela porta. Talvez, quem sabe, ela fosse capaz de cuidar de si mesma.
— Nada de mais — respondeu Kylie, coçando atrás das orelhas de Socks, que ainda parecia assustado. — Socks não gosta de Fredericka e Fredericka não gosta de Socks. Ninguém saiu ferido. — Ainda, soou uma vozinha dentro de Kylie, mas ela ignorou. — Tenho certeza de que podemos resolver isso.
Quando Kylie olhou para cima, viu Della atrás de Holiday, pronunciando uma palavra sem emitir nenhum som: “Mentirosa”.
Holiday olhou para Della e depois para Kylie novamente.
— Tem certeza?
Kylie assentiu. Ela não se sentia assim tão mentirosa.
Holiday deu um abraço em Kylie e então saiu da cabana. Miranda saiu de seu quarto e Kylie colocou Socks no chão e começou a arrumar a bagunça. Miranda e Della fizeram o mesmo.
— Vocês não precisam me ajudar — disse Kylie.
— Ah, para com isso — respondeu Miranda, enquanto continuava a levantar as cadeiras.
Della recolocou o micro-ondas no balcão, ligou-o na tomada e quando viu a luzinha se acender, gritou:
— Funciona como novo!
Quando o cômodo estava todo arrumado, as três se sentaram na mesa da cozinha.
— Ok — começou Miranda. — Agora nos dê os detalhes e não se esqueça das partes boas. E, por partes boas, estou me referindo ao momento em que a Senhorita Lobisomem levou uma borrifada de fedor na cara. Algo me diz que essa vai ser a minha parte favorita. Ei, aposto que você está até gostando de ver Socks transformado num gambá agora, não está?
Kylie se reclinou na cadeira e contou a elas a história toda, incluindo a parte sobre Fredericka ter contado a Derek sobre as cartas de Lucas e sua meia confissão de que tinha colocado o leão no quarto de Kylie.
— Por que você não contou tudo isso a Holiday? — Miranda perguntou.
Como Kylie não respondeu imediatamente, Della se intrometeu.
— Porque ela é boazinha demais.
— Não sou, não — contestou Kylie, mordendo o lábio. — Tudo bem, talvez por isso também, mas é com Holiday que estou preocupada, não com Fredericka. Além do mais, quero resolver isso por mim mesma.
— Bem, essa parte da sua decisão eu até respeito. — Della cruzou os braços sobre o peito. — E também existe aquele ditado sobre manter os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda.
Miranda franziu a testa.
— Fredericka é mais venenosa que uma cobra. Tem certeza que pode com ela?
— Se ela não puder, estarei por aqui para chutar o traseiro daquela lobisomem.
Kylie sentiu um nó de emoção na garganta e mal conseguiu engolir.
— Lucas está no acampamento também? — Kylie se lembrou da dor nos olhos de Derek. A emoção em sua garganta redobrou.
— Ainda não — respondeu Della. — Ouvi Fredericka dizer que ele vai chegar amanhã.
Kylie piscou, tentando conter as lágrimas. Então se lembrou dos sonhos e de quanto seria difícil encarar Lucas.
Miranda se inclinou na direção dela.
— Você acha que Derek estava falando sério quando falou em terminarem?
— Ele não terminou com ela — corrigiu Della com rispidez. — Eles nem estavam namorando.
Mas era como se estivessem, pensou Kylie, sentindo as lágrimas umedecerem seu rosto.
— Obrigada, meninas — disse, levantando-se, — Mas eu vou... Só quero...
— Ainda está chateada? — perguntou Della.
— Estou — Kylie respondeu. Seu olhar se desviou para a tela do computador, que mostrava o telefone dos seus avós. Ela estava chateada demais para telefonar agora. Faria isso no dia seguinte. Kylie foi para o quarto, fechou a porta e se atirou na cama, sobre a colcha azul e branca. Tinha acabado de fechar os olhos quando ouviu Miranda suspirando. Um suspiro que Kylie não deveria ser capaz de ouvir através da porta fechada do quarto.
— Você acha que ela é um lobisomem? — perguntou Miranda.
Kylie agarrou o travesseiro e cobriu a cabeça, mas isso não impediu que a resposta de Della chegasse aos ouvidos superaguçados de Kylie.
Provavelmente — Della respondeu. — Mas não vou pensar mal dela por causa disso. Ela vai ser o lobisomem mais adorável da face da Terra.
Também acho — disse Miranda. — Nem todos os lobisomens são ruins. Não que cuja tenha me aproximado de algum.
Ótimo, Kylie pensou. Suas amigas pareciam ter certeza de que ela estava condenada a passar o resto da vida uivando para a lua e sofrendo oscilações de humor. Kylie tentou imaginar como seria se transformar em lobisomem. Então se lembrou de que Fredericka estaria esperando ansiosamente pela chance de cruzar com ela quando – tudo bem, se – ela se transformasse.
E então ela se lembrou de Derek dizendo que não gostaria que ela fosse um lobisomem, porque ela teria isso em comum com Lucas. Será que era por isso que ele tinha se afastado dela? Droga! Por que a vida tinha de ser tão complicada?
Kylie ficou no seu quarto por mais algumas horas. Sentindo um torvelinho emocional dentro dela, tentou pensar em qualquer coisa que a fizesse se sentir melhor. Ela cochilou, na verdade dormiu, mas acordou com a queda da temperatura no quarto. Olhou em volta, mas o espírito não se materializou. Lembrando-se da aparência do fantasma depois que Fredericka tinha ido embora, Kylie perguntou em voz alta:
— Tem algo a me dizer?
Sua pergunta vibrou em meio ao frio que ainda pairava no quarto. Kylie não esperava uma resposta, mas era dever dela perguntar, não era? Olhando para o teto, pulou da cama quando ouviu um baque no quarto. Quando se levantou da cama, viu que o telefone tinha caído da mesinha de cabeceira. Ao pegá-lo do chão, ouviu alguém na linha.
— Alô — Kylie reconheceu a voz de Sara do outro lado da linha.
— Oi! — respondeu Kylie.
— O que foi? — perguntou Sara.
Kylie se agitou debaixo das cobertas tentando espantar o frio.
— Nada. Você me ligou?
— Não. Você que me ligou — Sara respondeu.
— Ah! — Kylie olhou de relance o celular. — Meu telefone caiu da mesinha de cabeceira e deve ter discado pra você por acaso.
— Ah... — A estranheza daquilo tudo soou mais alto que a voz de Sara.
— Onde você está? — Kylie perguntou, só para preencher o desconfortável silêncio que pairava entre elas, pois achou que seria muito rude se desligasse em seguida. Afinal, Kylie não podia simplesmente dizer o que estava pensando, você não vai acreditar acabei de atirar uma lobisomem da minha cabana, porque ela estava tentando matar meu gato que agora é um gambá, e hoje à noite eu mesma posso me transformar num lobisomem. Nesse instante ela percebeu que estava culpando Sara pela distância que agora existia entre elas, acusando Sara de ter mudado. Mas, pelo amor de Deus, quem ali tinha passado por mais mudanças?
— Estou no shopping com Tina — Sara respondeu, a voz estranhamente tensa.
— Tina? — perguntou Kylie, esperando demonstrar interesse pela vida de Sara.
— Tina Dalton. Ela acabou de se mudar pra cá.
— Ela é legal? — Será que Tina era a nova melhor amiga de Sara?
Sara deu uma risadinha.
— Não muito, mas o irmão dela é um gato.
— Ah, entendi... — Kylie murmurou, achando graça. — Ainda bem que eu não tenho um irmão, senão acharia que você só andou comigo todos esses anos por causa dele.
Sara riu e Kylie também. Um pouco da sensação estranha desapareceu.
— Foi estranho você ter ligado — Sara continuou. — Eu estava justamente pensando em você. Lembra-se de quando tínhamos 13 anos e você deu aquele salto para trás e derrubou nós duas do trampolim? As nossas mães nos levaram para o pronto-socorro, porque pensaram que você tinha quebrado o braço e eu tinha feito um galo na cabeça.
— Lembro — disse Kylie. — O que fez você pensar nisso?
— Vai saber... — Sara respondeu com a mesma voz tensa.
Kylie reclinou-se sobre o travesseiro.
— Você achou o médico bonito.
— Ele era bonito. — Sara parecia normal outra vez. — E aí? Muitos caras gostosos no acampamento?
— Pode apostar... — Kylie respirou fundo e, quando expirou, viu o ar se condensando à sua frente. Estranho. Ela achou que o espírito tinha ido embora, mas ela estava se aproximando.
— E está ficando com algum deles? — Sara perguntou.
O coração de Kylie se apertou.
— Mais ou menos, mas... a gente meio que... parou de se ver. — Ou ele parou de me ver. Um tremor percorreu sua espinha e ela olhou em volta, à procura do fantasma. Ele ainda não tinha se materializado, mas o ar frio invadiu o quarto.
— Que mal... — comentou Sara, enquanto ao fundo Kylie ouviu alguém chamando por ela. — Só um segundo.
A linha ficou silenciosa como se Sara estivesse cobrindo o telefone com a mão. Mas Kylie ouviu Sara respirando. Se Sara tinha tirado a mão ou se era a superaudição de Kylie, ela não sabia. Ainda não entendia muito bem como aquele dom da superaudição funcionava. Ele aparecia e desaparecia. Assim como a sua força.
— Não, não vou usar meu seguro médico. — A voz de Sara soou na linha. — Estou pagando em dinheiro. Claro que a minha mãe sabe. Ei, o médico vai me atender ou não?
Kylie franziu a testa quando percebeu que Sara tinha mentido ao dizer que estava no shopping. Por que ela mentiria? Será que as pílulas anticoncepcionais tinham acabado? Ou ela achava que estava grávida novamente? Apertando mais o celular, Kylie se lembrou do quanto elas eram diferentes. Era muito triste que não pudessem compartilhar mais nada – nem sobre lobisomens nem sobre sexo.
— Kylie — chamou Sara. — Preciso desligar.
— Tudo bem. Tchau, então — disse Kylie, colocando o fone na mesinha de cabeceira.
Quando olhou para cima, o fantasma da mulher estava sentado nos pés da cama, parecendo incrivelmente triste. Kylie começou a falar, mas ele desapareceu.
— Que maravilha! — murmurou Kylie. — A comunicação com os espíritos é quase tão ruim quanto a comunicação com os ex-amigos.
Às onze e meia da noite, Kylie foi com Della e Miranda à clareira onde tinham acendido a fogueira. Seu coração estava oprimido de medo, pelo que ia ou não ia acontecer aquela noite, mas ela se recusava a demonstrar. Evidentemente, Della sabia muito bem o que ela estava sentindo, porque não parava de olhar para Kylie com um olhar de compreensão.
No momento em que as três chegaram na clareira, Kylie viu Derek com um grupo de quatro fadas. Ele olhou para ela. A lua cheia oferecia iluminação suficiente para que ela visse a leve preocupação nos olhos dele.
Não havia dúvida de que ele podia sentir o medo dela. Parando de andar, ela murmurou para que Della e Miranda seguissem em frente, pois queria falar com ele. As duas amigas continuaram em frente.
Kylie esperou que Derek viesse ao encontro dela e oferecesse seu toque reconfortante – bastava um toque para acalmar seu coração e debelar o medo. Ela precisava de um pouquinho da sua calma nesse instante, para não mencionar seu toque. Os olhos dele encontraram os dela, mas, em vez de se aproximar, ele se voltou para seu círculo de amigos. Foi só então que Kylie sentiu de verdade como seriam as coisas entre eles dali em diante.
Obviamente, serem apenas amigos significava que não haveria mais beijos nem toques.
O primeiro impulso de Kylie foi suplicar para que ele parasse com aquela bobagem. O segundo não incluía nenhuma súplica. A raiva expulsou um pouco do seu medo. Mesmo sabendo que Derek tinha certa razão (de fato, no início, foi a sua confusão com relação a Lucas que a impediu de aceitar seu pedido de namoro), será que ele não confiava nela o suficiente para saber que ela não o enganaria? A falta de confiança que ele demonstrava nela a deixou furiosa. Realmente furiosa.
Essa fúria podia, é claro, ser resultado da agressividade incontrolável que acompanhava a transformação em lobisomem, mas para ela dava no mesmo. E, mais uma vez, ficar furiosa parecia melhor do que sofrer e melhor até do que ficar apavorada, por isso ela se agarrou à raiva e esperou que Derek pudesse sentir isso. Até chegou a se aproximar mais dele, para lhe dar uma ampla oportunidade.
Ela descobriu que sua estratégia tinha funcionado quando ele se virou e seus olhos verdes encontraram os dela. Ela não piscou nem tentou desviar os olhos, esperando para ter certeza de que ele sentira cada centímetro da sua raiva. Uma ruga de preocupação surgiu na testa dele e ele se afastou, provavelmente querendo tirá-la do raio de alcance da sua sensibilidade. Embora tentada a segui-lo e mantê-lo emaranhado na teia da sua raiva, ela não fez isso.
Vá embora, então. O peito dela se apertou quando a amargura se sobrepôs à raiva. Lembre apenas que não fui eu que desisti.
Respirando fundo, ela olhou em volta até localizar outra alma solitária que parecia quase tão infeliz quanto ela. Perry estava sozinho, encostado numa árvore, observando Miranda conversar animadamente com um grupo de garotos – entre eles Kevin. Sabendo que a tristeza diminui quando dividida, Kylie se juntou a Perry.
— Que é? — falou Perry com cinismo, quando Kylie se aproximou. — Vai me dizer de novo o quanto ela gosta de mim?
— Não — respondeu Kylie. — Cheguei à conclusão de que qualquer coisa relacionada ao sexo oposto deve ser banida ou considerada ilegal.
Perry sondou o rosto dela com seus olhos castanhos.
— Problemas?
— É.
Ele suspirou.
— Talvez a gente deva se unir e dar uma liçãozinha em certas pessoas.
— Só em seus sonhos... — disse Kylie.
— Nem mesmo lá... — disse ele, franzindo a testa. — A única garota que aparece nos meus sonhos ultimamente é a que está ocupada demais flertando com todo mundo para vir falar comigo.
Kylie olhou para Perry boquiaberta.
— Não acredito. — Como ele ainda podia pensar que Miranda deveria falar com ele, se ele é quem tinha desistido dela? Como Derek também desistira.
Antes que ela expressasse a sua opinião, Luis, o lobisomem no comando aquela noite, solicitou a atenção de todos. A raiva de Perry e por Derek dissipou e ela sentiu o medo envolvê-la outra vez.
Seu coração batia forte. Ela sentia os raios da lua sobre ela como se fossem sem raios de sol. Sua pele começou de fato a arder e ela precisou fazer grande esforço para não parar e fitar a grande orbe no céu e gritar para ela parasse com aquilo.
— Não é tão aterrorizante quanto você pensa — disse Perry.
Kylie encontrou o seu olhar.
— Será que todo mundo aqui sabe o que se passa dentro de mim?
— É, é isso aí. — Seus olhos, agora de um azul brilhante, a estudavam. — Não é ruim.
Eles se aproximaram do local onde seria a cerimônia e ela fitou Perry reconhecendo a sincera preocupação que ele sentia por ela.
— Não acho que metamorfos e lobisomens sejam parecidos.
— Não somos — ele respondeu. — Mas ambos nos transformamos e eu já conversei muito sobre isso com outras pessoas. Todas dizem a mesma coisa: “Não é grande coisa. É como uma câimbra.”
Ela mordeu o interior da bochecha e se lembrou de Lucas descreve a transformação de modo parecido. Infelizmente, ela nunca tinha sofrido uma câimbra para saber. Milhares de perguntas começaram a pipocar sua cabeça. Por que ela não tinha recebido mais respostas? Ela sentiu seu coração parar, recomeçar a bater e depois voar como uma borboleta presa numa armadilha.
Engolindo o medo, correu os olhos pelos arredores em busca de Fredericka.
— Será que vou descobrir o que sou? — ela perguntou a Perry. Seus pulmões pareciam oprimidos demais para deixar o ar entrar, embora não tivesse localizado a lobisomem.
— Claro que vai. — O olhar dele desviou-se para algo acima do ombro dela. Kylie temeu que ele tivesse visto Fredericka atrás dela.
— Está tudo bem? — A voz reconfortante de Holiday soou em seus ouvidos.
Kylie se virou a tempo de ver Holiday fazendo um movimento com a mão, pedindo que Perry se afastasse.
Kylie se inclinou para perto da amiga e falou como se fizesse uma confissão:
— Estou morta de medo. Não estou pronta pra isso. — Os olhos dela arderam com uma vontade renovada de chorar.
— Vai ficar tudo bem. Nem acho que... — Holiday não chegou a terminar a sentença. Em vez disso, colocou a mão no ombro de Kylie e o pânico que ela sentia quase desapareceu por completo. — Ei, vou estar aqui com você.
Elas se aproximaram das outras pessoas e formaram um círculo, como na cerimônia dos vampiros. Luis ficou em pé no centro do círculo, segurando nas mãos um crânio. Não um crânio humano, mas um crânio que parecia de um lobo. Ele ergueu o crânio na direção da lua e o objeto pareceu atrair um raio de luar e cintilar. Ele então começou a recontar a história do primeiro lobisomem e depois a falar sobre os muitos dons da sua espécie, mas Kylie não conseguiu ouvir. Nada parecia certo. Seu olhar fitou a lua e ela podia jurar que viu um homem piscando para ela dentro do círculo prateado.
Então notou que muitos campistas estavam se afastando do círculo. Os lobisomens. Kylie olhou para Holiday com uma interrogação nos olhos.
— A maioria prefere não se transformar na frente de todo mundo — a líder do acampamento explicou.
Kylie não os culpava. Ela também não ia querer. Será que estraçalhavam as roupas? Veriam os pelos crescendo sobre a pele?
Seu único pensamento era correr dali, mas Luis parou de falar e o som que saiu da sua boca foi de puro terror. Ao fundo, Kylie pôde ouvir o que pareciam ser os gritos dos outros, enquanto se transformavam. O ar ficou preso na garganta de Kylie. Seus pés se plantaram no chão. Ela não queria ouvir aquilo, não queria ver aquilo, mas, como um acidente de carro na estrada, ela não pôde deixar de olhar.
Luis caiu de quatro no chão, suas costas se arquearam e os sons, meio uivos, meio grunhidos, continuaram. Era como algo saído de um filme de terror. Kylie observou seu corpo se contorcer de um modo que seria impossível para qualquer corpo humano. O lobisomem jogou o pescoço tão para trás que ele parecia prestes a se descolar do resto do corpo. Suas mandíbulas cresceram, suas bochechas se alongaram e onde havia a face de um jovem apareceu o focinho de um lobo. Em seguida vieram os pelos.
O coração de Kylie quase saiu pela boca. Sua pele começou a ficar arrepiada, O estômago revirou.
Ai, Deus! Algo estava acontecendo com ela.

3 comentários:

  1. Tenho a impressão que a Kylie só tem dúvidas e lágrimas. Eu no lugar dela faria o mesmo.

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  2. Diga que lá vai transformar!
    Queria tanto que isso acontecesse! Tomara... tomara... tomaaaaara!!

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  3. Meu Deus que suspense será que ela vai se transformar?

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