18 de setembro de 2016

Capítulo 25

— Simon, você veio. Preciso admitir que achei que você não... — Paul se afastou de mim, aparentemente desistindo da ideia de me dar um beijo de olá. — Quando você começou a usar óculos?
— Oi, Paul. Você não mudou nada. Ainda grosseiro como sempre.
— Não, sério, qual é a desses óculos? E por que seu cabelo está preso para cima desse jeito? — A expressão dele era de horror. — Eu reconheci sua bunda incrível instantaneamente, é claro, assim que você entrou, mas quando se virou… — Ele estremeceu de propósito. — Já ouviu falar de lentes de contato?
— Eles não são de grau. E você está atrasado. Falou 5 horas. Este lugar vira um açougue depois das 5 e meia. Tem sorte de eu não ter fugido com um desses outros cavalheiros simpáticos que, pelo visto, não se importam tanto com meus óculos.
Paul pode até não ter achado meus óculos atraentes, mas vários outros frequentadores do bar do hotel Carmel Inn não se incomodaram na hora de perguntar se podiam pagar uma bebida. O diamante em meu dedo esquerdo também não os incomodou. Acabei colocando a bolsa no banco ao lado e dizendo que estava ocupado: eu estava guardando o lugar para meu marido, B. A. Baracus.
Apenas um cara entendeu a piada. Pagou uma vodca para mim em agradecimento pela boa risada.
— Coitadinha — disse Paul. Ele me deu minha bolsa e se sentou ao meu lado, dando uma olhada perversa em meu novo amigo. — Tenho pena de qualquer cara que tentou dar em cima de você. Deu um chute no saco dele?
— Esse golpe especial reservo para caras especiais como você. Onde estava? Comprando o Vaticano a fim de demolir tudo e fazer uma rua cheia de lojas?
— Ainda bem que está de bom humor de novo. Achei que fosse ficar toda irritadinha com a situação. — Ele olhou para o ocupado barman. — Quero o que ela estiver bebendo. — Olhou para minha bebida. — É melhor que isso não seja uma bebida não alcoólica, tipo club soda. Quero você com a guarda baixa hoje à noite enquanto tiro total vantagem de você.
— Nossa, você realmente continua tão apaixonado por si próprio quanto era na escola, hein? — Fiz um sinal para o barman passando a mão embaixo do queixo. — Ele não vai querer nada, desculpe. Precisamos ir.
— Como assim? — Paul ficou decepcionado. — Eu acabei de chegar. Olhe, desculpe por ter me atrasado, tive uma ligação em conferência sobre as propriedades; você não imagina como as pessoas estão me dando trabalho porque vou demolir aquela sua casa. Achei que você fosse escrota por causa disso, mas aquela sociedade histórica... porra. E desculpa por ter feito a piada sobre os óculos. Achei que tivesse dado instruções para você se vestir de maneira sexy, mas com esse cabelo e com esses óculos, você parece mais uma professorinha que uma gostosa.
— Professorinha? — Comecei a rir. — Vou entender como um elogio. Você não sabe o quanto isso significa para mim, sério. — Segurei o braço dele e quase o soltei em seguida de tão surpresa que fiquei. Ele estava malhando, talvez até mais que eu. Senti o bíceps debaixo do caro algodão italiano do terno. Não era tão grande quanto o de Jesse, mas era duro feito pedra, o que era um pouco desencorajador, considerando o que eu havia planejado. — Mas temos um compromisso em outro lugar.
— Compromisso? Que tipo de compromisso? Aaah, aqui no hotel mesmo, para fazer massagem em dupla? Ouvi dizer que eles usam um sal grosso maravilhoso, bem bruto, do jeito que eu gosto. — Ele franziu as sobrancelhas escuras. — Suze, gosto da iniciativa, mas você está facilitando muito. É mais divertido quando banca a difícil.
— Então você está prestes a ter a aventura de sua vida. — Dei as chaves da BMW para ele. — Aqui, você dirige.
Ele ficou olhando para as chaves.
— Aonde vamos?
— Não muito longe. Um estúdio de fotografia ali na Ocean.
Um sorriso lento se abriu no rosto dele.
— Peraí. Estamos indo buscar fotos safadas que você fez para mim?
Não dava para acreditar. Quero dizer, dava sim. Talvez ele fosse a criança na previsão de tia Pru, afinal de contas – tão perdido que só conseguia pensar em formas de me machucar por não o amar.
Bem, naquela noite ele teria o que tanto queria: minha atenção completa e ininterrupta.
— Sim, Paul. É exatamente isso que vamos fazer. Buscar fotos safadas que fiz para você. Mas vamos logo, temos de correr porque você se atrasou demais. A loja fecha às 6.
Paul ficou tão animado que praticamente foi saltitando pelo bar. Não pude deixar de notar quanta atenção feminina ele atraía (e não porque estava praticamente pulando). Era ainda mais alto do que eu me lembrava, cabelo negro de corte impecável encaracolando na nuca bronzeada. Além disso, ou seu blazer tinha ombreiras, ou ele ganhara músculos naquela área também.
Bem, suponho que, sendo multimilionário, ele podia pagar um ou dois personal trainers, mais um chef e um nutricionista. Certamente encontrou um bom estilista. A gravata azul-claro combinava perfeitamente com o lenço da mesma cor no bolso externo do blazer, que ia bem com os olhos, azul-claros também.
— Sua atitude em relação a isso tudo com certeza melhorou — comentou ele, enquanto passávamos pelas portas giratórias do saguão, a caminho da fila de outros hóspedes esperando que seus carros fossem trazidos pelos motoristas. — O que aconteceu para mudar sua opinião desde semana passada? Quero dizer, fora o óbvio: que tenho a vida de seu namorado... ou melhor, a pós-vida, nas mãos.
— Bem. — Fiz a expressão de tédio da Sra. Baracus, cansada de sua vida de rica. — Nós tivemos bons momentos, acho, eu e você.
Ele sorriu.
— Tivemos, não foi? Lembra quando a gente voltou ao tempo do Velho Oeste e aquela senhora a expulsou de sua própria casa porque achou que você fosse uma prostituta? Essa foi a melhor.
Mantive o sorriso grudado no rosto, embora tivesse notado um casal mais velho perto de nós, também esperando pelo carro, e a esposa fingindo que estava concentrada em retocar o batom, mas claramente ouvindo nossa conversa.
— Lembro, sim. E aí você me amordaçou e me deixou presa no celeiro enquanto tentava matar Jesse. Até naquela época você só pensava em uma coisa.
A esposa borrou o batom e deu com uma cotovelada forte nas costelas do marido. Felizmente, o motorista apareceu com o carro de Jake, que convenci Jesse a deixar comigo no fim de semana, pois ele não precisava parar uma BMW com o porta-malas cheio de armas no estacionamento do hospital.
— E se alguém arrombar o carro? — perguntei a ele. — Algum maluco pode encontrar a espingarda de Brad e entrar na emergência atirando em todo mundo. Quer viver com isso na consciência?
Jesse admitiu que não, não queria viver com aquilo na consciência, mas mencionou que eu assisto à televisão demais e tenho uma tendência a catastrofizar as coisas.
Coitado... não sabia de nada.
— Belo carro — elogiou Paul, quando se sentou no conversível. Ajustou o assento para acomodar as pernas mais longas. — Pelo visto as pessoas com formação em aconselhamento fazem mais grana do que me disseram.
Prendi o cinto de segurança.
— Só dirija.
Ele fez o que pedi e nos levou para a avenida Ocean, a rua principal do centro de Carmel, em velocidade exagerada. Embora ainda faltasse uma semana para o dia de Ação de Graças, o conselho da cidade havia decidido que nunca era cedo para começar a decoração de Natal, por isso havia luzinhas de bom gosto envolvendo os troncos das palmeiras por toda a rua.
— Ai, Suze! — Paul suspirou com alegria. — Estar em sua companhia de novo é como sentir uma brisa refrescante no cabelo. Ou talvez seja a brisa de verdade mesmo. Eu me esqueci de como fica frio aqui quando o sol se põe. Para onde estamos indo?
Falei o endereço e apontei.
— É por ali.
— Eu sei, Suze. Eu morava aqui, lembra? E quando a construção principal começar no novo lote... bem, melhor não falarmos sobre isso. Tem certeza de que não está mais puta comigo, Suze?
— Não mais, já me acostumei com a ideia — menti.
— Bem, só quero que você saiba que não precisa se preocupar. Se as coisas não saírem do jeito que pretendo hoje à noite, apesar de eu estar me sentindo bem otimista, vou fazer de tudo para protegê-la daquele seu namorado quando ele virar uma besta selvagem. Tem um quarto do pânico em meu novo avião, sabe?
Foi extremamente difícil sorrir, mas consegui.
— Que gentil de sua parte, Paul. Encoste. É aqui.
Tivemos a sorte de encontrar uma vaga. As galerias de arte e lojas tendiam a ficar abertas até tarde, especialmente nos finais de semana e feriados, quando havia mais turistas na cidade. Os donos das lojas esperavam que as vitrines chamassem a atenção dos casais passeando depois do jantar, e que eles entrassem na loja para comprar uma mesa de centro, no formato de um par de baleias cinzas pulando, por meros 40 mil dólares.
O Estúdio Delgado de Fotografia era um lugarzinho pitoresco que ficava entre uma joalheria e uma loja que vendia roupas femininas feitas à mão com materiais naturais – roupas que nem a tia Pru vestiria, caso pudesse pagar por elas, o que não era o caso, porque a coisa mais barata era um lenço de duzentos dólares.
O tema do estúdio era preto e branco. Era todo de tijolos, pintados de preto para parecerem mais avant-garde, e a vitrine tinha fotos PB estouradas, com imagens dos penhascos do Big Sur e do mar agitado da baía de Monterey. Havia também fotos menores em preto e branco de crianças – meninas, em sua maioria – olhando para a câmera com muita intensidade, cabelos ao vento, ou grudados nas bochechas por causa da neblina.
Senti a bile subindo pela garganta de novo. Ainda bem que tinha mais antiácidos na bolsa. Dentre outras coisas.
— É aqui? — perguntou Paul, olhando para as fotos na vitrine. — Essas fotos não são sensuais. Só tem crianças. — A falta de entusiasmo era clara na voz dele.
— Espere. Pode me dar as chaves?
— Claro. — Paul as entregou para mim e ficou observando enquanto eu ia até o porta-malas.
— O que tem aí? — perguntou ele, apontando para a bolsa grande de esportes que peguei do porta-malas.
Pisquei para ele.
— Equipamentos.
Paul sorriu.
— Hummm. Entendi. Então esse negócio todo — ele apontou para meu figurino — de óculos e blazer é uma caracterização pra sessão de fotos, e você vai trocar de roupa quando chegar lá? De professorinha para gostosa?
— Tipo isso — falei, entrando no estúdio.
— Safada — disse ele em tom de aprovação. — Sabe, gosto muito de ver como está empolgada, Simon. Está me fazendo sentir meio mal pelo que vai acontecer com Jesse quando a gente... — Ele passou a mão embaixo do queixo do mesmo jeito que eu havia feito para o barman a fim de cancelar o pedido de Paul. Só que Paul fez esse gesto para mostrar que planejava, de forma muito casual, cancelar os planos de vida de Jesse. — Ainda mais depois que vi o que aconteceu com o padre Dominic. Sei que falei que não leio o jornal dos alunos, mas dei uma olhada hoje e vi que ele sofreu uma queda.
— Sim. — Eu me juntei a ele na porta, parando a meros 15 centímetros de distância dele. Meus saltos me deixavam alta o suficiente para que eu pudesse levantar o queixo e olhar Paul dentro dos olhos.
— Sinto muito — disse Paul, o rosto a centímetros do meu. — Sei o quanto você gosta daquele velho. Mandei umas flores para ele e uma doação para a escola. Achei que era o que uma pessoa decente faria, e algo que ele apreciaria, assim como você. E Deus sabe que tenho dinheiro para isso.
— Foi muita gentileza sua, Paul. — Olhei para os lábios dele. — Obrigada.
— Não sou tão perverso assim, Suze — sussurrou ele. Também estava olhando para minha boca. — Quero dizer, claro que sou, mas não de verdade. Não sou obscuro. Não do jeito que aquele seu namorado é. Gosto de você, e isso deve contar para alguma coisa, não é?
— Será, Paul? — perguntei. — Não sei direito se é o suficiente. Mas sabe de uma coisa que eu sei?
— O quê? — perguntou ele, e abraçou minha cintura.
— Você não é o único.
Ele já estava começando a baixar os lábios em direção aos meus, mas se afastou de leve, confuso.
— Como assim?
— Que é perverso. Eu também sou perversa. Muito pior que você.
— Ah, é?
Ele sorriu, satisfeito com o que ouviu, então se aproximou de mim e pressionou meu corpo contra a porta. Senti cada centímetro seu embaixo do algodão italiano do terno. Não tinha forro interno. Isso deve coçar, pensei em alguma parte distante do cérebro que não estava extremamente alarmada por sentir as partes íntimas de outro homem contra mim. Ele estava usando cueca? Tive a impressão de que não. Era a cara de Paul sair sem cueca. Rápido acesso.
— Você não faz ideia de quanto tempo esperei para ouvi-la admitir isso, Simon. — A respiração dele estava quente em minha bochecha. — Mas agora que você admitiu, podemos finalmente...
Levantei a mão e coloquei o dedo na frente dos lábios dele.
— Não esse tipo de perversão, Paul — falei. — Quis dizer perversa tipo pior-que-seu-pior-pesadelo. Você achou que demolir minha casa ia libertar a escuridão dentro de Jesse? Espere só para ver a escuridão que libertou em mim. Vem. Vou mostrar a você.
Peguei a gravata dele, abri a porta do estúdio de fotografia e o puxei para dentro.

Um comentário:

  1. Nossa senti firmeza tomara que ela não fassa nenhuma bobagem...
    E o paul tadinho tão iludido rsrs

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