18 de setembro de 2016

Capítulo 24

Se alguém na escola notou que a esposa do riquíssimo cirurgião plástico, Dr. Baracus, parecia um pouco enjoada quando o marido a levou rapidamente de volta à BMW, ninguém falou nada. Devem ter achado que a náusea era por eu estar grávida de novo.
Para eles, isso devia ser boa notícia: Penélope Baracus talvez tivesse uma irmãzinha! Isso significava mais dinheiro de mensalidade para eles no final do mês. Ka-ching!
Mas, quando chegamos no estacionamento e ninguém mais podia nos ouvir, deixei fluir. Palavras vomitadas, e não vômito de verdade, porque eu já havia encontrado antiácidos mastigáveis na bolsa – dentre outros itens que eu havia jogado ali quando fui ao apartamento – e estava me concentrando em engolir tudo, um por um. A camada áspera das pastilhas na língua me ajudou a não sentir o gosto de bile que voltava pela garganta.
— Que droga é essa? — Só que eu não falei droga. Se a jarra de palavrões estivesse por perto, eu teria de colocar cinco dólares. Quero dizer, uns cinquenta, depois de meu desabafo. — Ele ainda mora aqui. Não foi embora. Ainda está aqui na cidade.
— Calma, Suzannah — pediu Jesse, com voz tranquilizante e grave. — Essa notícia é boa. Vai apenas tornar mais fácil para a polícia prendê-lo depois que Becca contar o que sabe.
— A polícia? — Fiquei chocada com a ingenuidade dele, apesar de que não devia. A polícia vivia envolvida com os casos de abuso no hospital. Enquanto médico, ele tinha de notificá-los, e eles tinham de responder. — Jesse, Becca mal conseguiu contar a mim o que aconteceu, e eu não sou uma figura de autoridade. Ela achou mais fácil dizer que o cara deu chocolate para ela (chocolate) que dizer que a molestou, o que é completamente normal para quem passou por abuso, mas eu honestamente não a imagino conseguindo falar com policiais sobre isso tão cedo. E, mesmo que conseguisse, não existe nem uma prova que conecte Jimmy Delgado ao assassinato de Lucia. Becca não o viu matando. E não é como se Lucia pudesse testemunhar.
— Mas ele ameaçou matar os pais de Becca se ela contasse a alguém o que fez com ela.
— Claro, ele ameaçou. Ameaçou fazer várias coisas, mas nunca fez nenhuma delas, exceto o que fez com Lucia, o que não podemos provar. Até as coisas que fez com Becca são a palavra dela contra a dele, e ela é uma criança que, graças a mim, agora acha que o fantasma da melhor amiga a vem seguindo nos últimos dez anos. Se ela abre a boca sobre isso, ninguém vai acreditar em mais nada que ela falar. Eu definitivamente mandei mal nisso.
Estávamos dentro do carro, e comecei a tirar os desconfortáveis saltos altos, um de cada vez, e a jogá-los no chão do carro. Jesse ficou me olhando com uma das sobrancelhas erguidas.
— Mandou mal?
— É. Quero dizer que fiz besteira. É mais educado que dizer que... bem, você deve imaginar.
Um canto da boca de Jesse se ergueu.
— Eu acho que você está sendo dura demais consigo mesma.
— Estou? Se acreditarmos no que a tal da Dunleavy disse, Delgado é um empresário respeitável. Tem dinheiro para contratar um bom advogado de defesa, um que acabaria com Becca em cinco minutos no júri, dado o atual estado mental dela. E quais as possibilidades de os pais de Becca permitirem que isso aconteça? Zero.
O meio-sorriso do Jesse sumiu.
— Mas fotógrafo de crianças. Você sabe o que isso significa, Suzannah.
— Pois é. Quanto a isso. — Peguei o celular na bolsa e achei o artigo sobre a morte de Lucia. — Becca disse que ele costumava fazer várias coisas na escola, não só trabalhar nos estábulos. Dê outra olhada naquela foto de Lucia.
Jesse pegou o celular de minha mão e ficou olhando para a foto.
— Era para eu estar vendo o quê?
— O crédito da foto. A fonte é bem pequena, mas assim que ouvi o nome, sabia que era familiar.
— “Fotografia de James Delgado.” — Ele leu em voz alta e olhou para mim. — Nombre de Dios.
— Né? Eles devem ter achado que podiam economizar pedindo que o fotógrafo amador/faz-tudo simpático, Jimmy Delgado, fizesse as fotos daquele ano. Só teriam de pagar os custos de impressão. Foi logo depois que o padre Francisco começou, e a escola estava passando por problemas financeiros, como ficamos sabendo em nosso mini tour.
— Por isso que Lucia está tão séria — disse Jesse suavemente. — Ela sabia do segredo de Becca. E do dele.
— É claro que isso também não prova nada, mas, se ele a matou mesmo, o médico legista não teria...?
— Você me disse que Becca falou que Jimmy é alto. Um pescoço quebrado não pareceria diferente para um médico-legista que não sabe da suspeita de assassinato. Se ela sofreu uma queda violenta de um cavalo, ou se foi jogada no chão por um homem alto que quer vê-la morta, o resultado é o mesmo.
— Foi o que Lucia disse que aconteceu.
Um músculo se tencionou no queixo do Jesse.
— Então exumar o corpo seria inútil. Qualquer prova genética que ele possa ter deixado já vai ter sido destruída pelo processo de embalsamento e pelo tempo. Mas e o dinheiro?
— Que dinheiro?
— Delgado conseguiu dinheiro em algum lugar para se demitir de repente e abrir o próprio negócio. Foi tudo na mesma época. Acho que a venda do chão da biblioteca não deu dinheiro suficiente para alguém abrir um estúdio de fotografia, mas o padre Francisco deve ter arrumado o dinheiro de algum modo para subornar o homem, mandar que saísse da Sagrada Trindade e ficasse calado quanto ao que fez com Lucia.
— Sim — falei depois de pensar por um momento. — Você tem razão. O padre Francisco apenas fingiu não acreditar na confissão de Becca. Deve ter ido direto da capela até Delgado e mandado que fosse embora. A Sagrada Trindade já estava dando prejuízo. Não tinham como arcar com outro escândalo.
— E Delgado exigiu dinheiro em troca de partir sem falar nada. — Jesse ligou o carro e saiu de ré do estacionamento. — E, novamente, graças ao padre Francisco, a Sagrada Trindade foi salva.
— O incrível padre Francisco. — Olhei com tristeza para as fileiras impecáveis de ciprestes italianos conforme saímos da escola em direção à 17-Mile Drive. — Tem algum milagre que ele não consiga fazer?
— Sim. Um. Ele não tem como esconder o rastro da transação de dinheiro entre ele e Delgado. Tem de haver um registro disso em algum lugar, do padre retirando o dinheiro, e de Delgado o depositando. Muitas das doações feitas a igrejas são em dinheiro, como você bem sabe. Você já viu o prato de coleta passando nas missas. — Como futura esposa de Jesse, de vez em quando eu ia com ele à igreja para causar boa impressão no bispo da região, porque precisávamos da permissão dele para nos casarmos na basílica (eu devo ter feito tudo certo, visto que consegui; se bem que, naquele momento, isso não nos ajudaria em nada).
— E mesmo que o padre Francisco tenha feito um cheque para Delgado — continuei, determinada a me manter concentrada naquela questão —, isso não conecta nenhum dos dois à morte de Lucia. Ainda é a palavra de Becca contra a dele. Não existem provas, Jesse.
— Não. — Ele desacelerou perante o trânsito na 17-Mile Drive. — Então só nos resta uma opção.
— É — falei. — Descobrir onde fica o Estúdio Delgado de Fotografia e contar para Lucia. Então ela pode fazer com Jimmy o que fez comigo na piscina aquela noite. Vamos levar umas cadeiras e um pack de cerveja para ficar assistindo. Vai ser mais divertido que os fogos de artifício do 4 de julho.
— Não. — Agora mais de um músculo saltava no queixo de Jesse. — Não conte para Lucia. Eu cuido de Delgado.
— Você? — Tirei os óculos de Becca e olhei para ele com os olhos franzidos contra o sol do fim da tarde. — Eu estava brincando quando falei que ia mandar Lucia.
— Eu não estou brincando. — Jesse pegou o volante com mais força, e não foi porque as pessoas estavam dirigindo loucamente, embora estivessem, como sempre fazem nas sextas à tarde no Norte da Califórnia. — Isso não é trabalho para uma criança.
— Bem, também não é trabalho para você.
— Por que não? Já matei um homem antes. Vou ficar mais que feliz em fazer isso de novo, nesse caso. Ou dois homens, na verdade.
— Você matou um homem, Jesse, porque ele ia matá-lo e a mim. Não é a mesma coisa.
— Como não?
— Porque aquilo foi autodefesa. Isso é vingança.
— Bem, em alguns casos um pouco de vingança é bom. Delgado precisa ser detido, e o padre também.
Fiquei mais feliz que nunca por não ter contado para ele sobre Paul.
— Isso pode até ser verdade, mas não dessa forma, e certamente não por você. Você fez um juramento de que não faria nenhum mal, lembra?
— Se destruir um monstro pode fazer com que ele não cause mal a outros, e pode preservar a qualidade de vida do resto de meus pacientes, meu juramento se mantém. Os médicos que dão injeção letal nos prisioneiros sob pena de morte justificam assim suas ações.
Nossa. Na noite anterior, achei que ele estava fazendo progressos quando me contou como se sentiu enquanto morto, sem poder tocar as pessoas que amava. Mas isso não era progresso. Era premeditação... algo que me era familiar, mas que, mesmo assim, não aliviava a situação.
— OK — falei, me segurando na porta do carro. Ele fazia as curvas ao longo da costa com uma velocidade impressionante agora que o trânsito estava fluindo. — Então acho que é isso que você deve fazer mesmo. Vá e mate Jimmy e o padre. Vou gostar da manchete de Cee Cee: “Jovem médico desperdiça futuro promissor com esposa gostosa assassinando pilantras.”
Jesse não riu.
— Alguém precisa fazer isso, Suzannah.
— Sim, mas como já falei, esse alguém não tem de ser você. Seu trabalho é salvar vidas, não acabar com elas.
— Como eu já falei, às vezes tirando uma vida você pode salvar outras. E, se eu não fizer, quem vai? Você?
— Por que não eu? Não é como se...
— Como se o quê?
Fechei a boca quando percebi o que estava prestes a admitir para Jesse: que eu vinha pensando em matar Paul desde que recebi seu e-mail. O único motivo que me fez concordar com o jantar foi porque, depois de comermos, quando fôssemos para o quarto dele no hotel para a “sobremesa”, meu plano era mediá-lo permanentemente.
Mas isso era mais uma coisa que uma menina devia manter em segredo, certo? Não tinha por que o noivo saber de tudo.
— Deixe para lá — murmurei, olhando para o mar. Ele exibia um tom vermelho por causa do sol, que se punha lentamente no Oeste. O céu, as praias, a água... a área toda, até onde a vista alcançava, tinham o mesmo brilho dourado dos cabelos de Lucia.
A Santa Lucia era a que sempre era representada com uma coroa de velas, geralmente na época do Natal. Contam que ela botou as velas na cabeça para que pudesse ter as mãos livres enquanto libertava centenas de cristãos pela escuridão das catacumbas embaixo de Roma – um trabalho não muito diferente do meu, de levar a alma dos mortos para a luz do pós vida.
— O que você falou? — perguntou Jesse. O vento forte que passava pelo para-brisa fazia barulho, dificultando a audição.
— Nada. Você vai trabalhar quantas horas esse fim de semana?
— Começo hoje às cinco e só acabo amanhã à tarde.
— Ok — falei aos berros para ser ouvida. — Ótimo. Vou entrar em contato com Cee Cee e ver o que descubro sobre onde Delgado mora. — Tirei o celular da bolsa de maneira exagerada. — Então talvez a gente consiga encontrar com ele e com o padre Francisco, se é que ele voltou da suposta conferência, amanhã à noite. — Até o dia seguinte à noite, se as coisas acontecessem como eu planejava, o Estúdio Delgado de Fotografia, e talvez até a Sagrada Trindade, estaria em cinzas. A única coisa que permaneceria de pé seria o número 99 da Fine Crest Road. Eu esperava.
— Nós? — Jesse me deu uma olhada desconfiada conforme passamos pelo portal que dizia “Obrigada por visitar a 17-Mile Drive. Voltem logo.” — Nós, não.
— Nós, sim — insisti. — Sou sua noiva. Entendo que você não esteja totalmente a par dos códigos sociais do século XXI, Jesse, mas é muito rude hoje em dia não convidar a noiva para festinhas de vingança.
Os lábios dele se curvaram em um sorriso cínico.
— Não dessa vez, Suzannah.
— Como assim não dessa vez? Que tipo de merda sexista...
— Estou ciente de seus sentimentos em relação a meus modos machistas do século XIX, Suzannah, e serei o primeiro a admitir que estão errados. Mas alguns não estão. Alguns funcionam melhor que suas maneiras do século XXI, que pelo visto permitem que assassinos de crianças saiam impunes e — ele ergueu a mão para me calar quando comecei a protestar — que crianças sofram sem necessidade. Então talvez desta vez você deva me deixar fazer as coisas da minha maneira.
— Ah — falei. — Então ok, delegado De Silva. Vou apenas ficar bordando alguns gorros enquanto você executa criminosos sem o aval da lei.
O sorriso dele ficou ainda mais cínico, o que era enfurecedor.
— Você nem sabe costurar.
— Pois é, e eu sei atirar. Tenho feito aulas de tiro ao alvo com Jake em Monterrey. Mas, se você não me quer por perto, tudo bem. Fico sentadinha em casa como uma boa futura esposa enquanto você briga com os homens maus.
Ele tirou os olhos da estrada para me olhar.
— Te quiero por perto, Suzannah — disse ele. — É por isso que preciso que fique em casa. Já perdi gente demais, todas as pessoas que amo. Entende? É por isso que você tem de me deixar pegar Delgado sozinho. Quero você do meu lado para sempre.
— Ah. — Eu me senti mal por tê-lo chamado de macho man tantas vezes. Não que isso fizesse diferença alguma, é claro. O que ele disse só fortaleceu minha resolução de não mudar nada em meu plano. — Bem, quando você explica desse jeito. Tudo bem. Está ok, claro.
Mesmo que ele estivesse usando óculos escuros, vi que não havia tirado os olhos de mim.
— Por que estou com a impressão de que você está escondendo alguma coisa de mim, mi amada?
— Eu? — perguntei, com uma voz inocente, enquanto escrevia uma mensagem. — Jamais esconderia nada de você.

Bebidas, boa ideia. Até às 5. Mal posso esperar.
Nov. 18 4:15 PM

Um comentário:

  1. tenho a ligeira impressão que essa bebidinha vai dá em merdinha!!!

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