30 de setembro de 2016

Capítulo 23

Kylie franziu a testa e sacudiu o braço para soltá-lo.
— Eu não vou a lugar nenhum antes que me digam o que está acontecendo. — O olhar de Kylie se voltou para Holiday, que observava Derek sair da água. — Pode alguém, por favor, me dizer o que há de errado?
Holiday olhou outra vez para Kylie. A linha de preocupação na testa da líder era sinal de que a situação era grave.
— É a sua mãe.
— Minha mãe? — Kylie respirou fundo. Fragmentos da conversa das duas voltaram à sua memória. Então o aviso do fantasma ecoou como um presságio agourento na cabeça dela. “Você tem que impedir isso. Do contrario, alguém que você ama morrera.”
Ai, Deus, não!
— O que há de errado com a minha mãe? — As palavras mal saíram dos seus lábios. Ela se lembrou de que a mãe ia voltar para casa de avião naquele dia. Kylie sentiu um aperto no coração ao imaginar um desastre aéreo. Ai, Deus, e se a mãe dela...?
— Ela deve ter vindo ver você — Holiday continuou. — Um pouco mais tarde. Por alguma razão, o alarme de segurança do portão não funcionou. E ela entrou sem ninguém perceber.
— Ela está aqui? — Mais do que ar para encher os pulmões, ela queria saber que a mãe estava viva e bem. Que o avião não tinha sofrido nenhum acidente. Que algum maluco não a tinha sequestrado nem a estava torturando, como os seus sonhos pareciam insinuar.
— Sim, ela está aqui — Selynn disse com arrogância. — Contra a política da escola. O horário de visitas já acabou há várias horas.
O olhar de Kylie se voltou para Selynn. O que aquela lobisomem estava falando? Sua mãe estava bem ou não? Ela voltou a fitar Holiday.
— O que aconteceu? — Kylie repetiu. — Ela está bem?
— Ela está... contrariada. — Holiday pareceu ainda mais séria. — Estava tentando encontrar a sua cabana e, enquanto andava por aí, ela... viu algumas coisas que não devia.
— O quê? — Kylie se lembrou de como ela mesma tinha ficado choca ao ver Perry se transformar pela primeira vez em unicórnio. — O que ela viu?
— A memória dela precisa ser apagada — disse Selynn, interrompendo. — E rápido.
— Apagada? O que... o que quer dizer com isso?
A lobisomem agarrou Kylie pelo braço e começou a puxá-la para a floresta.
Kylie estancou.
— O que você quer dizer com “apagar a memória dela”? — perguntou de novo, longe de entender, mas mais longe ainda de apreciar o tom com que foi dito. Ela soltou o braço de Selynn e então aproximou-se um passo dela, ficando tão perto que podia contar seus cílios.
— É melhor não encostar um dedo na minha mãe! — grunhiu Kylie, e o som da sua voz pareceu pouco natural aos seus ouvidos. Era mais grave. Mais áspero.
— Kylie, me ouça. — A mão de Holiday pousou nas costas de Kylie enviando uma onda de calma sobre seus ombros tensos. Kylie poderia ter ouvido, poderia ter aceitado a sensação de calma vinda de Holiday se Selynn não estivesse ali.
— Não temos tempo para isso — rosnou a lobisomem, agarrando Kylie pelos dois braços, com os dedos enterrados na sua pele a ponto de deixar marcas. Quando Kylie tentou se soltar, Selynn segurou-a com mais firmeza ainda.
— Ela é humana — disse Selynn. — Precisa esquecer o que viu. Agora.
— Esquecer? — Fúria, raiva e medo pela segurança da mãe fizeram com que Kylie se sentisse à beira do desespero. — Droga! Onde está a minha mãe? — A voz de Kylie parecia mais grave do que antes.
— Pare, Selynn! — gritou Holiday. — Você só está piorando as coisas. Ela não sabe o que está se passando.
— É, pare com isso! — disse Derek.
Kylie sentiu o toque de Holiday em seu ombro novamente, numa tentativa de acalmá-la e aplacar sua fúria, mas rejeitou o fluxo que vinha da amiga.
— A sua mãe vai ficar bem — disse Holiday, cuja voz parecia vir de outro lugar. Ela está na cabana de Helen agora. Ela...
Ao saber do paradeiro da mãe, Kylie tentou novamente se livrar das garras de Selynn. Mas a lobisomem apertou ainda mais seus braços, afundando as unhas em sua pele. Kylie reconheceu a sensação de dor, mas era como se pertencesse a outra pessoa.
— Me solta! — sibilou no rosto de Selynn.
Quando viu que a outra não a largava, Kylie, agindo por algum instinto que nem ela mesma conhecia, agarrou a lobisomem pela blusa e tirou-a do seu caminho com um empurrão.
Várias pessoas à sua volta ofegaram ao mesmo tempo. Uma delas podia ter sido a própria Kylie ao ver Selynn voar pelos ares como uma boneca de pano e aterrissar ruidosamente na água. A lobisomem levantou-se da água coberta de lama e cuspindo palavrões. Rosnando, começou a nadar de volta para a margem. Ao chegar, encarou Kylie nos olhos, jogou a cabeça para trás, rosnou e investiu contra ela.
Mas antes de atingi-la, Holiday se colocou na frente de Kylie e segurou a mão da lobisomem.
— Dê um passo a mais e eu vou invocar a ira dos anjos da morte. E se pensa que estou blefando, você não me conhece.
Mas Selynn não parou. Continuou avançando.
Então Derek e Della se atracaram com a lobisomem, derrubando-a e fazendo-a estatelar no chão com um grunhido.
Kylie não se deteve para ver ou ouvir o que aconteceu em seguida. Disparou para a floresta, o sangue pulsando nas veias, enquanto corria a toda velocidade para ir ao encontro da mãe.
Quando voltou a andar em velocidade humana, sentiu um golpe de ar passar por ela e vislumbrou um borrão em movimento. O súbito silêncio do bosque revelou que se tratava de um vampiro. Mas quem disse que ela se importava?
Tudo o que queria era encontrar a mãe antes que alguém tocasse nela. Se alguém ousasse tocar num fio de cabelo dela...
Kylie ouviu os gritos da mãe um pouco antes de sair do bosque, perto da trilha que levava à cabana de Helen. O pânico apertou com suas garras o peito de Kylie, como um animal selvagem tentando se libertar. Ela passou pelas últimas três árvores, voou pela trilha e chegou à varanda de Helen.
Burnett, com Holiday ao seu lado como que trazida pelo vento, estava lá, bloqueando a porta. E Kylie sabia que Burnett tinha trazido a líder até ali.
— Me deixa sair daqui! — os gritos da mãe chegaram aos ouvidos Kylie.
O cheiro pungente que agora ela reconhecia como sangue encheu suas narinas. Ela encarou Burnett.
— Saia!
— Kylie — Holiday saltou na frente de Burnett. — Me ouça, ok? Sua mãe está bem. Ela está fora de si e vamos ter que acalmá-la.
— Ela está ferida — Kylie lutava para respirar e lutava contra a vontade de tirar Burnett do seu caminho e irromper pela porta, para chegar à mãe.
— Ela não está ferida — Burnett insistiu.
— Eu sinto cheiro de sangue — ela disse, transtornada.
— Não é o sangue dela — respondeu Burnett, com os olhos cor de brasas.
— Eu juro — disse Holiday, tentando tocar Kylie. Mas Kylie recusou o toque e Holiday baixou a mão. — Sua mãe não está ferida, Kylie, eu juro pra você. Por favor, se acalme. Vamos dar um jeito nisso. Mas precisamos da sua ajuda.
— Confie neles, Kylie — disse uma voz ao mesmo tempo que um ar frio e familiar lhe invadiu os pulmões.
Kylie se virou e viu Daniel parado diante dela.
— Confie neles — ele repetiu.
Os olhos de Kylie se encheram de lágrimas quando Daniel a enlaçou num abraço gelado.
— Está tudo bem. — Seu hálito frio chegou aos ouvidos dela, enquanto um calor reconfortante invadia o seu peito.
Uma sensação incrível de paz fluiu através do corpo de Kylie. A mesma paz que ela tinha sentido na cachoeira. E que lhe deu a certeza de que as coisas não eram tão graves quanto pareciam. Que ela devia ter fé.
Ela levantou a cabeça para olhar Daniel, mas ele já tinha partido. Sentindo-se sob uma avalanche de emoções, suas pernas tremiam tanto que ela caiu de joelhos no chão da varanda.
Holiday agachou-se ao lado dela.
— Ela vai ficar bem, Kylie. Eu prometo.
Kylie olhou para Holiday.
— O que foi... o que foi que ela viu? Perry...?
— Não. — Holiday tirou uma mecha de cabelo do rosto de Kylie. — Dei permissão a Helen para doar um pouco de sangue a Jonathon. Ele estava tirando o sangue dela e, contra minhas regras, ele estava... — Holiday fez uma pausa e então acrescentou com a voz mais firme: — Ele estava bebendo direto do tubo quando sua mãe entrou. Tenho certeza de que a cena pareceu bem chocante para ela. Ela entrou em pânico.
Kylie cobriu o rosto com as mãos.
— Minha nossa! — Como iria explicar aquilo à mãe?
— Jonathan tomou um susto — Holiday continuou. — Agarrou-a e prendeu-a no banheiro de Helen. Depois bloqueou a porta com a cômoda e mandou Helen me chamar. Eu trouxe Burnett aqui tão rápido quanto pude.
— Eu não machuquei sua mãe — garantiu Jonathon, entrando na varanda. — Devo ter sido meio violento, mas não a machuquei. Lamento que isso tenha acontecido.
Kylie olhou para Jonathon. Sua camisa tinha manchas de sangue, o sangue de Helen, ela disse a si mesma, não o sangue de sua mãe. Atrás dele vinha Derek.
— Eis o que vamos fazer — explicou Burnett. — Vamos apagar a memória dela.
— Não — discordou Kylie, lembrando-se instantaneamente das emoções que sentiu e da sua luta com Selynn.
— Não é tão ruim assim — esclareceu Holiday. — Só a lembrança do que aconteceu vai ser removida da sua mente. Não vai causar nenhum dano a ela. Mas quanto mais calma ela estiver, mais fácil e eficaz será. E no momento ela está tudo menos calma. Acho que, se você falar com ela, talvez ajude a acalmá-la.
— Falar com ela? Ela viu alguém bebendo sangue de um tubo de transfusão. O que acha que posso falar que vá acalmá-la? — perguntou Kylie. — “Ah, mãe, não se preocupe, eles são só vampiros...”
Holiday olhou para Kylie bem nos olhos.
— Ela está agora mais preocupada com você do que assustada — garantiu Holiday. — Só lhe garanta que você está bem e então Derek entra e...
— Derek? — Kylie se virou para olhar Derek. — Por que Derek? — Algo que parecia culpa toldou os olhos dele.
— Descobrimos recentemente que Derek tem a capacidade de apagar memórias — explicou Holiday.
Derek confirmou com a cabeça e, por uma fração de segundo, Kylie se perguntou por que Derek não tinha contado a ela sobre o seu novo dom. Ela achava que eles contavam tudo um para o outro. Então seus pensamentos voltaram para a sua mãe.
— Mas se ele ainda não tem muita experiência nisso... alguma coisa não pode dar errado?
— Nada vai dar errado — intrometeu-se Burnett. — Ele praticou em mim inúmeras vezes.
Kylie olhou outra vez para Derek. Ela não sabia como ele podia apagar a memória de alguém, mas a ideia a apavorava.
— Vocês não têm ninguém aqui com mais experiência?
Para o crédito de Derek, ele não pareceu ofendido.
— Temos, mas essa pessoa está em outro caso agora — respondeu Burnett. — E quanto mais rápido cuidarmos disso, melhor. Se demorar muito ele vai precisar remover mais informações da mente dela. O que pode exigir que apague lembranças de várias horas. Obviamente, quanto menos tempo de memória tenha de ser apagado, melhor.
— Isso tudo é perigoso? — Kylie olhou para Holiday em busca de uma resposta.
Holiday sacudiu a cabeça.
— Quando é feito logo, o maior efeito colateral é uma dor de cabeça e um pouco de desorientação por causa do lapso de tempo apagado.
Kylie olhou novamente para Derek.
— Promete que não vai fazer nada errado?
— Prometo — ele disse. Mas, ela tinha sentido uma ponta de dúvida na voz dele?
— O que você vai ter que fazer? — Kylie perguntou.
— Só tocá-la — ele respondeu.
Kylie assentiu. Ela se lembrou do conselho de Daniel para que confiasse neles e se levantou.
— Tudo bem. Acho. — Então ela ouviu a mãe gritando outra vez. Olhou para Burnett. — É melhor que nada dê errado.
— Mãe! — Kylie chamou a mãe, cinco minutos depois, de detrás da enorme cômoda com que Jonathon tinha bloqueado a porta.
— Kylie?! — a mãe gritou. — Ah, querida, você está bem? Me diga que não está ferida nem nada. Me diga que essa gente louca não...
— Eu estou bem. Vou tirar você daí, está bem?
— Rápido — suplicou a mãe. A rouquidão em sua voz revelava que ela estava gritando e chorando há um bom tempo. — Temos que sair logo daqui. Há pessoas muito ruins neste lugar.
— Está tudo bem, mãe.
— Se apresse, meu bem. Antes que eles voltem.
Burnett fez sinal de que planejava retirar a cômoda e sair da cabana. Derek assentiu. Então Burnett puxou o pesado móvel com uma mão e, num segundo, não estava mais ali.
A mãe de Kylie escancarou a porta e voou para fora do banheiro, envolvendo Kylie num abraço protetor.
— Temos que sair daqui! — Ao ver Derek, ela puxou Kylie para detrás corpo dela. — Fique longe! — a mãe gritou.
Derek olhou para Kylie como se não soubesse ao certo como proceder.
— Está tudo bem, mãe. — O coração de Kylie se compadeceu quando viu o rosto choroso da mãe. — Este é Derek. Ele é meu amigo.
— Não confio nele — disse a mãe. — Não podemos confiar em ninguém aqui. Só quero ir embora deste lugar. Agora. — Apertando o braço de Kylie, ela começou a andar na direção da porta, mantendo-se entre Derek e Kylie, como que para protegê-la.
Sem saber direito o que fazer, Kylie estancou. Ela não podia deixar que a mãe saísse. Se ela já estava apavorada com Derek, perderia realmente o juízo se visse Jonathon e Burnett.
— Mãe, Derek é um cara legal. Vai nos ajudar a sair daqui — ela mentiu. — Não vai, Derek? — Kylie olhou para ele.
— Claro... sra. Galen. Vou ajudar a senhora e Kylie a saírem daqui.
A mãe olhou para Derek e de volta para Kylie. O pânico brilhou em seus olhos, mas ela não recuou quando Derek chegou mais perto.
— Deixe-me abrir a porta — ele pediu. Quando se aproximou, estendeu a mão e tocou o braço da mãe de Kylie.
Kylie não sabia o que acontecia quando a memória de uma pessoa era apagada, mas, quando os olhos da mãe rolaram nas órbitas e ela desabou no chão sem sentidos, Kylie gritou.
Tremendo e sem fôlego, ela se abaixou ao lado da mãe para ter certeza de que estava respirando.
— Está tudo bem — disse Derek, ajoelhando-se ao lado de Kylie e tocando seu cotovelo. — Ela só está inconsciente. Eu prometo, Kylie, vai ficar tudo bem — assegurou-lhe como se percebesse o medo dela.
Burnett apareceu na porta e pegou a mãe de Kylie nos braços.
— Vou colocá-la no carro. Você vem comigo — ele disse a Kylie. — Precisamos que você esteja lá quando ela acordar.
Burnett desapareceu. E Kylie disparou atrás dele. Ela não era tão rápida quanto ele, mas com sorte e considerando que ele carregava sua mãe, ela não ficaria muito atrás.


— Mãe, você está bem? — Kylie bateu na janela do carro cinco minutos depois.
Quando viu que a mãe não acordava imediatamente, Kylie precisou se segurar para não arrancar a porta do carro e ver se ela precisava de uma respiração boca a boca. Mas ela se lembrava muito bem da lista de proibições de Burnett.
• Não entrar em pânico, porque a mãe podia perceber e ficar ainda mais nervosa.
• Não tentar explicar muita coisa; deixar que a mãe chegasse às suas próprias conclusões acerca do que tinha acontecido.
• Não chorar por motivo algum.
E, quando ele explicou essa regra, apontou para as lágrimas de Kylie.
Por causa dessa regra número três, sobre não chorar por motivo algum, Kylie teria brigado caso não estivesse tão preocupada com a mãe.
Kylie deu outra batidinha no vidro.
— Mãe? — disse, esforçando-se para manter a voz calma.
Na opinião de Kylie, ela merecia poder chorar baldes de lágrimas por no mínimo umas duas semanas. O trauma emocional por que tinha passado na última meia hora tinha sido um dos piores de toda a sua vida. Nem mesmo a luta na reserva selvagem a tinha deixado tão transtornada.
Ela olhou para os próprios braços, esperando ver manchas roxas e marcas de unhas onde Selynn a agarrara. Por mais estranho que fosse, sua pele estava lisa e sem nenhuma marca. Estranho. Será que ela tinha adquirido um novo dom de cura também?
Os olhos da mãe se entreabriram e Kylie concentrou-se na situação diante dela. A mãe endireitou-se no banco e olhou em volta, obviamente sobressaltada. O primeiro pensamento de Kylie foi pensar que sua memória não tinha sido apagada.
Mas então ela virou a cabeça e seus olhos confusos encontraram os de Kylie.
Kylie afivelou um sorriso amarelo nos lábios, como se tudo no mundo estivesse indo às mil maravilhas.
— Quando você chegou aqui, mãe?
A mãe arqueou uma sobrancelha, levantou o pulso, para consultar o relógio, e abriu a porta do carro. Virou o corpo, para colocar os pés para fora, mas não saiu do lugar.
— Eu... — Ela piscou. — Vim correndo pra cá, do aeroporto. — Ela passou a mão pelos cabelos escuros, que agora tinham reflexos vermelhos.
— Você deve ter caído no sono depois de chegar aqui. — Kylie mordeu o lábio, percebendo que tinha violado uma das regras de Burnett.
— É. — A mãe pressionou a têmpora com a mão, um sinal claro de que a dor de cabeça tinha começado. — Fiquei a noite toda no aeroporto tentando conseguir um voo.
— Você devia estar mesmo cansada.
— É. Minha nossa! — Ela consultou mais uma vez o relógio e então saiu do carro. — Nem me lembro de ter chegado aqui. Devo ter estacionado e caído no sono. É uma boa lição para nós duas. Nunca dirija quando está exausta. — A mãe se aproximou e abraçou Kylie. — É tão bom ver você!
Kylie sentiu que estava prestes a violar outra regra. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela deu um abraço apertado na mãe. Mas as lágrimas não eram só por causa dos últimos trinta minutos. Eram pelos seus últimos dezesseis anos da vida e pelos raríssimos abraços que recebera da mãe. E pela lembrança do abraço que ela tinha dado no pai... no padrasto, antes de ele ir embora, algumas horas antes.
Quando a mãe se afastou, ela olhou para Kylie.
— Você está bem?
— Estou — disse Kylie, lutando para reprimir as lágrimas. — É só que... você não me abraça há um tempão.
— E isso é algo que precisamos melhorar, não é? — disse a mãe, tocando a têmpora novamente.
— É, precisamos melhorar. Mas acho que já é um bom começo. — E de fato era. Kylie podia sentir.
A mãe consultou o relógio outra vez.
— Devo ter dormido por uma hora.
— Você provavelmente estava precisando — disse Kylie, começando a andar em direção aos portões novamente.
— Tem razão. Eu ia ligar para a líder do acampamento avisando que ia chegar um pouquinho atrasada. Sei como eles fazem questão que a gente respeite o horário de visita, mas a bateria do meu celular acabou. Está totalmente descarregada.
— A sorte é que eu estava dando um passeio e vi seu carro e disse a Holiday que você estava aqui. Mas eles são realmente muito rígidos com relação ao horário de visita.
Por favor, meu Deus, não permita que eu tenha que passar por isso outra vez.
— O que eu acho uma bobagem — completou a mãe. — Parece até que estão tentando esconder alguma coisa.
— Que nada! — mentiu Kylie entredentes e quase se sentindo mal por isso. — Não estão tentando esconder nada! — Exceto coisas como: pessoas bebendo sangue, transformando-se em criaturas inimagináveis como ursos gigantes, unicórnios ou lobos. Ou garotas que acidentalmente transformam gatinhos em gambás. Em outras palavras, as coisas normais que costumam acontecer em Shadow Falls. — Mas mesmo assim são rigorosos — repetiu Kylie. — Dizem que é pra nossa segurança. Além disso, você sabe, como você costuma me dizer, regras são regras.
— Eu sei e vou tentar segui-las daqui em diante.
Obrigada, Jesus!
— Você quer ir se sentar no refeitório?
— Ou na sua cabana.
— Claro! — E então Kylie se lembrou de Socks, seu gambazinho.
— Ah, esqueci... Della e Miranda convidaram algumas garotas para dar uma passada lá. Acho que o refeitório seria melhor.
— Tudo bem — concordou a mãe. — Talvez eu consiga um copo d’água para tomar uma aspirina. Minha cabeça está latejando como se eu fosse ter um aneurisma.
Um frio sepulcral de repente tomou conta de Kylie. Por um momento, ela pensou que o fantasma estava de volta.
Olhou para a mãe.
— Não diga isso...
— Não diga o quê? — ela perguntou.
— Essa besteira de aneurisma. — Essa tinha sido uma das muitas possibilidades em que Kylie tinha pensado quando soube que Derek ia invadir a cabeça da mãe e apagar suas memórias; e esse pensamento a deixara apavorada.
A mãe sorriu.
— Só estou sendo melodramática. Estou bem.
— Ótimo! — disse Kylie. E quando ela olhou para a mãe, lembrou-se de como ficou assustada ao pensar que poderia nunca mais voltar a vê-la. Outra onda de emoção inundou seu peito. Kylie quase estendeu os braços para buscar outro abraço. Mas não fez isso. Não só porque podia levantar suspeitas na mãe, mas também porque, pelo que Kylie conhecia da mãe, suspeitava que ela poderia já ter dado sua cota mensal de abraços.
Por mais surpreendente que fosse, depois de trinta minutos juntas, elas ainda tinham o que conversar. Evidentemente, durante uns bons quinze minutos tinham falado sobre o novo visual da mãe, que Kylie admitia ter gostado. Claro, ela ainda ficava um pouco hesitante ao pensar na mãe saindo com outra pessoa, mas decidiu só pensar no assunto se isso realmente acontecesse.
Então a mãe notou o “surto de crescimento” de Kylie.
— Estes sutiãs de bojo deixam você com os seios maiores.
— Acho que não — disse Kylie. — Estou crescendo ainda.
A conversa levou a mãe a perguntar como tinham sido as compras na cidade. Mas Kylie não queria falar sobre compras nem em nada que tivesse acontecido durante sua recente ida à cidade. Então contou à mãe sobre visita do padrasto. Conversaram uns bons cinco minutos sobre ele. Kylie não deu detalhes sobre a cena constrangedora que ela tinha causado. Nunca contara à mãe que vira o pai na cidade.
Ela também optou por não contar que o pai tinha terminado com sua namoradinha. Por alguma razão, ela não queria que a mãe se lembrasse disso agora.
— Estou contente que tenham conversado — disse a mãe. — Não interessa os erros que cometeu recentemente; ele é um bom pai.
— É, sim — Kylie concordou.
Então Kylie passou mais cinco minutos falando sobre o quanto ela adorava o acampamento e seu interesse pelas aulas de decoração de bolos, tudo ensaiado para convencer a mãe a matriculá-la no outono. Não que ela pensasse em pedir isso naquele dia. Era preciso admitir, lembrasse a mãe ou não, que ela já tinha tido um dia bem difícil.
— Sério? Você gosta mesmo de decorar bolos? — perguntou a mãe. — Eu também gosto. Você se lembra de que fiz esse curso quando você era menor e fiz pra você um bolo de Cinderela?
— Lembro. Eu adorei. — Outra mentira deslavada. Ela já tinha 14 anos e morreu de vergonha quando a mãe serviu o bolo de contos de fadas. Mas qual o problema em contar mais uma mentirinha comparada a tantas outras que já tinha contado naquele dia?
Mentiras à parte, aquela guinada no relacionamento entre as duas estava lhe fazendo muito bem. Por isso, Kylie resolveu arriscar e pedir mais informações sobre o seu verdadeiro pai.
Pegando seu refrigerante, Kylie girou a latinha na mão.
— Mãe, pode me contar mais um pouco sobre Daniel?
A mãe arregalou os olhos.
— Claro. Mas acho que já contei tudo da última vez que perguntou.
— Você não me contou quase nada. Por exemplo... de onde eram os pais dele?
Ela sorriu.
— Lembro-me de que ele me disse que eram da Irlanda.
— Eram irlandeses? — Kylie perguntou, sem saber se aquela informação ajudaria em alguma coisa. — Quando eles vieram para cá?
— Não sei.
— Daniel nasceu aqui?
— Acho que sim. Ele não tinha nenhum sotaque.
— Mas você não tem certeza, né? — Ela começou a perder a esperança. Se ele tinha sido adotado na Irlanda, não seria quase impossível achar seus pais verdadeiros?
— Acho que ele teria me dito se tivesse nascido em outro país.
Kylie concordou.
— Você disse que os pais dele eram de Dallas, não é?
— Perto de Dallas. Alguma cidade um pouco mais pra cima.
— Onde? — Kylie mal pode acreditar que ela tinha passado as últimas duas semanas ligando para números de Dallas só para saber agora que eles não moravam lá.
— Não me lembro. — A mãe estudou Kylie. — Você não está pensando em encontrá-los, está?
Ok, hora da decisão. Kylie tinha dito ao investigador particular que diria à mãe sobre a sua busca. Talvez fosse a hora.
— Você ficaria aborrecida se eu tentasse? — ela perguntou, sem querer estressá-la ainda mais.
Ela franziu a testa.
— Eu... eu só acho que... Nem sabemos se eles estão vivos ainda.
— Podem estar — disse Kylie, sem ter coragem de dizer que seu real interesse era localizá-los para saber onde estariam seus pais verdadeiros. Logo sua mãe poderia saber, mas uma coisa por vez. Além disso, não fazia ideia de como dizer que ela sabia que Daniel era adotado. Pelo menos não sem contar também sobre o espírito de Daniel, uma conversa que ela não tinha nenhuma intenção de ter com a mãe.
— Sério, você se importa se eu tentar encontrá-los?
A mãe deu um longo suspiro.
— Não me importo, Kylie. Só tenho receio de que fiquem muito zangados comigo se você fizer isso. Muitas vezes me senti culpada por não ter contado a eles sobre você. — Alguma coisa na voz da mãe chamou a sua atenção.
Ela de repente percebeu que, se a mãe se sentia culpada por não contar a eles, ela devia saber como encontrá-los.
— Você sabe onde eles moram, mãe? Sabe onde encontrá-los?

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