24 de setembro de 2016

Capítulo 23

— Ei, onde você esteve? — perguntou Miranda enquanto Kylie desabava sobre o banco a seu lado e de Della no refeitório, quinze minutos depois.
— Conversando com Helen — Kylie jogou uma mecha de cabelos louros para trás da orelha, os nervos ainda à flor da pele.
— Quem é Helen? — perguntou Della, levando seu copo de “suco” – como Kylie decidira chamá-lo – à boca.
— Helen Jones — disse Kylie, apontando para a garota sossegada que tinha acabado de se sentar em outro banco. Ela a tinha convidado para juntar a elas, mas Helen recusou o convite porque tinha prometido ficar na mesa das fadas aquele dia.
Kylie viu Helen se sentar ao lado de Derek e inclinar-se para ele a de lhe dizer alguma coisa ao ouvido. Kylie não precisava de superaudição para saber que Helen tinha contado a ele sobre o diagnóstico negativo tumor. E, como para provar que estava certa, Derek interceptou o olhar Kylie e sorriu.
Kylie sorriu também. Embora estivesse aliviada pelo fato de Helen não ter visto nenhuma mancha escura em seu cérebro, como tinha visto no irmã, aquela resposta não lhe deixava alternativa exceto aceitar sua condição de... Bem, não humana. E isso não era nada reconfortante.
Della inclinou-se e murmurou:
— E como foi o interrogatório? Descobriu por que suspeitam de você?
— Que interrogatório? — Miranda arregalou os olhos.
— Conto depois — disse Kylie, espiando em volta.
Miranda concordou com um aceno de cabeça e prosseguiu:
— Ah, soube que vamos ter computador? Vão instalar um em cada cabana.
— Ótimo! — respondeu Kylie, mal ouvindo o que a outra dizia. Agora sobre a possibilidade de a loucura explicar seu estranho padrão cerebral. Sem dúvida, houve ocasiões em que achou que estava maluca... Com semanas no topo da lista.
— É melhor pegar o seu almoço antes que parem de servir — aconselhou Della.
Kylie reparou que muitos campistas já estavam devolvendo suas bandejas e saindo. O exame do tumor tinha demorado mais do que Kylie havia calculado.
—Tem razão — concordou Kylie, levantando-se.
— Ah! — lembrou-se Miranda. — Perry estava procurando você.
Kylie estremeceu e inclinou-se para ela:
— O que ele queria?
— Talvez pedir que você dê uma olhadinha nos seus genitais de novo — brincou Della.
Kylie soltou um gemido. Miranda riu e ficou séria novamente:
— Acho que era para pedir desculpas. Jurou que quis se soltar, mas você o levou para dentro.
Kylie se lembrou de que o gatinho, isto é, Perry disfarçado, tinha realmente tentado resistir quando ela o carregou no colo para a cabana. E quando afastou suas pernas traseiras para descobrir seu sexo.
— Seja como for, ele não tinha nada que ficar espiando pela nossa janela.
— É verdade — concordou Miranda. — Mas, pelo menos, quer pedir desculpas. Só uma pessoa decente faz isso.
— Ou um idiota com medo que eu conte tudo a Holiday — disse Kylie.
— Ponto pra você — reconheceu Della.
Kylie foi até o balcão e viu atrás dele a motorista do ônibus – ou alguns centímetros dela, pois sua cabeça mal ultrapassava a borda. A duende inclinou cabeça para trás e fitou Kylie, arqueando as sobrancelhas.
— Já sabem o que você é? — perguntou, empurrando uma bandeja para Kylie.
— Ainda não — murmurou Kylie, não gostando nada de ver que todos no acampamento estavam a par de sua crise de identidade.
— Seu amigo quer comer alguma coisa? — continuou a duende, de cara fechada.
— Que amigo?
Um calafrio percorreu a espinha de Kylie – a presença dele era, como sempre, absolutamente perceptível e indesejada.
— Você também consegue ver? — perguntou Kylie, soltando, com as palavras, uma nuvem de vapor.
— Não, só sentir. E já é muito para mim — a mulherzinha afastou-se do balcão.
Vá embora. Vá embora. Cerrando os olhos, Kylie desejou ardentemente que o soldado Dude desaparecesse. Quando o calafrio passou, tão rápido quanto viera, perguntou a si mesma se a coisa era mesmo tão fácil assim: bastava desejar que ele fosse embora. Eis outro assunto que gostaria de discutir com Holiday. Fosse como fosse, a pequena vitória provocou em Kylie uma breve sensação de controle. Muito breve.
Pegando a bandeja, foi se juntar novamente a Miranda e Della. Nem procurou saber se ainda havia algum sujeito de farda ali. Para que procurar encrenca?
— Dia ruim? — perguntou Miranda quando Kylie colocou sua bandeja de qualquer jeito sobre a mesa.
— Mês ruim — Kylie pegou o sanduíche e o cheirou. — Detesto atum — sentiu a garganta apertada e engoliu o nó de emoção, jurando que não ia chorar.
— Gosta de pasta de amendoim e geleia? — perguntou Miranda.
— Gosto — Kylie olhou para Miranda, pensando que ela propunha uma troca; mas, em vez disso, ela levantou o dedo mínimo e o apontou para o sanduíche de Kylie.
O sanduíche, na mão de Kylie, se transformou. Kylie olhou para ele e seu queixo caiu. Pasta de amendoim e geleia vermelha escorriam das bordas do pão.
— Santo Deus! — exclamou Kylie, largando o sanduíche na bandeja.
— Uau! — exclamou Della, inclinando-se. — Pode me arranjar outro copo de sangue? Ouvi dizer que o tipo O negativo é o melhor.
Miranda fechou a cara.
— Eu não faço sangue.
— Por que será que não estou surpresa? — zangou-se Della.
Kylie não queria saber daquela conversa sobre sangue e desviou o olhar do sanduíche transformado para Miranda.
— Pensei ter ouvido você dizer que não podia fazer magia.
Miranda pareceu se divertir.
— Nem se pode chamar isso de magia. Venho substituindo meu almoço por pasta de amendoim e geleia desde que tinha dois anos. Mamãe tentava me empurrar linguiça de fígado. Quem, pelo amor de Deus, come uma porcaria dessas?
— Eu comeria com gosto — disse Della.
O estômago de Kylie roncou e ela abriu o sanduíche para dar uma olhada rápida.
— É seguro... Comer isto aqui?
— Acha que eu ia envenenar você? — perguntou Miranda, obviamente ofendida.
— Não, mas pode ser radioativo ou coisa parecida. Não sei o que acontece com a comida quando... É transformada assim.
— Tenho comido meus sanduíches a vida inteira — disse Miranda.
— É, e sabemos o que eles fizeram com você — acrescentou Della, num tom que ia ficando cada vez mais irritado.
— Vá chupar uma veia — disparou Miranda.
— Tem uma aí? — contra-atacou Della, mostrando os dentes.
— Por favor — implorou Kylie, olhando de uma para a outra. — Não vão brigar de novo.
Somente quando as duas pareceram se acalmar é que Kylie reconsiderou a ideia de comer. Incrível como estava faminta. Exames cerebrais devem aumentar o apetite. Ou talvez fosse porque a dor de cabeça finalmente tinha dado trégua. De qualquer forma, a fome era suficiente para ela se arriscar a comer um sanduíche preparado pela magia do dedo mínimo de Miranda.
Pegando o sanduíche, Kylie afundou os dentes na maciez do pão branco.
— Está muito bom — disse a Miranda, enquanto mastigava e tentava impedir que a pasta de amendoim grudasse no céu da boca. — Obrigada.
— De nada — respondeu Miranda. — E, em troca, tudo o que quero é que você “me dê uma ajudinha” com o Derek... Já que não gosta dele.
— Você é cega? Kylie é louca pelo Derek — interrompeu Della, num tom irritado.
Miranda, espantada, olhou para Kylie, esperando que ela negasse. Mas a pasta de amendoim tinha grudado no céu da sua boca e Kylie não conseguiria falar ainda que quisesse. Mas não queria. Não sabia o que dizer.
Frustrada com o silêncio de Kylie, Miranda olhou para Della.
— Kylie garantiu que não gostava dele.
— Estava mentindo — disse Della, dando de ombros.
Miranda olhou para Kylie.
— Gosta dele? Apenas diga.
— De quem a senhorita “Não Sei O Que Sou” gosta? — a namorada de Lucas se sentou do lado oposto da mesa.
Kylie deu uma boa olhada naquela representante da espécie dos lobisomens. Estranho. Nunca tinha visto tanta raiva e antipatia num só olhar.
Conseguiu desgrudar o pedaço de sanduíche do céu da boca.
— De ninguém — disse ela, mas sem convicção.
— Verdade? — os lábios da loba se arquearam no que poderia ser considerado um sorriso, caso o risinho que o acompanhou não fosse tão perverso. — Por falar nisso, meu nome é Fredericka. Pensei que você gosta de saber o nome da garota que vai lhe dar um pontapé no traseiro se você tentar...
— Hum, isso é engraçado — disse Miranda.
Engraçado? Kylie lançou um olhar à amiga, enquanto o pedaço de a pasta de amendoim e a geleia ficavam entalados em sua garganta. Cobriu a boca e tossiu, o que só piorou a situação, pois o pedaço de pão, tentando voltar, ficou entre suas amígdalas. Kylie fez força para absorver um pouco de ar, mas não conseguiu. Nada.
— O que é engraçado? — o olhar frio de Fredericka agora pousava Miranda, o que teria inquietado Kylie se ela não estivesse ocupada tentando respirar. Começou a dar batidinhas no peito.
— Estou sem ar.
— Você chutar o traseiro da Kylie — respondeu Miranda.
Ei, não consigo respirar.
Kylie segurou a garganta, o sinal universal de sufocação.
— Com toda a ajuda que ela teria para deter você e tudo o mais.
É sério, não consigo respirar!
Que maravilha! Lá estava ela num acampamento cheio de criaturas bebedoras de sangue e devoradoras de carne crua, prestes a morrer asfixiada por causa de um sanduíche de pasta de amendoim e geleia.
Fredericka inclinou-se para Miranda.
— Acha que estou com medo desse seu dedinho esquelético?
Continuo não podendo respirar, gente!
Finalmente, Della – vampiros atenciosos são outra coisa – levantou- se, empurrou Miranda para o lado e deu um golpe firme nas costas de Kylie. O pedaço de sanduíche finalmente desbloqueou sua garganta e, embora provocasse dor ao descer, pelo menos deixou aberta a passagem do oxigênio.
— Eu? — a voz de Miranda assumiu um tom agudo. — Você pensou que... Não, não, eu não quis dizer que a ajuda viria de mim — apontou para Della. — Esta aí poderia até vencê-la. Tem a atitude combativa dos vampiros, mas não era a ela também que eu me referia.
— Miranda tem razão — disse Della, metade da atenção concentrada em Kylie e metade, em Fredericka. — Eu ajudaria Kylie a chutar seu traseiro num piscar de olhos — e arreganhou os lábios para a outra, mostrando caninos afiados.
Fredericka não pareceu nem um pouco preocupada. Não que Kylie tivesse certeza de alguma coisa; ainda estava ocupada em impulsionar o oxigênio necessário para o cérebro enquanto dava ao drama encenado à sua frente o máximo de atenção possível. Se tivesse de ser despedaçada por uma mulher-loba, queria saber o motivo.
— Mas então de quem está falando? — quis saber Fredericka, inclinando-se sobre a mesa e deixando escapar um grunhido surdo.
— Dos fantasmas de Kylie — disse Miranda. — Ela tem cerca de meia dúzia em volta dela o tempo todo. Não sabia?
O quê?
Kylie tossiu. Ainda bem que o pedaço de pão tinha descido em vez de subir, do contrário estaria de novo engasgada.
— Não sei quanto a você, mas eu não me envolvo com os mortos. Não se lembra do último ano, quando Holiday falou dos anjos da morte?
Anjos da morte? Kylie lembrou-se da história de Miranda, no ônibus a caminho do acampamento, sobre anjos da morte dançando nas cachoeiras. Tossiu de novo e levantou a mão. Mas, antes que começasse a falar, notou o medo na expressão de Fredericka.
Não querendo parecer um coelhinho assustado diante de um lobo faminto – embora essa situação descrevesse muito bem seus sentimentos – Kylie olhou Fredericka diretamente nos olhos.
— Pare com isso — tossiu. — Não quero brigar com você — tossiu. — Não sei nem mesmo por que você quer brigar comigo. Ou com os meus fantasmas.
Ei, Kylie não era nenhuma boba! Pretendia tirar vantagem do medo que surpreendeu nos olhos da garota.
— Fique longe de Lucas — advertiu Fredericka, mas já sem tanta confiança na voz.
— Eu? — todos os contratempos daquele dia, e mesmo das últimas semanas, se desvaneceram com essa palavra pronunciada em tom agudo, que também mandava embora o coelhinho assustado. — Sabe de uma coisa? Talvez fosse bom você apertar mais o laço que colocou em volta do pescoço do seu suposto namorado, pois todas as vezes que conversamos foi porque ele me procurou. E não o contrário.
— Você deveria tomar mais cuidado — ameaçou Fredericka.
— Ela não precisa — interrompeu Della. — Seus fantasmas fazem isso por ela. Não ouviu falar do pequeno incidente que ocorreu na nossa cabana noite passada?
Fredericka se levantou e saiu apressadamente. Kylie, com uma das mãos pressionada sobre a mesa, acompanhou-a com o olhar.
— Que piranha!
— É, ela fez a mesma coisa ano passado. Mas nós demos o troco — disse Miranda, pousando sua própria mão sobre a de Kylie.
— Nós arrasamos! — completou Della, pondo a mão sobre a de Miranda.
— Obrigada — disse Kylie. E, fitando ora uma, ora outra: — Vocês não precisavam me defender. Mas gostei disso.
— Ora, somos amigas! — exclamou Miranda. — E é isso o que fazem os amigos.
Sorrindo para suas novas companheiras, Kylie concluiu que ter vindo acampamento não tinha sido tão ruim assim. Em seguida, dando um longo suspiro e sentindo que sua coragem começava a esmorecer, olhou para Miranda:
— Os anjos da morte existem mesmo?

5 comentários:

  1. Kkkkkkkkk. Coitada. Tipo "Podem continuar falando de mim como se eu não estivesse morrendo sufocada aqui" E que tipo de nome é Frederica?

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  2. kkkkkkkkkkkkkkk Continuo não podendo respirar, gente!,Finalmente, Della – vampiros atenciosos são outra coisa , a vampira salvadora kkk

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  3. cara essa loba é uma vaca, coitada da Kylie quase morreu sufocada!
    ass: Mary Schrever

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  4. — Está muito bom — disse a Miranda, enquanto mastigava e tentava impedir que a pasta de amendoim grudasse no céu da boca. — Obrigada.
    — De nada — respondeu Miranda. — E, em troca, tudo o que quero é que você “me dê uma ajudinha” com o Derek... Já que não gosta dele.


    ESTA ERRADO ESTA PARTE.... A PRIMEIRA FALA SERIA...
    ESTÁ MUITO BOM - DISSE KYLIE......

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