30 de setembro de 2016

Capítulo 22

Naquela tarde, Kylie decidiu não aparecer no piquenique que os campistas fariam às margens do riacho, num trecho onde era possível nadar. Primeiro, ela não tinha uma roupa de banho que ainda lhe servisse; segundo, queria fazer alguns telefonemas para ver se conseguia localizar os Brightens, que talvez soubessem alguma coisa sobre o seu verdadeiro pai. E, terceiro, bem... ela esperava que o fantasma aparecesse outra vez. Algo na maneira como o espírito da mulher apareceu quando ela falava com a mãe lhe pareceu muito esquisito.
Kylie sabia que não devia ficar obcecada com a ideia de tentar adivinhar quem estava em perigo. Mas, lá no fundo, ela já estava obcecada. Será que o fantasma estava falando da mãe dela? Será que sua mãe estava em perigo?
Preocupada com essa possibilidade, Kylie tinha telefonado para a mãe. Duas vezes. Mas o celular dela estava desligado. Provavelmente porque estava no avião. Kylie se sentou diante do computador, tentando se convencer de que estava tudo bem, e pegou a lista de telefones que imprimira. Seu celular tocou. Com esperança de que fosse a mãe, ela pegou o telefone sem checar o identificador de chamadas.
— Mãe?
— Não é a sua mãe. É Sara.
— Ah, oi! — respondeu Kylie, tentando decidir qual das muitas emoções com relação a Sara ela devia deixar que dominasse a conversa. Havia a tristeza porque Sara, que ela considerava sua melhor amiga há anos, não retomava os seus telefonemas há quase um mês. Havia a preocupação de que a amiga estivesse passando por alguma situação difícil. E havia também a melancolia que sentia porque sabia que a amizade entre as duas nunca mais seria a mesma.
Quando o silêncio começou a pesar, Kylie resolveu abrir a boca.
— Minha mãe disse que viu você no supermercado outro dia.
— É, foi mesmo. Ela parecia muito bem. Gosto do novo visual dela e do corte de cabelo. Ela me disse que você sugeriu uma mudança no visual.
— E ela fez isso? Não tinha me contado.
— Ah, espero não ter estragado a surpresa dela.
— Não, foi melhor você ter me avisado. Ficou bom? Ou ficou ridículo?
— Ficou bom. Ela parece... mais jovem, acho. Sabe, como se estivesse pronta para começar a ter encontros.
— Encontros? — Kylie sabia que essa era uma possibilidade, ela até chegara a sugerir isso à mãe, mas por alguma razão agora a ideia lhe dava um frio na barriga. — Ela disse isso ou você está só imaginando?
— Não, ela não disse nada. Só parecia, sabe, como uma mulher que quer ser notada por um homem. Jeans e uma blusa justa que destacava os seios. Eu quase não a reconheci.
Sara estava dizendo que a mãe dela estava se vestindo como uma piranha? Não era esse tipo de mudança no visual que Kylie sugerira. Percebendo que a conversa tinha minguado novamente, Kylie tratou de falar para quebrar o silêncio.
— Minha mãe disse que você parecia... — Kylie quase mentiu e disse “bem”, mas no último minuto decidiu falar a verdade — ... mais magra. Está fazendo regime de novo?
Sara era a primeira a tentar qualquer dieta nova de Hollywood: baixas calorias, nada de carboidratos, só frutas às terças-feiras, só arroz integral às quartas, quanto mais maluca melhor. Mas isso não queria dizer que ela se dedicasse a qualquer delas por muito tempo.
— Na verdade — não respondeu Sara. — Acho que são os anticoncepcionais. Ouvi dizer que eles engordam, mas em mim parecem surtir o efeito contrário.
Sara estava tomando pílulas? Kylie mais uma vez se deu conta de quanto as coisas tinham mudado entre elas. A sua velha amiga Sara certamente não teria deixado de contar a Kylie algo tão importante quanto começar a tomar pílulas.
Mas Kylie também não andava com disposição para contar nada a Sara ultimamente. Claro, tentar explicar a uma pessoa normal como se sentia por ainda não ter identificado seus dons paranormais era um pouco, ou melhor, muito mais difícil do que falar sobre anticoncepcionais.
— Sua mãe concordou que você começasse a tomar? — Kylie perguntou, sabendo que a mãe de Sara era uma religiosa fanática e estava sempre pregando contra o sexo antes do casamento.
— Está brincando?! Ela morreria se descobrisse. Eu fui ao médico e falsifiquei a assinatura dela.
Kylie já tinha ouvido falar de algumas meninas que faziam o mesmo para burlar a lei texana que exigia a assinatura de um dos pais para que uma adolescente tomasse pílulas anticoncepcionais.
Uma outra longa pausa se seguiu.
— Então, com quem você anda saindo? — Kylie perguntou.
— Uns carinhas por aí. — Sara parecia propositalmente evasiva. Kylie no pôde deixar de se perguntar se Sara também não estaria fazendo sexo com os tais carinhas. Se a amizade entre elas fosse como antes, ela teria perguntado. — Então — disse Sara — você está voltando pra casa daqui a algumas semanas? A droga do acampamento está chegando ao fim? Chega de ser um osso duro de roer, hein?
O comentário não a agradou muito. Obviamente, Trey tinha contado a Sara sobre o apelido que os campistas tinham, pois Kylie não se lembrava de ter mencionado nada a respeito.
— Na verdade, só vou para casa passar o final de semana. E eu realmente gosto daqui. — Kylie não disse nada sobre a possibilidade de o acampamento se tornar uma escola, simplesmente porque não estava a fim de entrar no assunto. Mas fez uma prece silenciosa para que a mãe concordasse. A ideia de voltar para a sua antiga escola e não ter a antiga Sara ao seu lado era quase insuportável.
— Quer dizer que gosta mesmo daí? Você no começo detestava! Não dizia que estava cercada de aberrações? — Sara parecia chocada.
Isso foi antes de eu descobrir que sou uma aberração também. Bem, não uma aberração, mas não sou humana também.
— É, as coisas mudam. — Kylie se referia também ao relacionamento com sua ex-melhor amiga, não só ao que sentia pelo acampamento.
— É, estou vendo. — Outra pausa. — Bem, me mande um torpedo quando tiver chegado e vamos ver se nos encontramos.
Sara não tinha nem mesmo dado certeza de que iriam se encontrar. Aquilo doeu. Mas tentando não dar atenção ao sentimento, ela respondeu:
— Certo. Eu mando. — Embora não tivesse certeza de que mandaria. Um encontro com Sara podia ter um clima tão estranho quanto o telefonema.
— A minha mãe está me chamando para ajudar com os pratos — disse Sara.
Kylie não tinha ouvido ninguém chamar ao fundo. Não que ela não estivesse louca para desligar também. Tinha sido um telefonema difícil. Realmente difícil.
— Tudo bem, até mais — respondeu Kylie. Seja feliz. Foi um prazer conhecê-la.
Tão logo Kylie desligou, o telefone tocou novamente. Desta vez, ela verificou quem estava ligando.
Derek?
Ele normalmente não ligava para ela.
— Oi, o que aconteceu? — ela perguntou com uma ponta de preocupação.
Um frio fantasmagórico invadiu o quarto enquanto ela esperava Derek falar. Sentiu uma onda de vertigem tão grande que teve que se agarrar à mesa do computador. Ela já tinha passado por isso vezes suficientes para saber que teria uma visão de algo que estava prestes a acontecer.
Ou que estava acontecendo, ela se corrigiu ao ver um caixão no lugar onde segundos antes estava a mesa da cozinha. A mulher no caixão era o fantasma. Ao redor dele, havia pessoas chorando.
— Kylie? — soou a voz de Derek, do outro lado da linha.
— Oi. — Ela olhava para o caixão e as pessoas, tentando adivinhar o que o fantasma estava querendo lhe mostrar com aquela cena. Porque era essa a intenção dele, não era? O fantasma estava tentando lhe dizer alguma coisa. Mas o quê?
“Estou com medo, mamãe.” Atrás do caixão, Kylie viu uma garotinha estender o braço e tocar a mão da mãe.
“É só a vovó.” As duas se aproximaram do caixão.
— Kylie, você está aí? — Derek parecia aborrecido... ou algo assim.
Ela se lembrou de ter estranhado a ligação de Derek. Não era típico dele ligar para ela.
— Sou eu. Está tudo bem? — Kylie perguntou, e sua concentração em Derek fez a visão ir se apagando como uma velha fotografia. Ela foi perdendo as cores e ficando monocromática, como se a cena tivesse acontecido muito tempo atrás. Então a visão foi ficando mais fraca, quase transparente.
— Não vá embora! — Kylie pediu.
— Ir embora pra onde? — perguntou Derek.
— Não você — ela disse, mas já era tarde demais, só um vago contorno da cena persistia. A mulher segurando a mão da garotinha virou-se de costas. Kylie viu seu rosto de relance, mas algo em sua aparência parecia familiar.
Balançando a cabeça, e se lembrando de que Derek ainda estava na linha, ela perguntou.
— Está tudo bem?
— Não — ele respondeu. — Não está tudo bem.
— Por que não?
— Você não está aqui.
Ela revirou os olhos.
— Pensei que estava falando sério.
— E estou. Andei procurando você a tarde toda, achando que estaria aqui.
— Mas eu queria...
— Por favor — ele pediu. — Eu... — Sua voz ficou mais baixa. — Nunca vi você de biquíni.
— E nem vai ver. A parte de cima de nenhum biquíni me serve mais, lembra?
— Nem me lembre... — ele disse, fazendo graça.
— Você é terrível! — ela o repreendeu, sem falar sério. Ela gostava de saber que ele se sentia atraído por ela.
— Então coloque um short e uma camiseta e venha.
Kylie mordiscou o lábio. Olhou para a tela do computador, que mostrava a lista dos Brightens de Dallas para quem ela não tinha telefonado ainda.
Della e Miranda estavam ajudando, mas ainda faltavam muitos.
— Por favor?! — ele choramingou.
O tom de súplica ecoou na voz dele e ela sentiu que se rendia. Além de querer deixar Derek feliz, ela se lembrou de que agora podia ler os padrões cerebrais e achou que ver todo mundo seria divertido. Podia comparar os padrões.
— Você teve um dia difícil — continuou Derek. — Merece se divertir e tomar um pouco de sol.
Tive alguns “meses” difíceis..
— Daqui a uns minutinhos estou aí.
— Sério? — ele perguntou, quase como se estivesse surpreso ao ver que ela tinha concordado. Será que não sabia o quanto ele significava para ela?
— Sério — ela disse, sorrindo. O sorriso a aqueceu tanto por dentro quanto por fora. A memória de como ele a defendera do pai veio à tona na sua mente. E nesse instante ela soube que, da próxima vez que ele a pedisse em namoro, ela diria sim.
Foram necessários uns quinze minutos para ela decidir que shorts e camiseta vestir. Ela queria parecer bonita. Muito bonita. Talvez ela e Derek pudessem dar uma escapadinha juntos e... e, com sorte, ele perguntaria de novo se ela queria ser sua namorada. Ah, quem sabe até ela mesma poderia perguntar isso a ele.
Quando percebeu quanto tempo tinha se passado, disparou para a porta. O caminho mais curto para o riacho era pelo bosque, então optou por ele. A rapidez com que andava surpreendia até a ela mesma. A coordenação entre pés e olhos a cada passo que dava e cada vez que contornava uma árvore era assustadora.
Embora rapidez e agilidade não fossem qualidades que um dia ela sonhara ter, não podia deixar de sentir um certo orgulho dos seus novos talentos. Tudo o que ela queria era saber a que espécie aqueles novos talentos pertenciam.
Ela estava a meio caminho do riacho quando sentiu. A mesma sensação de estar sendo seguida. Os pelos da sua nuca se eriçaram. Lembrou-se do aviso de Burnett para que só andassem nas trilhas e ficassem longe dos bosques.
Tentando ouvir, e esperando ouvir qualquer coisa que não fossem passos sobre o chão de terra, ela se sentiu melhor quando os sons normais da floresta encheram seus ouvidos. Quem quer que estivesse por perto não parecia um presságio tão ruim a ponto de silenciar os passarinhos e os insetos.
Não que ela estivesse disposta a pautar a sua vida na sabedoria dos passarinhos e dos insetos. O sentimento era forte demais... havia alguém ali. Como ela deveria agir?
A lógica dizia para ela continuar seguindo em frente; voltar só iria servir para distanciá-la ainda mais de quem pudesse ajudá-la, caso estivesse mesmo em apuros. Seus pensamentos voaram para as garotas que tinham perdido a vida na cidade e, por mais incrível que pareça, ela começou a correr ainda mais rápido.
Em menos de um minuto estava em meio a uma clareira. O brilho do sol ofuscou seus olhos e ela pôde ouvir os outros campistas rindo e mergulhando na água. Ao ver que ninguém a atacava, que nenhuma presença maligna aparecia, usando uma camisa ensanguentada e tentando arrastá-la para a floresta, ela se perguntou se a sensação de ser observada não seria coisa da sua cabeça. Será que estava paranoica?
Ela parou na clareira, ao lado de uma árvore, para recuperar o fôlego, sentindo-se totalmente extenuada com a corrida. A respiração tinha quase voltado ao normal quando viu Derek se aproximando. Ele usava apenas uma sunga. O peito, nu e molhado como na outra noite em que ela o vira no chuveiro. A sunga era de um modelo comum, um pouco folgada para ele, até um pouco larga na cintura, mas estava tão molhada que se moldava perfeitamente às suas formas. Como ela sabia como ele ficava sem ela, Kylie quase perdeu o fôlego outra vez.
— Ei — ele a saudou e, quando seu olhar pousou na boca de Kylie, ela soube que ele queria beijá-la. Ele olhou em volta e viu que tinham uma plateia. Então, em vez de beijá-la, ele estendeu o braço e pegou a mão dela. — Vem, a água está ótima!
E estava mesmo. Durante toda a hora seguinte, Kylie jogou voleibol na água, mergulhou no riacho, observou o padrão mental de todo mundo e se esqueceu completamente dos problemas que pesavam sobre os seus ombros. A única coisa que a desanimou um pouco foi ver Perry observando Miranda de longe. Ela de fato estava muito bem no seu biquíni e Kylie não era a única que tinha reparado. Todos os garotos lhe roubavam olhares, até mesmo Derek, enquanto Perry olhava feio para eles. Seus olhos ficavam negros, lembrando a Kylie os olhos de uma serpente.
E entre as brincadeiras na água e as risadas, Kylie não se lembrava da última vez – se é que existira de fato uma vez – em que tinha se divertido tanto.
Mas, então, todo o divertimento chegou ao fim quando ela viu Holiday vir correndo do bosque, em pânico, na direção deles.
A expressão dela ficava cada vez mais preocupada à medida que se aproximava. O que será que havia de errado? O olhar de Holiday encontrou o de Kylie e na mesma hora ela soube que o que quer que estivesse errado tinha a ver com ela.
Kylie começou a sair da água, mas seus dedos afundaram na lama do fundo do riacho quando ela se aproximou da margem. Todas as preocupações que tinha temporariamente esquecido se alinharam como peças de dominó na sua cabeça, e ela se perguntou que novo problema a esperava.
Selynn apareceu atrás de Holiday e seu olhar cruzou com o de Kylie também. Isso não era boa coisa.
Kylie encontrou Holiday na margem do riacho e ignorou Selynn de propósito.
— Alguma coisa errada?
— Temos um problema — o olhar de Holiday se desviou para o riacho e ela acenou para chamar alguém. Kylie se virou e viu Derek nadando para se juntar a elas.
— O que foi? — voltou a perguntar, ainda ignorando Selynn, que tinha se aproximado.
— Você, vem conosco — disse a lobisomem, com autoridade, agarrando Kylie pelo pulso. — Agora.

Um comentário:

  1. vixi oq será dessa vez? 😒
    ass: mary Herondale

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