24 de setembro de 2016

Capítulo 22

— Podemos conversar?
A voz de Lucas Parker despertou em seu corpo quase tantos calafrios quanto a leve pressão da mão dele em suas costas. Quase. Mas não tantos. Kylie se esforçou para não tremer enquanto ele a fazia se desviar de um grupinho que conversava a uns quinze metros à esquerda. Embora as palavras de Lucas formassem uma pergunta, o fato de ele estar andando e a conduzindo indicava que Kylie não tinha escolha.
O calor da mão do garoto na parte baixa de suas costas a fez se lembrar do sonho da noite anterior – aquele em que estavam nadando juntos. Isso, por sua vez, fez com que recordasse que tinha interrompido Lucas e a namorada naquele mesmo dia. Kylie piscou os olhos, rezando para não enrubescer demais.
— Sobre o que quer falar? — conseguiu a muito custo dizer, pois temia que fosse sobre ela e Derek. Lucas pareceu realmente furioso quando os surpreendeu na rocha – o motivo, Kylie não saberia dizer. Tentou parar, mas ele continuou puxando-a. A menos que quisesse cair de cara no chão, sua única alternativa era continuar pondo um pé na frente do outro.
Kylie acelerou o passo para alcançar Lucas. Então, viu bem à sua frente uma fileira espessa de árvores e por nada no mundo entraria ali na companhia de Lucas. Por nada mesmo!
— Pare! — gritou, desvencilhando-se da mão dele e deixando cair o telefone, que foi aterrissar na grama com um baquezinho surdo. Kylie quase aterrissou atrás.
Lucas a segurou pelo antebraço e a ergueu quase sem esforço. Contendo a respiração, ela percebeu que as costas da mão dele estavam encostadas na lateral do seu seio. Olhou bem para aquela mão, tremendo e com o coração aos pulos – por causa do medo e de algo mais. Esse “algo mais” tinha tudo a ver com o sonho da noite anterior e com o lugar onde a mão estava agora.
— Me solte — exigiu, perturbada.
Ele a soltou e ergueu as mãos.
— Não quero te machucar, Kylie.
— Como posso saber? — deu um passo para trás e esperou para ver se ele ia dizer algo sobre o fato de já conhecê-la. Ou mesmo lembrar que a tinha salvado de um bando de agressores. Então, ela retrucaria dizendo que ele matara o seu gatinho.
Mas Lucas não disse nada. Ficou olhando para ela com ar magoado. Como se tivesse esse direito.
Meu Deus! Será que ao menos se lembrava dela? Ou de Socks?
Lucas passou a mão pelo rosto e perguntou:
— O que foi aquilo?
O que foi aquilo?
Finalmente, entendeu.
— Derek sorteou meu nome. Estávamos apenas conversando. Ao contrário de você e sua namoradinha. Além do mais, não é da sua conta.
À luz brilhante do sol, Kylie notou a barba de Lucas, algo que a maioria dos garotos de 17 anos não tem. Mas então se lembrou de que ele era um lobisomem, o que talvez explicasse tudo. Ou seria ele apenas mais um desses garotos que amadurecem depressa e já exibem uma barba cerrada quando se formam no colégio?
— Vi muito bem como estavam conversando, mas não foi a isso que me referi.
— Nesse caso, lamento ter interrompido você e aquela garota — Kylie se abaixou e apanhou o telefone.
Quando endireitou o corpo, ele estava de cara amarrada, mas pelo menos não tentou dizer que Kylie não tinha interrompido nada.
Embora não soubesse como explicar, aquilo quase a aborrecia. Mas era melhor esquecer. O que havia de errado com ela? Uma hora antes, queria que Derek a beijasse; e agora ficava toda assanhada com o cara que tinha esfolado seu gato?
Stress – concluiu.
stress sem dúvida tinha mexido com os hormônios dela. Ou tinha sido o tumor no cérebro? Lucas soltou um suspiro.
— Também não foi a isso que me referi. O que a UPF queria com você?
Kylie pressionou a palma de uma das mãos contra a têmpora esquerda para acalmar a dor e pensar numa resposta. Mas não estava certa de poder encontrar uma.
— Não sei — ignorava quais fossem as suspeitas da UPF e por isso não tinha nenhuma explicação a dar.
Lucas apertou os olhos.
— Como assim, não sabe?
— Eu não sei. Nada tem feito sentido para mim ultimamente.
Lucas, cético, parecia querer mais detalhes. Mas por que estava perguntando aquilo? Teria ele algo a ver com as suspeitas que a UPF nutria contra Kylie? Agora, ela própria começava a ficar desconfiada.
— Mas por que quer saber?
— Eles estavam por aí — respondeu Lucas — e notei que Holiday não gostou nem um pouco. Perguntei a respeito, mas, segundo me disse, não tenho com que me preocupar. Mas, se algo acontecer, quero ajudá-la.
Kylie lembrou-se de que Holiday tinha trazido Lucas com ela na noite anterior, quando ela teve o sonho. Talvez os dois fossem amigos, mas, se Holiday tinha preferido não dizer nada, longe de Kylie interferir.
— Queriam falar comigo porque pensam que sou uma anomalia. Estão tentando me entender, como todo mundo aqui.
A desconfiança no olhar de Lucas diminuiu.
— Fizeram isso? Tentaram entendê-la?
Kylie fez que sim com a cabeça.
— Ao que parece, sou um verdadeiro enigma.
— As garotas geralmente são — disse Lucas com um sorriso. Um daqueles sorrisos que fazem o coração de uma garota disparar.
Mas Kylie se esforçou para não ceder e, mentalmente, pisou no freio. Em seguida, não querendo ficar ali parada com o coração disparado e precisando que Helen a examinasse para ver se não tinha nenhum tumor no cérebro, mostrou o telefone.
— Preciso fazer uma ligação.
Kylie levou vinte minutos para encontrar Helen. Durante esse tempo enviou uma série de carinhas sorridentes para Sara, mas adiou a ligação. Agora que o problema da amiga tinha sido resolvido, podia se concentrar no seu próprio. E o próximo passo na lista seria ter seu cérebro examinado por uma certa fadinha.
Atravessando o refeitório, observou Helen, que estava sentada a uma mesa com o nariz enterrado num livro. Era o tipo da garota retraída, mas esperta, que nem precisa estudar para ir bem na escola, mas não se orgulha disso.
— Oi — disse Kylie, vendo que Helen não havia notado sua presença.
Com um sobressalto, ela levantou a cabeça. Uma mecha de cabelos cor de palha caiu sobre seu rosto e ela a repôs no lugar.
— Oi.
Kylie abria a boca para falar quando percebeu que seria bem difícil lhe pedir para checar seu tumor. O silêncio ficou pesado e Kylie começou a gaguejar:
— Eu... Eu apenas...
Ouviram um barulho do outro lado da sala e Kylie olhou para ver o que era.
— Sou Kylie Galen. Você e eu estávamos no grupo...
— Eu me lembro — disse Helen em tom suave.
Kylie não a conhecia. Mas identificou-se com ela instantaneamente. Era outra desgarrada. Uma solitária. Kylie desejou que tivesse alguém como Sara para simplificar sua vida.
— Podemos conversar? — perguntou. — Em outro lugar?
Helen, depois de dar uma olhada nos colegas, pegou o livro e a mochila.
Quando saíam, Kylie notou vários grupos de adolescentes famintos se aproximando do refeitório. Apressou o passo para ficar bem longe deles e tentou de novo encontrar as palavras certas para falar com Helen.
— Estava me perguntando se... Eu...
— Derek me disse.
— Disse? — Kylie sentiu um aperto no peito ao se lembrar de que Derek estava tentando ajudar. E, logo depois, uma certa culpa por ainda não ser capaz de confiar nele. Mas estaria errada em desconfiar de seus sentimentos por alguém que podia controlá-los tão facilmente quanto respirava?
— Há um lugarzinho sossegado atrás do escritório — disse Helen.
— Não, lá não — achava que Lucas não apareceria de novo, mas convinha não arriscar.
Notou que o caminho para a sua cabana estava deserto e tomou aquela direção. Passaram por um grupo de garotos que riam de algo que um deles dissera. Bem no meio estava a namorada de Lucas; e antes que Kylie pudesse se virar para o outro lado, os olhos dela se encontraram com os seus. A garota soltou um palavrão. Por que odiava tanto Kylie?
Tentando esquecer Lucas e a namorada, Kylie voltou-se para Helen.
— Acha que pode me ajudar?
Helen deu de ombros e tudo nela, da expressão à postura, revelava incerteza.
— Só fiz isso uma vez, com minha irmã. Vou tentar, mas...
— Mas o quê? — perguntou Kylie, enquanto ainda desciam a trilha.
— Você não está com medo?
— Deveria? — e Kylie parou subitamente.
Helen deu novamente de ombros, em sinal de insegurança.
— Talvez. Não sei. Só o que sei é que eu mesma fico apavorada.
Só faltava isso! Kylie, nervosa, engoliu em seco.
— Vai doer ou coisa semelhante? — e, como Helen não respondeu.
— Machucou sua irmã?
— Não — disse Helen.
Kylie suspirou, aliviada. Outros pensamentos lhe ocorreram, mas então lembrou de que precisava ir fundo em tudo aquilo.
— Tenho que saber.
Helen levou Kylie para trás de uma fileira de carvalhos enormes, tirou a mochila e ergueu os olhos.
— Como vamos fazer? — indagou Kylie, com um nó na boca do estômago.
— Honestamente, não sei. Com minha irmã, eu apenas... Estávamos brigando. Ela tinha roubado meu diário. Então, de repente... — Helen suspirou também.
— Quer dizer que precisamos começar uma briga? — perguntou Kylie, sem saber bem o que a outra queria dizer.
— Não — Helen sacudiu a cabeça. — Foi como se... Você sabe como entramos na mente das pessoas...
— Não, não sei — replicou Kylie, num tom de voz que a frustração tornava mais sombrio, enquanto a dor de cabeça voltava como que para se vingar.
A surpresa se estampou no rosto de Helen.
— Você realmente não consegue visualizar os padrões cerebrais dos outros? Pensei que todos podíamos fazer isso.
— Eu não consigo — confessou Kylie. — E é esse o motivo que me faz pensar que não sou como vocês — juntou as mãos para disfarçar o tremor e sentiu o coração disparar à ideia de que realmente pudesse ter um tumor. Em seguida, voltou ao problema da leitura de cérebros. — Você sempre foi capaz disso? Sempre?
— Mais ou menos. Quer dizer... Eu podia visualizar, mas não sabia o que estava fazendo. Achava que era como fechar bem os olhos e ver aqueles borrões vermelhos de formatos diferentes. Mas agora que sei do que se trata, tudo está mais claro.
Seus olhares se encontraram e Helen arqueou as sobrancelhas.
— O que está vendo? — perguntou Kylie, com o coração disparado.
— Apenas o seu padrão — Helen continuava olhando, sem foco quando Kylie observava um daqueles desenhos que, quando examina por muito tempo, podem revelar uma imagem oculta. — Você não é... Uma pessoa normal. As pessoas normais têm ondas regulares. As suas... Sobem e descem, sem falar nesse traçado esquisito. Mas não está deixando que a leia.
— Não sei como deixar que você me leia — Kylie mordeu o lábio e procurou se concentrar em Helen para tentar ver alguma coisa. Nada aconteceu, mas os olhos delas se cruzaram.
Piscando, Kylie perguntou:
— Preciso deixar que me leia antes que você possa descobrir se tem um tumor?
— Não, mas... — Helen firmou os olhos.
— Mas o quê?
A garota deu um longo suspiro.
— Como eu disse, não sei como funciona. No caso de minha irmã, coloquei as mãos... — Helen colocou as mãos de cada lado da cabeça de Kylie. — Eu estava... Agarrando a cabeça dela — hesitou um instante. — Quer que eu tente?
Kylie concordou, embora isso fizesse seu pulso acelerar. Helen segurou a cabeça de Kylie com as mãos. Fechou os olhos, franziu a testa e apertou os lábios, concentrando-se. Kylie, ali de pé, olhava para ela e rezava para que ninguém aparecesse. Já podia ouvir os comentários: Kylie e Helen estavam se agarrando atrás das árvores. Que se dane.
Depois de vários segundos Kylie ia ficando cada vez mais assustada. Estava a ponto de pedir que parasse com aquilo quando sua cabeça começou a zumbir. O zumbido logo se transformou em calor. E, de repente, uma sensação reconfortante começou a se irradiar das palmas de Helen.
— Estou conseguindo — murmurou Helen, excitada. — Está funcionando.
O calor das palmas de Helen penetrou na cabeça de Kylie, que continuava olhando para ela na tentativa de decifrar sua expressão. O que Helen estaria vendo? Será que Kylie deveria ligar para a mãe e pedir que comprasse peruca? De modo algum sairia por aí careca. Aos poucos, a pressão das mãos de Helen contra a cabeça de Kylie foi se afrouxando. Suas mãos então penderam dos lados do corpo. Depois de respirar profundamente duas vezes, Helen abriu os olhos.
— E então? — gaguejou Kylie. — Tenho mesmo um tumor? Tenho?

Um comentário:

  1. Até que enfim, hehehe. Achei que era impulsivel ler a mente da Kylie.

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