18 de setembro de 2016

Capítulo 22

Quando prometi que ia impedir que o assassino de Lucia machucasse outra pessoa, talvez tenha forçado a barra um pouquinho.
Sei que Becca falou que tinha a impressão de tê-lo visto na cidade, e sempre havia uma pequena chance de ser verdade. Mas achei que era mais provável que isso fosse um sintoma do estresse pós-traumático, sua reação de fuga ou luta – e o fato de Lucia estar sempre pendurada nela como um estorvo – desencadeando um alarme falso.
Becca deve ter visto alguém que se parecia com Jimmy, e, incapaz de perceber se a ameaça era real ou não, seu corpo reagiu automaticamente, com níveis de batimentos cardíacos, respiração e estresse aumentando conforme ela tentava evitá-lo.
Qualquer pessoa que tivesse vários encontros desses, reais ou não, começaria a ficar maluca.
Era provável que Jimmy tivesse se distanciado bastante da cena do crime nos nove anos que se passaram desde a morte de Lucia. A chance de ele ainda estar numa área próxima era quase zero, e minha chance de conseguir rastreá-lo era menor ainda... não sem seu sobrenome e muita sorte.
E não acredito em sorte.
Bem na hora que eu ponderava sobre isso, Becca ergueu o olhar da pilha de lenços de papel que ela havia massacrado, e franziu o cenho para o pátio banhado de sol.
— Aquela é a irmã Ernestine?
Olhei para a mesma direção. A freira estava parada embaixo do portal do corredor mais próximo, os braços cruzados por cima do peitoral largo, olhando para nós com uma expressão de desaprovação... ou melhor: olhando para as trigêmeas, que ainda estavam ocupadas pegando moedas do chafariz, seus corpos mais dentro d'água que fora.
Flagra.
— Ah, é — falei com calma, e acenei para a irmã Ernestine. — Não se preocupe.
Errado. Preocupação. Várias e várias preocupações.
Becca evidentemente percebeu minha inquietação, pois puxou as mãos para longe das minhas e perguntou:
— Você não vai contar nada disso a ela, vai?
— Não, se você não quiser. Mas acho que devia contar para seus pais, Becca. Você passou por uma coisa realmente terrível e, de alguma maneira, conseguiu lidar com ela muito bem, ainda mais sendo tão nova... — Eu a vi estufar o peito ligeiramente diante do elogio, como uma flor se banhando ao sol. A confiança da coitadinha estava em ruínas, e dava para entender por quê. Vivia em estado de terror havia anos. — Mas você devia mesmo conversar com um profissional de saúde mental...
Ela me olhou, horrorizada.
— Eu falei com uma profissional! Você.
— Eu não sou profissional, Becca. Ainda estou na faculdade. Sou apenas estagiária aqui na...
— Mas você é mediadora!
Dei uma olhada na irmã Ernestine.
— Mais baixo, ok? Isso é para ficar entre mim e você. E eu faço mediações para os mortos. Você está viva, Becca.
— Não posso. — Ela balançou a cabeça. — Não posso falar para mais ninguém. Eu fiz isso uma vez, e.... e acabou em desastre.
— Espere um segundo. — A irmã Ernestine havia decidido que meu aceno foi casual demais para seu gosto e começara a atravessar o pátio em nossa direção. Fiquei sem saber com quem ela ia berrar primeiro, se com as trigêmeas ou comigo. Se fosse com as trigêmeas, e a irmã assustasse Lucia, ela ia receber uma boa, e provavelmente dolorosa, surpresa. Eu precisava tirá-la daquela reta antes que isso acontecesse, mas também precisava ouvir o que Becca diria, pois parecia uma informação vital.
Felizmente, a irmã E. não estava no auge de sua forma física e mancava mais que caminhava. Levava aproximadamente uma vida inteira para chegar aonde queria.
— Quando perguntei se você contou a mais alguém, Becca, você disse que não...
— Não contei. Jurei que jamais contaria. Mas, no segundo ano na Sagrada Trindade, os alunos foram levados a um Rito de Reconciliação... Sabe, a confissão, na cabine e tudo? E eu achei que, como era anônimo e o padre não podia me ver, eu podia contar para ele o que tinha acontecido.
Olhei para ela e pisquei.
— Peraí. Você contou para um padre da Sagrada Trindade sobre Jimmy?
Ela fez que sim.
— Pensei que... sei lá, achei que confessar para um padre não era a mesma coisa que denunciar. Eles não podem falar o que escutam no confessionário para a polícia, né?
— É — respondi, ainda em choque. — A confidencialidade do confessionário é absoluta. — Eu sabia disso porque estudei dois anos em escola católica e passei oito convivendo com um padre que por acaso é quem faz as confissões de meu namorado. Ele nunca me contava nada do que haviam discutido, por mais que eu fizesse chantagem. — Você contou tudo para o padre?
— Contei. Mas não foi nada do jeito que eles disseram que seria na aula de religião. Sabe quando você está lá e ver o rosto do padre por aquela janelinha, mas o padre não vê o seu, a não ser que você deixe?
Não sou católica, portanto nunca me confessei, mas tinha visto aquilo na TV.
— Claro.
— Então, depois que eu comecei a contar tudo, ele abriu a cortininha para ver meu rosto. E ainda perguntou meu nome. Eles não devem fazer isso, não é?
De repente, eu não estava mais prestando atenção no progresso da irmã Ernestine. Toda a minha atenção estava focada em Becca.
— Não, não devem. O que aconteceu depois?
— Bem, o padre falou que eu ia queimar no inferno por ter contado tantas mentiras, e que a única maneira de eu ser salva era se eu fosse à sacristia depois da escola para que ele pudesse me dar lições de fé pessoalmente...
Soltei um palavrão tão pesado que não choquei apenas Becca.
— Srta. Simon! — A irmã Ernestine estava a apenas alguns metros de distância, o véu flutuando atrás dela. — Posso, por favor, ter uma palavrinha com a senhorita?
— Um minuto, irmã. — Olhei para Becca e falei: — Preciso do nome desse padre.
— Não em um minuto, Srta. Simon. Agora. A missa vai terminar em um instante e não vou permitir...
— Becca. Qual era o nome dele?
— Ai, para quê? — Becca estava com os dois punhos sobre a boca com uma expressão de consternação. — Que diferença faz? Nunca fui nas drogas das lições de fé. Fiquei com muito medo. Voltei para casa naquele dia e falei para meus pais que odiava a Sagrada Trindade e que nunca mais ia voltar porque as meninas eram más, então meus pais deixaram que eu me transferisse para...
Graças a Deus. Os pobres pais sem noção da menina haviam feito pelo menos uma coisa certa.
— Preciso do nome do padre agora, Becca.
— Por quê? Fiz besteira? Você vai falar com ele?
— Não, você não fez besteira. E, se eu falar com ele, não vou mencionar você. Agora, qual era o nome dele?
— Padre Francisco — sussurrou Becca, olhando para o próprio colo. Estava coberto com tiras de papel que ela rasgou de tanto nervoso. — Foi o padre Francisco.
— Obrigada. — Antes de me levantar, com cuidado, peguei os óculos que ela havia jogado nas flores. Com a voz mais alta, falei: — Bem, acho que podemos parar por hoje, não acha, Becca? Becca e eu estávamos só conversando sobre A Letra Escarlate, irmã Ernestine, que ela está lendo para a aula de inglês.
— Estavam? — perguntou a irmã Ernestine, que estava ofegante quando finalmente chegou ao nosso lado. — Não sabia que você agora fazia sessões de tutoria no jardim.
— Acho que é uma mudança refrescante. Alguns estudos mostram que a exposição à natureza faz com que as pessoas se sintam mais energizadas, o que aumenta a sensação de bem-estar, causando uma maior retenção de informações.
— Isso pode muito bem ser verdade. — A irmã Ernestine olhou para Becca com a mesma intensidade de laser que sempre vejo nos olhos de Romeo quando mostro um pedaço de fruta. — Mas não seria muito bom para a Srta. Walters se ela se atrasasse nos estudos, e o sino para o segundo período já tocou, então acho que é melhor ela voltar para a aula.
— Ah, sim, claro. Foi bom falar com você, Becca. Lembre-se de tudo que falei. Você devia mesmo pensar em bater um papo com seu pai. Talvez com sua madrasta também. Ela não é de todo mal. — É claro que eu não tinha certeza em relação à última parte, mas me pareceu algo que um terapeuta diria.
Becca me olhou, desconfiada, enquanto juntava seus pertences.
— Tá bom. Talvez eu fale. Obrigada, Srta. Simon.
— Não esqueça isso. — Dei os óculos a ela.
— Não, tudo bem — respondeu Becca. — Não preciso deles. — Ela não usou a palavra mais, porém ela ficou no ar, como uma das várias borboletas-monarcas de asas douradas e negras.
Ela se virou e saiu andando. Com certeza era fruto de minha imaginação, mas ela pareceu um pouco mais alta que antes.
Caso fosse, provavelmente seria algo temporário. Ela havia passado por tanta coisa. Jamais “viraria a página”, uma expressão à qual alguns pacientes se prendiam como se fosse um colete salva-vidas. Quando eu vou virar a página e não ter mais essa sensação debilitante de ser responsável pelo assassinato de minha melhor amiga, doutora? Não havia como virar a página e esquecer o que Becca viveu. Seguir em frente era a expressão que a Dra. Jo gostava de usar.
O que era engraçado, porque era a mesma expressão usada por mediadores.
— O que foi isso? — falou a irmã Ernestine com o canto da boca para que, se Becca olhasse para trás, não visse que estávamos falando sobre ela.
— A senhora não acreditaria. — Pelo menos isso era verdade. — Caso eu pudesse contar, mas não posso. Ela me vê como conselheira, então tenho a obrigação profissional de manter tudo o que ela me contou em sigilo.
— Hummm — disse a irmã Ernestine, ainda olhando para Becca, que seguia pelo jardim. — E a senhorita sabe de sua obrigação profissional de não falar palavrões e não ameaçar nossos alunos e docentes, Srta. Simon? Porque a Sra. Temple acabou de fazer uma reclamação contra você por esses motivos. Parece que a senhorita aterrorizou a turma de geometria no primeiro tempo, hoje de manhã.
Engoli em seco.
— Sei também que há uma exceção à regra da confidencialidade entre aluno e conselheiro: quando o conselheiro fica sabendo de uma situação que pode colocar outros alunos em risco.
As sobrancelhas pálidas da irmã Ernestine se ergueram.
— Outros alunos? Que outros alunos? Por favor, não me diga que tem a ver com Sean Park. Sei que ele e Becca Walters formam dupla no laboratório de química. Aquele menino é inteligente demais. Sabia que ele estava aprontando alguma coisa. Srta. Simon, nós não podemos bancar esse tipo de coisa, não depois do que aconteceu com o padre Dominic ontem na casa daquela menina. O pai dela é um de nossos doadores principais.
— Não, irmã. Não tem nada a ver com Sean Park, nem com a escola. Quão bem a senhora conhece o padre Francisco da Sagrada Trindade?
Eu não fazia ideia do que a irmã Ernestine fazia nas horas vagas, mas esperava que não fosse jogar pôquer, porque ela tinha a expressão mais decifrável do mundo. Assim que falei o nome dele, a boca da irmã se contorceu como se ela tivesse mordido a comida mais azeda do universo.
Eu devia ter adivinhado. Até a irmã Ernestine tinha um ele. Talvez todas as mulheres solteiras do mundo tenham um ele. E homens também. Eu tive o desprazer de conhecer o ele de Jesse uma vez.
— Nossa — falei —, é ruim desse jeito?
Ela abrandou a feição imediatamente.
— Então você não estava discutindo livros com a Srta. Walters, no final das contas.
— Não. Então, o padre Francisco. O que a senhora sabe?
A irmã Ernestina parecia incomodada.
— Não vou discutir meus sentimentos pessoais em relação a outro educador com uma estagiária. Ainda mais quando três alunas minhas estão mergulhadas até os joelhos no chafariz que vem sendo preservado desde o século XVIII...
Dei uma olhada para as meninas.
— Elas estão se divertindo horrores.
— Eu me preocupo com o chafariz, Srta. Simon, e não com suas sobrinhas.
— Olhe, irmã, me desculpe — falei, correndo atrás dela em direção ao chafariz. Quando queria, a irmã conseguia andar bem rápido. — Mas Becca está passando por um momento bem difícil. Ela nunca contou a ninguém, nem mesmo para os pais, o que acabou de contar para mim. Estou torcendo para que ela escolha falar tudo voluntariamente. Mas, caso não fale, vou precisar de algum tempo para juntar informações antes de poder fazer uma denúncia.
— Fazer uma denúncia? — A irmã olhou para mim intensamente. — Contra o padre Francisco?
— Bem, ele definitivamente está envolvido na história. Eu estava pensando em dar uma sondada na Sagrada Trindade para pegar mais informações... mas não se preocupe, por favor — adicionei rapidamente —, não vou falar que tenho vínculos com a Academia da Missão. Devo precisar do resto da tarde, no entanto.
Para minha surpresa, a irmã Ernestine disse um “claro, tudo bem” com a mesma casualidade que usaria caso eu tivesse pedido uma caneta emprestada.
O choque foi tão grande que fiquei sem saber o que falar por alguns instantes. A irmã usou o espaço para continuar, com tom severo:
— Mas não se esqueça de que não denunciar um ato de abuso infantil até 36 horas depois de se tomar conhecimento de tal pode resultar em multa, seis meses na cadeia, ou ambos. É o Código Penal do Estado da Califórnia. Então, se aquela menina falou alguma coisa sobre o padre Francisco, ou qualquer outra pessoa, você tem a obrigação de dar queixa. Só porque o homem é bonito e padre não quer dizer que vamos acobertá-lo. Estou no comando, agora que o padre Dominic está no hospital, e o que eu falo precisa ser feito.
E com esse discurso extremamente chocante, ela se virou para berrar com uma força impressionante:
— Vocês aí! Emily, Emma e Elizabeth Ackerman! Fora do chafariz neste instante!
As meninas saíram tropeçando imediatamente do chafariz. Eu teria feito o mesmo. Sabia muito bem como era receber os comandos da irmã; eram como chicotadas.
O que não me era familiar era ser aliada a ela. Mas, de repente, era isso que eu era. E eu não sabia por quê.
Mas gostei da sensação.
— Irmã — falei —, obrigada. E não se preocupe comigo. Vou dar um jeito nesse negócio com o padre Francisco, seja lá o que...
— Vai, sim. Se eu voltar aqui em cinco minutos e ver qualquer uma de vocês neste pátio — gritou a irmã Ernestine enquanto ia embora —, vocês não vão ter intervalo nenhum até o final do dia. Entenderam?
Nossa. Freiras são duronas. Mas talvez precisem ser.
As meninas, apavoradas, começaram a calçar suas meias e seus sapatos. Lucia, que não se deu o trabalho de tirar as botas de montaria, procurou Becca. Quando viu que ela não estava ali, começou a parecer aborrecida... até que me viu. Viu também que a irmã Ernestine estava se afastando, indo em direção ao prédio onde as aulas aconteciam. Lucia veio correndo até mim.
— Você e Becca terminaram de conversar? — perguntou, quando chegou ao meu lado.
— Hum — respondi, ainda olhando para a irmã Ernestine. — Terminamos. Foi uma boa conversa. Becca me contou como você morreu.
Esperei para ver que tipo de reação ela teria, mas fora um pequeno franzir da boca, que já era pequena, ela não fez nada. Senti que era tranquilo continuar falando.
— Eu vou tentar achar o homem que machucou você, Lucia. Sei que não quer que ele machuque Becca, nem mais ninguém. Você faz alguma ideia de onde ele está?
Lucia pensou um pouco, então finalmente disse:
— Na floresta. Ele me jogou naquele riacho. Eu machuquei a cabeça. — Ela olhou para mim e piscou de maneira acusativa. — Ele ainda deve estar na floresta... se ao menos alguém fosse procurar...
Se ao menos alguém fosse procurar. Os fantasmas – especialmente se morreram enquanto jovens – costumam ficar confusos em relação ao tempo, acreditando que tudo parou depois de sua morte. Para Lucia, Becca sempre teria 7 anos, e o assassino sempre estaria no lugar onde ela morreu, assassinando-a várias e várias vezes.
Ninguém merecia existir dessa forma.
Mas era a isso que Paul achou que Jesse merecia ser condenado, pelo simples crime de ter impedido que ele conseguisse o que queria: eu.
— Está bem, Lucia — falei. — Obrigada. Vou encontrar Jimmy e fazer com que ele nunca mais incomode Becca. Está bem?
Eu não tinha como saber se isso ia dar certo. Só podia torcer que sim. Lucia pareceu aceitar minha promessa. Fez que sim com a cabeça. Afinal de contas, o único foco dela era Becca. E, por algum motivo, a paternidade de minhas sobrinhas.
— Tome. — Flocos colocou uma quantidade grande de moedas encharcadas em minha mão, que eu fui idiota de esticar quando ela falou tome. — Acho que são uns 45 dólares.
— Não são, não. Alguma de vocês, por favor, tire isso de mim. É muito nojento.
— Duzentos dólares? — perguntou Flux, unindo as mãos em concha para que eu pudesse transferir as moedas para elas.
— Não — falei. — Não chega nem perto.
— Trezentos milhões de dólares! — berrou Rabo de Algodão.
— Não. Por favor, pare de berrar.
— São sete dólares e 65 centavos — disse Lucia. — Já contei.
— Tudo bem. Agora vão lá e coloquem tudo de volta. Eu dou os sete dólares e 65 centavos mais tarde; se vocês conseguirem dividir esse valor entre vocês, o que duvido muito.
As irmãs gemeram, mas eu as escutei concordando que era a coisa certa a se fazer enquanto Lucia as guiava de volta ao chafariz.
— Porque — lembrou a fantasminha com seriedade — é pecado roubar os desejos das pessoas.
Também é pecado roubar a vida das pessoas. E eu estava determinada a fazer com que a pessoa que roubou a dela pagasse por isso.

3 comentários:

  1. Chorei com esse finalzinho: " É pecado roubar a vida das pessoas".
    Lucia é um anjinho, tadinha!

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    Respostas
    1. Pensei que tinha sido só eu

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  2. A Suze vai fazer m* como sempre.

    Gente cadê o Paul? (Sim, ele é o cara mal, mas eu gosto dele...)

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