30 de setembro de 2016

Capítulo 21

Kylie ouviu batidas na porta do seu quarto menos de três minutos depois de desabar na cama, puxar as cobertas sobre o rosto e se entregar às lágrimas.
— Vá embora! — ela gritou.
A porta se abriu. Ela descobriu o rosto com raiva, esperando ver Holiday. Mas, não. Derek estava parado ali com um olhar preocupado.
Vê-lo só serviu para que ela chorasse mais ainda. Ela chorava pelo seu pai e chorava porque se sentia muito mal por sonhar com Lucas. Derek aproximou-se da cama e puxou-a de encontro ao seu peito. Se percebeu o sentimento de culpa dela, não disse nada. Só ficou ali, aninhando-a em seus braços. E ela o amou mais ainda por fazer isso também.
Ela enterrou a cabeça no ombro dele e continuou a soluçar. Não se importava de estar molhando toda a camisa dele com suas lágrimas. Era tão bom sentir os braços dele em volta dela e, embora ele não dissesse nada, o jeito como a abraçava lhe dava a certeza de que ele não se importava em manchar a camisa. Isso era bom, porque quando ela começava a chorar, não parava mais.
— Ei? — Outra voz soou na porta do quarto.
Kylie se afastou de Derek e viu Della e Miranda paradas ali.
— Eu posso transformá-lo num sapo se você quiser — disse Miranda, agitando seu dedinho cor-de-rosa. — Ou talvez num gambá. Já tenho prática.
Socks, que estava dormindo nos pés da cama, levantou a cabeça, miou alto como se concordasse e depois se escondeu debaixo da cama.
Della rosnou.
— E eu poderia arrastá-lo para cima de uma árvore e deixá-lo cair de cabeça algumas vezes até ele desmaiar.
Kylie chorou mais ainda e, então, por algum motivo, começou a rir. Secando as lágrimas, olhou para as três pessoas mais lindas do mundo.
— Eu disse mesmo tudo aquilo na frente de todos os pais?
— Disse. Acho que meu pai teve um infarto — Della comentou, com um sorriso de orelha a orelha. — Mas foi bem na hora certa. Porque ele estava me atormentando por causa das drogas outra vez.
— Minha mãe quase desmaiou — disse Derek, achando graça.
Então todos começaram a rir. Kylie jogou-se contra Derek novamente. Quando ela se afastou, passou as mãos no rosto e olhou para cima.
E foi então que aconteceu. O mundo todo pareceu se abrir para Kylie como nunca tinha acontecido antes.
Ela piscou. A princípio, achou que devia haver alguma coisa errada com seus olhos. Mas estava enganada. Não havia nada de errado. Ela simplesmente conseguia ver dentro da mente de todos eles. Podia ver do mesmo jeito que vira o interior da mente de Daniel também. Ela, Kylie Galen, podia finalmente ver padrões sobrenaturais.
— Eu estou conseguindo ver, gente! Finalmente! — Ela pulava sentada na cama. — Caramba! Estou conseguindo!
— Conseguindo o quê? — perguntou uma voz conhecida perto da porta.
Ele não a chamou de “fofinha” dessa vez, mas ela reconheceu a voz do pai. Ele estava parado ao lado de Holiday, que fitava Kylie com um olhar de quem pedia mil desculpas. Obviamente, o pai a tinha obrigado a levá-lo até sua cabana.
— Posso ter uma palavrinha com a minha filha a sós? — perguntou o padrasto, entrando no quarto.
— Só se ela quiser — respondeu Derek, num tom de voz firme que o fazia parecer mais velho.
Kylie pousou a mão sobre o braço dele.
— Tudo bem.
Derek se levantou da cama, mas não tirou os olhos do pai dela nem por um instante. Para crédito do pai, ele só ficou parado ali e aceitou o olhar zangado de Derek como se soubesse que o merecia. Della chegou a rosnar e Miranda fez um gesto brusco com o dedo mínimo, como se se preparasse para lançar um feitiço sobre ele.
Kylie esperava se lembrar de dar em cada um deles um grande abraço de agradecimento mais tarde.
— Vamos lá, pessoal — disse Holiday, acenando para que saíssem do quarto. Depois que todos tinham saído, Holiday estendeu o braço para a maçaneta da porta, ao mesmo tempo que fitou Kylie nos olhos com um ar preocupado.
Kylie dobrou os joelhos junto ao peito e abraçou os tornozelos. O coração devia estar acelerado, porque ela o sentia bater na garganta. Olhou então para os próprios joelhos cobertos pelo jeans e não para o pai, porque isso só lhe causaria mais dor.
Além disso, se olhasse para ele, poderia começar a chorar de novo e ela não queria fazer isso.
Ele se sentou ao lado dela, na cama de solteiro. Pelo canto do olho ela o viu entrelaçar as mãos sobre o colo. Ouviu-o respirando fundo. Ela respirou fundo também.
E fechou os olhos.
Cedo ou tarde, um deles tinha que falar. Mas pela primeira vez ela decidiu não ser a pessoa mais adulta ali. Deixou que ele se encarregasse de tudo.
— Estraguei tudo — ele finalmente disse. — Nunca pensei que eu pudesse estragar tudo desse jeito.
Abrindo os olhos, ela se obrigou a olhar para ele. A primeira coisa que notou era que ele parecia seu pai de novo. Não estava usando jeans apertado. Seu cabelo estava penteado para trás, em vez de espetado com gel. E ele ainda tinha luzes no cabelo, mas agora não pareciam tão ruins.
— Não culpo você por estar furiosa comigo, mas eu te amo de verdade, Fofinha. — Ele pousou a mão no joelho dela e seu toque enviou pequenas alfinetadas de dor ao seu coração. Seus olhos se encheram de lágrimas.
Ela piscou, mas não confiou na firmeza da própria voz a ponto de dizer alguma coisa. E, mesmo que confiasse, não estava certa do que dizer.
— Eu nunca quis magoar você — ele continuou. — Nunca pensei que você estaria na cidade aquele dia. — Ele balançou a cabeça, fechou os olhos e, quando os abriu, ela viu algo que nunca tinha visto antes. Seu pai estava chorando. Lágrimas de verdade. A dor em seu peito duplicou.
— Não sei o que deu em mim, Kylie. Perdi a cabeça. Fiz 40 anos e então sua avó ficou doente e morreu. — Ele inspirou o ar. — Tudo o que eu pensava era que estava ficando velho. Então Amy, a garota do escritório, começou a flertar comigo e me fez esquecer tudo por um tempo. — Soltou uma golfada de ar. — Fez com que eu esquecesse que as pessoas mais importantes do mundo para mim são você e a sua mãe.
Kylie sabia que era a vez dela de falar, mas ainda não sabia o que dizer. Não podia dizer que o perdoava, porque não era verdade. Então um pensamento lhe ocorreu.
— E a sua namorada terminou com você? É só por isso que você está aqui agora?
— Terminou. — Ele parecia envergonhado. Kylie se surpreendeu ao ver que ele nem tentara negar. — Mas não é por isso... Eu já tinha percebido o quanto confundi as coisas antes de terminarmos.
Ela se lembrou da mãe lhe dizendo que o pai merecia alguém que o amasse tanto quanto ele a amara todos aqueles anos. Foi nesse momento que ela sentiu uma pequena parte dela se rendendo. Ela não podia ficar com raiva dele para sempre. Simplesmente não podia. Talvez estivesse pronta para perdoar.
Ele estendeu o braço e afagou o cabelo dela, como sempre fizera durante toda a sua vida.
— Amo você, Kylie. Você é minha filha.
Não, não sou. Ela se lembrou de que ele tinha feito a mãe prometer que não contaria a ela sobre o seu pai verdadeiro e a raiva voltou.
Ela esfregou as bochechas para secar as lágrimas. Depois ofereceu a ele a única coisa que tinha dentro dela.
— Estou magoada e com muita raiva de você agora. Quando parar de doer tanto, talvez eu consiga te perdoar. Mas não agora.
Ele concordou com a cabeça. E ela viu uma lágrima cair dos olhos dele. Ele a limpou e depois se inclinou e pressionou os lábios suavemente na testa dela.
— Amo você, Fofinha. Só não se esqueça disso.
Quando Kylie o viu se levantar para ir embora, ela percebeu que não conseguir perdoar uma pessoa não significava deixar de amá-la. Ela deu um pulo da cama e enlaçou o pescoço do pai. Ele a abraçou de volta. Um abraço apertado. E foi tão bom chorar no ombro dele... Lágrimas grossas. Lágrimas de dinossauro, como ele dizia quando ela era pequena.
Ela sabia que em poucos segundos ela teria que deixá-lo partir, e que ainda não tinha dito que o perdoava, porque não tinha. Mas durante alguns segundos ela queria sentir que o pai a amava. E, embora ainda não estivesse pronta para dizer coisa alguma, ela esperava que ele entendesse que ainda o amava.
Alguns minutos depois de o pai ir embora, Kylie ainda estava estirada cama quando Holiday bateu na porta.
— Você está bem? — A cabeça de Holiday apareceu na porta.
— Estou tentando ficar.
Kylie ainda não tinha parado de chorar. Mas algo no abraço do pai tinha aliviado um pouco da dor.
— Se importa se eu lhe fizer companhia ou prefere ficar sozinha?
— Uma companhia seria bom. — Ela olhou para Holiday. — Está todo mundo aí fora ainda?
— Não, só eu — disse Holiday, entrando no quarto. — Eu os fiz voltar e passar mais um tempo com os pais.
— Ótimo — disse Kylie. Depois ela se lembrou da cena que tinha feito no refeitório. — Me desculpe por tudo. Eu simplesmente surtei.
— Não se preocupe... — Holiday sentou-se na cama, ao lado de Kylie. — Precisamos de um pouco de ação por aqui também. Como sempre digo, se algo fora do comum não acontecer a cada quinze minutos, é porque tem algo errado aqui — ela riu.
Kylie sorriu e depois se lembrou; o entusiasmo encheu seu peito.
— Eu consegui. Eu... — Ela arqueou as sobrancelhas e olhou para Holiday. — Estou conseguindo agora. Posso ver o seu padrão. Você tem algumas linhas horizontais e... figuras triangulares do lado esquerdo.
— Isso é maravilhoso! — exclamou Holiday, abraçando-a. — Eu sabia que uma hora ia acontecer. Parabéns!
— Mas isso significa que também estou me abrindo para as outras pessoas? Elas podem me ler agora e não vou parecer mais uma fresca esnobe? E posso... ai, Deus. — Ela começou a ter esperança. — Você pode ver o que eu sou? Olhe pra mim e me diga!
Holiday olhou para a testa de Kylie. A expressão dela respondeu à pergunta de Kylie antes que ela pudesse abrir a boca.
— Desculpe, mas você ainda é uma fresca esnobe. — Holiday riu. — Mas agora acontecerá a qualquer momento. Essa abertura requer mais prática. Você ainda está fazendo seus exercícios de visualização?
— Não com tanta frequência quanto deveria — ela admitiu. — Mas prometo que vou me esforçar mais.
— Você continua com a audição supersensível?
— Não. Por quê? Isso significa alguma coisa? — Será que Holiday sabia de algo que não estava dizendo? Será que ela voltara a achar que Kylie era um lobisomem?
— Não. Estou só curiosa. — Holiday estendeu a mão e arrumou uma mecha do cabelo de Kylie atrás da orelha. — Você está bem mesmo? Passou por maus momentos nos últimos dias.
— Nem me diga. — Kylie voltou a pensar nas garotas que tinham morrido. Ela olhou para Holiday. — E se... O que eu faço se aquelas garotas da cidade, os espíritos delas, quero dizer, quiserem pedir a minha ajuda.
— Isso não vai acontecer — garantiu Holiday, pegando nas mãos de Kylie.
— Como pode ter tanta certeza? Se os espíritos delas ainda estão aqui...
— Não vai acontecer — disse Holiday com mais certeza ainda.
E foi então que Kylie compreendeu.
— Elas te procuraram?
Holiday assentiu.
— Eu estou ajudando as duas a fazerem a passagem. — Então a líder do acampamento deu um grande abraço em Kylie. Seu efeito calmante era surpreendente.
— Agora, vamos falar de você outra vez — disse Holiday. — Está tudo bem?
— Não totalmente — respondeu Kylie, e depois revelou mais um fragmento de verdade que Holiday tinha o direito de saber. — Você estava certa. Eu me sinto um pouco melhor agora que vi meu pai. Mas ainda não o perdoei. Ainda estou furiosa, mas... sei que ele me ama. E eu o amo. E mais cedo ou mais tarde tenho certeza de que o nosso relacionamento vai voltar quase ao normal.
Holiday se inclinou para mais perto de Kylie.
— Também é normal surtar de vez em quando.
— Estou começando a me perguntar se algum dia vou saber o normal outra vez. — Kylie levou o dedo à boca e roeu o canto da unha.
— Bem, se você um dia soube, agora não gosta mais disso — brincou Holiday.
— Eu só quero descobrir todo esse mistério com o fantasma, se algum realmente precisa da minha ajuda ou não. Esses fantasmas fazem ideia do que nos fazem passar?
— Acho que não. — Holiday tocou o braço da amiga. — Mas eu realmente acredito que tudo vai ficar bem.
Por alguns minutos, as duas ficaram em silêncio. Kylie olhou para Holiday recostada na cama.
— Posso perguntar uma coisa?
Holiday arqueou uma sobrancelha para ela.
— Não envolve Burnett, não é?
— Não. Mas envolve garotos.
— Tudo bem, manda. — Holiday se endireitou na cama.
— É... normal a gente realmente gostar de uma pessoa e mesmo assim se apaixonar por outra?
— Está se referindo a Derek e Lucas, não é?
— É — disse Kylie, franzindo a testa. — Mas eu gosto mais quando não menciono o nome deles.
— Tudo bem. Sem nomes, então. Dois garotos. — Ela levantou o dedo indicador. — Primeiro, nem sempre podemos controlar a atração que sentimos por outras pessoas. Veja minha tia Stella, por exemplo. Ela é casada com o meu tio há 50 anos, mas é louca pelo ator Tom Selleck. Compra todos os DVDs dele e todas as séries de TV em que atua, passa horas todas as semanas diante da sua TV de 50 polegadas. — Holiday olhou para Kylie, como se percebesse que a história toda do Tom Selleck não estava adiantando muito. — Acho que eu já disse isso antes. Você é muito jovem para se preocupar com essas coisas.
— Você está errada — disse Kylie. — Por que eu não deveria me preocupar? Só porque sou jovem, isso não significa que não seja importante ser leal a uma pessoa. E mesmo sendo jovem dói quando alguém não é leal com você. Doeu muito quando Trey me trocou por outra garota. Doeu em Perry quando Miranda beijou outro cara e eles nem estavam juntos ainda. Tudo bem, admito que nesta idade as consequências não são tão desastrosas... como meu pai traindo minha mãe, mas ainda assim magoa. Então eu tenho que me preocupar, porque não quero magoar ninguém.
— Minha nossa! — Holiday franziu a testa e se levantou. — Falando assim, vejo que você tem razão. A errada sou eu. Me desculpe.
Kylie ficou olhando para a líder do acampamento por um momento.
— Eu acho muito legal você admitir que está errada. — Os adultos nem sempre fazem isso.
— Tudo bem se eu tentar dar mais um conselho? — Holiday perguntou.
Kylie concordou e Holiday refletiu por um instante.
— Posso apostar que isso tem a ver com o sonho que teve com Lucas.
— Pode apostar. Mas não vou confirmar nem negar.
Holiday sorriu.
— Kylie, você não fez isso de propósito. Nem sabia que podia entrar no sonho dele. Então, na verdade não tem culpa. E o fato de você se sentir atraída por mais de um rapaz é completamente normal. Eu conheci três caras que, bastava eu começar a pensar, e já começava a sentir um calor...
Kylie pensou com seriedade nas palavras de Holiday.
— Mas você sente isso mesmo quando realmente gosta de uma pessoa?
— Sinto. Mesmo quando eu estava noiva, ainda gostava de admirar um cara boa-pinta. — Ela fez uma pausa. — Só porque tem um compromisso com uma pessoa ou é fiel a ela, isso não significa que não possa se sentir atraída por outra. Significa que você não pode controlar esse sentimento de atração. — Ela sorriu. — Minha tia Stella, ela costumava dizer ao meu tio que era melhor ele rezar para Tom Selleck não aparecer na casa deles, convidando-a para sair. Mas a verdade é que sei que ela recusaria o convite. Ela ama meu tio Harry.
Holiday fez uma careta.
— Mas não me pergunte por quê. Ele é careca, barrigudo e ronca. — Ela deu uma risada. — Mesmo assim, tenho certeza de que essa mulher tinha fantasias realmente quentes com Tom.
Kylie riu e, então, ambas reclinaram-se na cama.
A parte mais larga da cama oferecia espaço suficiente para que as duas se esticassem no colchão, com os ombros se tocando. Por um segundo não falaram. Kylie olhou para o teto e finalmente formulou outra pergunta.
— Burnett é um dos caras que te dão esse calor?
— Sem perguntas sobre Burnett, lembra?
— Tudo bem — disse Kylie. — Mas seu eu fosse mais velha, ele daria calor.
Holiday achou graça.
— Daria em você e em quase todas as mulheres. Incluindo Selynn. — Sua voz tinha perdido o tom bem-humorado.
O silêncio reinou novamente. Talvez tenha sido a menção a Selynn e Burnett que levou Kylie à segunda pergunta.
— Lucas me disse nas cartas que estava tentando conseguir permissão para voltar ao acampamento. Você acha que ele vai voltar?
Holiday hesitou.
— Ele vai estar aqui amanhã ou terça.
— Fredericka vem com ele?
— Vem.
— Que ótimo! — Kylie murmurou. Então, se ela de fato se transformasse num lobisomem, Fredericka, que também estaria na forma de lobo, provavelmente a perseguiria e fatiaria seu traseiro. Seu dia estava ficando cada vez melhor...

Um comentário:

  1. Por mais que a Kylie esteja com raiva
    Do pai/ padrasto ela ttem que ver que só um homem de verdade seria capaz de assumir o filho de outro

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