30 de setembro de 2016

Capítulo 20

— Ele está fazendo mesmo isso, não está? Invadindo os meus sonhos. — O coração de Kylie se encheu de ressentimento.
Holiday balançou a cabeça lentamente.
— Não acho... quer dizer, é só um palpite, mas provavelmente não é ele.
— Ah, é ele, sim. Eu o vi. Ele fica perto assim de mim — disse Kylie, colocando a mão um palmo à frente do nariz. E mais perto ainda. Ela se lembrou de como ele a beijou.
— Não, eu não quis dizer que não seja ele no sonho. Quis dizer que não é ele quem invade os seus sonhos.
Kylie tentou decifrar o que Holiday estava dizendo. Ela continuou.
— O que está me contando é o que costumamos chamar de sonho lúcido, e eu nunca ouvi falar de nenhum lobisomem que tenha essa capacidade.
— Bem, então você agora conhece um, Lucas. — Kylie sentia sua raiva crescer, ao se lembrar do sonho em que eles nadavam. — E o que ele está fazendo... não deveria fazer.
Holiday ergueu a mão.
— ... no entanto, esse é um dom muito comum entre nós que temos capacidade para ver espíritos.
Kylie ficou paralisada ali, olhando para Holiday, sem querer acreditar no que ouvia.
— Você está dizendo... que eu... eu estou fazendo isso?
Tudo bem, Kylie já tinha metido os pés pelas mãos anteriormente, mas nunca tinha chegado a esse nível de insanidade.
Holiday se inclinou em direção a Kylie, com uma expressão de quem quase pede desculpas.
— É, é exatamente isso que eu estou dizendo, Kylie.
Kylie quase engasgou com a golfada de ar que inspirou.
— E a pessoa com que eu estou sonhando, ela... quer dizer, ela pode se lembrar do sonho? — Seu coração parou quando ela se lembrou do sonho, primeiro aquele em que nadavam, em que praticamente mostrou os seios para ele.
Ok, ela tinha de fato mostrado os seios.
— Algumas se lembram, sim — respondeu Holiday. — Outras não.
Obrigaaada, Jesuuuus! Ela, definitivamente, preferia pensar que não!
Holiday continuou.
— Porém, os sobrenaturais se lembram.
Tudo bem, retiro o agradecimento.
Kylie queria realmente morrer agora. Então se lembrou de Lucas dizendo, “Você é quem está no comando”.
— Então... seja o que for que aconteça nesses sonhos... Sou eu que controlo? Sou eu a responsável pelo que acontece no sonho?
Pela expressão de Holiday, ela tinha acabado de perceber a que Kylie estava se referindo.
— As nossas emoções muitas vezes guiam nossos sonhos lúcidos assim como fazem com os sonhos comuns...
— As nossas?... Você... tem sonhos lúcidos também? É, como se diz por aí, sofrimento detesta solidão...
Holiday ergueu a mão direita, juntando o polegar e indicador.
— Tenho pouco talento nessa área, mas, sim, já tive algumas experiências. — Ela esperou alguns segundos antes de continuar. — Você é quem está sempre no comando... se estiver no comando das suas emoções.
Bem, agora é que Kylie estava perdida mesmo. Quantas vezes ela não tinha admitido que não conseguia se controlar quando o assunto eram garotos, beijos, momentos a sós...
Holiday continuou.
— O responsável pelo sonho lúcido é quem arma o cenário para o sonho. Você oferece o roteiro para a pessoa com quem está sonhando, dependendo da sua habilidade, e essa pessoa ou pode recusar o roteiro ou tentar alterá-lo.
A cabeça de Kylie começou a latejar. Sem dúvida, de tensão.
— Mas parece tão real...
— É real, mas ao mesmo tempo não é. — Holiday esticou o braço e pegou novamente na mão de Kylie. Grande parte da tensão se desvaneceu. — Pense nisso como se fosse um filme. Se vai ao cinema com alguém, vocês dois passam pela mesma experiência. Vocês vivem as emoções, mas nada acontece de verdade.
Holiday soltou a mão de Kylie e se recostou na cadeira.
— Estou impressionada com essa sua nova capacidade, Kylie. Realmente impressionada. A capacidade de ter sonhos lúcidos é considerada um dom muito poderoso. Você pode aprender muito com ele e até ensinar outras pessoas por meio desse tipo de sonho. E muito poucos de nós têm a sorte de tê-lo.
Que sortuda eu sou, então disse Kylie, sem um pingo de entusiasmo.
— Esse dom não é um daqueles que a gente pode devolver, é? — perguntou, sentindo-se sufocada.
— Não, não tem devolução. Receio que já não haja mais tempo para recusar os seus dons. Quando aceitou se comunicar com os espíritos, você aceitou todos des. — Holiday sorriu. — Mas, pode acreditar, com o tempo vai aprender a controlá-los melhor. Estou falando sério, Kylie, esse é um dom muito especial.
Kylie cruzou os braços sobre os seus seios de tamanho extragrande e tentou absorver aquilo tudo. As palavras de Holiday martelavam na sua cabeça: Nunca ouvi falar de um lobisomem que tivesse esse dom.
— Então... se tenho esse dom, não vou me transformar num lobisomem segunda-feira?
Holiday não disse nada, mas Kylie já tinha visto aquele olhar no rosto da líder do acampamento. E ele era sinal de que ela estava tentando decidir se devia ou não dizer algo e como dizer de um jeito que não fosse tão chocante.
— Fala de uma vez! — insistiu Kylie. A essa altura ela já não se surpreenderia com nada.
Holiday franziu as sobrancelhas.
— Você consegue captar muito bem o que estou sentindo — ela disse.
— Muito bem mesmo — reforçou ela, como se aquilo significasse alguma coisa também.
Mas Kylie estava preocupada demais com aquela questão de ser ou não ser lobisomem para prestar atenção no que Holiday poderia estar pensando.
— O que está querendo me dizer agora?
Holiday balançou a cabeça.
— Falo sobre isso com você mais tarde. Mas já vou avisando que são apenas suposições. — Ela fez uma pausa.
— Tudo bem... — Kylie fez sinal com a mão para que Holiday se apressasse.
— Depois da nossa conversa de ontem, quando mencionou o lobo... Bem, Selynn e Burnett me disseram que... existe uma antiga lenda sobre lobos atraídos por lobisomens que supostamente estão numa posição mais alta na hierarquia.
— Então, eu sou algum tipo de lobisomem importante? — Droga, ela não queria nem ser um lobisomem comum, quanto mais um importante.
— Eu disse que estávamos apenas fazendo suposições. Porque, francamente, Kylie, todo o resto, o fato de você nunca ter se transformado, de ter outros dons que não são comuns entre lobisomens, não bate. Especialmente quando se leva em conta que quase todos os lobisomens com uma posição elevada na hierarquia são puros-sangues. Não têm sangue humano. Portanto, como pode ver, eu não quero que você comece a pensar que isso realmente significa alguma coisa. Porque, honestamente, não tenho certeza de nada.
— Ou pode ser que signifique algo muito importante — contestou Kylie, imaginando se um dia ia conseguir decifrar aquele enigma. Ou se estava fadada a passar a vida inteira sem saber o que realmente era.
Antes que Kylie deixasse o escritório, Holiday pediu a ela que a ajudasse a receber os visitantes, distribuindo água e café, e mantendo a ordem no refeitório durante o dia dos pais. Ela teve a impressão de que Holiday estava pedindo ajuda não porque precisasse de fato dela, mas porque tinha receio de que Kylie voltasse à sua cabana, caísse na cama e se entregasse a uma depressão profunda. Como Holiday podia de fato ler as emoções de Kylie, essa era uma grande possibilidade.
Agora, já preparada para o seu papel de anfitriã, Kylie viu a porta do refeitório se abrindo e vários pais entrando, ansiosos, à procura dos filhos.
Kylie reparou que o plano antidepressão de Holiday tinha uma falha. Ver pais ansiosos entrando no acampamento e abraçando os filhos não era exatamente uma cena animadora. Lembrar-se do telefonema da mãe e de quanto ela tinha ficado chateada por não poder estar presente ajudou-a a afugentar parte da melancolia. Mas aí seus pensamentos saltaram para o padrasto e as razões por que ele não tinha aparecido. Estava ocupado demais “batendo o martelo” com aquela namoradinha desengonçada!
Kylie virou-se de costas para o refeitório e começou a encher os copos água gelada.
Dez minutos depois, o barulho ao redor aumentou, à medida que mais pais chegavam. Kylie olhou em volta e seus pensamentos se desviaram para sua mãe outra vez. Mas não se detiveram nela por muito tempo. Não. Ela tinha coisas melhores em que pensar no campo de batalha em que se transformara sua mente. Como a descoberta de que tinha se esgueirado pelos sonhos de Lucas e dado a ele um roteiro onde se lia: tirar a roupa, ir nadar e dar uns amassos.
Não que ela estivesse reclamando.
Mas a pior parte, de acordo com Holiday, era saber que Lucas poderia se lembrar desses sonhos também. E, quando ele voltasse para o acampamento – se é que voltaria – ela teria que encará-lo.
Não. Definitivamente ela não queria pensar nisso.
Agarrou outra bandeja e começou a alinhar os copos para enchê-los com água.
— Você é Kylie, não é? — perguntou uma suave voz feminina, ao lado dela.
Kylie desviou os olhos da bandeja e olhou para cima. A mulher parecia ter cinquenta e poucos anos. Seus cabelos castanhos tinham um corte chanel e seus olhos verdes observavam Kylie com um sorriso.
— Sim, sou Kylie. — Ela se esforçou para corresponder ao sorriso e ficou satisfeita de ter conseguido. Levou mais um segundo para reparar na cor dos olhos e reconhecer a mulher. — Como vai, senhora Lakes?
Kylie olhou ao redor para ver se localizava Derek, achando que a mãe obviamente procurava por ele.
— Eu não o vi ainda, mas tenho certeza de que...
— Ah, ele está ali — disse a senhora, apontando para o lado oposto a que Kylie olhava. Kylie ficou tentada a se voltar para vê-lo, mas algo a impediu. Ela reconheceu a emoção no ato. Culpa. Culpa pelos sonhos.
Por favor não me decepcione, Kylie. As palavras de Derek ecoaram na sua cabeça e ela percebeu que ficaria arrasada se ela mesma soubesse que Derek estava nadando nu em seus sonhos com outra garota.
Voltando a fixar o olhar nos copos de plástico alinhados como peças de dominó na bandeja, ela torceu para que Derek não estivesse suficientemente perto para ler suas emoções.
A mãe de Derek colocou a mão sobre o braço de Kylie e se inclinou para mais perto dela.
— Eu disse a ele que vinha buscar um copo d’água.
— Ah, aqui está. — Kylie pegou um copo e estendeu-o para ela.
— Obrigada, querida — disse, dando uma piscadinha. — Na verdade eu só queria te conhecer e dizer... — ela se inclinou outra vez — que ele só fala em você.
O sentimento de culpa que Kylie sentia duplicou, mas dessa vez ela não conseguiu deixar de olhar para Derek por sobre o ombro da sua mãe. Ele fez uma cara de quem estava preocupado com o que a mãe poderia estar dizendo.
— Acho que meu filho tem um carinho especial por você — ela disse. Kylie voltou a olhar para a senhora Lakes, mas não soube o que dizer.
— Eu...
A mulher sorriu.
— Estou muito feliz que ele tenha feito bons amigos aqui. — Ela olhou para o copo d’água. — Não vou mais constranger você. Obrigada pela água.
Enquanto Kylie observava a mulher se afastar, murmurou para si mesma, “Eu também tenho um carinho especial por ele...” E tinha mesmo. Como não gostar de Derek? Ela gostava dele pelo seu jeito espontâneo e descontraído, gostava de ver como ele era agradável com todo mundo e não se achava melhor do que ninguém. E gostava dele por outros motivos também. A imagem de Derek nu no chuveiro passou pela sua cabeça. Ela realmente gostava dele...
Mas, então, por que ela não invadia os sonhos dele? Por que não era Derek que seu subconsciente buscava para realizar algumas das suas fantasias mais indecentes? Sentindo o rosto queimar de vergonha só de pensar nisso em público, ela olhou para baixo e se concentrou nos copos de água gelada.
— Oi, Fofinha.
Os pensamentos sobre suas fantasias imediatamente se dissiparam. Oi, Fofinha. Oi, Fofinha. Percebendo quem estava parado bem atrás, ela congelou. Mesmo que não reconhecesse a voz, só uma pessoa a chamava de fofinha.
Ela se virou e levantou os olhos para o seu pai... padrasto.
— O que está fazendo aqui? — ela despejou, com vontade de se jogar no chão, se encolher como uma bola e começar a chorar.
— O que acha que estou fazendo? Vim ver a minha garota. — Ele sorriu e olhou para ela do jeito que sempre fazia quando ela fazia algo engraçadinho ou quando mostrava o boletim cheio de boas notas.
Ela só tinha vontade de chorar. O aperto na garganta deixava isso muito claro.
— Você não me avisou que vinha. — Aquela era razão suficiente para brigar com ele? — Você devia ter me falado.
O olhar paterno amoroso rapidamente se transformou num olhar paterno infeliz.
— Eu teria falado se você tivesse atendido aos meus telefonemas — ele disse numa voz descontente. Não era um tom de voz que ele usasse muito, porque geralmente quem reclamava de tudo era a mãe.
— Estava ocupada — ela respondeu.
Os olhos dele se apertaram.
— Nós dois sabemos que eu mandei sete mensagens de voz, dois torpedos e vários e-mails. E eu não acho que você estivesse tão ocupada a ponto de não poder retornar pelo menos um deles. Até liguei para a líder do acampamento!
As lágrimas que ela queria reprimir começaram a se acumular assim como a raiva em seu peito. Mas a raiva era bem-vinda, porque encobria a dor. Kylie olhou nos olhos dele. Ele não tinha direito nenhum de ficar zangado com ela. Direito nenhum de lhe dizer que o que ela tinha feito era errado quando os erros deles tinham arruinado totalmente a vida dela. Arruinado a vida da mãe também.
— Você quer mesmo falar sobre certo e errado? — ela perguntou.
Para crédito dele, a expressão do pai foi do desagrado à vergonha em um milésimo de segundo.
— Acho que a sua mãe andou conversando com você. Droga! Ela realmente não devia lhe contar sobre os nossos problemas.
— O quê?! Você deve estar brincando. Você veio mesmo aqui para pôr a culpa na mamãe?
Ele piscou.
— Eu só... não acho que ela deveria falar sobre...
— Pode parar. — Kylie apertou as mãos para impedir que elas tremessem... ou que ela desse um soco no nariz dele. No momento, não sabia bem o que era mais provável. — A mamãe não me contou nada. — As lágrimas escorriam pelo rosto dela. — Ela não precisou me contar nada. Você me contou. Não, espere. Me expressei mal. Você não me contou nada. Você me mostrou.
— Do que você está falando, Kylie? — Ele se inclinou para mais perto dela e baixou a voz, como se sugerisse que ela fizesse o mesmo.
Mas ela estava com muita raiva, muito magoada para se importar com quem ouviria a briga entre eles. Ele a tinha abandonado. Tinha abandonado a ela e a mãe por uma vagabunda qualquer. A visão dele e da piranha aos beijos e abraços em frente ao hotel, no centro da cidade, apareceu diante dos olhos dela.
— Bem, primeiro você ficou paquerando a Holiday quando veio me visitar. Aquilo já foi bastante embaraçoso, mas então eu vi você na cidade aquele dia. E não estava sozinho. Vi você e a sua estagiária no centro de Fallen. Você quer saber por que me lembro disso tão bem, papai?
Ele abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas nada lhe ocorreu. Então ela continuou:
— Porque você estava enfiando a língua na boca daquela piranha enquanto ela metia a mão no bolso traseiro da sua calça. — Kylie piscou e sentiu mais lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Uma cena encantadora! — ela disse com sarcasmo. — É tão tocante ver o próprio pai praticamente passando a mão na bunda de outra mulher no meio da rua!
Instantaneamente, ela percebeu que todo o refeitório tinha ficado em silêncio. Droga! Será que tinha gritado aquilo no meio de todos os campistas e dos seus pais?
Ela olhou ao redor. Todos olhavam para eles. E pela cara de todo mundo não havia dúvida de que tinham escutado.
Tudo bem, agora ela realmente queria ter ouvido a sugestão dele de baixar a voz. Então deu meia-volta, sem olhar para o pai, sem olhar para ninguém, e saiu do refeitório, esperando que conseguisse cruzar a porta antes de começar a chorar de fato.
Ela teria corrido, mas exibir sua aptidão sobrenatural para velocista numa hora daquelas chamaria ainda mais a atenção de todo mundo. Então ela foi saindo devagar, fingindo que não tinha percebido as lágrimas umedecendo seu rosto.
Fingindo que seu coração não estava em pedaços.
Fingindo que não havia uns cem olhos fixos nela.
Mas ela não conseguiria fingir por muito tempo.
Aquilo tinha sido muito real... e a feria muito!

3 comentários:

  1. Gente essa autora tem fixação por peitos.... só fala em peitos 0_o

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!