24 de setembro de 2016

Capítulo 20

— Me diga o que é — pediu Kylie, pronta a aceitar qualquer tipo de ajuda. — A esta altura, eu tento qualquer coisa.
Bem, quase.
— Há uma garota aqui — começou Derek — que é fae também. Chama-se Helen.
— Eu sei quem é — disse Kylie. — Ela estava no meu grupo quando Holiday explicou por que viemos para o acampamento.
— Isso mesmo. O dom de Helen é a cura. Mas, quando nos falava sobre ela, contou que mesmo antes de o tumor da irmã ser descoberto, ela já podia vê-lo. Não acho que você tenha um, mas se estiver preocupada com isso, talvez Helen possa te examinar.
— É uma excelente ideia — concordou Kylie, quase se atirando nos braços de Derek. Mas conteve-se, calculando no último instante que essa atitude não seria das mais apropriadas. De fato, não queria de forma alguma dar a Derek esperança de serem algo mais que amigos. Pelo menos não no momento, murmurou uma vozinha dentro dela... A mesma vozinha que já lhe dissera como era bom ficar junto dele e que quase a levara a beijá-lo. — Muito obrigada.
— Não foi nada — ele lhe acariciou o queixo com as costas da mão e também isso a vozinha aprovou. — Por sinal...
— Por sinal... — incentivou Kylie.
Derek sorriu e o dourado de seus olhos pareceu se intensificar.
— Ainda há pouco, não foi só você que... Quer dizer, eu também quis que me beijasse.
— Mas somos só bons amigos — disse Kylie, esforçando-se para imprimir um pouco mais de convicção às palavras.
— Certo — concordou Derek, também sem convicção alguma na voz.
Quando chegaram ao acampamento, já estava quase na hora do encontro com Holiday. Kylie queria falar com Sara, então decidiu ir atrás do escritório, até o pequeno esconderijo que tinha descoberto na véspera.
Mas, ao contornar o edifício, constatou que não tinha sido a única a descobrir aquele local. Deu meia-volta, mas não com rapidez suficiente. Lucas, com sua namoradinha a tiracolo, estava diante dela. Ele fez uma careta e a Garota Gótica sorriu para, em seguida, abotoar a blusa sem constrangimento.
— Desculpe — murmurou Kylie. Afastou-se, mas, enquanto caminhava, sentiu um par de olhos azul-claros queimando suas costas.
Diante do prédio, avistou Miranda e Della de pé, gritando uma com a outra. A primeira ideia de Kylie foi deixá-las sozinhas; mas, vendo Sky, a outra líder do acampamento, saindo do refeitório, resolveu acalmar as duas antes que se metessem em confusão.
— Juro que, se você apontar mais uma vez esse dedinho cor-de-rosa pra mim, vou quebrá-lo! — rugiu Della. E, inclinando-se para Miranda: — Você sabe muito bem que sou capaz de fazer isso.
— Parem! — gritou Kylie, colocando-se entre as duas. Miranda desviou-se de seu corpo e ficou cara a cara com Della.
— E você, encoste um só desses malditos dedos em mim e vou te pôr um feitiço de espinhas como nunca viu antes!
— Você não pode me enfeitiçar — desafiou Della. — Seus reflexos são retardados.
— Parem com isso! — insistiu Kylie, percebendo que Sky olhava para elas. — Temos companhia.
— Feitiço de espinhas é comigo mesmo — gabou-se Miranda. Recuou, mas Della deu um passo à frente.
Sem dúvida, não gostava nada de espinhas.
— Olhe aqui, se me aparecer uma pintinha sequer no rosto, vou tirar seu sangue todo enquanto estiver dormindo e depois vender pela internet.
— Vão parar com isso ou não? — gritou Kylie, mas era tarde. Sky já se aproximava.
— Está tudo bem por aqui? — perguntou a líder gótica.
Sky pertencia também à espécie dos lobisomens, segundo tinham insinuado a Kylie, que ainda não conseguia identificar os sobrenaturais apenas observando-os. Miranda simulou um sorriso. Della tentou fazer o mesmo, mas só conseguiu arreganhar os dentes.
— Tudo bem — disseram as duas ao mesmo tempo. — Nós estávamos apenas...
— Discutindo? — Sky franziu a testa com ar acusador.
— Um pequeno desentendimento — explicou Miranda.
— Acabou? — quis saber Sky.
Della tomou a palavra:
— Ela derramou de propósito o sangue que guardei na geladeira.
— Não foi de propósito. O vidro caiu quando abri a porta.
— Tem sangue na nossa geladeira? — apavorou-se Kylie.
Sky revirou os olhos.
— Vocês precisam se entender — disse, fixando as pupilas escuras em Miranda. — Você, Miranda, é veterana aqui e por isso esperamos que se saia bem.
— Tá, vou ser boazinha com a turma dos que me detestam — esbravejou Miranda, afastando-se a passos largos.
Sky acompanhou-a com o olhar e depois se voltou para Kylie e Della.
— Resolvam suas diferenças dentro da cabana, não em público, do contrário Holiday e eu teremos de intervir... O que, posso lhes assegurar, não será nada bom — e, virando-se, Sky as deixou.
Kylie olhou para Della, que sorria parecendo não ter se importado nada com a advertência de Sky.
— E então, o que houve entre você e o carinha fae? — perguntou Della.
— Esqueça isso. Você e Miranda precisam parar logo com isso.
— Parar com o quê? — perguntou Della, dando de ombros.
— Vocês não podem continuar se ameaçando — ponderou Kylie e, no mesmo instante, viu a garota de Lucas se aproximando. Com as pálpebras cerradas de raiva, comprimia os lábios quando chegou perto de Kylie. Se olhares matassem, Kylie já estaria a um passo da decomposição. A garota passou por elas como um raio.
Com a ideia de morte pairando no ar, Kylie sentiu uma leve dor de cabeça, um latejar persistente na têmpora esquerda. A possibilidade de que realmente tivesse um tumor cerebral quase fez Kylie perder o fôlego.
— Ameaçar não é fazer — raciocinou Della. — Portanto, relaxe. Mas então, o que você e Derek andaram aprontando? Chegaram pelo menos ao básico?
— Não aprontamos nada — Kylie pressionou uma das palmas contra a têmpora. — Olha, gosto de você e de Miranda, portanto criem juízo e parem com as brigas antes que nos separem e eu tenha que engolir outra colega de alojamento — alguém como a namorada de Lucas.
— Não foi uma briga. Apenas um bate-boca.
— Você ameaçou vender o sangue dela pela internet — disse Kylie. — De onde venho isso seria considerado uma briga.
— Sim, mas agora você não está mais no seu mundo — as palavras de Della a acertaram em cheio, como só a verdade poderia fazer. Tudo havia mudado. Um garoto deu o próprio sangue para passar uma hora com ela. Ela tinha visto sapos – na realidade, tarados – pulando na mesa da cozinha e tinha examinado os genitais de um gato que no fim das contas nem gato era. E, era bom não esquecer, continuava sendo perseguida pelo soldado Dude. Sua cabeça latejou ainda mais. — Além disso, nunca venderia o sangue dela. Preferiria saboreá-lo gota a gota. Sangue de bruxa é doce.
Doce.
Kylie levantou a mão.
— Pare já com isso. Não aguento mais — consultou o relógio. Droga! Não teria tempo para falar com Sara. — Tenho que me encontrar com Holiday — avisou. — E pôr minha vida em pratos limpos porque, como Dorothy, não estou mais no Kansas — Kylie se virou para partir.
Della a pegou pelo braço.
— Ah, eu queria te dizer...
Kylie soltou-se.
— Espere — disse, erguendo a mão. — Tem algo a ver com sangue? — não suportava mais aquela conversa e ponto final.
Della fechou os olhos com força.
— Não — respondeu, com um tom de sarcasmo na voz.
— Então pode falar.
— Ou não — Della cruzou os braços. — Talvez eu devesse deixá-la cair numa cilada por querer ser tão espertinha — e ameaçou ir embora.
Cilada? Aquilo não parecia nada bom.
— Della, espere — pediu Kylie.
Della deu meia volta.
— Se eu te contar, vai pôr um fim nessa conversa de que “sangue é nojento”?
Era nojento mesmo.
— Vou tentar.
— Tentar é pouco — rebateu Della.
Kylie consultou de novo o relógio. Precisava encontrar Holiday, mas o aviso de Della sobre ciladas...
— Tudo bem, não vou dizer mais aquilo — prometeu Kylie, emparelhando-se com ela. — E agora me diga: que cilada é essa?
Della expirou com força.
— Sabe aqueles sujeitos de terno preto? Disseram-me que são do FBI.
— E o que fazem aqui?
Della levantou a cabeça.
— Estão pensando em interrogar você.
— Eu? — estranhou Kylie. — Por quê?
— Não sei.
Kylie calculou que aquilo só podia ser por causa...
— Espere! É por causa do seu primo? Você tem certeza de que ele não pertence a uma daquelas gangues?
— Acho que não é isso — disse Della. — Teriam me falado, se fosse. Além do mais, não disseram nada sobre visitantes. Explicaram que talvez você esteja escondendo alguma coisa porque não deixa que ninguém a leia.
Kylie tentou concentrar a cabeça dolorida nos fatos, mas não conseguiu.
— Tem certeza de que se referiram a mim?
— Claro! Holiday não está gostando nada disso. Mas parece que os caras controlam tudo por aqui. O que dizem tem peso. Mas posso afirmar que Holiday ficou do seu lado. Garantiu que você é inocente, mas eles querem constatar isso por si mesmos.
E como, exatamente, pretendem agir?
Ela já tinha ouvido boatos de que a CIA e o FBI torturavam as pessoas. Droga, Kylie já tinha uma dor de cabeça e não queria acrescentar “ser torturada” à sua lista de afazeres do dia. Della espiou por cima do ombro de Kylie.
— Hum, não olhe agora, mas acho que Holiday está à sua procura. E... Já a encontrou.
Um segundo depois, Kylie sentiu a presença de alguém ao seu lado. Mas não era Holiday. Um calafrio percorreu sua espinha e Kylie soube que “ele” tinha voltado. Tentou respirar fundo, determinada a não perder os sentidos, mas o ar frio mal entrava em sua garganta. Fez um esforço para se mover e, erguendo os olhos bem devagar, rezou para não vê-lo desta vez.
Alguém não estava disposto a atender a preces no momento. Mas, pelo menos, não havia sangue. O soldado Dude só ficou ali plantado, fitando-a com seus grandes olhos azuis. Olhos que pareciam querer dizer alguma coisa. Mas o quê? O que ele queria? Lembrou-se da palavra ajude escrita com sangue na última vez que o vira. Mas que tipo de ajuda esperaria dela? A ideia de perguntar passou por sua mente. Sentiu, porém, que se conversasse com ele os dois ficariam mais próximos. Fechou os olhos e orou em silêncio para que ele sumisse.
— Aí está Holiday — a voz de Della ecoou muito longe na consciência de Kylie. Abrindo os olhos, viu Holiday colocando-se entre ela e o soldado Dude.
— Está pronta? — perguntou a líder do acampamento.
O frio se foi e sua pele arrepiada voltou ao normal. Até o ar gelado em seus pulmões começou a se aquecer. Uma onda de alívio a envolveu.
— Nossa! — exclamou Holiday dando um passo para trás. — Interrompi alguma coisa?
Kylie sabia que a líder do acampamento não estava se referindo a ela e à amiga. Piscando muito, fixou Holiday e tentou se concentrar.
— Não pode pedir para que me deixe em paz?
— Não é assim que funciona — lamentou Holiday.
— O que é que não funciona assim? — perguntou Della.
— Pronta? — Holiday voltou-se novamente para Kylie.
— Para quê? — indagou Kylie. Por que a UPF queria falar com ela?
— Para o nosso encontro — esclareceu Holiday.
— Posso acompanhá-las? — perguntou Della.
Kylie virou-se para a colega de alojamento e percebeu no seu olhar que ela estava tentando ajudar. Um esforço que achou ela mais bem-vindo do que a colega seria capaz de supor.
— Ela pode? — indagou Kylie.
— Receio que não — Holiday fitou Della. — Acho que os vampiros estão tendo uma reunião de grupo. Você deveria ir — voltando-se de novo para Kylie: — Vamos — tomou-a pelo braço e se foram.
Mas para onde a estava levando, era ainda um mistério.

8 comentários:

  1. O q será q esse soldado quer dela?

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    1. Avisar ela de algo, eu acho

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  2. sei nao mais acho que esse soldado tem alguma coisa a ve cm os caras d preto. minha opiniao nunca li esse livro

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  3. Sei lá, quero saber como é o nome de sobrenatural de Kylie.

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  4. Esse dores de cabeça , talvez seja alguém forçando entrada na cabeça da guria!
    #supercuriosa

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  5. Essas dores de cabeça , deve alguém , ou todos , forçando entrada na cabeça da guria ! Rzrzs

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