30 de setembro de 2016

Capítulo 19

Depois de fazer do seu colchão um saco de pancadas, ela se vestiu, desculpou-se com Socks por agir como uma idiota e saiu da cabana à procura de Holiday.
O ar da manhã estava ficando cada vez mais quente e abafado. Dando as boas-vindas ao verão do Texas, Kylie pensava nas perguntas que faria enquanto percorria a trilha até o escritório do acampamento. A frustração que fazia seu estômago se contrair a impelia a correr, mas por mais ansiosa que estivesse para encontrar respostas sobre seus sonhos, também estava relutante em fazer as perguntas. Holiday, com seu dom de ler emoções, provavelmente saberia de que tipo de sonhos Kylie estava falando.
Porém, sua necessidade de respostas obviamente era maior do que a de evitar constrangimentos, por isso ela continuou andando.
No momento em que Kylie parou em frente à cabana do escritório, ouviu vozes alteradas vindo de dentro. Ela parou perto das cadeiras de balanço brancas onde ela e Derek tinham comido pizza na noite anterior e ouviu. Não para se intrometer em conversa alheia, mas para ter certeza de que Holiday estava bem.
O que há de errado, afinal, com o meu dinheiro? — bramia uma voz masculina, e Kylie imediatamente percebeu que era Burnett.
Não há nada de errado com ele — Holiday respondeu. — Eu não disse que não ia aceitá-lo. Só pedi algumas semanas pra pensar.
— Algumas semanas para tentar encontrar outro investidor, você quer dizer. Me diga que não é isso o que vai fazer.
É isso ai — ela rebateu. — É exatamente isso o que eu vou fazer mas...
— Você me odeia e odeia tanto os vampiros que arriscaria até a ver Shadow Falls fechar as portas?
Kylie recuou quando percebeu que não estava mais só preocupada com Holiday... estava tentando ouvir às escondidas. Sem querer invadir a privacidade de Holiday mais do que já tinha feito, ela desceu os degraus da varanda e afastou-se alguns metros da cabana, até não conseguir mais ouvir a conversa.
Não vou deixar Shadow Falis fechar as portas! — A voz de Holiday ainda chegou aos ouvidos de Kylie. Estremecendo, ela se afastou mais alguns passos.
Mas você não pode negar que me odeia, não é? — perguntou Burnett com rispidez.
“Odiar” é um pouco de exagero.
Kylie olhou para a cabana do escritório a distância, estranhou ainda estar ouvindo e se afastou mais dez passos.
Droga! — xingou Burnett, a voz alta e clara, ainda chegando aos ouvidos de Kylie. Era como se... era como se ela estivesse bem ao lado da porta.
— Isso não é nada bom... — Kylie murmurou, percebendo que não devia mais conseguir ouvir a conversa dos dois. Eles estavam dentro da cabana. Ela estava do lado de fora. E, calculava, a uns bons cinquenta metros de distância.
Ai, Jesus... As coisas deviam estar mudando... de novo. Kylie espiou seus seios para ter certeza de que não tinham crescido mais um pouco. Graças a Deus, pareciam do mesmo tamanho.
Eu só quero ajudar — continuou Burnett, e o mesmo fez Kylie. Continuou a se afastar. Cada vez mais. E mais. O bastante para que a conversa não chegasse aos seus ouvidos.
Então me ajude tentando entender — contra-atacou Holiday.
Mas o que, pelo amor de Deus, eu deveria entender? Que você fará qualquer coisa pra se livrar de mim? É por isso que está fazendo isso, não é?
Eu não... — A voz dela esmoreceu.
Porque você tem medo de que, se aceitar o meu dinheiro, terá que me engolir. Se sente tão atraída por mim que é difícil me ver por perto, não é? Droga! Vamos fazer sexo de uma vez e matar a vontade. Talvez assim você consiga conviver comigo.
— Você é tão arrogante! — disse Holiday, com rispidez. — Fazer sexo com você é a última coisa que quero.
Ah! Finalmente! Agora eu sei que está mentindo — disse ele. — Sente atração por mim.
— Lá, lá, lá, lá — Kylie começou a cantar e cobrir os ouvidos. Ela não queria mais ouvir. Ouvir coisa alguma. Nem um pouquinho. Começou a dar meia-volta e voltar pela trilha que levava à sua cabana.
Passados alguns segundos, ouviu uma porta se fechar com estrondo.
Sentiu uma lufada de ar. Ela piscou e quando abriu os olhos Burnett estava ali, ao lado dela, passando a mão pelos cabelos.
— Essa é a ruiva mais difícil, mais teimosa que eu já tive o desprazer de conhecer.
Ele então disparou como um raio, deixando atrás de si apenas um rastro de poeira.
— E você está apaixonado por ela — Kylie sussurrou. Ela não sabia como sabia, mas sabia. E de algum modo percebeu que sentira o mesmo na cachoeira. O sentimento verdadeiro que tinha ouvido na voz de Burnett e visto em seus olhos tinha levado Kylie a lhe dizer a verdade sobre o passado de Holiday. Não que isso anulasse o fato de que não cabia a ela contar o segredo da amiga. Mesmo assim...
Kylie olhou de volta para o escritório e se lembrou das perguntas que tinha sobre os sonhos e da sua recém-descoberta superaudição também. Esse seria um dom dos lobisomens? Ela se lembrou de ter perguntado a Lucas se ele podia ouvir as batidas do coração dela e ele tinha respondido que a audição dos lobos não era exatamente para esse tipo de coisa, mas para perceber a aproximação de inimigos. Que tipo de capacidade auditiva Kylie teria? Seria a capacidade de um lobisomem ou de um vampiro?
Ao virar a cabeça para o lado, ela tentou ouvir alguma coisa para ver o que mais conseguia escutar. Nada. Claro, ela ouvia os ruídos normais, mas nada parecia alto demais ou fora do normal. Della dissera que ela podia ouvir os animais na reserva de vida selvagem. Kylie não conseguia ouvi-los. Então por que ela tinha conseguido ouvir a briga entre Holiday e Burnett? O que aquilo significava?
Fitando o céu saturado com as cores pálidas do início da manhã, ela tentou aceitar todas as coisas que estavam mudando nela. O problema era que, para entendê-las totalmente, ela precisava saber o que elas eram, poxa vida! Com o peito carregado de emoção, ela começou a voltar para a cabana do escritório, rezando para que Holiday pudesse lhe dar algumas respostas.
— Holiday, sou eu — Kylie chamou, ao entrar no escritório, dez segundos depois.
— Estou na minha sala — Holiday respondeu.
Quando Kylie parou na porta, Holiday estava secando as lágrimas com as mãos. Ela estava chorando.
Seus olhos ainda estavam úmidos das lágrimas de tristeza e seu rosto, corado. Angústia e aflição apertaram o peito de Kylie.
— Você está bem?
— Não é nada — disse Holiday, fazendo um gesto com a mão. — Burnett e eu acabamos de... ter uma briga.
— Eu sei — disse Kylie, decidindo que seria melhor dizer a verdade. — Eu ouvi.
Os lábios de Holiday se apertaram e Kylie não teve certeza se era porque ela achava que Kylie tinha se intrometido onde não era chamada, ou se a expressão era provocada pela frustração que sentia com Burnett.
— Não tive intenção de ficar ouvindo atrás da porta — Kylie falou rapidamente. — Quando cheguei na varanda e ouvi a briga, eu quis ter certeza de que você estava bem, mas depois me afastei, mas mesmo assim... pude ouvir. Então eu me afastei mais ainda. E ainda continuei ouvindo. — Um ligeiro pânico se insinuou na voz de Kylie.
Holiday franziu ainda mais a testa.
— Estávamos falando tão alto assim?
— Não. E isso é que é mais estranho. Eu não deveria ser capaz de ouvir vocês. Eu fui me afastando cada vez mais e mesmo assim...
Holiday arregalou os olhos.
— E mesmo assim podia nos ouvir? Tem certeza de que não estávamos simplesmente falando alto demais?
— Absoluta — garantiu Kylie. — Eu já estava no início da trilha.
— Uau! — exclamou Holiday.
— Uau mesmo! — Kylie deixou-se cair na cadeira. Seus olhos se desviaram para as contas espalhadas pela escrivaninha. A emoção e frustração de Holiday ainda eram palpáveis na sala. Kylie olhou para a amiga. — Está com problemas financeiros?
Holiday fitou o amontoado de contas.
— Alguns. Mas vai dar tudo certo.
— Você vai aceitar o dinheiro do Burnett?
Os olhos de Holiday se estreitaram de preocupação.
— Vou aceitar antes que Shadow Falls seja prejudicado. Mas esse problema não é importante agora. Você é importante. Você está bem com... isso? — ela estudou o rosto de Kylie. — Quero dizer, a audição mais sensível.
— Tenho outra escolha? — Kylie rebateu de mau humor. — Se eu disser que não estou aceitando isso muito bem, vou simplesmente parar de ouvir?
Holiday lançou seu sorriso de compreensão.
— Posso imaginar como tudo isso está sendo difícil pra você. Eu cresci sabendo que certas coisas aconteceriam e esperando passar por algumas surpresas, mas garanto pra você que é sempre um choque. Nessas últimas semanas você tem descoberto muita coisa, hein?
— Nem queira saber... — respondeu Kylie, cobrindo os olhos com as mãos. Quando ela olhou para cima, Holiday a observava. — Eu só queria saber o que sou. Se eu soubesse isso, então... acho que eu tiraria de letra. Estou tão cansada de ficar pensando que sou isso, sou aquilo... — Ela entrelaçou as mãos. — Eu ando... num mau humor ultimamente... estou uma verdadeira megera. Meus peitos cresceram, meus pés estão um número maior e fiquei mais alta da noite para o dia. Agora estou ouvindo coisas que eu não ouvia antes. Você acha que isso significa que sou um lobisomem?
Holiday mordiscou o lábio inferior como se refletisse.
— A superaudição é uma característica dos lobisomens, mas também dos vampiros – embora, como já lhe expliquei, sejam tipos diferentes de audição.
Kylie ouviu com cuidado cada palavra de Holiday, esperando que ela dissesse algo que ainda não sabia. Mas a maior parte ela já tinha ouvido antes.
— Como eu disse — Holiday continuou —, quando há uma mistura de humanos e sobrenaturais, ou de espécies variadas, às vezes os descendentes nascem com diferentes habilidades, mas sempre herdam o DNA e os dons principais do pai dominante. E se encaixam no padrão de uma espécie. Tenho certeza de que o seu padrão logo surgirá. Com todas essas mudanças acontecendo tão rápido, a qualquer momento ele ficará evidente.
Kylie se esforçou para entender.
— Mas você também disse que, se eu fosse um lobisomem ou um vampiro, já deveria ter passado por algumas transições básicas.
— Eu de fato disse isso — admitiu Holiday. — Mas também disse que nunca tinha visto um caso como o seu.
— Sou simplesmente uma aberração.
— Não. Você é única.
— Eu não quero ser única. — Kylie suspirou. — As fadas têm superaudição?
Um sorriso se insinuou nos lábios de Holiday.
— Não é algo comum. — Ela continuou estudando Kylie, como se lesse sua decepção. — Você gostaria de ser uma fada?
— Gostaria. Quer dizer, se eu tivesse escolha, preferia ser fada ou bruxa. Alguma coisa que... você sabe... não mudasse o meu corpo ou a temperatura dele. — Kylie pensou em Della e em como ela se sentiria se soubesse que Kylie pensava assim. — É muito feio querer isso? Eu amo Della e não quero ferir os sentimentos dela, mas é que... eu preferia ser bruxa ou fada. Porque a maioria dos dons que elas têm não são tão complicados nem é tão difícil conviver com eles.
Holiday deu uma risadinha.
— Está se esquecendo dos fantasmas? Grande parte das fadas e elfos os vê. E, pode acreditar, a maioria dos sobrenaturais prefere morrer a ver espíritos.
— É verdade. — Kylie piscou. — Eu tinha me esquecido disso. E de fato é um pé no saco. No início, eu ficava apavorada, mas agora que já estou falando com isso faz um tempo... — Ela fez uma pausa e se lembrou da breve visita do fantasma aquela manhã e do pesadelo de alguns dias antes. — Tudo bem, às vezes ainda fico apavorada e frustrada. Mas pelo menos agora estou quase me acostumando.
Holiday apoiou os cotovelos na escrivaninha.
— Seja de que espécie você for, seja quais forem os dons que acabe desenvolvendo, você vai perceber que, com o tempo, essas mudanças ficam menos assustadoras. O que quer que aconteça na segunda-feira, sei que...
— Segunda-feira? Por causa da lua cheia? Agora você acha que sou um lobisomem?
Holiday segurou a mão de Kylie.
— Eu não sei. A única coisa que sei é que você é uma mocinha encantadora e, não importa o que aconteça, tudo vai acabar bem.
Kylie descansou a cabeça no encosto da cadeira, olhou para Holiday e gemeu.
— Eu odeio isso. Realmente odeio. — Então se lembrou do motivo que a levou a procurar a amiga aquela manhã. Ela se endireitou na cadeira outra vez e respirou fundo.
Então mordeu o lábio, tentando se lembrar de como ela pretendia abordar o assunto. Será que não existiria um jeito menos embaraçoso de falar dos sonhos?
— Mais uma coisinha...
Holiday ficou sentada ali, esperando pacientemente.
— Sonhos...? — Kylie só conseguiu articular essa palavra.
— O que têm eles? — A expressão de Holiday era intrigada. — O fantasma vem provocando mais sonhos?
— Não.
— Terrores noturnos?
— Não. — Por mais estranho que fosse, Kylie não tinha terrores noturnos há muito tempo. Quer dizer, se não considerasse as visões do fantasmas em sonhos como terrores noturnos.
— Você anda tendo crises de sonambulismo? — Holiday perguntou.
Tudo bem, a coisa ia ficar mais bizarra se ela não começasse a falar.
— Eu tenho tido sonhos estranhos. No sonho, sei que estou sonhando. E no sonho as pessoas que estão no sonho também sabem que é só um sonho. Eu quase sinto como se... como se ele invadisse meus sonhos.
— Ele?
— Lucas. — Kylie sentiu o rosto arder. — É possível que alguém, que Lucas, de fato entre nos meus sonhos? De fato... me visite? Porque é tão real! E se for real, eu quero que ele pare de fazer isso. Quer dizer, nas duas cartas ele menciona os sonhos. E, se for real, ele precisa parar.
Os olhos de Holiday se arregalaram, mas ela não disse nada.
— O que foi?
— Eu... — Holiday hesitou como se tentasse decidir o que dizer.
— Não minta pra mim nem esconda nada, mesmo que seja só um palpite. Só me diga o que você acha que está acontecendo. — Kylie estendeu a mão e colocou-a sobre a de Holiday. — Por favor.
Holiday franziu ainda mais a testa.
— Tudo bem, mas você provavelmente não vai gostar disso.
Ah, mas que ótimo! Não era bem isso que ela queria ouvir.

Um comentário:

  1. acho que é a Kylie que invade os sonhos do Lucas ❤
    ass: mary feiriceira

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