30 de setembro de 2016

Capítulo 18

Mais tarde, depois de Derek levá-la à cabana sob um silêncio desconfortável, Kylie decidiu ir para a cama cedo. Fazia poucas horas que estava dormindo quando começou a ter um sonho. Ela soube que era um sonho assim que se deu conta da sensação de flutuar. Rolou na cama e tentou de toda forma acordar, mas então ela viu...
Ele.
Outra vez.
Lucas.
Ele olhou para ela e sorriu. Seus olhos azuis brilhantes estavam pesados, sonolentos. Ela percebeu que não estava mais acima dele, mas em pé ao seu lado. Ele usava jeans e uma camisa azul-clara desabotoada. Seu olhar desceu pelo peito dele e depois subiu outra vez. Todo o trajeto, sem reparar na camisa. Seu cabelo preto estava despenteado, como se ele também tivesse acabado de sair da cama, e os fios pareciam um pouco mais longos.
— Você veio... — ele disse.
— Veio onde? — ela perguntou, sentindo-se pouco à vontade.
Ele não respondeu, em vez disso falou:
— Vem, vamos dar uma volta. — Ele estendeu a mão, esperando que ela a pegasse.
Ela hesitou. A ideia de tocá-lo a tentava, mas ela se lembrou de que estava furiosa com ele, embora não soubesse bem por quê.
— Eu não mordo. — Ele sorriu novamente.
Era só um sonho, ela disse para si mesma, e pegou a mão dele, deixando de lado a ponta de raiva que ainda sentia. A palma da mão dele era tão quente contra a dela que a deixou tonta.
— Senti sua falta — ele disse.
Ela não sabia o que dizer, por isso não disse nada. Ou pelo menos não disse que sentia falta dele. Mas ela sentia, sabia que sentia.
— Onde estamos indo? — ela perguntou quando ele começou a andar.
Ele parou.
— Onde você gostaria de ir?
De repente, Kylie percebeu que eles estavam em meio a um bosque; grandes árvores com flores de aroma adocicado pendiam sobre a cabeça dos dois.
— Paris? Um shopping? — Ele olhou em volta como se só agora notasse o cenário. — Ou gostaria de voltar ao lago, como no último sonho? A voz dele ficou mais grave e rouca. — É para lá que estamos indo?
O sangue afluiu para o rosto dela. Como ele sabia sobre o outro sonho? Então ela se lembrou de que estava apenas sonhando. Nada tinha que fazer sentido. Certo? No entanto, esse sonho parecia ainda mais estranho, diferente.
Ele entrelaçou os dedos nos dela.
— Podemos ir a qualquer lugar, contanto que eu esteja com você. — As íris dos olhos dele pareceram escurecer e suas pálpebras ficaram pesadas.
Ela reconheceu a emoção. Desejo. Fome. Paixão. Ela tinha visto essa mesma emoção quando se beijaram no riacho, perto das pegadas de dinossauro. Mas aquela não tinha sido a primeira vez em que ela vira aquele olhar. Ela tinha visto primeiro no sonho. O sonho em que os dois nadavam – em que ele a tocava.
— Podemos fazer qualquer coisa... porque... — ele se aproximou um pouco mais — porque isto é só um sonho. Não é real. Como da primeira vez. Mas a escolha é sua. Você é quem está no comando.
Ele baixou um pouco a cabeça e seu rosto roçou levemente no dela. Então seus lábios deslizaram pela bochecha de Kylie até encontrar sua boca. Ela deixou que ele a beijasse. De início, ela não correspondeu. Pelo menos não até a língua dele se esgueirar entre seus lábios.
Incapaz de pensar em mais nada, ela se rendeu e começou a corresponder ao beijo. Foi ardente. Foi maravilhoso. Foi só um sonho. As mãos dele acariciavam suas costas e depois a frente do corpo dela. Seus seios ficaram rijos quando ele roçou a palma entre eles.
Então... ela se lembrou de Derek. Forte, gentil, lindo. E se lembrou de Fredericka. Sim, era por isso que ela estava com muita raiva de Lucas.
Kylie se afastou abruptamente. Ela respirava com dificuldade. Ele respirava com dificuldade.
Ela começou a flutuar para longe.
— Não vá embora, Kylie — ele pediu. — Volte, por favor.
Kylie de repente se sentiu totalmente desperta. Sentou-se na cama automaticamente. Seu coração estava acelerado como se ela tivesse corrido uma maratona. As palmas das mãos, suadas. A parte da frente do seu corpo formigava. Todo o seu corpo formigava muito.
Socks, ainda no corpo de gambá, miou aos pés da cama.
— Sonho mais estranho... — ela disse em voz alta e se sentiu bem ao ouvir a própria voz. — Muito estranho mesmo...
Então ela se lembrou da carta de Lucas. A primeira carta.
Sonhe comigo, ele tinha escrito.
Seria coincidência?
Possibilidades malucas começaram a se formar na sua cabeça. E se...? E se os lobisomens tivessem o poder de invadir os sonhos das outras pessoas? E se aqueles não fossem apenas sonhos, mas algo mais? Será que aquele tipo de poder existia?
Quanto mais ela pensava naquilo, mais começava a acreditar e com mais raiva ficava. Como ele ousava simplesmente entrar nos sonhos dela e... beijá-la? Tocá-la? Fredericka não era suficiente para ele? A fêmea de lobisomem sabia que Lucas dava suas escapulidas para visitar Kylie em seus sonhos?
Tantas perguntas e nenhuma resposta. Só havia um lugar onde ela poderia encontrar as respostas.
Acendendo a luz, ela abriu a gaveta com um solavanco e tirou dali a carta. Já tinha aberto o envelope, por isso tirou-a dali facilmente. Piscou para ajustar os olhos à luz.

Oi, Kylie,
Outra carta minha. Pelo que sei, sou a última pessoa do mundo que você quer ver. Mas isso não me impede de escrever para você. Ou de pensar em você. Mas, minha nossa!, eu penso em você o tempo todo – querendo saber se descobriu o que você é e quantos dons tem. Falei com Burnett e, quando perguntei de você, ele só disse que você estava bem. Acho que ele sabia que eu queria detalhes, mas, por alguma razão, não estava a fim de me dar. Isso me fez imaginar o que você anda fazendo que Burnett não quis me contar. Não quero pensar muito nisso, porque estou começando a ficar preocupado.
Talvez você ache que eu sou muito possessivo. Não digo que estou certo, mas fui eu que a encontrei primeiro.
Você se lembra quando nos conhecemos? Você estava no jardim em frente à sua casa, deitada na grama, olhando o céu. Quando cheguei, você nem me cumprimentou. Olhou para mim com os olhos arregalados e cheios de curiosidade e perguntou se eu tinha visto o elefante. No início, pensei que você fosse louca, mas depois você apontou para as nuvens.

Kylie parou de ler quando um fiapo de memória começou a flutuar na sua cabeça. Ela de fato... se lembrava. Respirando fundo, ela continuou a ler.

Eu me lembro de ter dito que não tinha visto nenhum elefante nas nuvens. Mas eu tinha. Não sei por que menti, provavelmente você me deixava nervoso. Eu vi que não era humana, mas não consegui identificar o que você era e isso me pareceu estranho. Não de um jeito ruim. Você era apenas um enigma que eu queria decifrar. Há! Isso já faz dez anos e aqui estou eu tentando te decifrar. Parte de mim se pergunta se não é porque é uma fêmea, as garotas são sempre um mistério, ou se é porque você é mesmo um grande enigma.
De qualquer maneira, espero que goste da notícia, pois talvez eu esteja voltando para o acampamento. Falei com Burnett a respeito e ele disse que ainda precisava da autorização de algumas pessoas; se derem carta branca, eu posso voltar. Se tudo der certo, poderei explicar melhor depois.
Espero ver você em breve, mas até lá... sonhe comigo.
Seu admirador e amigo para sempre.
Lucas

Kylie largou a carta e só ficou olhando aquelas palavras.
Sonhe comigo.
O que significava exatamente “sonhe comigo”?
Será que significava alguma coisa? Mas o quê? Kylie dobrou a carta e enfiou-a na gaveta. Sentia um turbilhão de emoções. Então lhe ocorreu um outro lugar onde podia encontrar respostas. O lugar aonde ela sempre ia quando precisava de respostas. Holiday.
Kylie consultou os números vermelhos e brilhantes do relógio. Ainda era muito cedo. Não eram nem... cinco horas.
Mas o que será que tinha acontecido com o ar gelado que sempre a envolvia ao amanhecer?
Ela olhou pela janela e viu os primeiros sinais do nascer do Sol. Por algum motivo, seus pensamentos se desviaram dos fantasmas e passaram para as duas meninas que tinham morrido no dia anterior. Elas nunca mais veriam o Sol nascer. Nunca mais veriam um novo dia. Ou teriam outro sonho. Ela agarrou o cobertor com as duas mãos e lutou contra a emoção que a consumia.
Mal sua respiração tinha voltado ao normal quando o ar frio invadiu seu quarto como um mau presságio.
— Ok — disse ela, procurando ter a paciência que tanto lhe faltava ultimamente. — Que tal termos uma conversinha? O que você pode me dizer que ainda não sei? Me dê algo em que me basear. Você precisa me dizer algo que me faça descobrir quem precisa de ajuda.
— Você pode salvá-la. — As palavras do fantasma encheram o cômodo gelado e o espírito apareceu. Seus longos cabelos negros se espalhavam sobre os ombros. Ela não parecia tão magra ou doente desta vez. E havia algo nela que parecia vagamente familiar. Kylie se perguntou se aquilo significaria algo.
— Você pode salvá-la. Você não sabe que pode, mas tem essa capacidade. — disse o fantasma.
— Como eu vou salvá-la? — Kylie perguntou, esperando que isso pudesse ajudá-la a descobrir a identidade da pessoa. Ela precisava de alguma informação, droga, algo que a ajudasse a decifrar a mensagem do fantasma. — Quem eu preciso salvar?
— Ela está apavorada. Precisa de você.
— Quem? — insistiu Kylie entredentes. — Só me diga quem e eu prometo que farei tudo para salvá-la. Será que você não entende que eu não posso salvar ninguém enquanto não souber... — O fantasma se desvaneceu no ar.
— Droga! — Kylie se deixou cair na cama novamente. Ela inspirava e expirava o ar tentando não pensar no quanto se sentia frustrada com o fantasma. Tentando não pensar no quanto estava frustrada com Lucas e com o suposto sonho. Tentando não pensar nas meninas que tinham perdido a vida no dia anterior.
Entre tantas limitações sobre o que pensar, ela finalmente encontrou algo em que podia concentrar sua atenção. O dia da visita dos pais.
Aquele pensamento provocou uma nova onda de frustração que se abateu sobre ela. A mãe não viria, o pai... estava “batendo martelo” com uma garota praticamente da idade de Kylie e ela seria provavelmente a única campista que não receberia a visita dos pais.
Aquilo não fazia dela alguém especial?
— Daniel? — ela chamou em voz alta. — Será que você podia aparecer um minutinho? Para me dar um apoio moral. Talvez responder a algumas perguntas sobre pais? Por favor. — Nenhuma resposta. Ela contou até dez. Rezou. E esperou mais um minuto antes de perder a paciência.
Socou o colchão. Era uma coisa infantil e estúpida, mas no estado de espírito em que estava ajudava muito. Tanto, que continuou socando o colchão por vários minutos.
Socks soltou um miado assustado e Kylie o viu ser catapultado da cama. Ela podia ter até lamentado por isso, se não estivesse tão mal-humorada. E foi então que ela se lembrou do que toda aquela oscilação de humor podia significar. Ela, Kylie Galen, podia estar se transformando num lobo dali a dois dias. Será que a vida dela podia ficar mais insana do que isso?

13 comentários:

  1. Acho o Derek legalzinho, mas toda vez que penso nela com o Lucas, meu coração bate mais forte <3 Prefiro Derek naquele grupo seleto, aquele frequentado pelo Simon, Gale, Aspen, Kishan...

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    1. Siiiim. Melhoor grupoo,aproveita e coloca o Adam da trilogia Estilhaça-me.

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    2. Pensei nisso tbm, ele se encaixa nesse grupo. Maas o Kishan nn, serio, como chorei com o final dele :(

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    3. Fernanda: A bruxa filha de Hades5 de novembro de 2016 22:49

      Coloca a Reyna aí também!! E a Rachel e o Leo!!
      #TeamLeo

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  2. Eu prefiro ela com o Derek porque ele sempre esteve do lado dela em todos os momentos , dando a ela os melhores conselhos e tudo mais ❤😣

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    1. EU PENSAVA Q EU ERA A UNICA PESSOA Q QUER QUE ELA FIQUE COM O DEREK

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  3. Gente, podem me ajudar?
    Gostaria de saber se existe alguma outra série ou livro antes dessa série. Pq em Mtos momentos do livro e em diversos comentários, vejo menções de coisas do passado, como se tivesse algum outro livro antes. Alguém sabe se tem?

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    1. Olá! Tem sim, este é um livro da Saga Acampamento Shadow Falls - Os Sobrenaturais. O primeiro livro é Nascida à Meia-noite, também disponível aqui para leitura :)

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    2. Aqui estão relacionados os livros da série na ordem de leitura: http://www.bloglivroson-line.com/2016/09/acampamento-shadow-falls.html

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    3. Articulei mal minha pergunta, me perdoe. Quero saber se há alguma série que antecede essa, Pq mesmo no primeiro livro "Nascida ao anoitecer" é possível encontrar menções passadas. Haveria alguma outra série que antecede a série "Acampamento Shadow Falls"?

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    4. Ahh sim, entendi hauauehaue
      Não, não tem... É assim mesmo, ela cita acontecimentos passados, com o tempo desenrola alguns

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    5. Aah sim, muito obrigado! Parabéns pelo blog. Última pergunta, alguma precisão pra repostagem dos últimos livros de rangers?

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