30 de setembro de 2016

Capítulo 17

Burnett fez Kylie repassar várias vezes tudo o que tinha acontecido. Depois fez perguntas específicas:
— Você disse que o vampiro estava sujo de sangue. Parecia sangue fresco? Quanto tempo se passou entre o encontro de vocês com as adolescentes e o momento em que o vampiro apareceu?
Em seguida Burnett fez as mesmas perguntas de um modo ligeiramente diferente. A princípio Kylie pensou que ele estava tentando pegá-la numa mentira, mas depois suspeitou que ele só queria ter certeza de que ela não estava se esquecendo de nada; por isso fazia perguntas com diferenças sutis para ajudá-la a se lembrar de detalhes que poderiam ser úteis. O problema era que Kylie não queria se lembrar. Ela ansiava por esquecer, apagar aquilo da memória para sempre. E, francamente, o que mais ela poderia contar que ajudasse em alguma coisa?
— Você pode descrever o sangue pra mim? — perguntou Burnett, sentado com as pernas afastadas em frente a Kylie, numa cadeira de espaldar reto que a fazia se lembrar do seu primeiro interrogatório. Só que dessa vez ela estava sentada no sofá, com Holiday ao seu lado.
— Eu já descrevi — ela tinha a sensação de que sua paciência estava sendo testada com um elástico esticado ao máximo
— Mais uma vez. — Seu tom exigia obediência.
Foi esse tom que fez Kylie finalmente estourar.
— Você sabe quem fez isso. Sabe quem são as vítimas. Então tudo isso é mesmo necessário? — Ela rangeu os dentes para não começar a chorar outra vez.
— Nós decidimos o que é necessário — interferiu Selynn em seu tom arrogante, aproximando-se, atrás de Burnett.
Kylie olhou para cima, na direção da lobisomem, sem tentar esconder sua contrariedade. O tom de Selynn incomodava mais Kylie do que o jeito autoritário de Burnett. Pelo menos no caso de Burnett, ela percebia que a preocupação era real. Com Selynn, parecia ser apenas uma questão de ver quem tinha mais poder. A mulher gostava de ter poder e de usá-lo.
— Você acha que a gente fez aquilo, não acha? — Kylie perguntou a Selynn.
— Quer saber o que eu acho?...
— Parem vocês duas — falou Burnett, fazendo cara feia para Selynn e depois voltando o olhar para Kylie. — Kylie, eu sei que não são as responsáveis. Sei que isso não é fácil. No entanto, a descrição detalhada do sangue pode revelar se ele estava matando por esporte ou para se alimentar.
A declaração de Burnett causou uma contração no estômago de Kylie.
— E que diferença faz? Aquelas garotas estão mortas, não interessa mais as razões que ele tinha pra matar.
— Acho que já chega de perguntas. — Holiday pousou a mão sobre o pulso de Kylie, oferecendo apoio moral e um forte fluxo de calma. A torrente de energia calmante desacelerou o coração de Kylie e diminuiu o aperto no peito. Mas não a deixou inteiramente calma. Kylie achava que nada poderia devolver sua paz de espírito naquele momento.
Burnett olhou para Holiday e em seguida para Kylie.
— Isso não mudará o que aconteceu. Mas por hora precisamos de todas as informações possíveis desse delinquente para poder apanhá-lo. Detê-lo antes que aja novamente.
As palavras de Burnett giraram na cabeça de Kylie e despertaram a sua consciência. Duas adolescentes tinham morrido. Violentamente. Então, seria demais suportar mais alguns minutos de perguntas? Não, não seria. Respirando fundo, ela se sentou mais ereta.
Holiday enrijeceu.
— Para um vampiro, você não ouve muito bem. Eu disse que já chega — disse ela.
— Tudo bem. — Kylie pegou a mão de Holiday e apertou-a delicadamente. — Se isso ajudar a deter esse cara, eu aguento. — Mas não largou a mão de Holiday.
Dez minutos depois, aparentemente quando Burnett se deu por satisfeito, extraindo de Kylie cada detalhe do incidente, ele se levantou e olhou para ela.
— Obrigada, Kylie. Sei que não foi fácil.
Ela assentiu e, depois de respirar fundo algumas vezes, decidiu que era hora de fazer as perguntas dela.
— Você acha que a intenção dele era fazer parecer que nós matamos essas garotas? Assim como ele tentou fazer com que acusassem alguém do acampamento por matar os animais?
Burnett balançou a cabeça, discordando.
— Não. Não há nada que nos leve a essa conclusão.
— Você acha que... acha que ele nos seguiu até a cidade?
Ele pensou na pergunta por um segundo.
— Não. Não acho. Acho que encontrou vocês por coincidência.
Holiday apertou a mão de Kylie.
— Eu já disse, isso não foi culpa sua.
— Não, não foi — concordou Burnett. — Isso não tem nada a ver com você, Kylie.
— Então, como parece algo tão... pessoal? — ela perguntou. — Quer dizer, esse vampiro vive aparecendo. No parque e na última sexta-feira. Eu não o vi de fato, mas estou presumindo que seja ele. E mesmo depois daquele dia... senti como se tivesse alguém me seguindo.
— Quando você sentiu isso? — perguntou Burnett.
— Ontem de manhã, quando vim ao escritório antes do café. De início achei que era o lobo, mas...
— Lobo? — Burnett e Selynn perguntaram ao mesmo tempo. Embora ele parecesse preocupado, Selynn imediatamente começou a arquear as sobrancelhas, tentando ler Kylie novamente. Faltou pouco para Kylie pôr a mão na cabeça e cobrir a testa. Talvez até mostrar o dedo médio para ela.
— Quando foi isso? — perguntou Burnett.
— Alguns dias atrás — Holiday respondeu. — Não era um lobisomem. Kylie disse que parecia manso. Não parecia ameaçador.
— Não era um metamorfo? — perguntou Burnett?
— Não... não tenho certeza. Mas sei que não era Perry. — Kylie hesitou então se lembrou de qual era o verdadeiro assunto da conversa. — Mas o lobo não é importante. Duas garotas foram mortas e eu... sinto como se fosse culpa minha. Acho que ele estava atrás de mim, não delas.
Burnett voltou a se sentar na cadeira, olhando para ela.
— Não sei por que você se sente assim. Mas se ele estava tentando machucar você, podia ter feito isso aquela noite, na floresta. Não acho que seja algo pessoal. Não contra você. Talvez seja algo contra o acampamento...
— Então por que ele vive aparecendo no meu caminho? Não parece coincidência.
Burnett franziu a testa.
— Não é coincidência. Você se colocou em situações que deram a ele mais oportunidade e com um risco mínimo. E da primeira vez, ele não foi até você. Você é quem foi à reserva onde a Confraria estava. E se ele estava aqui aquela outra noite, e nós não temos certeza se era ele, provavelmente viu você correndo pela floresta e achou que seria uma boa oportunidade. E, hoje, ele provavelmente... estava caçando quando sentiu outros sobrenaturais na cidade. Mais uma vez, você estava sozinha no provador. Ele tirou vantagem disso.
E encheu os olhos... pensou Kylie.
— Mas você até comentou que, se ele quisesse me matar aquela noite, teria feito isso, mas nem sequer tentou. Então o que queria comigo?
Burnett hesitou.
— Acho que ele queria mandar um recado para o acampamento. Fazer com que soubéssemos que a gangue não foi embora. Tenho certeza de que a prisão de vários membros da gangue foi um golpe pra eles. Se fossem embora agora, ia parecer falta de coragem. Se ficarem rondando por aqui, pelo menos não perdem sua dignidade. Tenho certeza de que ele achou que matar você traria muitos problemas para a gangue.
Kylie tentou compreender exatamente o que ele dizia.
— Mas ele matou aquelas meninas. Você está dizendo que isso não vai causar problema pra gangue? Isso não faz sentido.
Burnett olhou para Holiday como se pedisse ajuda.
Holiday apertou a mão de Kylie.
— Quando um sobrenatural mata outro sobrenatural, é mais fácil lidar com a ofensa. Temos nossa própria justiça.
— E quando mata humanos? O que acontece? — Não deixe que eles digam “Nada”, pensou Kylie. Por favor meu Deus, não deixe que eles digam “Nada”. Ela podia ser em parte sobrenatural, mas ainda era humana também.
— Isso é trabalho da UPF — explicou Burnett. — Mas como dá pra imaginar, pode ser uma situação delicada para a nossa justiça.
Kylie sentiu seus ombros ainda mais tensos.
— Está me dizendo que ele vai se safar dessa?
— Não — disse Burnett num tom mais profundo. — Você tem a minha palavra, Kylie, de que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que esse sujeito pague pelo que fez.
Exatamente como Burnett pretendia fazer isso não estava claro ainda. Nem a própria Kylie sabia se queria saber. Mas algo no jeito como ele disse aquelas palavras convenceu-a de que pretendia cumprir a promessa. E por isso ela estava agradecida.


Nessa noite, os líderes do acampamento marcaram uma reunião com todos os campistas no refeitório, onde serviram pizza e distribuíram sábios conselhos. Burnett falou para que tivessem muito cuidado.
— Mantenham-se nos caminhos e trilhas principais e não atravessem os bosques sozinhos — ele explicou. — Dependendo da quantidade de árvores ou da direção do vento, o cheiro do intruso pode não ser detectado.
Della sorriu para Kylie e depois se virou para Burnett.
— Talvez fosse melhor cancelar o final de semana com os pais — ela sugeriu.
— Ainda faltam duas semanas — disse Burnett, olhando para Della. — Espero que até lá o problema já esteja resolvido.
— Ei, não culpe uma garota por tentar! — resmungou Della.
— Tenho uma reunião com o Conselho Supremo na semana que vem — Burnett continuou. — Espero conseguir alguma ajuda para lidar com o que aconteceu hoje.
Kylie inclinou-se, chegando mais perto de Della.
— O que faz o Conselho Supremo? — perguntou à amiga.
— É uma espécie de Senado composto de anciões de diferentes espécies. — Della sorriu. — Acabei de aprender isso esta tarde. Chris deu uma palestra sobre o assunto no nosso encontro de vampiros.
— Um Senado? Não pensei que todas as espécies se davam bem... — Kylie comentou.
— E não se dão. Mas políticos de partidos diferentes também não se dão bem e mesmo assim se reúnem.
— Tem razão — respondeu Kylie, mas logo outra pergunta lhe ocorreu. — Que tipo de ajuda eles podem nos dar?
— Depende. Chris disse que o Conselho tem que votar até mesmo para saber se o caso vai ser investigado.
— Votar? Duas adolescentes foram assassinadas, como podem dizer não?
Della deu de ombros.
— Você precisa se lembrar de que nem todos os anciões concordam com o jeito de pensar do governo.
— Você quer dizer que alguns deles estão contra a lei?
Della assentiu.
— De acordo com o que disse Chris, a maioria dos anciãos respeita o governo, mas não quer ser controlado por ele. Por isso eles obedecem a algumas regras, mas nem todas — disse Della, arqueando uma sobrancelha.
Kylie balançou a cabeça. Ela já tinha dificuldade para entender a política humana, agora tinha que entender a sobrenatural também?
— Se assumirem o caso, então o que acontece?
— Ou eles deixam que o conselho da espécie acusada puna os responsáveis e tome as providências ou entregam o cara para a UFE. E eu nem quero pensar no que acontece com ele depois
— Nem eu — admitiu Kylie.
Della relanceou os olhos para a porta e seu humor pareceu mudar.
— Vou voltar pra cabana. Tem algumas coisas que quero fazer.
— Que tipo de coisas? — Kylie se lembrou dos obituários que vira no computador.
— Nada importante — disse Della, desconversando.
Kylie se inclinou na direção da amiga
— Você nunca seria capaz de matar alguém.
Della fitou os olhos de Kylie.
— Vejo você depois.
— Não quer que eu vá com você? — Kylie perguntou, lembrando-se do aviso de Burnett para que andassem juntos sempre que possível.
— Está de brincadeira? — Della perguntou. — Se alguma coisa nos atacar, eu vou ter que acabar protegendo nós duas.
— Ei... Não sou mais tão indefesa assim! — Depois de pensar no que aquelas duas garotas tinham passado, Kylie não estava encarando tão mal o fato de estar mais forte.
— Só porque derrubou uma porta e não fica mais pra trás quando andamos pelo bosque, não pense que isso significa alguma coisa. — Ela riu, mostrando a Kylie que estava só brincando. — Eu estou bem. Vejo você mais tarde.
Della saiu do refeitório e Kylie observou-a se afastar. Seu coração estava apertado por ela. Então viu a amiga vampira se virar e mostrar o dedo médio para dois garotos. Não havia dúvida de que tinham falado algo rude ou desagradável.
— Ei — Holiday parou ao lado de Kylie. — Está tudo bem com Della?
— Espero que sim. — Kylie percebeu que a distância que havia entre as duas desde a questão com Burnett tinha acabado. Se tinham conseguido vencer o abismo que se formou entre elas, será que Kylie conseguiria impedir que ele voltasse?
— Está tudo bem com você? — Holiday perguntou.
— Já estive melhor — Kylie disse com franqueza. — Só não consigo parar de pensar naquelas meninas.
— Talvez domingo a gente possa fazer um passeio até a cachoeira — respondeu Holiday.
— Ia ser muito bom. — A ideia de ir até a cachoeira com alguém que sentia o mesmo que ela lhe agradava muito.
Nesse exato momento, Burnett olhou para as duas e Kylie percebeu que Holiday tinha reparado também. Ela se encolheu um pouco, preocupada com a possibilidade de Holiday se lembrar de que estava furiosa com ela.
— Eu preciso me desculpar. — Holiday obviamente tinha lido as emoções de Kylie mais uma vez. — Eu exagerei com relação àquela coisa toda com Burnett.
Surpresa, Kylie encarou a amiga.
— Não, não exagerou, não. Eu estava errada em dizer aquilo a ele.
— Talvez, mas o seu coração estava certo. Quando gostamos de alguém, às vezes ultrapassamos os limites. Eu mais do que ninguém deveria saber disso. Vivo agindo assim! — A voz de Holiday ficou mais tensa. — Hoje, quando Burnett foi me contar que duas adolescentes tinham sido mortas e eu pensei que fossem vocês... Bem, digamos que aquela história toda pareceu uma bobagem. — Holiday passou o braço pelos ombros de Kylie e lhe deu um doce abraço de irmã.
— Obrigada. — Kylie lutou contra o nó de emoção na garganta. — Mas assim você vai me fazer chorar...
Holiday olhou na direção de Burnett.
— Ei, se você chorar, talvez ele saia correndo outra vez. Se eu soubesse que bastavam algumas lágrimas pra fazer Burnett sumir daqui, teria passado as últimas sete semanas chorando.
Kylie sorriu e, quando olhou para o vampiro, ela viu Selynn se aproximando dele e dizendo alguma coisa.
— O que ela ainda está fazendo aqui?
— Não sei ao certo — respondeu Holiday à meia voz. — Tenho certeza de que ela quer alguma coisa. E aposto que começa com B, é alto, moreno e bonitão.
Burnett ouviu o que Selynn veio lhe dizer e depois caminhou para a porta junto com ela.
— E talvez tenha acabado de conseguir... — comentou Holiday, com um sentimento de rejeição evidente na voz.
Kylie hesitou um pouco antes de perguntar, mas não se conteve:
— Aqueles dois estão... você sabe...
— Revirando os lençóis? — perguntou Holiday.
— É. — Kylie acrescentou mentalmente a expressão à lista de Della das maneiras de dizer “transar”.
— Esta tarde ele veio ao meu escritório e anunciou: “Sei o que parece, mas entre mim e a Selynn, as coisas não são o que parecem. Ou pelo menos não são mais”.
— Então eles estavam juntos e não estão mais? — Kylie perguntou.
— Disse que romperam há dois meses. Que nunca foi nada sério.
Kylie arqueou uma sobrancelha.
— E há quanto tempo vocês se conheceram?
— Dois meses.
— Humm...
— Humm o quê? — Holiday perguntou.
— Nada, não — mentiu Kylie. — E você disse o que a ele?
— Disse que não sabia por que ele se achava na obrigação de me dizer alguma coisa sobre Selynn.
— Ele não sabe quando você está mentindo?
— Sabe — disse Holiday com uma risada. Então ficaram um minuto só olhando o movimento no refeitório. — Alguma notícia do fantasma ultimamente?
— Não. Me assusta que... eu talvez esteja entendendo tudo errado.
— Não acho que isso vá acontecer. Ela provavelmente está tentando descobrir um jeito de transmitir o que precisa.
— Espero que sim.
Um barulho de briga explodiu do outro lado do refeitório.
— Do que você me chamou?! — alguém perguntou em voz alta.
Kylie e Holiday olharam para o local de onde veio o barulho e viram dois lobisomens se encarando, prestes a trocar socos.
— Meu trabalho nunca tem fim... — disse Holiday, num suspiro, saindo para apartar a briga.
Kylie observou-a enquanto se afastava e acalmava os ânimos dos dois garotos alterados. Depois de alguns minutos, sentindo-se um pouco solitária, ela viu Miranda conversando com suas colegas bruxas. Sabia que Miranda não se importaria se ela se juntasse ao seu grupo, mas Kylie preferiu não fazer isso. Helen e Jonathon estavam sentados numa mesa, jogando xadrez. Ela podia assistir a Helen arrasando com Jonathon outra vez, graças ao seu talento natural para o xadrez, mas por alguma razão lhe pareceu que os dois estavam felizes a sós.
Ela passou os olhos pelo refeitório e encontrou Derek. Ele estava encostado a uma parede, com os braços cruzados, olhando para ela. Um lento sorriso apareceu em seus lábios. E algo nesse sorriso fez Kylie pensar que ele apreciaria sua companhia.
Ela olhou em volta mais uma vez para ver quantas pessoas poderiam farejar os seus hormônios ou ler suas emoções. Havia gente por todo lugar. O que fazer? O que fazer?!
Olhou de volta para Derek, lembrando-se de como tinha sido bom ficar abraçada a ele aqueles poucos minutos no escritório e pensou... Que se dane! Então começou a andar na direção dele.
— Que tal uma pizza à luz da lua? — Derek soprou no ouvido dela quando ela parou na sua frente.
Kylie estava tão perto que conseguia sentir o cheiro da sua pele, recém-saída do banho. Uma visão encheu sua mente: ele dentro do boxe, sobre a pele apenas algumas gotinhas de água. Piscou e a visão desapareceu.
— Isso é como dançar à luz da lua? Então deve ser tentador... — Ela sorriu e então mordeu a língua. Por que sempre que chegava perto dele, só conseguia pensar... nele?
Ele sorriu.
— Pode ser. Com a pessoa certa. E a pizza certa... — Ele riu. — Ei, estou morrendo de fome.
Pegaram dois pedaços de pizza cada um e refrigerante e saíram do refeitório.
— Sei de um lugar perfeito — ele disse, quando deixaram para trás o burburinho e o ar-condicionado do refeitório. A noite estava quente e tranquila. Ele apontou para duas grandes cadeiras de balanço brancas que havia na frente do escritório do acampamento. Ela o seguiu. Estava prestes a se sentar quando o telefone tocou em seu bolso.
Colocando o copo de refrigerante no chão, ela equilibrou o prato numa mão e checou com a outra o número no visor do celular. Franziu a testa quando viu o número do pai e apertou o botão desligar.
— Quem era? — Derek moveu a outra cadeira, deixando-a virada de frente para a dela.
— Meu pai... quer dizer, meu padrasto — ela se corrigiu.
— Você ainda não está falando com ele? — Derek se sentou e pegou um pedaço de pizza de calabresa, mordendo um grande pedaço.
— Não. — Ela enfiou o telefone de volta no bolso e deixou-se cair na cadeira. Seus joelhos tocavam os dele e ela gostou disso.
— Por que não? — ele perguntou, entre duas mordidas na pizza.
Kylie olhou para ele.
— Por que eu ia querer falar com ele? — disse, colocando o prato no colo.
Ele acabou de mastigar e engoliu.
— Porque você gosta dele. Porque enquanto o casamento dos seus pais ia bem, ele foi um bom pai. — Ele apontou o dedo para Kylie. — Foi você quem me disse isso.
— É verdade, mas eu não te contei isso pra que usasse contra mim. — Ela pegou um pedaço de pizza e olhou para o queijo derretido. Sua boca se encheu de água e seu estômago roncou. Graças a Deus ela finalmente estava com fome. Por um tempo achou que o sangue tinha arruinado sua vontade de comer comida normal.
— Não estou usando isso contra você. — Ele deu um gole em sua bebida. — Estou só... tentando ajudar. Porque, quando você viu o número dele no visor, suas emoções foram só tristeza e solidão. Eu senti lá no fundo. Talvez se você falar com ele, não precise mais se sentir assim.
— Ele traiu a minha mãe. — Ela lutou contra o leve aborrecimento que sentiu com as palavras de Derek e deu uma pequena mordida na pizza. O sabor picante combinado com o queijo derretido aguçou seu apetite.
— Por isso mesmo — disse ele, mordendo outro pedaço da pizza. — Ele traiu a sua mãe. Não você.
Kylie engoliu a pizza e fez cara feia.
— Por que todo mundo vive me dizendo que a infidelidade dele não me afeta? Isso acabou com o casamento deles. Nada mais será igual na minha vida.
Derek estudou o rosto dela por cima da borda do copo e começou a balançar a cadeira.
— Talvez se você falar com ele, um pouco volte a ser como antes. O relacionamento entre vocês dois pode voltar a ser como antes.
Ela devolveu a pizza ao prato, deixando que a frustração acabasse com o seu primeiro sinal de fome depois de vários dias.
— Sabe, para um cara que nem pensa em falar com o próprio pai, você está falando demais. Quero dizer, você colocou um detetive atrás do seu pai e nem assim entrou em contato com ele.
Ela o viu contrair a mandíbula.
— E daí?
Ela estreitou os olhos e sustentou o olhar dele.
— E daí que é melhor você ficar longe disso, ok?
Derek apoiou os pés na cerca da varanda, deu um empurrão na cadeira de balanço, fazendo-a deslizar para trás, e olhou para ela.
— Até quando você quer que eu “fique longe”? Já tenho até receio de falar com você em público. Já não fiquei longe o suficiente?
A frustração na voz dele era evidente, mas foi a dor em seus olhos que a fez voltar à razão.
Por que ela estava agindo como uma idiota com ele?
— Me desculpe — disse por fim. — Não devia ter sido grossa com você. E não quis dizer que não quero que fale mais comigo em público. É só que... eu me sinto... me sinto tão mal-humorada. — Kylie lembrou-se do que Holiday dissera sobre as oscilações de humor que os lobisomens têm antes da lua cheia. Seria por isso que ela estava agindo daquele jeito? Ela olhou para o céu azul-marinho acima deles e fitou a lua, que estava praticamente cheia. Na segunda-feira ela saberia.
Quando olhou de volta para Derek, ele tinha recomeçado a comer. Mas ainda não parecia muito feliz. Nem sequer olhava para ela. Os pensamentos dela desviaram-se do que poderia acontecer na segunda-feira e se concentraram na raiva que tinham acabado de sentir um do outro.
— Ei — ela disse, para chamar a atenção dele.
Quando ele olhou para ela, sua expressão denunciava seu descontentamento.
— Sinto muito mesmo — ela repetiu.
Ele largou o que restava da pizza no prato e tomou um gole do refrigerante.
— Não precisa — murmurou, usando a mão para secar a boca. Seus olhos se fecharam por um segundo. — Você tem razão. Eu também não ia querer ouvir você me dizendo que preciso ligar para o meu pai. É só que...
— É só que...? — ela perguntou.
— Eu sinto tudo o que você sente e isso às vezes é um pouco demais pra mim.
— Ruim demais, você quer dizer?
— Não digo ruim... — ele disse, desviando os olhos.
— Então está tudo bem entre nós? Estou perdoada por ser uma megera? — ela perguntou numa voz suave, quase suplicante.
— Não acho que você tenha atingido a marca de megera ainda. — Ele sorriu. — Mas, sim, está perdoada por ser rabugenta.
Ele colocou o prato sobre a cerca da varanda e se levantou. Apoiando as mãos nos braços da cadeira, inclinou-se sobre ela e a beijou. O beijo não foi ardente, mas a maneira suave como roçou os lábios nos dela fez o coração de Kylie vibrar de emoção. Uma emoção tão deliciosa quanto a pizza que ela tinha abandonado no prato.
— Mmmm — murmurou, ao voltar a se sentar. — Eu não sei se é você ou se é a pizza, mas tem um gosto muito bom...
Ela tocou o rosto dele.
— Você ainda vai gostar de mim se eu for um lobisomem?
— O que você acha? — Os lábios dele encontraram os dela novamente. E desta vez o beijo veio com um toque da língua e fez a pulsação dela ficar ainda mais rápida do que já estava ultimamente.
Mas quando ele se afastou, não estava mais sorrindo. Nem parecia feliz.
— O que foi? — ela perguntou.
— Nada. — Ele se recostou novamente na cadeira de balanço.
Ela fitou a expressão no rosto dele à luz da lua.
— Detesto quando as pessoas fazem isso.
— Fazem o quê?
— Não dizem nada quando é tão óbvio que alguma coisa está incomodando.
Ele deu um suspiro.
— Tudo bem, se quer mesmo saber... Só acabou de me ocorrer que talvez eu não esteja tão ansioso assim para ver você virar um lobisomem.
— Porque vou ficar cheia de pelos? — ela perguntou.
— Não. — A expressão dele ficou mais sombria. — Porque... Lucas é um lobisomem.

7 comentários:

  1. Oh, vá lá! Agora o momento super romântico ficou estragado!

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  2. Derek gosta de sofrer, é sempre ele quem menciona o Lucas, que chato!

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    1. Pois é... ele não pode ficar reclamando muito quando se é ele que tem trago Lucas pra vida dos dois.

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  3. Huahua ainda shipo ela com o Lucas /0/ eu ainda vou vê eles se pegando. ����

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  4. Comcordo Aline ei quero ver eles se pegando.kkkkk

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  5. Ela chora demais, é emocional demais, se desculpa mais. To esperando que creça, pare de ser chorona e comece logo a ação.

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  6. mas jentem esse menino não esquece o Lucas qui chato, a kilye tem que ficar com i Lucas
    ass: Mary Kane

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