24 de setembro de 2016

Capítulo 17

Derek apareceu à porta no momento em que Kylie entrava correndo, à procura dele.
— Ei, eu ia procurar você — disse ele, exibindo um pedacinho de papel. — Peguei seu nome — e sorriu.
O sorriso era tão afetuoso que, se não estivesse tão furiosa e com tanto nojo, Kylie se perderia nele.
— É, eu sei, já me contaram — respondeu ela, olhando-o com desaprovação.
Derek estudou-a com atenção e prosseguiu com cautela:
— Pensei que talvez pudéssemos dar um passeio. Descobri um ótimo lugar durante a caminhada de ontem.
— Olha só, Derek. Estou lisonjeada, mas você não pode fazer isso — Kylie falava com rispidez.
— Fazer o quê? — uma expressão intrigada substituiu seu sorriso.
— Sei o que fez para ficar com o meu nome. E não vou deixar que isso vá adiante.
— Não foi nada — começou a se afastar da porta, mas olhou para trás ao ver que ela não o seguia. — Você não vem?
— Sangue — vociferou ela. E, dando os dois passos que a separava dele, o agarrou pelo antebraço. — Vamos, vou consertar as coisas — ela o puxou com força, mas ele não saiu do lugar. Foi então que sentiu a solidez de seus músculos sob os dedos.
— Está feito, Kylie — disse ele, inclinando-se. — Vamos só aproveitar nossa hora juntos, está bem? — seu cheiro, uma mistura deliciosa de sabonete masculino e odor natural, flutuou até ela.
— Você já? — Kylie olhou rapidamente para seu pescoço.
— Não, mas o acordo está feito.
— Pois vou desfazê-lo — garantiu ela, tentando ignorar aquele aroma e quanto ele lhe agradava... E a atração que sentia pelo garoto. Percebendo ainda o segurava pelo braço, soltou-o. Tocá-lo a fazia se lembrar de como ela costumava tocar Trey. Ah, como gostava de Trey, quanta saudade sentia dele!
Derek franziu a testa.
— Você não pode desfazer o acordo. Só venha comigo, por favor.
Ela continuou parada, fitando-o.
— Pelo menos me deixe tentar — insistiu ela.
Ele fechou os olhos por um instante, aproximou o rosto do dela e sussurrou no seu ouvido:
— Por favor, Kylie, acredite em mim desta vez. Não há nada que você pode fazer para mudar as coisas.
Alguma coisa na voz dele penetrava fundo nela, confundindo seus pensamentos. Ou talvez o hálito dele em seu rosto e aquele leve formigar perto do lóbulo da sua orelha é que não a deixavam pensar direito.
Era impossível dizer “não” a Derek.
— Tudo bem — mas, mesmo cedendo aos desejos do garoto, disse a si mesma que deveria ter cuidado. Derek, por alguma razão, tinha poder sobre ela e isso talvez fosse perigoso.
Os olhos verdes dele fixaram por um instante os olhos azuis de Kylie e sorriu de novo.
— Vamos.
Ofereceu-lhe a mão. Kylie quase a pegou, mas conseguiu se conter no ultimo instante.
— Eu sigo você — disse apenas, enfiando as mãos nos bolsos.
A decepção atenuou o sorriso de Derek, mas ele assentiu e começou a falar. E ela fez o que lhe disse que faria: o seguiu. Não falaram nada nos primeiros cinco minutos, enquanto subiam uma trilha. Depois, ele saiu da trilha e a levou na direção de um grupo compacto de árvores e arbustos. Considerando-se o dia anterior com Della e agora aquilo, só por milagre ela não se depararia com plantas venenosas. Ou, pior ainda, bichos-de-pé. Quando estava prestes a dizer alguma coisa, ouviu o murmúrio suave de água corrente, como se logo fossem encontrar um riacho.
— É aqui — disse Derek. Olhou-a por cima do ombro, com um sorriso nos olhos, mas não nos lábios.
Kylie o seguiu por mais alguns passos, parou e contemplou o riacho, ladeado por uma grande pedra, do tamanho de uma cama, suspensa sobre águas borbulhantes. O sol matutino filtrava-se por entre os troncos, fazendo tudo parecer tão verde, luxuriante... Vivo. Kylie respirou fundo aquele ar que lembrava tudo em volta: era fresco úmido e tinha cheiro de mato. À distância, ouvia-se o barulho do que poderia ser uma cachoeira – Shadow Falls. Sim, devia ser. O som da água que despencava enchia o silêncio e por algum motivo parecia chamá-la.
— Tem uma cachoeira aqui perto? — perguntou Kylie.
— Tem, mas aqui é mais bonito — Derek subiu na pedra. — Vem — e equilibrando-se, estendeu a mão para ajudá-la.
Kylie deu um passo à frente, mas, antes de segurar a mão de Derek ocorreu-lhe a pergunta:
— Por que fez aquilo?
Derek baixou os olhos para ela:
— Fez o quê?
— Você sabe — censurou Kylie.
— Ainda aquele assunto? — sacudiu a cabeça. — Não é o fim do mundo, Kylie. Agora suba e sente-se aqui. O lugar é ainda mais impressionante quando você olha por este ângulo.
Kylie segurou a mão dele e, sem quase nenhum esforço, ele a puxou para cima. Tão logo adquiriu equilíbrio, Kylie se soltou e procurou um lugar para se sentar, não muito perto dele. Não que aquilo ajudasse em alguma coisa. Sentindo o olhar de Derek, Kylie procurou admirar o riacho e tentou se concentrar em outra coisa.
— Uau! — exclamou. — Tem razão! Daqui é mais bonito mesmo — de fato. A altura oferecia uma vista mais ampla da água corrente. Os raios de luz, atravessando as árvores, incidiam no riacho e o faziam brilhar. Daquela perspectiva, o lugar inteiro parecia banhado numa mistura de luz e sombra lembrando algo que ela tinha lido num livro de contos de fadas. A paisagem era... Quase mágica. — Por quê? — perguntou de novo, sem olhar para ele.
— Estava curioso. Você me chamou a atenção desde que a vi ao lado de sua mãe, antes de entrar no ônibus. Parecia tão triste e...
Miranda lhe disse que algumas fadas e elfos podiam ler pensamentos; assim antes que ele continuasse, Kylie perguntou:
— Você consegue ler minha mente? — e, virando-se para Derek, sentiu o rosto queimar ao recordar um dos pensamentos mais constrangedores que tivera a respeito dele.
— Não — ele sorriu e, sob aquela luz, seus olhos verdes com raias douradas literalmente faiscavam. — Por que ficou vermelha? O que andou pensando de mim?
Inclinou-se um pouco mais até encostar a testa na dela. O coração de Kylie palpitou mais forte e o hálito de Derek, tão próximo, pareceu ainda mais doce. Olhando para ele ainda, lembrou-se finalmente da pergunta que fizera, mas, em vez de dar uma resposta, fez outra pergunta:
— Mas então como soube que eu estava triste?
Ele hesitou e seu sorriso se desvaneceu.
— Não posso ler pensamentos, mas consigo detectar algumas emoções básicas.
Kylie olhou no fundo dos olhos dele e concluiu que falava a verdade.
— Por algum motivo, provoco uma confusão de emoções em você. Algumas positivas, outras nem tanto. Só não sei por quê.
Estava sendo honesto e Kylie achou que devia pagar na mesma moeda:
— Você... Você me lembra alguém.
Derek arrancou um galhinho de árvore e pôs-se a examiná-lo.
— Alguém bom ou alguém ruim?
— As duas coisas. É o meu ex-namorado.
— Entendi — esperou alguns segundos e perguntou: — O que aconteceu entre vocês?
— Ele terminou comigo.
— Por quê?
Tinha contado parte da verdade, mas aquilo não podia dizer.
— Vai ter que perguntar a ele — era uma resposta pouco convincente ela soube disso enquanto ainda pronunciava as palavras.
— Acontece que ele não está aqui e você, sim — ele ergueu o raminho e começou a passar as folhas no rosto dela. Em seguida, fez o mesmo trajeto com o dedo. Estava chegando cada vez mais perto e Kylie não sabia como contê-lo.
Na verdade, não sabia se queria contê-lo. Ao contrário do que vinha acontecendo ultimamente, aquele sentimento não parecia totalmente... estranho. Mas isso não significava que estivesse disposta a se envolver no momento.
Desviou o olhar e procurou pensar em outra coisa.
— Como é ser... Fae?
— Meio fae — corrigiu ele.
Kylie voltou a olhar para ele, lembrando-se de ter pensado que, como ela, ele não parecia muito entusiasmado com a ideia de ser sobrenatural. E concluiu que aquela talvez fosse sua oportunidade de aprender um pouco mais sobre fadas e elfos. Afinal, segundo Holiday, a própria Kylie poderia ser meio fada.
— Como é ser meio fae?
— Poderia ser pior, eu acho — suspirou Derek, voltando a contemplar o raminho.
— De quem você herdou isso?
Derek a encarou novamente.
— Para quem não gosta de dar respostas, você faz um bocado de perguntas.
Ponto para ele.
— Tudo bem, vou falar de mim, mas depois você me fala de você, combinado?
Derek arqueou a sobrancelha e pareceu aceitar a proposta.
— Combinado — inclinou-se para trás, apoiando-se nas mãos, e a examinou.
A posição parecia deixar seu tórax ainda mais largo. Kylie se surpreendeu comparando-o a Trey. Lamento muito, Trey, mas Derek ganhou o prêmio de melhor corpo. Mas não se tratava apenas do corpo. Examinou o rosto dele. Seus traços eram... Mais viris. Mais bem delineados. Afugentando esse pensamento antes de demonstrar emoções que Derek pudesse ler, ela começou:
— Não sei o que eu sou. Acho que sou apenas humana, mas...
— Você não é humana — disse Derek, olhando-a daquela maneira estranha que parecia ser a de todos por ali.
Kylie revirou os olhos.
— Tá, eu sei que o meu cérebro não apresenta uma leitura normal, seja lá o que vocês leiam nele. Mas sei que humanos normais apresentam essa mesma leitura quando são, digamos, meio malucos. E às vezes tenho quase certeza de que sou maluca. A outra opção — admitiu com menos entusiasmo — é que tenho um tumor cerebral. E eu tenho sofrido muito com dores de cabeça ultimamente.
A expressão de Derek deixava claro que ele estava horrorizado com essa ideia.
— Fez exames?
— Não — respondeu Kylie. E só quando viu a preocupação nos olhos dele é que pensou com franqueza sobre aquela possibilidade. Meu Deus, e estivesse mesmo um tumor no cérebro? E se...
Derek arqueou as sobrancelhas, como se estivesse confuso.
— Mas... E quanto a ver fantasmas?
— Como sabe? — então se lembrou de ter perguntado se ele também via fantasmas. — Alguns humanos podem vê-los. A própria Holiday admite isso.
Derek balançou a cabeça, incrédulo.
— Então você acredita realmente que é apenas humana?
Aquela pergunta levantou uma onda de emoção no peito de Kylie.
— Acredito — fez uma pausa e prosseguiu: — Está bem, a verdade é que não sei no que acredito.
E sem nenhum aviso, seus olhos se encheram de lágrimas.
— Ei, não chore! — Derek ergueu a mão e limpou uma lágrima do rosto dela. O toque foi tão afetuoso, tão reconfortante, que ela quase segurou sua mão e encostou-a em sua face. Mas, em vez disso, afastou delicadamente a mão dele e enxugou os olhos ela própria.
— Estou muito confusa... É que estes últimos meses têm sido um verdadeiro inferno para mim. Meu namorado terminou comigo, minha avó morreu, meus pais vão se divorciar, depois comecei a ver esse soldado morto... E agora me dizem que não sou humana.
Derek a puxou para si e ela não resistiu. Encostou a cabeça no lugar entre o ombro e o peito do garoto, e aspirou seu perfume. Sentindo-se surpreendentemente à vontade, fechou os olhos. Naquela posição, o nó de emoções que lhe comprimia o peito de algum modo se desfez.
— Me desculpe — falou então, afastando-se. — Vocês, garotos, detestam quando a gente faz isso, eu sei.
— Detestamos, é?
— É, detestam — confirmou Kylie.
— Eu não sou Trey — disse Derek. — E, na verdade, não foi tão ruim assim — ele sorriu e tocou-lhe o queixo. — Além disso, seu nariz é bonitinho quando fica vermelho.
Kylie afastou a mão dele e riu. Não tinha certeza, mas achou que aquele era o primeiro sorriso de verdade que dava em semanas.
— Tá bom, agora é a sua vez. Fale-me de você.
O ar brincalhão desapareceu dos olhos de Derek. Recostando-se pouco, ele pressionou as palmas contra a rocha para se apoiar. Ali sentado flexionando os músculos dos braços e com um olhar sério, ele estava... Gato. Muito gato.
— Mas você é muito mais interessante — confessou ele em voz baixa, como se pudesse ler as emoções de Kylie e soubesse que tipo de reação sua presença provocava nela.
— Você prometeu. E, além disso, eu contei tudo.
Derek inclinou a cabeça e fitou-a através dos cílios escuros.
— Tudo, você não contou — havia em sua voz um leve tom de acusação. — Para ser franco, faltou aquilo que me deixa mais curioso.
— O quê? O que foi que faltou? — quis saber Kylie, tentando não apanhada de novo admirando a “vista”.
— O que está havendo entre você e...
— Não quero falar de Trey e de mim. Isso é... Muito pessoal.
— Tudo bem, mas eu não ia me referir a Trey. Quero saber o que havendo entre você e o lobisomem.

12 comentários:

  1. unicornio malandrão4 de outubro de 2016 11:51

    torcendo pro Lucas
    não confio no garoto fada
    realmente

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    1. gostaria de poder curti os comentarios! o seu realmente curtiria. pq sim eh mais envolvente os dois doq o derek

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  2. tbm nao confio nessa fada ai , acho que tem mais coisas entre ela e o Lucas , só que ela esta lembrando aos poucos

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  3. Só uma dúvida, quando foi mesmo que ela disse ao Derek que seu ex chama-se Trey?

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    1. Né! Tem alguma coisa de errada com ele! Mas como em todos os livros, ela vai acabar ficando com o Lucas que é esnobe, e o Derek vai ser do mal. Só acho kk

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  4. SOCORROOOOOO
    ESSAS PERGUNTAS VIU

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  5. concordo , ela nao falo de Trey para Derek. como ele sabe oo nome do ex dela????? ESTRANHOOO

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  6. Hummmmm? Missssterio, também quero saber.

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  7. Estou com medo de me apaixonar pelo Derek
    está fofo e muito misterioso

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  8. Mds a Kylie me irrita às vezes

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  9. Depois de ler os instrumentos mortais você nunca mais confia em fadas na sua vida

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