24 de setembro de 2016

Capítulo 14

Kylie recuou um passo na direção da porta de seu quarto. E outro ruído a deteve. Apurou os ouvidos, lembrando-se dos sons selvagens que cortavam a noite há algumas horas. Esse, porém, não era o rugido de nenhuma fera. Com a respiração suspensa, esforçou-se para identificar o som. Ouviu novamente uma espécie de miado indistinto. Um som débil, suave.
Um movimento na vidraça chamou sua atenção. Olhou em volta. O medo invadiu seu peito, mas desapareceu tão logo ela avistou um gatinho amarelo no parapeito da janela. Assustado com o gesto súbito da garota, o bichinho saltou para o chão. “Não vá embora”, murmurou ela, sem entender a princípio a preocupação repentina com o pequeno animal. Por fim, compreendeu. E se Lucas ou um dos lobisomens aparecesse?
Kylie correu para a porta e a abriu. Ajoelhou-se na soleira e chamou o gato.
— Vem cá, garoto. Vou cuidar de você — disse ela. Uma agitação de folhas respondeu às suas palavras. — Pode confiar em mim — segundos depois, uma pequena bola de pelos bamboleante foi se aproximando.
— Que gracinha — sussurrou ela e, com a ponta do dedo, acariciou delicadamente o queixo branco do bichinho que, ronronando, esfregou-se na perna nua de Kylie. Ela o pegou nos braços, examinou bem seus olhos dourados, apertou-o contra o peito e entrou.
O gato, miando alto, tentou escapar, como se não quisesse ficar preso lá dentro, mas Kylie o abraçou bem forte.
— Não, senhor — advertiu. — Há monstros lá fora. Aqui você está seguro.
O animal ficou mais calmo enquanto ela corria os dedos gentilmente por trás da orelha dele.
— Está com fome? — esfregou o nariz no alto da cabeça do gato e o aconchegou mais ao peito.
Foi até a geladeira e a abriu para ver se havia algo para ela comer e dar ao pobre gatinho. Ouviu, então, o ranger de uma porta às costas. Virou-se e viu Miranda sair do quarto, vestida com um camisetão amarelo e a calça de um pijama com estampa de carinhas sorridentes. Seu cabelo tricolor estava um tanto desarrumado e Kylie notou que, sem maquiagem, ela parecia bem mais jovem.
— Oi — disse Kylie.
— Pensei ter ouvido... — Miranda parou e arregalou os olhos. — O que é isto?
— Um gatinho. Ele... Ou ela, não é muito fofo? — levantou-o para ver qual era o sexo do animal. O gato ficou todo agitado, tentando até mesmo arranhá-la, mas Kylie o segurou com firmeza. — É menino. Ele estava espiando pela janela — aconchegou-o de novo ao peito e virou-se para a geladeira. — Acho que está com fome.
— Ah, não! — a exclamação de aborrecimento fez Kylie se virar para Miranda.
— O que foi? — perguntou, confusa. — Você é alérgica a gatos?
— O mesmo truquezinho de sempre, hein? — disse Miranda, mas Kylie não achou que sua colega estivesse falando com ela.
Miranda apontou um dedo rosado para o gato, girando-o ritmicamente.
— Rosas são vermelhas, com elas faço um buquê; mostre-me quem é ou vou lançar um feitiço em você.
— Pode parar. Vou voltar à forma normal. — as palavras vinham do gato!
Kylie ficou gelada. Palavras. Mas que inferno! Estaria sonhando? Gatos não... Falam. Olhou para Miranda, ainda sem decidir se jogava o gato no chão, mas prestes a fazer isso.
— Como eu ia imaginar?
Miranda olhou para Kylie e esboçou um sorriso; mas conteve-se e virou-se de novo para o gatinho.
— Faça isso agora, Perry!
Perry.
Kylie baixou os olhos para o gato aninhado entre os seios. Fagulhas em forma de diamante flutuaram à volta do bichano amarelado. E então, puff! Perry apareceu diante de Kylie, com a cabeça encostada em seu peito. Kylie deu um grito. Della irrompeu pela cozinha.
— O que está...? — piscou com um ar maroto. — Vocês querem ficar a sós? — perguntou, com um risinho, apontando para Kylie e Perry.
Recobrando-se do susto, Kylie agarrou o intruso pela orelha e o afastou de si.
— Ele está de saída.
— Ai! Ai! — gemeu Perry enquanto Kylie o arrastava para trás da mesa da cozinha. — Larga a minha orelha! — ordenou, rosnando como um animal enfurecido.
Mas Kylie não estava disposta a obedecer às ordens de ninguém e a raiva a impedia de sentir medo dele. Agarrada à orelha de Perry como um carrapato a um cão, arrastou-o ao longo da mesa até a porta, abriu-a com a mão livre e jogou o pervertido para fora com tanta força que ele aterrissou sentado no chão. Mas Kylie ainda não tinha terminado. Apontou um dedo para ele:
— Atreva-se a chegar perto dos meus peitos novamente e da próxima vez não vou puxá-lo pela orelha. E, caso não saiba a que parte do corpo estou me referindo, digamos apenas que, quando voltar a ser um gatinho, descobrirá que não poderá mais cruzar! — e bateu a porta com estrondo. — Merda! — Kylie pôs-se a ir e vir pela cozinha, abrindo e cerrando os punhos.
Della e Miranda estavam imóveis, de olhos arregalados e boca escancarada, como que em estado de choque. Miranda riu primeiro.
— Me desculpe — murmurou —, mas foi tudo tão divertido!
— Divertido coisa nenhuma! — rugiu Kylie, ainda furiosa, a garganta apertada de raiva.
— Ah, foi sim! — concordou Della, rindo a ponto de quase cair sobre a mesa. — Você esconde muita coragem por trás dessa sua carinha inocente. Gostei.
— Ou tem muita coragem ou é muito idiota — disse Miranda. E, em tom exasperado: — Tem ideia do que Perry é? Talvez o mais poderoso metamorfo do mundo, atualmente. Todos sabem que não se deve irritar um metamorfo. Essas criaturas são imprevisíveis.
— Eu... Ele... Ele me enganou para deixá-lo se esfregar em meus peitos — lembrou-se do miado doce do gatinho se transformando num rugido ameaçador.
Bem, talvez ela tivesse mesmo agido de maneira meio idiota, mas nada – nada – a irritava tanto quanto ser feita de boba. E aquele sujeito tinha conseguido fazer exatamente isso. Tentando conter as lágrimas, pois sempre chorava quando estava furiosa, percebeu a geladeira ainda aberta e foi até lá para fechá-la. O ar frio que vinha de dentro golpeou seu rosto e então ela se lembrou...
— Meu Deus! Eu vi as “coisas” dele!
Às suas costas, Della e Miranda riram ainda mais. E então, sabe-se lá o motivo, de repente Kylie também passou a ver graça naquilo. Ainda com a mão na porta da geladeira, começou a gargalhar. Pelos cinco minutos seguintes, ficaram sentadas à mesa, chorando de tanto rir. Era o que Kylie e Sara faziam com frequência.
Até tudo mudar, é claro.
— Devia ter visto a cara dele quando puxou sua orelha — disse Della. — Ah, se eu estivesse com a minha câmera!
— Quase fiquei com dó do coitado — disse Miranda.
— Dó daquele cara? — debochou Kylie.
— Aquele jeitinho meio infantil dele é até atraente, não acham?
— Atraente?! Ah, ele é uma aberração, isso sim! — insistiu Kylie.
— E nós? Não somos? — ponderou Della, já com uma pontinha de mau humor.
Eu talvez não, pensou Kylie, mas não disse nada. Nesse momento, algo saltou sobre a mesa. Kylie deu um grito ao constatar que era um sapo.
Miranda, revirando os olhos, agarrou o bicho.
— Se comportando mal novamente, Sr. Pepper? — perguntou ao anfíbio mantendo-o à curta distância dos olhos. As pernas do animal, balançando, quase alcançavam o tampo da mesa.
— O que foi que ele fez pra você botar um feitiço nele? — quis saber olhando para o bicho com nojo.
— Como nosso amigo Perry, Sr. Pepper é membro do clube dos pervertidos — Miranda deu uma sacudidela no sapo. — Foi meu professor de piano e tentou dedilhar outro instrumento, se é que me entende.
Della mostrou os dentes para o sapo.
— Por que então não o transformamos num petisco e acabamos logo com isso? Pernas de sapo são tão saborosas quanto as de rã?
— Hummm... Não sei. — Miranda lançou um olhar para Della. — Mas gostaria de saber — completou, mirando o sapo.
Kylie podia estar enganada, mas juraria que os olhos do sapo se arregalaram de susto.
Miranda riu:
— Ah, se eu fosse esse tipo de bruxa!
— E que tipo você é? — perguntou Kylie, com certo alívio.
— Destrambelhada — respondeu Miranda. E, franzindo a testa para o sapo: — Conhece as regras, Sr. Pepper. Pare de pensar em coisas indecentes e voltará ao normal.
O bicho estirou as pernas e se dissipou no ar rarefeito.
— Que espécie de feitiço colocou nele? — perguntou Della.
Miranda gemeu de frustração:
— Se eu soubesse, consertaria as coisas.
— Mas então não se lembra? — espantou-se Della.
— Lembro-me do que pensei e fiz, mas sou... Sou disléxica e às vezes pronuncio mal minhas fórmulas. E tenho de saber exatamente o que disse para desfazer. Então, toda vez que esse tarado pensa numa menininha, transforma-se em sapo e vem me fazer uma visita.
Kylie se inclinou para ela:
— Pode ser ruim para você, mas ele bem que merece.
— Ah, merece. Mas está sempre me lembrando de que sou destrambelhada.
— Verdade — concordou Della. — Mas, vendo as coisas pelo lado positivo, assim você impede que ele volte a mexer com outras garotinhas. Odeio tarados. Um coroa que era meu vizinho ficava na janela, com um frasco de creme na mão, masturbando-se diante de mim e outras garotas.
— Isso é nojento — resmungou Miranda.
— E o pior é que uma garota de nossa rua me disse que o coroa já tinha se exibido para ela também. Contou aos pais e os pais contaram à polícia. A polícia voltou e esclareceu que o cara era pastor e, no caso, seria a palavra de minha vizinha contra a dele. Preferiram acreditar no coroa.
— Por isso recorri ao feitiço — disse Miranda.
— Ah, mas eu não deixei por menos! — riu Della.
— O que você fez? — perguntou Kylie, quase com medo do que iria ouvir.
— Entrei de fininho na casa dele e substituí o creme por uma cola forte que meu pai usava no laboratório. Vocês tinham que ver a expressão no rosto do coroa quando percebeu que não conseguia tirar a mão do pinto! Dei então um telefonema anônimo para a polícia e contei tudo. Agora, como o velhote poderia disfarçar o que estava fazendo? A mão dele ficou grudada à cena do crime!
Todas caíram na gargalhada. Enxugando as lágrimas de riso, Kylie, olhando para Della e Miranda, podia jurar que eram adolescentes absolutamente normais. Quer dizer, podia jurar até que sentiu uma rajada de frio nas costas. Olhou por cima do ombro, desejando mais do que tudo que não houvesse da ali. Mas nem todos os desejos se realizam.
O soldado Dude estava a apenas alguns passos dela. Perto demais. Mais perto do que nunca. O frio que emanava da presença dele fez com que um medo gelado subisse pela espinha de Kylie.
— Kylie? — ouviu Miranda chamar seu nome. Ou seria Della? Não saberia dizer porque o som parecia vir de outro mundo. Um mundo onde fantasmas não existiam. Um mundo para o qual queria voltar, mas não conseguia.
O espírito manteve os olhos fixos em Kylie, enquanto erguia lentamente a mão e tirava o capacete. Sangue – sangue vermelho vivo – escorria da testa. Kylie mal conseguia respirar vendo aquele líquido descer pelo rosto do homem. Então tudo entrou em câmera lenta. Kylie se levantou, disposta a fugir.
Plop, plop, plop.
As gotas de sangue caíam no assoalho e espirravam nos pés nus de Kylie. As gotas foram então se juntando, começando a formar letras e uma palavra apareceu:
Ajude...
Kylie tentou respirar, mas seus pulmões se recusavam a absorver o gelado. Soltou o oxigênio preso na boca e viu uma nuvem de vapor flutuando diante dos lábios.
— Tem algo errado? — as palavras de Miranda pareciam flutuar também no cérebro de Kylie.
Boa pergunta, pensou ela. Pena que não soubesse a resposta.
— Estão sentindo esse cheiro? — as palavras de Della penetraram na consciência de Kylie, mas pareciam vir de muito longe, como a música de fundo num filme. — Tem um cheiro muito bom aqui.
— Não sinto nada — disse Miranda. A conversa das duas prosseguiu... Mas logo se tornou um eco distante. — Ah, merda... Merda... Merda. A aura de Kylie está ficando preta... Preta... Preta. Acho que é um fantasma... Fantasma... Fantasma...
— Que droga! — exclamou Della. — Detesto essa merda! — ouviram-se passos.
As amigas tinham fugido. Uma porta bateu. Kylie quis correr também, mas não conseguiu. Não conseguia se mexer. O sangue continua espirrando em seus pés; mas ela não quis ler as palavras que se formavam.
— Espere! — A voz sumida de Della vibrou através das paredes. — Ela parou de respirar. Kylie parou de respirar. Precisamos fazer alguma coisa.
Kylie ouviu a porta se abrir. Ouviu seu nome ser pronunciado. Mas então tudo ficou escuro e ela desabou no chão.

7 comentários:

  1. unicornio malandrão4 de outubro de 2016 11:15

    retiro oque eu disse no comentário anterior eu não gostaria de estar na pele dela

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  2. Eu sabia!!! Aquilo não era um gato! Kkkkkkkkkk. Que true sujo!

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  3. A Dell a n poderia sentir cheiro só sangue de um fantasma... Será q n é um?

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  4. Eu também desconfiei do gato hehehe..., por que o Perry tava muito chegado para o lado da menina, até quando virou um unicornio, hehehe...

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  5. " Eu vi as "coisas" dele!!
    kkkkkkk Ri litros aqui
    Ass:Letícia

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  6. Eu adorei a parte do gato! E acho Perry fofo!
    Só que não entendi bulhufas alguma do final!

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