18 de setembro de 2016

Capítulo 14

Tive a sensação de que o chão sumia sob meus pés. Por que não dei um abraço de despedida no padre Dominic? Por que deixei que ele fosse embora, em primeiro lugar? A enfermeira sorriu e tocou meu ombro de maneira confortante.
— Suzannah, não se preocupe. O cirurgião, Dr. Patel, é o melhor nessa área e disse que o padre está indo muito bem pra uma pessoa da idade dele que caiu da escada. Seu estado é sério, mas não crítico.
— Ah — respondi sem força. Sério, mas não crítico? Isso era bom? E queda da escada? Era isso que os Walters achavam que havia acontecido? Lucia fazia com que eles vivessem em um estado total e completo de negação, ainda mais sabendo o que eu agora sabia sobre a primeira – e a segunda – Sra. Walters.
— Se você esperar um minutinho — continuou Sherry — vai poder subir com seu noivo. Eu ouvi o Dr. Patel o colocando a par do caso por telefone há alguns minutos.
Fiquei olhando para ela ao mesmo tempo que meio notava Peggy, a ruiva, tirando a bolsa de baixo da mesa da recepção e retocando o brilho labial. Era evidente que tinha uma queda por almas antigas... ou pelo menos por gostosos residentes latinos.
— Peraí. O quê?
Sherry sorriu.
— Isso mesmo. Ouvi o Dr. Patel falando que o Dr. De Silva estava entrando no estacionamento.
— Ah! — respondi. — Que bom. — Eu me perguntei se meu sorriso parecia tão congelado quanto eu o sentia. — Vou lá fora rapidinho então para ver se encontro Jesse, hum, o Dr. De Silva. Aquelas três menininhas ali na máquina de balas são minhas sobrinhas. O pai delas está vindo buscá-las daqui a pouco. Até lá, você pode avisar a elas aonde fui?
— Eu fico de olho nelas para você — disse Peggy, voluntariando-se. Estava agora checando o lápis de olho, usando o espelho do pó compacto. — O Dr. De Silva deve estar feliz em se tornar tio. Ele é tão bom com crianças.
— É mesmo. — Quando não estava tentando mandar a alma delas para o inferno. — Já volto.
Agradeci e me virei, andando como um robô até as portas corrediças que davam no estacionamento.
Que desastre. Não apenas o fato de que o padre Dominic estava em estado tão grave, mas também que eu não tive a oportunidade de conversar com ele antes de ver Jesse.
Embora sua profissão de escolha agora fosse curar criancinhas, Jesse havia sido criado em um rancho espaçoso na Califórnia do século XIX, uma época difícil. Não passou a infância, como Paul e meus meios-irmãos, andando de skate, surfando e jogando videogame. Jesse cresceu cortando madeira, instalando cercas e matando coisas... e não estou me referindo a galinhas. Por mais que fosse caloroso e querido, havia uma parte dele – uma parte que não tinha nada a ver com o tempo que passou preso no mundo espiritual – que era tão prática a ponto de ser fria quando se tratava de dar fim ao sofrimento de seres que não têm salvação.
Outro bom motivo para eu nunca contar a ele o que aconteceu entre Paul e eu na noite da formatura... nem o que estava acontecendo entre nós atualmente.
E, de repente, lá estava ele, cruzando o estacionamento com a cabeça baixa, punhos dentro dos bolsos da jaqueta de camurça, sem notar minha presença.
A principio.
Um segundo depois, vi a cabeça de cabelos escuros se erguer lentamente, como se tivéssemos algum tipo de laço telepático – o que eu não gostaria que fosse verdade, ou ele saberia dos pensamentos impuros que me invadiam ao ver aquele jeans justo e estrategicamente envelhecido. Nossos olhares se encontraram.
E, quando me dei conta, eu já havia percorrido os metros que nos separavam e estava em seu abraço forte.
— Mi amada — suspirou ele contra meus cabelos enquanto me abraçava. — Vai ficar tudo bem. O padre Dominic vai ficar bem.
— Você não tem certeza.
— Não, mas ele é forte. Depois de tantos anos de lá para cá, correndo atrás de alunos e espíritos, ele se manteve saudável.
— Até agora.
Ele segurou meu queixo e ergueu meu rosto.
— Suzannah, você está chorando?
Eu o soltei e dei um passo para trás, rapidamente e com relutância. O abraço dele era meu lugar preferido, depois de sua cama – que tinha um cheiro delicioso de
Jesse.
— É claro que não estou chorando — falei, passando a mão rapidamente pela bochecha. — Eu nunca choro. É alergia. Elas pioram muito nesta época do ano.
Jesse me deu um de seus sorrisos de canto de boca – que devia ser patenteado e vendido na TV como suplemento para aprimorar a vida sexual das mulheres. Os produtores ficariam milionários.
— Tudo bem se você chorar — disse ele. — Eu gosto. Isso me dá a oportunidade de ser o machão superprotetor do século XIX que você sempre menciona.
— Como se você precisasse de desculpa para isso. Ouvi dizer que você falou com o Dr. Patel. O que ele disse?
— Disse que o padre vai ter uma recuperação longa, mas que, se ele não pegar nenhuma infecção nas próximas 24 horas, vai ficar bem.
Precisei virar o rosto para dar uma olhada cuidadosa na estátua de São Francisco que ladeava a entrada do hospital porque senti uma lágrima se formando no canto do olho. Felizmente, era uma estátua antiga, do mesmo tipo da estátua de Junípero Serra que havia no jardim em frente ao meu escritório (com a diferença de que a cabeça desta não havia sido arrancada por uma PMNO irada), então havia vários detalhes a serem analisados. Aos pés da estátua de São Francisco havia esculturas de bronze dos animais gratos que ele havia salvado, em vez dos norte-americanos nativos que o padre Junípero havia escravizado.
— Suzannah — disse Jesse, e fez carinho em meus cabelos. Acho que minha estratégia de olhar para a estátua não o enganou.
— Então, em outras palavras — falei, tentando manter a voz sob controle —, ele realmente pode morrer. Foi o que Emily falou.
— Emily? Ela tem só 5 anos, não é uma médica profissional treinada. — Jesse passou os braços ao meu redor e me apertou em um abraço de novo. O calor era reconfortante, ainda mais porque o sol já estava se pondo, e o ar, ficando mais frio. — Ele está muito machucado. Mas também é muito teimoso, como você sabe.
Estremeci e deitei a cabeça no peito dele da mesma forma que o gato, Spike, fazia de vez em quando, nos raros dias em que se sentia afetuoso.
— Jesse, a culpa é minha. — Meus dedos apertaram a camurça macia de sua jaqueta. Foi um presente de Natal que dei a Jesse no ano anterior. Ele me recriminou gentilmente por eu ter gastado tanto dinheiro, mas eu me recusei a trocá-lo por “alguma coisa mais sensata”. — Eu jamais devia ter deixado ele ir sozinho. Ele disse que conseguia lidar com ela, que Lucia estava chateada comigo, não com ele, e que, portanto, não o machucaria, e que era responsabilidade dele porque ele devia ter visto a menina quando casou Kelly com o pai de Becca. Mas eu devia ter percebido que uma coisa dessas ia acontecer. Ele é tão velho, está tão longe de seu melhor, e ela é tão forte... Eu devia ter...
— Devia ter feito o quê? Prendido ele numa cadeira? Você conhece o padre Dominic mais que qualquer um, Suzannah. Quando ele coloca uma ideia na cabeça, ninguém consegue impedi-lo. Precisa fazer tudo do jeito dele.
— Eu sei. Mas se ele morrer... se ele morrer...
Eu mal conseguia pronunciar as palavras. Se o padre Dominic morresse, eu perderia o melhor mentor que já tive, e, por mais absurdo que pareça, um dos melhores amigos que já tive também. Se alguém houvesse me dito isso na primeira vez em que entrei no escritório dele, tantos anos antes, eu jamais acreditaria. O que uma menina agnóstica do Brooklyn poderia ter em comum com um idoso padre católico da Califórnia?
A habilidade de ajudar espíritos perdidos a encontrarem sua casa, no final das contas... mesmo que, conforme o padre Dom dizia, nem sempre concordássemos com a metodologia um do outro.
Sem o padre Dominic, eu jamais aprenderia que era melhor fazer perguntas primeiro e guardar os socos para depois. Jamais teria descoberto quem Jesse realmente era – o amor de minha vida – nem teria tido coragem de trazê-lo de volta ao mundo dos vivos. Eu certamente não estaria me preparando para passar o resto da vida com ele... eu esperava.
Mesmo que eu não tivesse falado nenhuma dessas coisas em voz alta, Jesse, como sempre, sabia o que eu estava pensando.
— Se ele morrer, vamos perder a única pessoa que acreditou em nós — disse ele. — E quem vai oficializar nosso casamento? Não vai ser a mesma coisa se outra pessoa nos casar, Suzannah. Eu não vou querer.
— Jesse. — Afastei minha cabeça de seu peito. Senti seus braços ficando tensos, e sabia o que ele ia dizer. — Não...
— Não me diga não, Suzannah. — Ele abaixou os braços. — Você sabe por que eu vim aqui.
Eu sabia, mas por algum motivo achei que, se não falasse em voz alta, não seria verdade. Meu namorado não queria exorcizar ninguém. Não tinha como.
— Para ver o padre Dominic, é claro.
A escuridão no olhar dele não tinha nada a ver com a cor das íris. Não vou mentir. Isso me assustou.
— Não. Não tem nada que eu possa fazer por ele. Está em boas mãos. As melhores. Eu vim vê-la, e saber o que descobriu. Preciso saber onde ela está enterrada, Suzannah.
Meu queixo caiu.
— E isso vai ajudar em quê?
— Você sabe a resposta. Para que eu possa mandá-la de volta ao inferno, ao qual pertence.

2 comentários:

  1. Ai mdsssss
    Eu tô morrendoooo! 😲😲😲😲😲

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  2. UH! Jesse dumal!!! Que susto o padre D. nos deu.

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