30 de setembro de 2016

Capítulo 13

Era a mãe dela. A constatação calou fundo em seu peito. Calou fundo e doeu. Ela nunca pensou que sentiria aquilo, mas sentia falta da mãe. Queria que ela estivesse ali para... apenas para ficar ao lado dela. E não era só porque o relacionamento entre as duas estava melhor. Kylie sentia saudade até de como era antes.
Por mais que dissesse que a mãe nunca a amara, quanto mais tempo Kylie passava longe dela, mais começava a ver as coisas de modo diferente. É claro que a mãe era uma pessoa emocionalmente distante, e é claro que Kylie era muito diferente dela. Mas, por alguma razão, agora ela via todas as outras maneiras pelas quais a mãe expressava o seu amor. As panquecas todo sábado de manhã. O depósito em sua conta bancária cada vez que ela dizia precisar de alguma coisa. Até os insuportáveis panfletos sobre sexo demonstravam o carinho maternal – apesar de Kylie preferir que ela deixasse de colocá-los sobre a sua cama...
Ao atender ao telefone, ela lutava contra a onda de nostalgia.
— Oi, Mãe. — Kylie prometeu a si mesma que não iria chorar e, com esforço, conseguiu impedir a voz de tremer.
— Querida? — A preocupação instantânea que transpareceu na voz da mãe aumentou o nó na garganta de Kylie e a emoção fez suas narinas arderem. — Está tudo bem?
Como a mãe podia pressentir que havia alguma coisa errada se Kylie só tinha pronunciado duas palavras? Será que a mãe era paranormal? Não, ela era só humana. Devia ser apenas instinto maternal. E isso nunca faltou à mãe.
— Está. — Kylie mordiscou o interior da bochecha para evitar o choro.
— O que está acontecendo, meu bem?
As lágrimas afloraram nos olhos de Kylie.
— Não é nada. — Ela observou Socks mudar de posição sobre o travesseiro e rezou para que ele não estivesse prestes a borrifar um jato de fedor sobre ela. Ficar toda fedorenta graças ao seu gato-gambá seria a última gota. — Foi um dia difícil, só isso.
— Difícil por quê? Você quer vir para casa? Só precisa me dizer e eu dirijo até aí hoje à noite e pego você.
— Não, mãe. Eu adoro este lugar. — Kylie se lembrou de que a mãe ainda não tinha concordado totalmente com a ideia de matriculá-la para o ano letivo. O que significava que, por enquanto, Kylie não podia mencionar nada de negativo com relação a Shadow Falls. Ela realmente tinha que fazer a mãe concordar especialmente se... se Kylie fosse de fato um lobisomem. Como, pelo amor de Deus, uma pessoa conseguiria explicar isso à sua mãe humana? — Eu só... cometi um erro hoje e alguém de quem gosto muito ficou chateada comigo.
— Bem, todo mundo comete erros — confortou-a a mãe. — Você só precisa se desculpar.
— Já fiz isso.
— E não foi perdoada? Essa pessoa ainda está com raiva de você?
— Não está com raiva. Só desapontada.
O remorso oprimiu seu peito quando ela se lembrou de Holiday lhe dizendo essas palavras. Kylie sabia o quanto doía ser decepcionada e magoada por alguém em quem confiava. Era muito pior do que ficar com raiva. Como acontecia com seu pai. Tudo bem, do pai ela sentia raiva e decepção ao mesmo tempo, mas era a “mágoa” que doía mais. Enquanto a raiva quase lhe causava uma sensação agradável, a mágoa não causava nenhum sentimento bom. Nenhum.
— Você não quer me contar o que aconteceu? — a mãe perguntou, sem querer pressioná-la, mas ao mesmo tempo sentindo que era sua obrigação como mãe dizer isso. Surpreendentemente, Kylie queria contar. Ela não iria, nem poderia, contar tudo à mãe, mas poderia revelar alguma coisa.
— Uma pessoa me contou algo em confiança. E eu... contei seu segredo a outra pessoa. Na hora, realmente achei que isso poderia ajudá-la... a resolver o problema. Mas...
— Mas não ajudou? — a mãe perguntou.
— Não. Quer dizer, não que eu saiba.
— Kylie, pelo que parece você estava tentando fazer a coisa certa. Não seja tão dura consigo mesma. Foi só um pequeno deslize, garota.
Kylie quase riu das palavras da mãe. Não foi justamente isso que ela falou a Miranda? Talvez Kylie fosse mais parecida com a mãe do que pensava.
Ela sentia um aperto no peito.
— Amo você, mãe — Kylie disse, sem pensar.
— Ah, querida — suspirou a mãe, como se agora ela é quem fosse chorar. — Amo você, também. Posso fazer alguma coisa pra ajudar? Posso ir até aí e chutar o traseiro de alguém se precisar.
Uma lágrima rolou pelo rosto de Kylie.
— Você chutaria o traseiro de alguém por mim?
— Sem pensar duas vezes.
Kylie riu e fungou ao mesmo tempo.
— Posso mudar de assunto um minutinho? Pra contar uma coisa engraçada? — a mãe perguntou, parecendo animada. — É o motivo de eu ter ligado.
— Pode. — Kylie enxugou os olhos. Ela bem que precisava de boas notícias.
— Você nunca vai adivinhar o que eu programei para sexta-feira à noite, quando você estiver em casa.
— O que é? — Kylie perguntou, constatando que não estava tão mortificada diante da ideia de ir para casa. Seria bom passar algum tempo com a mãe e se afastar um pouco dos problemas que a afligiam no acampamento.
— Foi pensando em você que fiz isso.
— Fez o quê, mãe? — Kylie perguntou, sentindo a empolgação da mãe.
— Uma noite caça-fantasmas. Lembra? Você mencionou que a cachoeira do acampamento podia ser mal-assombrada.
— Uma noite caça-fantasmas? — Kylie mal podia acreditar no que ouvira.
— É um jantar num hotel mal-assombrado e depois eles nos levam para conhecer todo o hotel. Não é absolutamente eletrizante?
Kylie desabou sobre o travesseiro e agora estava mesmo com vontade de chorar.
— É. Absolutamente — nada — eletrizante...
Trinta minutos depois de desligar o telefone, ela ainda continuava contando carneirinhos, na tentativa de conseguir cair no sono. Enquanto as centenas de carneirinhos saltavam sobre a sua cama, a mente de Kylie repassava a discussão com Holiday.
“O que ele sente não interessa. Eu não contei aquilo a você para que contasse a outra pessoa”, Holiday disse.
“Sinto muito. De verdade. Eu sei que foi um erro, mas achei que... quer dizei; é como se estivesse deixando o que aconteceu com o seu noivo impedir você de ver as possibilidades com Burnett. Você o está castigando por algo que ele não fez.”
Você o está castigando por algo que ele não fez.
Você o está castigando por algo que ele não fez.
Então a mente de Kylie deu um giro e se desviou para a discussão que ela havia tido com Derek.
“É tudo uma questão de sexo, né?”, ela disse.
“Não. Não é disso que estou falando”, discordou ele.
Kylie reviveu toda a raiva que fervilhou dentro dela naquele momento. Uma raiva acumulada, reprimida. A raiva que ela tinha sentido de... Trey.
Você o está castigando por algo que ele não fez.
— Ah, merda! — Ela se sentou na cama. Será que tinha feito a mesma coisa que acusava Holiday de estar fazendo? Quanto mais pensava nisso, mais constatava que Derek nunca, nem uma vez, a tinha pressionado a fazer sexo com ele. A queixa de que ela o estava evitando tinha mais a ver com o fato de ela se esquivar dele, não de não querer transar.
Então um trecho da conversa com a mãe lhe ocorreu. “Todo mundo comete erros. Você só precisa se desculpar”.
A mãe dela estava certa. E isso, Kylie percebeu, era outra coisa que nunca pensou que um dia pensaria sobre a mãe. Mas, dane-se, a mãe estava certa. Kylie precisava se desculpar. Levantando-se, tirou a camisola e enfiou novamente a calça jeans curta, o sutiã apertado, o tênis um número menor e uma camiseta, e foi procurar Derek.
No momento em que pôs o pé do lado de fora da cabana; o clima quente e úmido a atingiu em cheio. Ela seguiu na direção do refeitório, mas depois parou. Derek às vezes saía um pouco mais cedo do jantar para telefonar para a mãe. Não que confessasse isso a todo mundo. Mas tinha contado a ela.
Uma sensação de calor se avolumou no seu peito. Ela gostou que ele tivesse confiado nela. Ai, Deus, ela gostava muito dele mesmo e, do fundo do coração, esperava que aceitasse suas desculpas. Como não queria que ninguém dotado de superaudição ouvisse o que ela tinha a dizer, resolveu procurá-lo na cabana. Andava num ritmo lento, o que algumas semanas atrás seria incrivelmente rápido para ela Enquanto avançava, sentia a copa das árvores pairando sobre sua cabeça. Sentia o vento agitando seus cabelos. Teve um vislumbre das estrelas cintilantes, mas não prestou muita atenção no cenário. Em vez disso se concentrou no que diria a Derek quando o visse.
A meio caminho da cabana, uma sensação a envolveu. Como se alguém a observasse. Ela diminuiu o passo e ficou atenta, tentando ouvir alguma coisa. A noite estava repleta do zumbido de insetos, não havia nenhum silêncio sepulcral ou pouco natural, mas mesmo assim ela sentiu. Olhando á sua volta, para a borda da floresta, ela checou para ver se não havia nenhum lobo atrás dela. Não havia olhos dourados perscrutando-a por trás dos arbustos. Tentou se convencer de que não havia nada, mas acelerou o ritmo, ansiosa para encontrar Derek – ansiosa para ter sua constituição mais alta e sólida ao seu lado.
Seus braços em volta dela.
A cabeça em seu ombro.
Talvez os lábios dele se fundindo com os dela.
Ah, com certeza, pensar em Derek afugentava os seus temores.
Ela fez a última curva da trilha e viu luzes acesas na cabana de Derek. Havia alguém lá.
— Por favor, meu Deus, que seja ele.
Ela venceu os últimos metros que faltavam, quando notou que a porta da frente estava entreaberta. Aquilo era meio estranho. Quando subiu os degraus da varanda, percebeu um cheiro familiar. O cheiro de frutas silvestres maduras. Ainda não tinha definido bem o cheiro quando sentiu o tênis pisar numa mancha escorregadia, que a fez escorregar e cair.
Sentada no chão, ela se segurou no alpendre para se levantar. Mas a sensação de algo molhado e espesso sob a palma fez com que parasse.
Foi então que reconheceu o cheiro doce de frutas silvestres maduras.
Sangue.
Seu olhar se desviou para a varanda.
Muito sangue.
O retângulo de luz que se projetava da porta chamou sua atenção e Kylie viu. Pingos vermelho-escuros formavam uma trilha para dentro da cabana, como migalhas de pão na floresta.
Seu coração gelou.
— Meu Deus, Derek! — ela gritou, sem receber nenhuma resposta.
Ela ficou de pé e correu para dentro da cabana, gritando o nome dele varias vezes.

2 comentários:

  1. Fernanda: A bruxa filha de Hades5 de novembro de 2016 20:35

    My Gods!!! Agora? Será que é ele mesmo?

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