30 de setembro de 2016

Capítulo 12

— Ei! — A mão de Holiday pousou no braço de Kylie. — por isso que eu não queria falar nada a você. Sabia que já ia tirar as suas conclusões.
Kylie piscou.
— O que as fêmeas de lobisomem fazem? Os peitos delas crescem muito?
— Não. Bem, um pouco. — Holiday disfarçou um sorriso. — Quando chegam a um certo nível de maturidade, na idade de se acasalar, eles crescem bem rápido.
O coração de Kylie começou a martelar e ela só conseguia pensar no que Miranda tinha contado sobre quando tinha visto um lobisomem se transformar, o quanto parecia doloroso.
— Mas parece que é exatamente isso que está acontecendo comigo. Então até que ponto isso é só uma conjectura e até que ponto é uma conclusão?
Holiday balançou a cabeça.
— A menos que o lobisomem tenha sido transformado por outro, ele começa a assumir a forma de lobo aos 4 ou 5 anos. É muito raro encontrar lobisomens que só se transformem naturalmente na sua idade. E ainda existe o fato de os lobisomens passarem por algumas oscilações de humor acentuadas alguns dias antes e depois da lua cheia. A dra. Day relatou que viu você durante a lua cheia e não observou nenhum desses sinais. E eu a observei na última lua cheia só para ter certeza de que ela não tinha se enganado. E não notei nenhuma mudança no seu comportamento.
— Talvez eu só seja um lobisomem com um desenvolvimento tardio — disse Kylie, embora ela tivesse esperança de que aquilo não fosse verdade. — E eu nunca fui de mostrar muito as minhas emoções. Talvez você só não tenha percebido que eu estava mal-humorada.
— Também tem... o seu gato — Holiday continuou. — Todos os felinos têm aversão a lobos. Mas ele não tem aversão a você.
Kylie se lembrou de como, anos antes, seu gato tinha reagido a Lucas. E de como Socks tinha reagido ao lobisomem no dia em que ele o havia trazido. Mas de repente ela se lembrou de algo que podia ser importante.
— Ai, droga. O lobo.
— Que... lobo?
— Uma noite dessas... quando eu fugi da cerimônia dos vampiros depois de beber sangue, dei de cara com um lobo. Ele ficou me seguindo.
Depois apareceu mais tarde, aquela mesma noite, mas...
— Não era lua cheia — lembrou Holiday. — Não poderia ser um lobisomem.
— Foi por isso que não achei que fosse... Quer dizer, só achei que fosse o lobo mestiço de alguém. Ele se agachou na minha frente e tentou rastejar para mais perto, como se quisesse que eu o afagasse ou coisa assim. — Kylie teve que se lembrar de respirar. — Você acha que isso pode significar alguma coisa? Será que é algum tipo de ritual que os lobos fazem com os lobisomens antes que eles se transformem pela primeira vez?
Holiday olhou de volta para Kylie, como se estivesse tentando pensar.
— Nunca ouvi falar de nada desse tipo. Mas... Sky era a encarregada de aconselhar os lobisomens. Por isso não sei tudo sobre eles. Mas vou me informar. Burnett deve saber.
— Ele não é um lobisomem. — Kylie queria que Lucas estivesse ali. Para aconselhá-la. Ajudá-la a encontrar um sentido em tudo aquilo. Mas, não, ele tinha fugido com outra garota. E Kylie ainda não tinha lido a carta dele porque ainda estava muito chateada com o que ele tinha feito.
— Burnett não é um lobisomem, mas seu trabalho na UPF requer ampla pesquisa sobre todos os sobrenaturais. Acredite ou não, ele é tão esperto quanto arrogante. E espero que você não ache... Isto é, quando ele falou comigo sobre o fato de você estar maior, o tom que usou não demonstrou nada além de preocupação com o modo como você estaria reagindo a essas mudanças.
Mesmo perturbada com a ideia de ser um lobisomem, Kylie percebeu que Holiday estava defendendo Burnett. Querendo ou não, ela tinha passado a ter um pouco de respeito pelo vampiro. Não que isso justificasse o fato de ter contado algo sobre a vida particular de Holiday. Mas será que Holiday não via que ela e Burnett deviam dar uma chance a esse romance? Será que ficaria furiosa ao saber que Kylie tinha contado a ele sobre o seu relacionamento do passado com outro vampiro?
— E sobre a cachoeira...
— Eu compreendo — disse Holiday.
— Compreende o quê? — Kylie perguntou, esperando que aquela conversa pudesse ser mais fácil. Que Burnett tivesse contado a Holiday sobre o segredo revelado por Kylie e ela não estivesse aborrecida.
— Eu compreendo por que você foi até lá — Holiday continuou, organizando os papéis sobre a escrivaninha. — Eu mesma vou pelo menos uma vez por semana. É o melhor lugar para... pensar, tentar refletir sobre as coisas. Você conseguiu alguma resposta sobre o fantasma essa manhã?
Kylie negou com a cabeça.
— Só um sentimento de confiança.
— Então você precisa acreditar que está fazendo tudo o que pode.
Kylie de repente se lembrou.
— Você me disse que nunca tinha visto um anjo da morte.
— Nunca vi mesmo.
— Mas disse que nem tinha certeza de que eram reais.
— Não acho que a lenda em que todo mundo acredita seja real.
— Então, o que faz da cachoeira um lugar tão... especial?
Holiday hesitou um pouco, como se tentasse encontrar as palavras certas.
— Acho que é um local sagrado. Acho que o Cara lá em cima, no céu, criou esse lugar para nós, que temos que lidar com espíritos. É um lugar em que podemos encontrar paz. E às vezes até respostas.
— Como uma igreja? — Kylie perguntou, lembrando-se do sentimento de reverência que brotou dentro dela quando esteve lá.
— É, como uma igreja. A gente sente muito poder espiritual ali. Você sentiu, não sentiu? — Holiday pousou a mão sobre a de Kylie.
Kylie afastou delicadamente a mão.
— É... Mas... por que você não me contou? Perguntei sobre a cachoeira e você não me contou nada. Quer dizer, eu poderia ter ido lá antes. Talvez eu conseguisse descobrir mais sobre o que o fantasma está tentando me dizer agora.
Holiday colocou as mãos sobre a escrivaninha e Kylie viu os olhos verdes da amiga se encherem de compreensão.
— A gente não fala sobre a cachoeira com outras pessoas, Kylie. A cachoeira precisa atrair você até lá. E estou supondo que ela tenha atraído você ou não teria ido.
Kylie não podia negar que tinha se sentido impelida a ir. No entanto, ainda se ressentia do fato de ter precisado descobrir tudo sozinha. O que haveria de errado em receber uma orientação, pelos menos uma mãozinha?
— Fiquei um tanto chocada ao saber que Burnett tinha ido lá — falou Holiday. — Os únicos sobrenaturais que se sentem compelidos a ir à cachoeira são os que têm o dom de ver espíritos. Os outros acham que aquele lugar estimula demais as emoções... ou melhor, se sentem meio intimidados.
Kylie se lembrou de como Della e Miranda tinham reagido. É, a segunda alternativa parecia mais provável.
— Nem mesmo Sky ia até lá. — Holiday olhou para Kylie. — Burnett esteve mesmo atrás da queda d’água?
— Ele estava lá quando entrei. — Ela hesitou. — Foi até lá por causa de você — disse Kylie, tentando introduzir o assunto. Se ela não falasse agora, talvez não conseguisse mais. Teria ainda menos coragem.
— Por minha causa?
— Ele queria te entender melhor. E acho que pensou que se fosse lá... conseguiria entender toda essa coisa de fantasmas.
— Ele disse isso? — Holiday arregalou os olhos de surpresa.
— Disse. — Kylie hesitou um pouco e depois despejou: — Eu disse a ele que um outro vampiro tinha decepcionado você. Era por isso, que você... não queria se envolver com ele.
Holiday franziu a testa na mesma hora e apertou os olhos. Não era um olhar que Kylie visse com muita frequência no rosto da amiga.
— Você disse o quê?
— Sei que não devia. Mas... ele perguntou e de início eu não disse nada, mas...
— Por que ele... Não, por que você contou a ele?
— Ele realmente gosta de você, Holiday.
— O que ele sente não interessa. Eu não contei aquilo a você para que contasse a outra pessoa. — Ela parou de falar, mas a frustração cintilava em seus olhos.
— Sinto muito. De verdade. Eu sei que foi um erro, mas achei que... quer dizer, é como se estivesse deixando o que aconteceu com o seu noivo impedir você de ver as possibilidades com Burnett. Você o está castigando por algo que ele não fez.
A expressão de Holiday não se suavizou. Ela respirou fundo.
— Kylie, o que acontece entre mim e Burnett não é... — Ela fechou a boca e os músculos da sua mandíbula ficaram rígidos. — Por que não colocamos um ponto final nesta conversa agora e falamos disso mais tarde? Eu preciso de um tempo.
Kylie Sentiu um grande vazio no peito.
— Por favor, não fique com raiva de mim.
Holiday ergueu a mão.
— Não estou com raiva. Estou... desapontada.
— Isso é até pior — murmurou Kylie, com o peito cada vez mais apertado. — Eu sinto muito mesmo.
Holiday se levantou e fez um gesto mostrando a porta.
— Vejo você amanhã.
Os olhos de Kylie começaram a arder e, mais do que nunca, ela quis argumentar, pedir para que Holiday a perdoasse. Implorar para que seu deslize não mudasse o relacionamento entre elas. Mas algo dentro dela dizia que poderia ser tarde demais.


Eram quase nove da noite e Kylie estava deitada na cama, olhando para o teto, com um gambá fedorento dividindo seu travesseiro. Ela preferiu não aparecer no refeitório nem participar da pizza e do jogo de basquete noturno. Burnett tinha instalado uma tabela de basquete nova e todos os garotos tinham formado times. Como tinha dormido muito pouco nos últimos dias, achou que logo ela ia apagar. Estava enganada.
Olhou de relance para a gaveta onde estava a carta de Lucas e, por um segundo, desviou os pensamentos dos seus problemas com Holiday e passou a pensar nos seus problemas com Lucas, e depois nos seus problemas com Derek. Em seguida sua mente se rebelou contra a ideia de ser um lobisomem. Ah, mas que droga!
Quando sua mente deu uma guinada e passou a pensar que havia alguém que ela amava em perigo, ela instantaneamente se lembrou do sentimento que tivera na cachoeira: a certeza de que pelo menos esse problema ia acabar bem.
Pena que nem todos os seus problemas pareciam de tão fácil solução.
Ao ouvir o toque do telefone um gemido escapou dos seus lábios – não que ela não precisasse parar um pouco de pensar no caos que estava a sua vida. E talvez ela tivesse sorte e fosse Sara, finalmente ligando para ela. Claro que elas não eram mais tão próximas quanto tinham sido um dia, mas ela ainda se preocupava com a amiga e andava pensando muito nela ultimamente. Mas será que estava preparada para falar com sua ex-melhor amiga?
— Não quero assustar você — ela disse para Socks, que podia ou não ser capaz de exalar fedor. — Mas preciso alcançar o telefone.
O animal abriu seu olho pequeno e redondo, olhou para ela e achou que não valia a pena miar.
Miranda tinha passado o dia todo tentando transformar Socks no seu velho felino. Até Kylie por fim sugerir que ela descansasse um pouco. Até disse para ela não ser tão severa consigo mesma, pois se tratava apenas de um deslize. Um imenso e apavorante deslize, mas Kylie não disse isso a ela.
O telefone parou de tocar e Kylie não sentiu nem vontade de ver quem estava ligando. Olhou para Socks novamente.
— Um imenso e apavorante deslize — murmurou. Mas considerando que ela esperava que Holiday a perdoasse, decidiu que talvez fosse melhor praticar o que ela esperava obter da amiga, ou ao menos pelo que imploraria... seu perdão. E então Kylie rezou. A lembrança de como Holiday tinha se sentido traída fez com que uma onda de dor inundasse o seu coração.
Por que contar a Burnett sobre Holiday lhe pareceu tão certo naquele momento? E, agora, por que parecia tão errado? Mas, sim, contar a Burnett a verdade lhe pareceu o mais correto a fazer. Ela tinha sentido um impulso irresistível, como se sua intuição a obrigasse a fazer aquilo. E agora estava naquela confusão por ter ouvido sua intuição!
O telefone tocou novamente. Pegou o celular, sem saber direito se queria falar com alguém, e olhou o número no visor... Sentiu na mesma hora um bolo na garganta.

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