24 de setembro de 2016

Capítulo 12

— Nada de pânico — recomendou a Sara depois de trinta minutos de bate papo. — Vai ficar tudo bem, você vai ver. — Kylie não conseguiu dizer aquilo com grande entusiasmo, mas pelo menos tentou: para isso serviam os amigos. Entretanto, bem no fundo, pressentia que, se Sara estivesse realmente grávida, e tudo indicava que estava, nada ia ficar muito bem.
— Obrigada, Kylie — disse Sara. — Não sei como vou me virar durante todo o verão sem você.
— Tente sobreviver — incentivou Kylie. — É o que eu vou fazer também.
Kylie tinha ficado durante toda a conversa escondida atrás do escritório, sentada no chão, encostada a uma árvore, enquanto procurava acalmar Sara.
A mãe de Sara havia cancelado o almoço fora e tinha insistido para que a filha passasse o dia inteiro com ela, visitando o museu de arte e fazendo compras. O Museu de Belas-Artes, em Houston, era maravilhoso e Sara realmente gostava de arte. Quanto às compras, quem não gosta? Mas não em companhia da mãe quando há uma suspeita de gravidez!
— Não consigo acreditar ainda que isso está acontecendo — prosseguiu Sara. Ainda nem tinha feito o teste de gravidez. Estava assustada demais.
Não que Kylie já não tivesse problemas suficientes; mas falar sobre os de Sara a ajudava a esquecer um pouco os seus. Além disso, concentrar-se nos problemas de Sara era o que elas mais faziam. Quando a amiga estava chateada, e mesmo quando não estava, sua tendência era só se preocupar consigo mesma. Mas Kylie nunca se importou. Preferia ouvir os problemas dos outros a contar sobre os seus.
Para Kylie, aquela até que era uma vantagem: por enquanto, não poderia mesmo falar sobre o que estava acontecendo com ela. Pelo menos, não com uma pessoa normal.
— Bom, agora preciso desligar — avisou Sara.
Os últimos raios de sol lançavam um brilho dourado sobre a paisagem verde à sua volta. Perto do crepúsculo, a temperatura já não era mais tão sufocante.
— Me ligue quando fizer o teste — pediu Kylie.
— Vou ligar. E, de novo, muito obrigada.
Kylie fechou o aparelho e os olhos. Reclinando a cabeça contra o tronco da árvore, reviveu a esperança de que Holiday talvez estivesse errada quanto a ela ser sobrenatural. Lembrou-se também dos dois sujeitos de terno preto dizendo que o acampamento poderia ser fechado caso “aquilo” não parasse – fosse “aquilo” o que fosse. Mas, se as duas esperanças se materializassem, a vida de Kylie passaria a ser quase tolerável.
Pelo menos, um pouco tolerável. Os problemas com os pais, a avó e Trey pareciam até menores agora. Impressionante como as perspectivas de uma pessoa podem mudar quando ela descobre que não é humana. A voz de Holiday ecoou em sua mente: A verdade... A verdade é que não sabemos o que você é. Pode ser uma fada ou uma descendente dos deuses. Pode ter dons...
Kylie se lembrava de ter interrompido a líder do acampamento e agora gostaria muito de não ter feito isso. Embora ainda não tivesse desistido de, ser normal, o que mais poderia ser?
Tentando evitar que o nervosismo provocasse contrações em seu estômago, esforçou-se para não pensar, apenas ouvir. Uma brisa de fim de tarde agitava as folhas da árvore, os grilos começavam a ensaiar o concerto noturno, um filhote de pássaro chamava pela mãe. Kylie recordou as caminhadas que fazia com o pai. Deveria ligar para ele agora?
Não, mais tarde. Talvez então soubesse como perguntar por que ele não tinha ido buscá-la na delegacia, quando ela telefonou. Por enquanto, ficaria sentada ali, absorvendo a natureza e quase relaxando. Fechou os olhos e a tensão foi aos poucos diminuindo.
Kylie não sabia dizer quanto tempo tinha se passado, se dez minutos ou uma hora, mas algo a despertou de repente. Arregalou os olhos para a escuridão e endireitou-se, alerta. Não se ouviam sequer os grilos. Lutando contra o medo do desconhecido, ela se lembrou de que monstros existiam de verdade.
Um rugido profundo e sinistro, semelhante ao de um leão, encheu o silêncio sombrio e depois ela escutou o uivo de cães... Ou seriam lobos? Fitou o céu escuro. A lua, quase cheia, flutuava esmaecida no céu, por trás de farrapos de nuvens. Um desejo súbito de correr para um lugar seguro a dominou. Mas, antes que pudesse se mover, ela ouviu um estalido.
Não estava sozinha.
Com o coração aos pulos, examinou rapidamente suas opções: gritar ou correr. Talvez as duas coisas. Mas, antes de se decidir, alguém falou:
— Ainda com medo de mim, hein?
Reconheceu a voz de Della e acalmou-se um pouco. Só um pouco.
— Não tanto quanto antes — respondeu, erguendo a cabeça.
A vampira se aproximou dela.
Della riu.
— Gosto de ver que você diz a verdade a maior parte do tempo.
— Pode mesmo saber quando alguém está mentindo? — indagou Kylie
— Depende da pessoa, da habilidade que tem de mentir. Os bons mentirosos controlam a pulsação e não dá para ouvir muita coisa. E existem aqueles para quem mentir é tão natural que isso não os afeta em nada.
Kylie se levantou e limpou as folhas de grama da parte de trás do jeans. Então tinha que ser cuidadosa e não mentir para Della. Ou aprender a mentir melhor.
— Holiday me mandou farejá-la.
— Me farejar? — no escuro, Kylie não podia ver bem a expressão de Della, mas supôs que a garota estivesse sorrindo. Seus dentes muito brancos quase faiscavam na noite.
— Você consegue sentir o meu cheiro? — aproximou o braço do nariz dela.
Como se Kylie estivesse à disposição de todos para ser cheirada, Della se inclinou e farejou seu braço. Um sussurro de aprovação escapou dos seus lábios.
As pontas dos caninos afiados de Della apareceram nos cantos da boca. Kylie recolheu apressadamente o braço. O sorriso da outra se apagou. Kylie teve a estranha impressão de que a vampira realmente não queria que tivessem medo dela. Então os vampiros também tinham sentimentos. Essa constatação de certo modo tornava a garota mais humana e menos aterrorizante.
—Todos estão em volta da fogueira — Della começou a se afastar.
Kylie tentou acompanhá-la, mas não era nada fácil porque Della andava a passos largos.
— Você acha mesmo que meu cheiro é bom?
Della, sem voltar a cabeça, respondeu:
— Quer que eu minta para se sentir melhor? Ou quer que eu diga a verdade?
— A verdade... Acho.
Della se deteve e falou num tom ressentido:
— Há sangue em suas veias e eu gosto de sangue. Portanto, sim, você cheira bem. Mas isso não significa que... Digamos, por exemplo, que você esteja com muita fome e entre numa lanchonete. Em todas as mesas, você vê gente devorando hambúrgueres deliciosos e batatas crocantes. O aroma é maravilhoso. Então... O que você faz?
— Faço logo meu pedido — respondeu Kylie, sem perceber aonde a outra queria chegar.
— Não roubaria o hambúrguer de alguém?
— Não — garantiu Kylie.
— Então, se roubar um hambúrguer já é ruim, você pode imaginar que roubar um pouco de sangue de alguém cria muito mais confusão do que roubar um Big Mac. Para fazer isso, eu precisaria estar realmente com muita fome. Ou com muita raiva.
Agora a garota parecia furiosa. Kylie perguntou:
— Costuma ficar “com muita raiva” com muita frequência? Já chegou a esses extremos?
Della emitiu outro rugido exasperado.
— Nunca matei ninguém, pelo que me lembre. É isso o que queria ouvir?
— É — Kylie sorriu. — Nesse caso, os vampiros não são uma grande ameaça aos humanos?
— Não foi o que eu quis dizer — corrigiu Della.
— Como assim?
— Eu quis dizer que existem humanos bons e ruins, vampiros bons e ruins. Alguns são cruéis, formam gangues e tentam causar tumulto aonde quer que vão.
— Que tipo de tumulto?
— Digamos que roubar o seu hambúrguer. Ou coisa pior.
— Ok — disse Kylie, certa de que sabia muito bem o significado de “coisa pior” e não gostava nada daquilo.
— E existem também os que ficam no meio-termo — prosseguiu Della.
— No meio-termo?
— Como os humanos que se metem em confusão, mas não são totalmente ruins. Existem vampiros assim, também.
Kylie fez que entendeu. Puseram-se de novo a caminho e sua curiosidade foi aumentando.
— Quais são os seus dons? Se... Não se importa que eu pergunte.
— Sentidos mais aguçados. Muita força. E... Ai, merda! Agora me lembrei do seu — deteve-se abruptamente. — Não tem nenhum fantasma por aqui, tem?
Kylie checou para ver se percebia a sensação de frio na espinha.
— Não. Mas, falando sério, não acho que eu tenha algum dom.
— Não quer ter, certo? — perguntou Della
— Não, não quero — respondeu Kylie, sem muita convicção. E imediatamente se lembrou de que Della era um detector de mentiras humano – ou “não humano”.
Kylie percebeu que estavam entrando no bosque; uma nuvem cobriu a lua e a escuridão tomou conta de tudo. Nesse momento, Kylie ouviu de novo o rugido profundo que parecia o de um animal selvagem.
— Ouviu isso? — perguntou.
— O tigre branco?
— O quê? — Kylie agarrou Della pelo cotovelo. Mas a pele dela era tão fria que a soltou imediatamente. O rugido emudeceu, mas a frieza da pele de Della tinha passado para o seu braço. Será que os vampiros estavam mesmo mortos? Não achou que pudesse fazer essa pergunta.
Della olhou para ela como se percebesse que o frio de sua pele a incomodava. Kylie baixou a cabeça e fingiu tirar um graveto da calça, tentando evitar que Della visse muita coisa. Quando a vampira recomeçou a andar, Kylie voltou ao assunto:
— Estamos no Texas. Aqui não existem tigres brancos.
— Nos parques florestais, sim. Tem um a poucos quilômetros daqui. É ao mesmo tempo uma reserva e uma área de lazer. Como os zoológicos. Os visitantes podem passear e até alimentar os animais mais mansos.
— Fui a um deles, uma vez — disse Kylie. — Mas não sabia que tinha um por aqui.
— Pois tem, sim — Della levantou o nariz e farejou. — E deviam limpar melhor a sujeira dos animais. Aquilo fede. Especialmente a merda dos elefantes.
Kylie inspirou, receosa, esperando sentir o mau cheiro, mas só percebeu o aroma da floresta, da terra molhada e da vegetação verde. Concluiu que ter um olfato apurado nem sempre é boa coisa. Embrenhavam-se cada vez mais no bosque. Espinhos grudavam em sua calça. Tinha que andar depressa para acompanhar Della.
— Onde está a fogueira? — perguntou, quase sem fôlego.
— A uns quatrocentos metros. Um pouco à frente da nossa cabana.
— Não deveríamos ter pegado a trilha?
— Por aqui é mais perto.
Para um vampiro, talvez. Andaram mais uns três ou quatro minutos, em silêncio. Kylie repassava mentalmente as perguntas que gostaria de fazer a Della, mas tinha receio de que ela se sentisse ofendida. Concentrando-se no caminho para evitar os espinheiros e os tocos de árvore, acabou se chocando com as costas de Della.
— Desculpe...
Della se virou tão de repente que Kylie só percebeu um borrão, mas sentiu muito bem o frio da mão da garota tapando sua boca.
— Ohhh! — a expressão rígida de Della acrescentava um toque de ameaça à advertência. Em seguida, afastou-se um pouco, a cabeça inclinada como que para ouvir melhor.
Kylie também apurou os ouvidos. Mas, como na hora em que tinha acordado, só o silêncio enchia o bosque. Nada de pássaros ou insetos. Até as árvores pareciam conter a respiração.
Por quê?
Kylie sentiu uma lufada de ar frio, como se alguém tivesse passado correndo por perto. Mas não havia nada ali. Então Della emitiu um grunhido gutural. Kylie fitou-a. Os olhos da garota brilhavam e seu rosto estava banhado numa luminosidade esverdeada, fazendo-a parecer tudo, menos humana. O medo se alojou no peito de Kylie, comprimindo seu coração e os pulmões.
Outra vez, a lufada. Kylie espiou por cima do ombro e, ao se virar para frente, ela o viu. Estava bem perto, quase esbarrando nela. Notou os cabelos negros e os olhos asiáticos. Parecidos com os de Della, mas irradiavam uma luz dourada, não verde. Aqueles olhos irreais pousaram em Della.
— Olá, priminha!
Voltou o gélido olhar amarelo para Kylie e se aproximou ainda mais.
— Vejo que nos trouxe um petisco.

5 comentários:

  1. Puta meerda ferrou !

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  2. petisco 👊👌😲
    ass: mary protegida de Durga

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  3. Hummmm, cheiro de encrenca? Hehehe.

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  4. Eeeeeeer... sinto dizer que merdou!
    Sebo nas canelas, coleguinha!

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  5. So que pensei no Damom este momento "oi priminha"em?

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