13 de setembro de 2016

Capítulo 12

— Você conseguiu — disse Mark. — Não acreditei quando falou que a justiça seria feita. Mas você conseguiu.
Ele estava cada vez mais transparente, e o brilho paranormal ao seu redor, cada vez menos reluzente. Em parte, isso estava acontecendo por causa da quantidade tremenda de energia psíquica que ele gastou invocando a tempestade.
Mas outra parte, a principal, era que agora ele se sentia pronto. Sentia-se preparado para ir aonde sua alma deveria estar, onde quer que fosse.
— Eu não fiz nada — falei, passando o braço pela cintura do Jesse. — Foi você, Mark. Zack jamais admitiria nada daquilo se você não tivesse matado ele de medo com aquela tempestade. Aquilo que você fez com as portas francesas? Foi excelente pra uma PMI.
Mark ficou confuso.
— O que é PMI?
— Pessoa Morta Iniciante. — Senti que ele havia conquistado uma atualização do título de Pessoa Morta Não Obediente.
— Acredita em mim, Mark — disse Jesse. — Você não quer ir além do estágio iniciante.
— Isso mesmo — falei. — Se bem que você mandou bem hoje, garotão. — Apertei o Jesse na cintura. — Chegou no momento perfeito.
— Eu sempre fui bom em aparecer no momento certo — admitiu ele modestamente.
— Todo mundo mandou muito bem hoje — falei. — Até os nossos amigos da lei. Cara, até a mídia.
— Jamais achei que escutaria você falar isso — disse Jesse, e me apertou também com o braço que estava ao meu redor.
— Bem, eles não divulgaram o que estava gravado dentro do anel — admiti. — Senão o Zack poderia ter feito uma cópia, e a gente jamais conseguiria convencer ninguém de que ele é um psicopata. E digo psicopata segundo um diagnóstico completo, é claro, e não pejorativamente.
— Claro — disse Jesse.
O anel. O anel. Por que o anel estava me incomodando tanto – vinha me incomodando tanto?
— Então acho que... — Mark estava na varanda. A temperatura já havia começado a aumentar, aquecendo o ar da noite. — Agora eu posso seguir em frente, como você disse.
— Pode — falei, indo atrás dele, grata pelo Jesse ainda estar me segurando. Eu tinha muita sorte, pois ele sempre me seguraria. — Se não tiver nada prendendo você. Tenho certeza de que o Zack não vai mais colocar flores no túmulo da Jasmin, isso é um fato. Aquele promotor pareceu detestar ele, então acho que vai processar o menino por tudo que puder. O que provavelmente vai acontecer é...
— Mark?
A voz, doce como um néctar, parecia vir de lugar algum e de todos os lugares ao mesmo tempo.
Então eu a vi – primeiro apenas um brilho amorfo, como uma neblina vinda do mar. Depois ela se tornou mais sólida. A neblina tomou a forma de uma menina linda e esbelta – uma menina que reconheci porque vinha olhando para fotos dela a noite toda.
Jasmin.
— Mark? — disse ela novamente, e sorriu quando o viu. — Ah, Mark, você tá aqui. Eu estive procurando por você em tudo que é lugar.
Não importava que ela estivesse flutuando acima do solo, na frente da varanda do Zakaria Farhat. Pelo menos não para Mark.
Ela ergueu a mão fina para ele, e Mark correu em sua direção, flutuando com a mesma leveza que ela. Ninguém diria que era o mesmo cara que, algumas horas antes, quase me matou, primeiro com um pesadelo meteorológico, e depois jurando que ia matar o seu assassino e fazendo com que ele se virasse contra mim.
Bem, eu que fiz o Zack se virar contra mim, pensando bem. Mas foi por uma boa causa.
Agora, Mark estava nos braços da Jasmin, murmurando o seu nome suavemente enquanto ela acariciava suas costas. Um segundo depois, houve uma explosão de luzes celestiais – as duas almas se unindo em apenas uma – e os dois desapareceram, juntos para sempre na vida eterna.
— Deus — falei assim que tive certeza de que os dois haviam partido. Também me certifiquei de que o tremor na minha voz não denunciasse que chorei um pouco vendo os dois. — Odeio o Dia dos Namorados.
— Eu sei, mi amada. — Jesse segurou minha mão com firmeza. Se suspeitou que eu estava chorando, não demonstrou. — Vamos pra casa.
Estávamos passando de carro pela praia – a mesma onde ele havia planejado me pedir em casamento – quando finalmente percebi o que vinha me incomodando em relação ao anel.
— Para o caro! — comandei.
Ele pisou com força no freio.
— Que foi? Um gato? Atropelei?
— Não, você não atropelou um gato. Encosta.
— Suzannah, eu não posso parar aqui. Não tá vendo? Ali diz pra não estacionar. Vamos ser multados.
— Jesse, são quase meia-noite depois de uma das maiores tempestades do século. Não tem ninguém aqui. Não vamos ser multados. Só encosta.
Ele estacionou ilegalmente e foi atrás de mim quando comecei a descer as escadas aos pulos em direção à praia.
— Suzannah, não acho que seja uma boa ideia. A maré está alta demais, e não tem lua. É...
— Você tem aquela caneta com lanterna. Vem.
— Como é que você sabe que eu tenho uma caneta com lanterna? — Ele pareceu surpreso.
— Porque você é estudante de Medicina. Anda logo.
É claro que ele tinha razão quanto à escuridão e ao fato de a maré estar cheia. As ondas ainda estavam agitadas por causa da tempestade do Mark, embora a arrebentação estivesse diminuindo.
Mesmo assim, havia apenas um pedacinho de praia onde dava para andar, e o vento que vinha do mar era mais incisivo do que acalentador. Não tinha como fazer uma fogueira porque todos os pedaços de madeira estavam encharcados de chuva, e é claro que não tínhamos cesta de piquenique, visto que a deixamos – junto com o espumante – no meu quarto no Vão das Virgens.
Mas tínhamos privacidade. Não tinha mais ninguém na praia porque não havia nenhuma outra pessoa imbecil o suficiente para chegar perto do mar num temporal daqueles, no meio da noite.
— Suzannah — disse Jesse, me abraçando. O vento jogava os meus cabelos longos com força contra nós dois. — O que estamos fazendo aqui? Está muito mais aconchegante no carro.
— Mas você não está feliz por poder sentir frio? — perguntei, e o abracei também. — Você não conseguia antes. Não podia sentir frio, nem calor, nem nada.
— Mas eu ainda tinha sensações, Suzannah — disse ele, e me apertou mais ainda. — Apenas emoções. Não sentia o clima, que na verdade nem fazia tanta diferença.
— Onde você arrumou o anel? — perguntei.
— Oi?
— Onde você arrumou o anel? — berrei para que ele pudesse me ouvir além do barulho das ondas. — De verdade. Sei que você falou que foi da sua mãe, e da sua avó antes disso. Mas Jesse, sei que você veio pra cá sem nada. Nada além das roupas que estava vestindo. Eu estava com você. Então onde foi que você arrumou o anel?
Ele me afastou – não por estar com raiva, que foi a minha primeira preocupação, mas para que pudesse olhar no meu rosto sob a luz fraca que os postes da estrada, tão mais altos que nós, jogavam na praia.
— Foi isso que chateou você em relação ao meu pedido? — disse ele com os cantos dos lábios virados para cima. — Onde eu arrumei o anel?
— Não consigo entender — falei. — Achei que a gente não teria segredos um do outro. Quer dizer, não segredos de verdade. — Eu tinha segredos, vários, mas só daqueles que machucam em vez de ajudar. Eu os levaria comigo até o túmulo (quer dizer, até a urna de cremação), mas não contaria para ele. Não queria que ele virasse um assassino que nem o Mark quase virou. — Onde foi que você arrumou?
— Ah, Suzannah — falou ele, e me puxou para perto, beijando o topo da minha cabeça. — Por que você não falou antes?
— Estou falando agora. O único anel que sei que você já teve foi o que deu pra sua primeira noiva, Maria. — Eu não gostava de dizer o nome, tanto quanto o Mark não gostava de dizer o de Zack. — Mas isso foi no século XIX, e você nunca mais viu o anel porque você veio parar aqui... ou no mundo dos assassinados e fantasmas, qualquer um dos mundos que você achar que é o certo. Ao contrário do meu meio-irmão David, não gosto muito de ficar pensando nesse tipo de coisa. De qualquer forma, você não ficou com o anel precioso da sua mãe.
— Ah — disse ele, e colocou a mão no bolso do jeans. — Fiquei, sim. E quer saber como?
— Não muito. — Eu estava enjoada. Não sei se foi porque vi o anel de novo, se porque levei uma porrada na barriga de um estudante assassino, ou se porque não comi nada desde o almoço, a não ser os rabanetes. — Mas eu fiz a pergunta, né.
— O padre Dominic viu o anel em promoção num negócio chamado eBay. Pronto. Tá feliz? Agora você aceita se casar comigo?
Fiquei olhando para ele, ciente de que minha boca estava aberta, mas sem conseguir fechá-la. Eu não conseguia fazer nada, na verdade, a não ser encará-lo.
— Como é que é?
— EBay — repetiu Jesse. — É um website onde as pessoas entram e compram e vendem quase qualquer...
— Eu sei o que é eBay — falei. — É só que... como foi... como o padre Dom entrou...
— Parece que ele entra bastante nesse site. O padre Dominic gosta muito de Internet. E ele vem fazendo umas pesquisas no meu nome há algum tempo, procurando por artigos que possam ter pertencido à minha família. Ele fez uma busca tem pouco tempo, e o anel apareceu. E tinha uma carta também, sabe, e foi assim que ele ficou sabendo que...
— Uma carta? Que carta?
Jesse começou a parecer ligeiramente desconfortável.
— Era uma carta da minha mãe para o padre local. Como você sabe, a minha família nunca soube o que aconteceu comigo depois que eu... desapareci. Segundo essa carta, minha mãe não acreditou nos rumores de que eu fugi porque não queria me casar com a minha prima Maria, e que fui tentar a minha sorte na Corrida do Ouro. Meu pai... bem, acho que meu pai era mais propenso a acreditar nas piores coisas em relação a mim.
Franzi o rosto. O pai do Jesse nunca apoiou o sonho do único filho de se tornar médico. Queria que o Jesse voltasse de Carmel com Maria, sua noiva, e assumisse o rancho da família.
Mas isso jamais aconteceria em universo algum.
— Poxa, Jesse — falei. — Sinto muito.
— Não, na verdade foi bom. Os meus pais receberam o anel de volta; é claro que teve algum momento de constrangimento com isso, no entanto, porque a Maria também achou que tinha sido abandonada no altar.
Franzi o rosto de novo. Eu era a responsável pelo fato de Maria ter sido abandonada no altar duas vezes – uma por Jesse, e depois pelo cara com quem ela estava traindo ele. Por mim, seria bom jamais encontrar ela de novo.
— Mas no final ela se conformou. E a minha mãe acabou deixando o anel com o nosso padre, além da carta dizendo que, independentemente do motivo que me fez desaparecer, ela me perdoava. Ela queria garantir que eu receberia essa mensagem, Suzannah. Foi por isso que deixou o anel e a carta com o padre, e não com o meu pai ou as minhas irmãs. Sabia que ele queimaria a carta, ou mandaria as minhas irmãs fazerem o mesmo se soubesse que elas estavam com os dois. Mas não podia mandar que o padre fizesse isso. O padre guardaria os dois e o segredo dela para sempre. E foi o que fez, até que ele também morreu, e o anel e a carta passaram para vários outros padres, que guardaram o segredo da minha mãe até o fim da diocese. Aí alguém deve ter recebido os objetos e tentado vender tudo online... e finalmente, ambos foram parar nas mãos de alguém que sabia o que fazer com eles: o padre Dominic.
Continuei com os meus braços em torno da cintura dele durante toda a explicação.
Mas, nesse momento, não aguentei mais.
Abaixei os braços e dei um passo para trás, deixando que o vento frio passasse entre nós.
— Não, Jesse — falei. — Não tem como essa história ser verdadeira. São muitas coincidências. E você sabe que odeio coincidências. Elas não fazem sentido, e eu detesto coisas que não fazem sentido.
— Eu também odeio coincidências, Suzannah. — O maxilar do Jesse ficou tenso, mas ele não me largou. Segurou as minhas duas mãos. A caixinha de joias estava dura feita pedra em uma delas, pressionada contra os meus dedos. — E também não gosto muito de milagres, exceto o que me trouxe você. Mas isso não é uma coincidência, e também não é um milagre. Faz todo sentido. E quer saber por quê? Minha mãe explicou na carta. Ela disse que sabia que um dia eu poderia perder a fé na minha família. Sabia o quanto eu detestava Maria, e como eu não queria me casar com ela, muito menos ser fazendeiro em vez de médico.
“Mas ela também menciona que sabia que eu jamais perderia fé numa coisa: na igreja. Foi outro motivo que fez com que deixasse o anel e a carta com um padre. Disse que eu poderia parar de falar com a minha família, mas nunca pararia de falar com Deus, e que talvez eu nunca mais voltasse pra ela, mas que voltaria pra igreja algum dia. E, quando voltasse, eu encontraria a carta e o anel. E ela tinha razão, Suzannah. Eu nunca perdi a minha fé. E, por meio dela, encontrei você.
Meus olhos arderam.
— Jesse — falei, embora a minha garganta tivesse se fechado de repente com tanta emoção; eu mal conseguia falar. — Não foi isso que... para, vai. Não foi isso que aconteceu. Tipo, por favor... eBay.
Ele apertou os meus dedos. A alguns metros de nós, o Pacífico continuava o seu bradado rítmico, e acima, as estrelas queimavam em um céu noturno tão limpo que foi como se a tempestade do Mark para a Jasmin jamais tivesse acontecido.
— Deixa eu terminar — disse ele, mãos quentes nas minhas. — Depois de mais de 150 anos vivendo sozinho na escuridão, encontrei você, Suzannah. E, através de você, conheci o padre Dominic. Tudo o que a minha mãe falou na carta virou verdade. Não foi a mesma igreja, e não foi o mesmo padre. Mas a carta e o anel estavam lá, tudo por sua causa. E agora eu quero dar esse anel pra você. — Ele abriu a caixa e se apoiou sobre um dos joelhos na areia, diante de mim. — Então, Suzannah Simon, você me daria a grande honra de se tornar a minha esposa?
As lágrimas se derramavam dos meus olhos com tanta força que eu mal conseguia enxergar. E o vento e a maresia salgada jogando meu cabelo no rosto também não estavam ajudando. Pelo visto eu havia escolhido o pior lugar do mundo para um pedido de casamento.
E, no entanto, de repente, eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu me ajoelhei ao lado dele na areia.
— Sim, Jesse de Silva — falei, e joguei os braços em volta do pescoço dele. — Sim.

6 comentários:

  1. SIMPLESMENTE PERFEITO *-*

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  2. Ahhhhh... que lindo!!! Chorei litros!!!!

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  3. Finalmente (apesar de ter lido o ultimo livro da saga antes desse)

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  4. que lindo... arrasou.

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  5. ownt fofo esses dois ameii😚😚
    ass: mary singer

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