24 de setembro de 2016

Capítulo 11

Durante o almoço, as apresentações acabaram sendo mais embaraçosas do Kylie tinha previsto. Cada pessoa disse seu nome e “o que” era, mas, quando chegou a vez de Kylie, ela só disse seu nome. Nos instantes que se seguiram, o silêncio da sala tornou a atmosfera sufocante. Holiday apressou-se a explicar que a origem dos poderes de Kylie ainda estava sendo investigada e que seu “estado mental fechado” não era intencional, mas consequência dos seus dons.
Se alguém por ali ainda duvidava de que ela era a mais esquisita entre todos os esquisitos, agora já estava bem ciente do fato graças à líder do acampamento. Holiday talvez pretendesse ajudar, mas Kylie sem dúvida teria dispensado essa ajuda. Por sorte, já tinha conseguido engolir metade de um sanduíche de peru, pois a partir daquele instante não seria capaz de comer mais nada.
Pouco depois do seu momento embaraçoso sob a luz dos refletores, o celular de Kylie tocou. Leu o número da mãe na tela e desligou o aparelho. Por nada neste mundo gostaria que pessoas dotadas de superaudição ouvissem a conversa com a mãe.
Tão logo a reunião oficial do almoço terminou, Kylie pediu a Holiday que lhe mostrasse sua cabana. O jantar seria as seis e, até lá, teriam a tarde livre. Nesse período, “aconselhavam” que procurassem se entrosar, conhecer os colegas de acampamento e de alojamento.
Em vez disso, porém, Kylie passou as quatro horas seguintes remoendo suas emoções tumultuadas, escondida no cubículo que era seu quarto. Sim, sabia muito bem a diferença entre “aconselhar” e “exigir”.
Sentada na cama, calculou de novo o tamanho do quarto. Não que estivesse se queixando. O fato de ter seu próprio quarto tornava irrelevantes as proporções. Considerando-se os terrores noturnos que a afligiam três ou quatro noites por semana, a privacidade era muito bem-vinda. Só esperava que as paredes fossem grossas o suficiente para abafar o que a mãe chamava de “gritos arrepiantes”. As de sua casa, é claro, não eram.
Mordendo o lábio, Kylie se perguntou de novo como a mãe pudera fazer aquilo com ela. Mandá-la para aquele lugar quando, só uma semana antes, recomendava que não passasse a noite fora, porque seria embaraçoso que outras pessoas a surpreendessem aos gritos em pleno sono.
Procurando afastar a mãe dos pensamentos, Kylie correu novamente os olhos pelo quarto. A tarde não tinha sido um total desperdício. Tinha arrumado suas coisas, retornado a ligação da mãe – a conhecida Rainha do Gelo – tentado entrar em contato com Sara – que ainda não tinha telefonado nem enviado mensagem – lido as regras do acampamento e se desfeito em lágrimas bem à moda antiga.
Choro muito merecido.
Durante dezesseis anos, havia tentado descobrir quem era. E, embora soubesse que ainda tinha um longo caminho pela frente, sentia confiança nas próprias descobertas. Agora, porém, percebia que não só estava errada sobre quem era como nem sequer sabia o que poderia ser.
Resumindo, uma crise de identidade.
O celular tocou de novo. Kylie leu o nome do pai no identificador de chamadas. O pai que a abandonou. O pai que não foi buscá-la na delegacia. O pai que não a visitou antes de seu embarque forçado para o acampamento. O pai que obviamente não a amava tanto quanto ela acreditava. O pai cuja falta, a despeito de tudo, Kylie sentia de todo o coração.
Se aquilo fazia dela a “filhinha do papai”, ela não ligava. Provavelmente era uma situação passageira. Cedo ou tarde, deixaria de amá-lo como ele tinha deixado de amá-la também. Certo?
Sentiu um aperto na garganta. A tentação de atender e implorar para que ele fosse buscá-la ficou tão forte que ela jogou o telefone nos pés da cama. Continuou ouvindo o sinal de chamada e concluiu que, se respondesse, acabaria contando a respeito dos sobrenaturais e o fato de ela ser um deles – e também do encontro com Lucas Parker, o serial killer em potencial.
Ter segredos com a mãe sempre tinha sido fácil, pois a mãe parecia também ter os seus. Mas esconder coisas do pai era como álgebra – complicadíssimo. Assim, em vez de atender, enterrou a cabeça no travesseiro e se entregou a um novo acesso de choro. Quando bateram à porta, Kylie ainda exibia no rosto a evidência das lágrimas. Antes de decidir o que fazer, a porta se abriu e um nariz apareceu na fresta.
— Está acordada?
Como Kylie tinha se sentado na cama e visto os olhos de Miranda voltados para ela, não pôde mentir:
— Estou.
Miranda entrou – sem ser convidada.
— Oi, eu só... — o olhar atento de Miranda examinou o rosto de Kylie e ela estancou de boca aberta.
Kylie sabia exatamente o que tinha surpreendido aquela bruxinha. Kylie invejava as garotas que conseguiam pôr para fora suas emoções sem arruinar a maquiagem; mas essa habilidade ela não tinha. Quando Kylie chorava, sua pele se cobria de manchas vermelhas e seus olhos inchavam a tal ponto que ela nem parecia humana. Mas, tudo bem: segundo Holiday, Kylie não era mesmo humana. Vai lá saber.
— Está tudo bem? — indagou Miranda.
— Está — respondeu Kylie, tentando dar um tom alegre à voz. — É alergia.
— Por que não procura a enfermeira? Sério, você parece péssima.
Muitíssimo obrigada.
— Não, estou bem. Logo passa.
— Isso aí não é contagioso, é? — alarmou-se Miranda, parando a uma distância segura.
— Espero que não — disse uma voz à porta. A voz de Della, que ainda usava óculos escuros e, segundo Kylie tinha descoberto nas apresentações, que era uma vampira. Isso mesmo, uma vampira de verdade.
— Não estou com nada contagioso — garantiu Kylie e logo se arrependeu; se tivesse dito o contrário, elas a deixariam em paz.
Miranda entrou e se sentou aos pés da cama. Della seguiu-a, mas não se sentou. O que fez foi tirar os óculos de sol para examinar Kylie de cima a baixo. Sua expressão faminta lembrava a de uma pessoa de dieta avaliando um biscoito saboroso antes de derretê-lo na boca. Kylie estremeceu à ideia de ser derretida na boca de alguém.
— Você vai ao jantar e à fogueira, não vai? — perguntou Miranda.
— É... Obrigatório? — perguntou Kylie, esperando que sua reação a Della não tivesse sido notada.
— Você tem medo de mim? — interrompeu Della, anulando todas as esperanças de Kylie de esconder que a outra a intimidava e muito.
— Por que... Por que eu teria?
— Será porque meus dentes são afiados? — abriu a boca e expôs uma fileira de dentes extremamente brancos, em que se destacavam dois longos caninos. — Porque posso sugar o seu sangue até a última gota?
Kylie precisou de muito esforço para não se encolher ao ouvir as palavras de Della, especialmente quando passou a língua gulosamente pelos lábios.
— Pare de zoar com ela — riu Miranda, revirando os olhos.
— Ela está com medo de mim! — disse Della, apontando para Kylie. — Seu coração está disparado e seu pulso, acima do normal. Olhe como palpita a veia no pescoço. Não, não sei se ela sabe que só estou brincando.
A alusão de Della à sua veia fez com que o sangue de Kylie corresse mais depressa.
— É claro que sei — mentiu Kylie. — Holiday me disse que todos aqui são... Gente boa.
— E você acreditou nela? — os olhos de Della a acusavam de não estar sendo totalmente honesta.
Kylie concluiu que a capacidade de Della de ler seus sinais vitais superava sua própria capacidade de mentir.
— Quero acreditar. Mas não nego, minha mente ainda não assimilou bem o fato de os sobrenaturais... Existirem.
— Mas você é uma sobrenatural — disse Miranda. — Como pode ignorar...
— Holiday acha que eu sou — nos últimos minutos, Kylie ainda alimentava a esperança de que o diagnóstico de Holiday estivesse errado.
— Você é sobrenatural, sim — disseram Miranda e Della ao mesmo tempo, ambas arqueando de leve as sobrancelhas.
— Ou, pelo menos, não inteiramente humana — acrescentou Della. — Podemos ver isso pelo seu padrão cerebral.
— E vocês não se enganam nunca? — perguntou Kylie, apertando os joelhos contra o peito.
— Todo mundo pode se enganar às vezes — Miranda disse.
— Mas não muitas — acrescentou Della.
Essa resposta, ainda assim, não acabou com as esperanças de Kylie.
— No entanto, isso acontece, certo? — o peso em seu peito diminuiu.
— Sim, existem pessoas que tem um tumor no cérebro — explicou Della.
Kylie pousou a testa nos joelhos. Ou ela era uma sobrenatural ou morreria de um tumor no cérebro; não sabia qual das duas possibilidades poderia ser pior.
— E há aquelas que são apenas tantãs — acrescentou Miranda.
Kylie levantou a cabeça:
— Tantãs?
— É, que piraram.
— Então eu talvez seja apenas tantã. Já me acusaram disso antes.
— Mas, espere um pouco — disse Miranda. — Holiday não disse que você tem poderes? — Della e Miranda ergueram as sobrancelhas com um olhar inquisitivo.
— Disse — murmurou Kylie, dando de ombros. — Mas talvez só tenha dito isso porque vejo de vez em quando um fantasma supercarregado de energia.
— Fantasma?! — exclamaram Della e Miranda ao mesmo tempo. Kylie podia estar enganada, mas a verdade é que as duas garotas pareciam agora horrorizadas e mortas de medo. Seu susto lembrava a reação de Derek quando ela lhe perguntou se ele também via fantasmas.
— Você vê os mortos? — Della se afastou da cama. — Que droga, não vou querer dividir meu espaço com alguém que vê fantasmas por aí. Isso é bizarro demais.
Até Miranda se levantou da extremidade da cama. Kylie olhou para elas, totalmente confusa.
— Devem estar brincando, não? Têm medo de mim? Mas você é bruxa — apontou para Miranda. — E você é vampira — virou-se para Della. — E vêm me dizer que eu — tocou o próprio peito — é que sou estranha?
Miranda e Della trocaram um olhar, mas nenhuma negou o que Kylie tinha acabado de dizer.
— Tá, então esqueçam tudo — disse Kylie, magoada com a atitude das garotas. — No entanto, só para esclarecer, saibam que eu não converso com os fantasmas.
Mas então percebeu que as duas olhavam para ela do mesmo jeito que ela própria tinha olhado para elas o dia inteiro. A amargura de experimentar do seu próprio veneno fez a cabeça de Kylie dar piruetas.
— Então eles apenas rondam você? — e Della passeou o olhar pelo quarto. — Por favor, diga-me que não tem nenhum aqui neste momento.
— Nenhum — irritou-se Kylie. Mas não estava com raiva de Della e sim da situação. Pois, se alguém lhe confidenciasse que via fantasmas, ela também ficaria com medo dessa pessoa.
— Ótimo! — disse Miranda aliviada, retomando seu lugar aos pés da cama.
Della continuava olhando em volta.
— Não... Isso é esquisito demais. Não quero dividir meu alojamento com você.
— Não sou mais esquisita que vocês — disse Kylie, olhando para a vampira. E, por algum motivo, desejou que ela a aceitasse como era.
— Kylie tem um pouco de razão — raciocinou Miranda, voltando-se para Della. — Nós também devemos ser bastante assustadoras aos seus olhos. Então vamos acabar logo com isso e ficar amigas.
Della deu um longo suspiro.
— Tudo bem, mas você nos dirá quando houver um fantasma por perto?
Kylie concordou, mas percebeu logo que aquela exigência seria difícil de cumprir, pois no mesmo instante sentiu o calafrio que anunciava uma presença fantasmagórica. Felizmente, não “viu” o intruso, nem se esforçou para vê-lo; mas quem poderia censurá-la por não querer trocar olhares com um morto?


Kylie achava que não conseguiria engolir nada, mas, quando o aroma envolvente e picante de pizza alcançou suas narinas, lembrou-se de que havia comido muito pouco naquele dia. Conseguiu comer uma fatia fina de pizza calabresa com queijo, além de metade da salada, antes de perceber que, novamente, estava sendo alvo de olhares. Alguns ali ainda estavam tentando entender o que ela era. Bem, boa sorte para eles. Engoliu outro bocado de salada e esperou que, caso descobrissem, pelo menos guardassem o segredo para si mesmos.
Enquanto passeava os olhos pelo ambiente, descobriu Derek em outra mesa, acompanhado por uma garota de cabelos ruivos – que, pela expressão corporal, estava achando o garoto mais interessante do que a pizza. Inclinava-se tanto para ele que seu seio esquerdo roçava no braço dele, e Derek, pelo modo como também se inclinava para ela, sem dúvida devia estar feliz com sua atenção.
Uma pontinha de ciúme alfinetou seu peito, mas Kylie procurou ignorá-la. Aquilo era apenas porque o garoto lembrava muito Trey. Mordendo o lábio e reprimindo as emoções, reconheceu que devia tomar cuidado com ele, pois seria fácil confundir seus sentimentos. Nesse exato momento, Derek olhou por cima do ombro e seus olhares se encontraram. A sensação de borboletas batendo asas se espalhou pelo seu estômago.
— Acho que ele gosta de você — sussurrou Miranda.
Notando que ela e Derek haviam chamado a atenção, olhou para o outro lado.
— Só deve estar curioso a meu respeito, como todos os demais — sussurrou de volta.
— Nada disso. O cara está louco por você — disse Della, o que lembrou a Kylie a audição sobrenatural de alguns dos campistas. — Quando estava ao seu lado no almoço, produziu tanta testosterona que o ar ficou quase irrespirável. Ele deseja o seu corpo — brincou Della.
— Pois não o terá — garantiu Kylie.
— Então não gosta dele? — perguntou Miranda, num tom ansioso.
— Não desse jeito — aquilo não era bem verdade, mas ela deixou passar, pois sabia que qualquer sentimento por Derek era resultado da semelhança dele com Trey. Sua vida já estava bem confusa e um novo relacionamento só ia complicar as coisas, principalmente se fosse baseado numa mentira. Derek não era Trey.
E Trey a queria de volta. Ou, pelo menos, foi o que insinuou ao telefone. Com tanta coisa para fazer aquele dia, não tinha tido tempo para pensar no que sentiu depois da confissão de Trey. Feliz? Triste? Furiosa? Talvez um pouco de cada coisa?
Decidida a manter sua sanidade mental, Kylie mudou o foco e estendeu a mão para o copo de refrigerante diet. Viu então quando Della tirou a calabresa de seu pedaço de pizza e levou-a à boca. As pontas de seus caninos afiados chamaram a atenção de Kylie, fazendo-a esquecer um pouco Trey e imaginar como seria conviver com uma vampira.
Enquanto outro pedaço de calabresa desaparecia na boca de Della, Kylie se deu conta de que a garota estava comendo. Ora, pelos livros de ficção que tinha lido, vampiros não comem. Só bebem... O olhar de Kylie pousou no copo de Della, cheio de um líquido vermelho, espesso.
— Que nojo! — Kylie sentiu o estômago revirar e levou imediatamente a mão à boca.
— O que foi? — perguntou Della.
— Isso aí é... Sangue? — gaguejou e, olhando à sua volta, notou em algumas mesas copos cheios da mesma substância vermelha.
— Repugnante, não? — disse Miranda, inclinando-se.
— Repugnante é andar por aí com um sapo — ralhou Della, furiosa.
— Não ando por aí com sapos — revidou Miranda, com certo embaraço nos olhos castanhos. — Joguei um feitiço naquele cara. Foi merecido é claro, mas agora não consigo encontrar um contrafeitiço e, toda vez que ele se comporta mal, transforma-se num sapo e vem me encher a paciência.
Havia desespero na voz de Miranda, mas Kylie mal prestou atenção. Por alguma razão, o fato de Miranda transformar pessoas em sapos não a inquietava tanto quanto ver Della bebendo sangue. Mas, por Deus, que tipo, de sangue era aquele?
Della olhou para Kylie e percebeu sua repugnância.
— Ver gente morta é repugnante. Isto — ergueu o copo e bebeu um grande gole — não é.
Quando colocou o copo na mesa, duas gotas vermelhas lhe escorreram dos cantos da boca. Della estendeu a língua rosada e lambeu-as. O estômago de Kylie se contraiu e a pizza, agora uma massa inflada que parecia não caber mais lá dentro, tentou fazer o caminho de volta.
— E, é claro, vocês — o sorriso de Della era maquiavélico — descobrirão quando tiverem que experimentar.
— Experimentei no último verão e era nojento — garantiu Miranda. — Isto é parecido com o cheiro de moeda velha.
— Como é que é? — Kylie engoliu em seco. — Vou ter que beber sangue. Não, não vou fazer isso. De jeito nenhum. Eu, não — apertou a mão na boca para não vomitar.
— Beber não, só provar — esclareceu Miranda. — Todos temos de conhecer a cultura uns dos outros até o fim do verão. Nós, bruxas, realizamos uma cerimônia e mostramos algumas de nossas magias; quanto aos lobisomens, da última vez vimos Lucas Parker se transformar. Foi assustador. Nunca irrite um lobisomem.
Kylie deixou de pensar em beber sangue e imaginou Lucas Parker se transformando num lobisomem. Lembrou-se então de seu breve encontro na hora do almoço – quando ela provavelmente o irritara.
Obviamente, nem precisava que Miranda a avisasse. Sabia por experiência própria do que aquele sujeito era capaz. Então, por alguma razão absurda, surpreendeu-se tentando localizá-lo na multidão. Mas Lucas já tinha saído ou estava de costas para ela.
— Os lobisomens não são tão perigosos quanto os vampiros — disse Della, defendendo sua espécie com entusiasmo. — Os lobisomens só têm poder total uma vez por mês. Nós, vampiros, temos o tempo todo. Por isso, é a nossa espécie que você não deve irritar.
Kylie continuou sentada, tentando digerir a conversa enquanto seu estômago embrulhado tentava digerir a pizza.
— Quanto aos metamorfos... Aquilo foi estranho, mas não assustador — interrompeu Miranda.
— E os fae, o que fazem? — A pergunta veio numa voz grave, obviamente masculina.
Kylie reconheceu o timbre da voz de Derek antes que seus olhos se encontrassem. Quando o viu, percebeu que ele também a vira, pois olhava diretamente para ela. O nó em seu estômago apertou-se ainda mais. Só que esse nó, assim como as borboletas, não era de todo desagradável. De fato, devia tomar muito cuidado com Derek em se tratando de emoções.
— Bem — disse Miranda, num tom mais alto que o normal. — Como fadas e elfos têm um dom diferente, cada um deles faz uma curta apresentação — enrolou uma mecha de cabelo no dedo e deu um largo sorriso.
— Qual é o seu dom? — perguntou Della a Derek, enquanto espetava outro pedaço de calabresa da pizza e enfiando-o entre os lábios. Lábios que acabavam de beber sangue.
Uma longa pausa seguiu-se à pergunta. A postura de Derek enrijeceu.
— Quem disse que eu tenho dons? — pelo tom de voz, ele não gostava de ser questionado. Ou talvez fosse como Kylie e resistisse a aceitar que fosse sobrenatural.
— Uma das fadas, o ano passado, podia ler pensamentos — prosseguiu Miranda, sem dar atenção à atitude de Derek. — Você pode ler os meus agora? — mordeu o lábio e o fitou com um olhar de desafio.
Kylie virou-se de novo para Derek. Ele então lia a mente das pessoas? Não, talvez não, pois antes tinha perguntado o que ela era. Ou será que tinha perguntado só para puxar conversa? Lembrou-se dos seus pensamentos secretos a respeito do corpo dele, comparando-o ao de Trey. Mais essa! Seria muito embaraçoso se ele soubesse que ela o imaginara sem camisa. Então se deu conta de que estava imaginando aquilo outra vez. Kylie sentiu o rosto queimar e Derek, ainda fitando-a, não perdeu um detalhe sequer.
— Outra fada movia objetos só com a força da mente — continuou Miranda em tom mais alto, como que para atrair a atenção de Derek. — Mas, é claro, as bruxas também podem fazer isso.
— É mesmo? — Della parecia realmente impressionada. — Então faça isso agora. Mova o meu prato — e recostou-se, como que para dar mais espaço a Miranda.
Miranda, com a testa franzida, fuzilou Della com o olhar.
— Não posso. É contra as regras.
— Regras? Ah, danem-se as regras — bradou Della. — Ninguém vai ficar sabendo.
— Não posso — a face de Miranda ficou vermelha, quase tão vermelha quanto as mechas de seus cabelos. Kylie achou ótimo descobrir que não era a única a enrubescer por qualquer coisa.
— Por que não? — insistiu Della. — Só por causa de alguma regra idiota.
Miranda lançou a Della um olhar penetrante.
— Por que não vai se afogar em sangue? — e, mais vermelha ainda, virou-se para Derek, a quem obviamente queria impressionar.
— Ah, é? Vem enfiar uma estaca em mim! — zombou Della.
— É melhor tomar cuidado ou faço isso mesmo — revidou Miranda, com uma expressão que agora passava do embaraço para a raiva.
O olhar de Kylie ia de uma a outra enquanto elas trocavam ofensas. Que ótimo! Agora suas duas colegas de alojamento ameaçavam se matar.
— Fiquem frias vocês duas — aconselhou Derek, como se lesse a mente de Kylie.
— Já estou bem fria — disse Della, sempre olhando para Miranda. — Ela é que é esquentadinha. Mas é bom tomar cuidado porque um dia desses posso me esquentar também — levantou-se de um salto e, antes que Kylie pudesse perceber, já estava longe.
— Uau! — exclamou outra voz masculina.
Perry, o Garoto dos Olhos Esquisitos que tinha se transformado em unicórnio, estava em pé, ao lado de Derek. Kylie fitou seus olhos negros e sentiu o coração acelerar, em pânico.
— Ei — disse Perry a Miranda. — Adoraria assistir a vocês duas se atraindo e rasgando a roupa uma da outra!
— Só em seus sonhos — replicou Miranda.
— É isso ai — continuou Perry —, especialmente a parte em que rasgamos as roupas.
— Vê se cresce! — resmungou Miranda, recolhendo sua bandeja e a de Kylie para levá-las embora.
— Obrigada — agradeceu Kylie, ainda olhando de Derek para Perry, sem saber qual dos dois a deixava mais nervosa: Derek, que a fazia sentir coisas que não gostaria de sentir, ou Perry, que simplesmente a deixava aterrorizada. Seu celular tocou. Tirou-o da bolsa, torcendo para que não fosse o pai e sim Sara, com a notícia de que não estava grávida. Respirou aliviada ao ver o número de Sara na tela.
— Até mais — disse aos colegas. E, louca para sumir dali, saiu em busca de um lugar onde pudesse conversar tranquilamente com a amiga. Mas quantos quilômetros teria que se afastar para ficar fora do alcance da superaudição dos sobrenaturais?

3 comentários:

  1. Acho que estou apaixonada pelo Derek.... e ao mesmo tempo um pouco desconfiada dele usahuahsu

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  2. Kylie é muito jovem, acho que ela pode ser a mais jovem do acampamento, será?

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  3. Adorei a Della! Ela e o metamorfo que esqueci o nome ficariam legal juntos!
    Meeeu Deus! Eu não posso ficar me iludindo!

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