30 de setembro de 2016

Capítulo 10

— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou.
A figura alta e masculina continuou se aproximando de Kylie e ela recuou um pouco. Estava mais surpresa do que assustada. E talvez ainda mais impressionada com tudo o que sentia. A atmosfera de reverência era ainda mais intensa ali.
— Provavelmente a mesma coisa que você — Burnett respondeu.
— Curiosidade.
Não era por isso que ela estava ali. Ela viera buscar ajuda, mas não o corrigiu – e não porque não confiasse nele. Ela encontrou seu olhar. Na realidade, ainda se sentia um pouco intimidada por ele, mas seu respeito agora era maior, como acontecia com a maioria das pessoas do acampamento. Ela o respeitava a ponto de desejar que Holiday revisse sua ojeriza por vampiros quando se tratava da sua vida amorosa. Os dois formariam um belo casal. O lado sombrio dele e o lado luminoso dela. A seriedade dele e o jeito espirituoso dela.
Ela sentiu que ele a observava e percebeu que esperava uma resposta.
Mas ela tinha suas próprias perguntas. Respirou fundo.
— Curiosidade com relação a quê? — ela perguntou.
— À coisa toda dos fantasmas. À lenda. — Ele enfiou as mãos nos bolsos do jeans e olhou em volta.
— É estranho... — comentou Kylie.
— O que é estranho? — Ele se virou e olhou a caverna como se verificasse se o lugar era seguro. Por mais estranho que fosse, Kylie não estava preocupada consigo mesma. O sentimento de bem-estar que enchia o seu peito a convencia de que não era preciso se preocupar. Ela estava a salvo ali.
— Você? Curioso pra saber dos fantasmas? Pensei... quer dizer... a maioria dos sobrenaturais prefere não saber nada a respeito.
— É verdade, mas Holiday é tão obcecada por eles... então pensei... — As palavras lhe faltaram.
— Que entender um pouco mais sobre fantasmas o ajudasse a entendê-la — Kylie perguntou, quase certa de que tinha feito a interpretação correta. Mais uma vez, ela sentiu que Burnett realmente gostava de Holiday.
Ele assentiu com a cabeça, como se admitir em voz alta pudesse ferir seu orgulho masculino.
— Pessoalmente, acho que ela fala tanto disso só pra me assustar.
— Provavelmente esperando assustá-lo para que você se afaste dela — Kylie mordeu o lábio quando percebeu que tinha dito aquilo em voz alta.
Burnett olhou para Kylie.
— Por isso também. — Ele fez uma pausa de alguns segundos e depois perguntou: — Você não estaria disposta a me explicar por que ela continua fazendo isso, estaria? — Aparentemente ele tinha mandado às favas o seu orgulho masculino.
Ok, agora Kylie iria descer as corredeiras, sem remos e com um buraco na canoa. Falar a Burnett sobre o passado de Holiday parecia quase uma traição.
— Eu... humm... eu...
Ele ergueu a mão.
— Não diga nada. Já entendi. — Arrastando os pés, ele olhou em volta novamente e depois voltou a se concentrar nela. — Então você é como Holiday, hein? Sente espíritos e consegue vê-los?
Kylie concordou com a cabeça.
— Você está sentindo os anjos da morte?
Ela começou a negar que sentia uma forte presença ou presenças, mas em consideração a todo o clima de reverência do ambiente, que mais parecia uma igreja, preferiu não mentir.
— Eu sinto algo. Não sei exatamente como descrever. É como se...
— Sério? — ele perguntou.
— Sério. — Ela olhou em volta e se perguntou se aquilo que sentia, o que quer que fosse, lhe daria as respostas de que precisava. — Você sente alguma coisa?
— Se sentisse, não estaria aqui — ele disse, em tom de gozação, mas Kylie podia jurar que havia uma ponta de nervosismo em sua voz. — Segundo a lenda, eles não vêm aqui ao amanhecer? — Ele correu os dedos pelos cabelos escuros, que pareciam ainda mais escuros do que de costume. Seu olhar se voltou novamente para a cachoeira e ela percebeu que seu cabelo estava molhado. Sentiu, então, seu próprio cabelo pingando sobre os ombros e jogou-o para a frente e para trás, sobre as costas.
Ele se aproximou de uma grande laje de pedra. Seus ombros e braços musculosos pareciam quase tão rijos quanto as paredes da gruta. Mais uma vez, Kylie não pôde deixar de admirar o quanto ele era atraente. Não que fizesse a pele dela arrepiar como Derek, mas ela apreciava suas formas bem esculpidas. Holiday de fato devia se deixar apaixonar por esse vampiro.
— Dizem que é possível vê-los nos paredões, dançando ao amanhecer. Mas isso não significa que não estejam aqui em outras ocasiões. — Kylie respondeu com sinceridade, esperando estar certa. Esperando que a presença que ela sentia ali fosse real e pudesse lhe dar respostas.
Ele assentiu e olhou em volta outra vez.
— Por que esse lugar não parecia tão assustador até você aparecer?
Kylie riu.
— Deve ser a minha personalidade magnética.
Ele sorriu.
— Provavelmente. Você e Holiday. — Só o jeito como ele pronunciou o nome de Holiday provocou em Kylie uma emoção profunda.
— Foi outro vampiro... — ela falou sem pensar. — Ele a fez sofrer muito.
Burnett pareceu confuso por um segundo, mas depois a compreensão revelou em seus olhos.
— Então ela tem preconceito contra todos os vampiros?
— Eu diria que ela tem um pé atrás com eles. E não com todos os vampiros. Ela não parece ter problema com nenhum vampiro além de você.
Ele inclinou a cabeça e olhou para Kylie.
— Você diz isso como se fosse uma coisa boa.
— Pode ser — ela disse. — Deve haver uma razão que leve você a despertar o pior em Holiday tão depressa.
Ele pareceu refletir sobre a analogia.
— Entendo o que quer dizer. — Seu olhar vagou pela cortina d’água outra vez. — Por que não voltamos juntos para o acampamento? Quero ter certeza...
— Na verdade, eu queria ficar aqui mais alguns minutos. Sozinha — ela disse, antes que ele se oferecesse para ficar com ela.
Ele apertou os lábios:
— Não acho que deva ficar sozinha na floresta. Não depois do que aconteceu naquela noite.
— Não estou sozinha. Della e Miranda estão lá fora, esperando por mim.
Ela pensou que ele fosse fazer algum comentário machista, como dizer que ela devia ter trazido um rapaz com ela. Mas, em vez disso, disse:
— Ok. Ótimo.
É. Ótimo, Kylie pensou. Della surtaria se soubesse que ele a considerava menos capaz do que alguém do sexo oposto.
Burnett inclinou a cabeça como se ouvisse alguma coisa.
— Isso é estranho. Eu não consigo ouvi-las. Nem farejá-las. — Franziu a testa. — E só ouvi você chegar quando falou. — Ele olhou em volta mais uma vez. — Talvez este lugar seja mesmo assombrado. — Um sorriso se abriu em seus lábios. — E, falando nisso, acho que vou voltar para o acampamento. — Ele deu dois passos e depois se virou. — Não demore muito. E fiquem sempre juntas.
— Tudo bem — ela disse.
Ele assentiu e mais uma vez inclinou a cabeça e a observou.
— Está tudo bem com você? O seu coração... está batendo bem rápido.
Ela bateu o tênis molhado na pedra.
— Della disse a mesma coisa. Acho que está tudo bem — Kylie disse, sem querer contar sobre o crescimento natural mas definitivamente não humano dos seus seios.
Ele a estudou por mais alguns minutos e Kylie teve a estranha sensação de que ele notou muito mais do que seu coração acelerado, mas foi cauteloso para não deixá-la pouco à vontade. Ela apreciou a atitude dele.
Ele começou a sair da caverna e então se voltou para ela.
— Obrigado por...
— De nada — ela respondeu, sem esperar para ouvir ou pensar em como Holiday ficaria furiosa quando descobrisse que tinha contado a Burnett sobre o seu passado, por menor que fosse a informação. E Holiday descobriria, pois Kylie tinha a intenção de contar a ela. Manter aquilo em segredo faria com que parecesse ainda mais errado. E, no momento, ali naquele lugar especialmente, ela não queria aumentar sua cota de pecados.
Cinco minutos depois da partida de Burnett, Kylie ainda estava parada no mesmo lugar.
— Tem um fantasma dizendo que alguém que eu amo vai morrer. Ele espera que eu salve essa pessoa, mas não está me dando nenhuma informação que me ajude a descobrir quem é. Estou ficando apavorada. Realmente apavorada.
E deveria me sentir uma completa idiota falando sozinha. No entanto, ela não sentia. Embora não pudesse ver ninguém ali, ela sentia que estavam ali.
— Será que vocês não podiam, tipo, me ajudar com isso? — Ela esperou. Ouviu com os ouvidos. Ouviu com o coração.
Não ouviu nenhuma resposta, nem na mente, nem nos ouvidos, nem no coração. A menos que considerasse a sensação de calma e confiança que deixou seu peito mais leve, a impressão de que seu problema não era tão urgente e a certeza de que tinha capacidade de lidar com tudo aquilo.
Seria essa a resposta? A certeza de que tudo terminaria bem? Ou isso seria como o toque de Holiday e Derek – um mero paliativo para o tumulto emocional em que ela vivia? A dúvida dissipou a calma que sentia.
Ela se sentou de qualquer jeito no chão irregular, uma mistura de pedra e terra úmida, e descansou as palmas atrás do corpo para servir de apoio. Jogando a cabeça para trás, sentiu o cabelo molhado balançar um pouco e fazer cócegas nas suas costas através do pijama. Ele quase batia na cintura. Mais longo do que nunca antes. Sentando-se novamente, ela estendeu o braço nas costas para alcançar aponta do cabelo. Seu cabelo, como os seios, também devia ter passado por um surto de crescimento. O que tudo aquilo significava?
Tentando usufruir a suave emoção que aquele lugar provocava nela, Kylie olhou a cortina de água a poucos metros e sentiu as gotículas molhando sua pele. Não se preocupe, querida. Vai ficar tudo bem. Um passo de cada vez. Ela ouviu as palavras da avó ecoando na sua cabeça.
— Você está aqui, vovó? Ou eu estou só me lembrando? — perguntou Kylie em voz alta.
A ausência do frio a fez perceber que estava sozinha. Uma minúscula parte dela queria se rebelar, exigir uma resposta, não só para o problema do fantasma, mas para todos os seus problemas. Justo quando ela estava prestes a abrir a boca, um fio de sabedoria pareceu se infiltrar em meio à frustração. “Isso”, independentemente do que fosse, estava tornando a cachoeira especial e não estava aberto a exigências ou rebeliões. Além da calma, Kylie sentiu um poder.
Não um poder maléfico, mas firme.
Não indiferente, mas inexorável.
Inexorável a ponto de atear fogo numa garota e marcá-la para sempre? Kylie não sabia essa resposta e, para proteger a própria sanidade, ela achava melhor nem saber.
Então, percebendo que provavelmente estava levando Della e Miranda ao limite da paciência, ela se levantou. Quando fez isso, sentiu o envelope dobrado no bolso. A carta de Lucas. Outra coisa com que teria de lidar em breve. E, embora nenhum dos seus problemas tivesse mudado, ela de algum modo se sentiu mais confiante para lidar com eles. E talvez, pensou, aquela fosse toda a ajuda que iria conseguir.


Sua mente ficou entorpecida a manhã toda. Se por causa da falta de sono ou do surto de crescimento, Kylie não sabia. Ela largou a bandeja do almoço ao lado da de Della e deu uma olhada rápida no refeitório à procura de Derek.
O grupo com quem ele ficava pela manhã muitas vezes saía para fazer caminhadas e não aparecia para o almoço. Enquanto percorria com os olhos o outro lado do refeitório, ela percebeu o quanto queria vê-lo.
E o quanto queria não vê-lo.
Deus, ela era doente! Se nem ela própria conseguia lidar direito com suas emoções instáveis, não queria nem imaginar como Derek estaria se sentindo! Ele provavelmente pensava que ela tinha um parafuso a menos. E tinha certa razão, não tinha?
Sem dúvida, a calma e a confiança que tinha ganhado com o passeio matinal à cachoeira estavam começando a se desvanecer. Como não viu Derek em lugar nenhum, desabou na cadeira e se concentrou em Della, sentada ali bebendo seu sangue sem muita animação. Então Kylie notou o lugar vazio ao lado dela.
— Onde está Miranda? — Kylie perguntou.
— Sei lá — murmurou Della, girando o copo na mão.
Kylie tentou não olhar para o sangue com medo de se lembrar do quanto tinha apreciado seu sabor. Em vez disso, pegou seu sanduíche de presunto e deu uma grande mordida.
— Está tudo bem? — disse Kylie, mastigando o pão enquanto falava.
— Está. Só estou pensando na vida.
— Pensando que vai para casa daqui a três semanas?
— Na verdade, não, mas agora que você me lembrou posso acrescentar isso também à minha lista de preocupações, obrigada. — O sarcasmo era evidente na voz dela.
— Desculpe. — Kylie olhou seu sanduíche com desinteresse. — Então por que está preocupada?
— Nada especial.
— Tuuuudo bem... — respondeu Kylie, deixando Della perceber que não estava apreciando muito o seu mau humor. Entendia toda aquela pose de mau dos vampiros, mas de vez em quando...
— Foi mal — desculpou-se Della. — É que aquela conversa toda sobre anjos da morte esta manhã me deixou preocupada com... algumas coisas.
— Está se referindo à época em que se transformou e não se lembra dos detalhes?
— É. — Della pareceu aliviada ao ver que Kylie se lembrava e olhou para amiga como se buscasse ajuda. — E se eu fiz algo realmente terrível?
Terrível em que sentido?, Kylie quase perguntou. Será que Della estava preocupada com a possibilidade de ter machucado alguém? Então ela se lembrou de quem estava falando.
— Em primeiro lugar, não acho que você faria algo realmente terrível. Quer dizer, só o fato de você estar preocupada com a possibilidade de ter feito algo terrível já é sinal de que você não é má pessoa.
Della não parecia convencida.
— Mas quando a gente se transforma, é tudo tão sem noção!
— Mas você não é sem noção — retrucou Kylie. — Você é uma pessoa boa.
Della assentiu e deu a impressão de que ia dizer alguma coisa, mas então seu olhar se perdeu ao longe. Kylie começou a suspeitar de que Della tinha mais preocupações do que supunha. Será que se lembrava de muito mais do que estava contando? Fosse o que fosse, Kylie gostaria de saber como ajudar.
— Eu queria saber por onde anda Miranda — disse Della numa tentativa óbvia de mudar de assunto. — Meu Deus, espero que ela não tenha voltado a choramingar pelo garoto prodígio...
— Ela parecia bem, hoje de manhã. — Kylie olhou para a mesa onde a maioria das bruxas se reunia no almoço para ver se Miranda não estava almoçando com elas. Não estava.
Embora o acampamento se propusesse a promover o relacionamento entre as espécies, e de fato fazia isso, exceto por alguns poucos casais de espécies diferentes e alguns colegas de alojamento, a impressão que se tinha era que, na hora das refeições, as pessoas procuravam seus iguais. Helen e Jonathon revezavam-se, sentando-se um dia com vampiros e o outro com fadas. Até recentemente, Perry muitas vezes almoçava com Miranda na mesa delas. E, algumas semanas atrás, Derek sentava-se com Kylie nas refeições.
Pelo menos uma vez por semana, e nunca nos mesmos dias, até Della e Miranda se sentavam com os membros da sua espécie. Kylie dizia a elas que não tinham que lhe fazer companhia na hora das refeições. Ela entenderia se quisessem se sentar com os amigos da mesma espécie. Mas elas não lhe davam ouvidos.
Se era por lealdade ou porque se sentiam mal por ela, Kylie não sabia. Mas, lá no fundo, apreciava a atitude das amigas. Quem iria querer almoçar sozinha? Isso a faria se lembrar demais da sua antiga escola, quando Sara ficava doente ou faltava na aula.
Pensando em Sara, Kylie pegou o telefone e verificou se a melhor amiga tinha deixado alguma mensagem. Fazia quase uma semana que Kylie tinha enviado várias mensagens, perguntando como iam as coisas e contando que estaria em casa dali a três semanas, para passar o final de semana. Estava chateada por Sara não ter tentado retornar o contato. Será que isso significa que a amiga não queria vê-la?
Claro, Kylie seria a primeira a admitir que elas já não pareciam ter tanto em comum – o fato de Kylie não ser humana ocupava o primeiro lugar da lista – mas ela era a melhor amiga de Sara há dez anos. Isso não fazia com que merecesse algumas horas da sua companhia no fim de semana, pelo menos fingindo que ainda se importava com Kylie?
O telefone de Kylie tocou. Achando que seria muito estranho, até mesmo questão de telepatia, caso fosse Sara, ela esperou que o número aparecesse na tela. Não era Sara. Ela fechou o telefone e se sentou à mesa.
— Não me diga: é Trey ou seu padrasto — tentou adivinhar Della.
— Dois pontos por ter acertado — respondeu Kylie, engolindo o sanduíche.
— Qual dos dois?
— Meu pai, quer dizer, padrasto.
Mesmo depois de ter conhecido Daniel e aprendido a amá-lo, ela às vezes se esquecia de que Tom Galen não era seu verdadeiro pai. Kylie enterrou os dentes no pão de fôrma macio, mas não sentiu gosto nenhum.
— Ele ainda está traçando a secretária?
— Sei lá. Não me importo — disse Kylie, engolindo um pedaço de sanduíche.
— Mentirosa — rebateu Della.
— Tudo bem, e se eu disser que... não sei, acho que queria muito não me importar?
— Agora está falando a verdade. — Della estudou a expressão de Kylie e passou seu copo de sangue embaixo do nariz da amiga. — Quer um golinho?
Kylie fez cara feia e afastou o copo para longe.
— Não.
— Está mentindo de novo — disse Della, arqueando uma sobrancelha.
— Tudo bem — respondeu Kylie, com rispidez, e mesmo aos seus ouvidos seu tom de voz pareceu tão mal-humorado quanto o de Della antes. — Eu quero, mas não quero. E não fique aí pensando que é porque acho que tem algo errado com os vampiros. Não tenho nada contra. É só que eu... estou um pouco cansada de tentar descobrir o que eu sou.
— Acredite ou não, eu entendo. — Della continuou estudando a amiga. — Sabe, o seu coração ainda está batendo mais rápido do que o normal.
— Eu sei. — Kylie puxou os cabelos para a frente — E olhe. Meu cabelo cresceu também. — Ela suspirou quando se lembrou de que só tinha um sutiã que ainda lhe servia, agora que seus seios estavam maiores.
— Caramba! — Della estendeu o braço e tocou o cabelo de Kylie. — Já falou com Holiday sobre tudo isso? — Ela olhou de relance para os seios da amiga novamente. — Não quero assustar você nem nada, mas isso é meio estranho.
Ah, mas que ótimo! Justo quando ela começava a se convencer de que aquilo não era nada de mais, Della dizia o contrário. Kylie deu um longo suspiro.
— Não, não disse nada ainda. Tenho uma reunião com ela às duas horas.
— Você não parece muito feliz com isso...
— E não estou mesmo.
Della parecia chocada.
— O que aconteceu? Você vive elogiando Holiday. Está chateada com ela?
— Não. Mas ela vai ficar chateada comigo.
— Por quê? Por ter ido à cachoeira?
— Não. Não acho que vá ficar aborrecida porque fui até lá. — Pelo menos Kylie achava que não. — É o que eu fiz enquanto estava lá que ela não vai gostar.
— O que você fez? — Della pareceu confusa enquanto bebericava seu sangue.
— Eu contei a Burnett que Holiday sofreu uma decepção amorosa com outro vampiro.
— Sério? O que aconteceu?
— Ele me perguntou sobre ela e então...
— Não, estou me referindo ao outro vampiro.
— Eu... não sei muito bem. — Kylie percebeu que não devia ter dito nada a Della também.
— Tudo bem, mas qual o problema de dizer isso a Burnett?
Kylie revirou os olhos.
— Não cabia a mim falar. Ou a você. Por isso não diga nada.
— Meus lábios estão selados. — Della estendeu a mão para o prato de Kylie e roubou uma batatinha frita. — Você sabe por que disse isso a ele, não sabe? — Della ficou olhando a batata, que segurava com a ponta dos dedos.
— Porque sou uma idiota — Kylie respondeu.
— Não. Porque está muito claro pra você e pra todo mundo aqui que aqueles dois precisam bater o martelo. — Ela atirou uma batata na boca e fez uma careta. — Eu costumava adorar batata frita e agora... Credo! Tem gosto de sola de sapato.
Kylie ignorou completamente o comentário sobre a batata frita/sola de sapato enquanto tentava entender.
— Precisam o quê?
— Bater o martelo, trocar o óleo, queimar um pouco daqueles hormônios que eles exalam quando estão juntos no mesmo ambiente.
— Bater o martelo? — Kylie ainda não tinha entendido muito bem.
Della deu uma risadinha.
— Ouvi uma comediante falando isso. Ela estava fazendo uma lista de todas as expressões usadas para falar de sexo. Engraçado, né?
— Talvez — Kylie disse, mas não tinha muita certeza. Seu senso de humor tinha tirado um dia de folga, assim como o seu apetite. Ela olhou para o sanduíche mordido. Será que perder o apetite era um sinal? Será que um dia ela ia achar que batata frita tinha gosto de sola de sapato?
— É só falar dos diabinhos que eles aparecem...
Kylie olhou para cima. Holiday e Burnett entravam no refeitório. Ela ia na frente, e ele a observava, atrás. Por um segundo, Kylie teve medo de que Burnett tivesse contado a Holiday sobre o que ela dissera. Imaginou a amiga, furiosa e magoada, lhe passando um sermão, e seu peito se apertou. Ai, meu Deus, por que ela tinha dito aquilo a Burnett? Tinha sido um erro. Um grande erro.
Então Holiday olhou para Kylie – não havia raiva ou mágoa nos olhos verdes da moça, apenas um pouco de preocupação. Provavelmente ela ainda estava preocupada com Kylie e com o modo como ela saíra do escritório naquela manhã. Holiday pronunciou só com os lábios as palavras “duas horas” e apontou o relógio.
Kylie concordou com a cabeça.
Holiday sorriu e então foi para a frente do refeitório e pegou uma bandeja. Burnett continuava atrás dela, com o olhar seguindo cada movimento da moça, como se tentasse memorizar cada centímetro do seu corpo.
— Espere um minuto — disse Kylie. — Se os vampiros podem sentir o cheiro de hormônios, como Burnett parece não saber que Holiday se sente atraída por ele? Quer dizer, quando eu disse que Holiday talvez sentisse algo mais por ele, e não só irritação, ele pareceu totalmente surpreso.
— Muito simples. Não conseguimos sentir o cheiro dos nossos próprios hormônios e, na maioria das vezes, nem dos hormônios da pessoa por quem nos sentimos atraídos. Nunca senti o cheiro dos hormônios do meu namorado. — Um sorriso triste tocou seus lábios, como se uma lembrança tivesse lhe ocorrido. — E eu sei que Lee gostava de ficar comigo.
Kylie percebeu que Della ainda gostava de Lee, mas também tinha a impressão de que a amiga não admitia isso, nem queria falar a respeito.
— É esquisito o jeito como isso funciona — comentou Kylie.
— É. Quando estamos atraídos por alguém, é como se a emoção disparasse o sensor dos nossos hormônios. Mas, se não sentimos nada pela outra pessoa e ela se sente excitada quando está perto de nós, só sentimos um fedor.
Kylie refletiu sobre aquela informação por alguns segundos e então disse:
— Mas, então, como Derek consegue dizer quando estou pensando em... — Kylie não tinha certeza se iria conseguir dizer em voz alta, mas a curiosidade a obrigou a continuar. — Então ele não se sente atraído por mim?
— Não é nada disso — disse Della, rindo. — Ele não é um vampiro. Não está sentindo cheiro de nada. Está lendo emoções. É totalmente diferente.
— Ah — Kylie olhou para o seu prato e se forçou a comer uma batata frita, enquanto a sua mente continuava a dar voltas. Depois de engolir, ela se forçou a fazer a pergunta, numa voz muito baixa, é claro.
— Derek e eu... exalamos muitos hormônios quando estamos juntos? Quer dizer, a atração é tão explícita que chega a ser embaraçosa?
Os olhos de Della se arregalaram, mas ela não respondeu. Isso não era típico da amiga. Ela nunca hesitava em responder qualquer pergunta.
— Ai, Deus, é tão ruim assim? — Kylie perguntou.
Della olhou para cima. Kylie estava prestes a descobrir o que aquele olhar significava quando sentiu um hálito morno sussurrado em seu pescoço:
— O que é tão ruim assim? — Derek perguntou.

3 comentários:

  1. mijei de rir 😂😂👌

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  2. mds chegou na hora "H" desculpe Derek mais eu sou tean Lucas 😘 cadê esse lobo que num volta logo
    Ass: Mary Parker

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